Confesso que nada sabia sobre os
conceitos da filosofia estoica. Exceção ao “ouvir dizer” que estoicos são
aqueles que se bastam, que não atribuem os infortúnios da vida a qualquer entidade
fora de si mesmos. Exceção a saber que Epiteto e Marco Aurélio foram dois de
seus expoentes. Minha identificação como estoico, portanto, era superficial,
frágil.
Graças a um desses “encontros” proporcionados
pelos fluxos de Eventos/Instantes[1],
assisti, muito recentemente, a um filme americano cujo personagem principal é
um professor que tem por hábito presentear aniversariantes com uma edição de “Meditations”, obra de autoria do Imperador Marco Aurélio,
escrita, portanto, há quase dois mil anos. Graças a Eventos/Instantes passados
que me trouxeram informações sobre os interesses de meu neto Diogo, lhe sugeri
a leitura da edição em língua inglesa[2],
ao que ele respondeu com um “Já li” e que até o consultava como uma das fontes
para suas reflexões. Como temos trocado ideias e percepções sobre a vida, encomendei
a edição em português que veio
acompanhada de duas outras: “A Arte de Viver”, de Epiteto, e de “Sobre a brevidade
da vida”, de Sêneca, outro estoico que viveu no século I DEC.
Comecei por Marco Aurélio (121-180
DEC) que registrou suas ideias no período em que governou o Império Romano
entre 161 e 180 (em co-regência com
Lúcio Vero, de 161 a 169; sozinho, de 170 a 177; e com Cômodo, seu filho, de 177
a 180, quando de sua morte.
Me chamou a atenção a aceitação em
dividir o poder. Com Vero, foi a primeira vez que dois imperadores dividiram o
poder absoluto em Roma, e desconheço as razões para tal arranjo, mas a segunda foi
por escolha sua, obviamente garantindo que a hereditariedade do poder não
viesse a ser questionada.
O Imperador não “dava ponto sem
nó”. Seus escritos, inspirados em Sêneca e Epicteto, são um pacote de regras morais
para garantir a governabilidade de um Império que se estendia da Europa à Ásia.
Como técnicas de domínio, fez uso da divulgação de códigos éticos por ele
elaborados, e pelas ideias nascentes do cristianismo, em especial a ideia de o
amor ao próximo e o bem à coletividade serem as fontes da felicidade. Listo
algumas passagens que avalizam minha percepção:
·
“A finalidade dos seres racionais é obedecer a
razão e a lei da cidade e sua Constituição mais venerável.”
·
“Que o Deus que está em você proteja um ser
viril, venerável, um cidadão, um Romano, um chefe, um homem que disciplinou a
si próprio, que está pronto como um soldado atento ao toque da marcha a sair da
vida e cuja palavra dispensa Juramento e fiadores.”
·
“Não é evidente que os inferiores existem para
se inspirarem nos superiores? Olha, mas as coisas que possuem vidas são
superiores às coisas inanimadas e entre os seres vivos, são superiores àqueles
que possuem a faculdade da razão.”
·
“Em um aspecto, o homem (sic) é o que há de mais
aparentado a nós [nós quem?], tanto que devemos desfazer bem e suportá-los.
Mas, na medida em que são obstáculos às ações que me são próprias, convertem-se
os homens em algo diferente para mim, não menos que o Sol, o vento ou a besta.”
·
“Abrace tudo o que lhe acontece, ainda que lhe
pareça penoso, porque conduz aquele objetivo, a saúde do mundo e ao progresso e
ao bem-estar de seus.”
·
“(...) concebi a ideia de uma Constituição baseada
na igualdade ante a lei, regida pela equidade e pela liberdade de expressão
igual para todos, e de uma realiza que honra e respeita, acima de tudo, a liberdade
de seus súditos [acrescento eu que desde que ajam de acordo com seus
ensinamentos].”
·
“A finalidade dos seres racionais é obedecer à razão
e à lei da cidade e sua constituição mais venerável.”
·
“Quem foge do seu senhor é um desertor. A lei e
nosso senhor, e quem a transgride é um desertor. “
·
Pense que só ao entre racional foi dado obedecer
voluntariamente, conquanto seja imperativo obedecer simplesmente.
·
“Considere também que não há grande diferença entre
morrer amanhã ou daqui a muitos anos.” [Conselho perfeito de um General para os
soldados que manda para o front!]
·
“Por culpa [de alguns homens] poderia ser criado
obstáculo para alguma das minhas atividades, mas graças ao meu instinto e à minha
disposição, não são obstáculos, devido à minha capacidade de seleção e de adaptação
às circunstâncias.”
·
“Tudo quanto eu fizer, quer por mim mesmo, quer
com a ajuda alheia, deve tender a um objetivo único; o que é útil e conveniente
a minha comunidade.”
·
“O dar, sem vacilo, a cada um segundo seu
mérito.”
·
“Afasta a sua sede de livros, para não morrer
amargurado, mas verdadeiramente resignado e grato de coração aos deuses.”
·
“Aprenda a reverenciar o que há de melhor no
universo, o que se serve de tudo, e comanda todas as coisas.” [Não mais os
deuses, mas Deus.]
·
“O único fruto da vida terrena é uma piedosa
disposição e atos uteis à comunidade.”
·
“Tudo quanto eu fizer, quer por mim mesmo, quer
com a ajuda alheia, deve tender a um objetivo único: o que é o último e
conveniente à minha comunidade?
·
“O que mais buscarei se minha presente ação é
própria de um ser inteligente, sociável e sujeito à mesma lei de Deus?
·
“O único fruto da vida terrena é uma piedosa
disposição e atos úteis à comunidade.”
·
“Grande é o homem que cuida de não fazer o que vai
contra a divindade e aceita tudo o que Deus lhe atribui. Isso é estar em
harmonia com a natureza.”
Evidentemente, manutenção do
poder político e honestidade intelectual não podem conviver na mesma sala sem
expor conflitos morais. “Meditações” é um balaio de incongruências e
contradições entre defender a natureza humana e a necessidade de que os
cidadãos se mantenham subservientes às leis dele, que, como visto acima, se
considerava um ser “superior”.
Tratemos de Epiteto (50-135 DEC), que foi contemporâneo de
Marco Aurélio por cerca de 14 anos[3].
Se me considerei um estoico, foi por reflexões
como estas:
·
“Eu, em Correntes? Você pode colocar grilhões em
meus pés, mas a minha vontade, nem mesmo o próprio Zeus pode dominar”.
·
“Seja persistente, as pessoas que o
ridicularizam agora, depois, o admirarão.”
·
“Quem afronta, insulta ou agride não é a pessoa,
mas sim a visão que temos desses atos como um insulto. (...) Fique certo de que
é a sua própria opinião que o provoca.”
·
“Se você assumir um papel que está além da sua
capacidade, você tanto se desonrará nele quanto deixará de lado um papel no
qual poderia ter sucesso.”
·
Os homens não se abalam com as coisas, mas com a
percepção que têm das coisas.
·
“A matéria da arte de viver é a vida de cada um.”
·
“Com certeza não é fácil manter sua vontade em
Harmonia com a sua natureza e manter as aparências ao mesmo tempo. Mas enquanto
você estiver absorto em um, você necessariamente irá negligenciar o outro.”
·
“Reprima completamente o desejo (sic), pois se
você deseja alguma das coisas que não estão em nosso poder, você
necessariamente ficará desapontado.” [Mas qual é o problema em se desapontar?
Não é parte da experiência de viver? Não é o reconhecimento de uma decisão
errada que é a essência do crescimento
intelectual e espiritual?
·
“Deve-se sempre estar alerta para quando o
capitão chamar (...) Se, em vez de uma trufa ou marisco, uma esposa ou um filho
for concedido a você, não há nenhum problema. Mas se o Capitão chamar, corra
para o navio. Deixe todas essas coisas e não olhe para trás.” O absurdo aqui se revela mais absurdo quando Epicteto
compara a perda de uma xícara que se quebra com a perda de um filho ou de uma
esposa. Encerra ele o relato da comparação:
·
“ Se qualquer um deles morrer, você poderá
suportar.” [!!!] Ele foi além da simples repressão ao desejo, ele aponta
para um visão de ausência absoluta de
compaixão, amor e empatia, uma frieza só compatível com um compromisso de servilidade
ao poder em vigência. Psicopatia pura. Mas não satisfeito, Epicteto arranja uma
justificativa digna de nossos “regressistas” contemporâneos, o ladrão que rouba
como preposto do desejo de outro:
·
“Através dele [do ladrão], aquele que a
deu a pediu de volta. [!!!! Não ria!]
Tal quadro mostra que toda a
filosofia, especialmente a tomada como “clássica”, ou “original”, ou “primeira”,
está impregnada, como tudo, de interesses pessoais circunstanciais.
E chegamos a Séneca (4 AEC a 65
DEC), que antecedeu a Epicteto e Marco Aurélio, mas chegou a ser parcialmente contemporâneo
dos dois.
Até aqui quase nada sei deste filósofo. O que exponho está no que publicou sob o título de "Sobre A Brevidade da Vida", onde, obviamente, fala sobre vida e morte. E foi conselheiro de Nero e, em princípio, toma por base "ideais estoicos clássicos de renúncia aos bens materiais em busca da tranquilidade da alma mediante o conhecimento e a contemplação".[4]
Foi contemporâneo de Jesus de Nazaré e teria trocado reflexões com Paulo (Saulo) levando este a incorporar ao cristianismo ideias do estoicismo.
Vejamos algumas proposições
(conselhos) de Séneca:
·
“A filosofia molda e constrói a alma e ordena a
nossa vida, orienta a nossa conduta, mostra-nos o que devemos fazer e o que
devemos deixar por fazer.”
·
“A vida do filósofo, portanto, tem um amplo
espectro e ele não está confinado pelos mesmos limites que os outros. Algum
tempo se passou? Ele o recupera pela memória. O tempo está presente? Ele o
usufrui. Ainda está por vir? Ele o antecipa. Ele torna sua vida longa,
combinando todos os tempos em um só.”
·
“O melhor remédio para a ira é o tempo. Implore
a sua raiva para que lhe dê tempo., não para que você perdoe a ofensa, mas para
que possa formar uma decisão correta sobre ela.”
·
“Por que preciso me preocupar com o que digo na
presença do meu amigo? Não deveria eu me considerar sozinho quando estou na
companhia dele?”
·
“Ele recorre a Sócrates para desvalorizar o Ser:
“Você é uma pequena alma que carrega consigo um cadáver.” [Ou seja, reduz a
natureza humana à existência de um nada.]
·
“Os ensinamentos estóicos (...) inspiram
esperanças de uma recuperação moral (...).” [A “verdade estoica” como panaceia
para uma vida morna.]
·
“De quem irão refrear as paixões? A quem
tornarão mais corajoso, mais justo, mais nobre?” [O que ele quis dizer? Que “verdades
estoicas” não servem para tal?
·
“Toda espera nos é penosa. No entanto, o momento
que desejamos é breve e rápido, tornando-se muito mais curto por nossa própria
culpa, pois fugimos de um prazer para outro, sem permanecer fixos em apenas um
desejo.”
·
“O que é se não inflamar nossos vícios, ter os
deuses como nossos patrocinadores e desculpar nossa própria fraqueza por meio
do exemplo da divindade?”
Bem, o Leitor tem a ideia
bastante com o que refletir. Para mim, o estoicismo como TODOS os ismos, cai
num baleio de interesses filosóficos personalíssimos a serviço das circunstâncias
da ocasião. E repare que passados 20 séculos, parece que são questões emergidas
no presente!
Para encerrar, vou apresentar
algumas citações divididas em ... categorias: observações extraídas da vida
prática – não são conselhos, são alertas -, citações estranhas ou hilárias, e
outras que são opiniões com as quais compartilho em alguma medida.
OBSERVAÇÕES DA PRÁTICA
·
“E como dizia Zenão: mesmo na mente do sábio,
uma cicatriz permanece depois que a ferida está completamente curada.”
·
“O maior obstáculo da vida é a expectativa, que
depende do amanhã e do desperdício do hoje. Você dispõe daquilo que não está
nas mãos, as circunstâncias, e deixa de lado o que está em suas mãos.”
·
“Todas as coisas que ainda estão por vir estão na
incerteza.”
·
“Certo homem é possuído por uma avareza
insaciável, outro por uma devoção laboriosa a tarefas inúteis; um é obcecado
pelo vinho; outro, paralisado pela preguiça; outro homem está exaurido. [E
assim é a vida, cada um vivendo-a do seu melhor jeito!]
·
Realizar
sua ambição depende da decisão de outros; (...)”.
·
“Novas preocupações tomam o lugar das antigas. A
Esperança realizada faz nascer nova esperança; a ambição, nova ambição.”
·
“Nunca faltarão razões para a ansiedade ter
nascido na prosperidade ou na miséria. A vida avança em uma sucessão de
envolvimentos.”
·
“Um povo faminto não escuta a razão, nem se
apazigua com a justiça, nem se inclina por qualquer súplica.”
CITAÇÕES ESTRANHAS
·
“Nenhum sucesso é alcançado por um homem que se
ocupa com muitas coisas (...) uma vez que a mente distraída por interesses
divididos não absorve nada profundamente, mas rejeita tudo o que lhe é imposto.”
[Ainda bem!]
·
“Não está em nosso poder escolher os pais que a
Fortuna nos deu, que eles foram dados aos homens por acaso. No entanto, podemos
ter um renascimento de acordo com nossa escolha. Há famílias do mais nobre
intelecto. Escolha aquela na qual deseja ser adotado.” [Pode haver conselho
mais prático e frio: abandone seus pais e busque outros mais “promissores”!]
·
“Vergonhoso é aquele que, ao morrer, arranca um
sorriso do herdeiro a quem muito tempo fez esperar.” [Há, há, há!]
·
“Deus está perto de você, ele está com você, ele
está dentro de você.” [Mas por que você precisa ficar me dizendo como devo ser?]
OPINIÕES COMPARTILHADAS
·
“Se desejamos saber o quão breve sua vida é, que se reflita sobre quão curta é a parte que nos toca.”
·
“Todos os intelectos brilhantes de todos os
tempos nunca deixaram de se espantar com a densa escuridão da mente humana. Os
homens não permitem que ninguém se apodere de suas propriedades e correm a
pegar em pedras e armas se houver a menor disputa sobre os limites de suas
terras, mas permitem que outros invadam suas vidas - na verdade, eles próprios
convidam os invasores.”
·
“Todos apressam a vida e sofrem com a ânsia do
futuro e o tédio do presente.”