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quinta-feira, abril 21, 2022

O MUNDO EM QUE VIVEMOS

[1]

“A impressão que se tem, pelos fatos ocorridos em público até agora, é que o STF dará, sim, um golpe de Estado para impedir um segundo mandato de Bolsonaro — caso chegue à conclusão que pode dar esse golpe, ou seja, se tiver certeza de que todo mundo vai baixar a cabeça se os ministros virarem a mesa.”

 J. R. Guzzo, em “Estão Querendo Virar a Mesa”, revista Oeste de 15/4/22


Há quase um ano, as pessoas mais próximas a mim, me ouvem dizer que não chegaremos às eleições deste ano percorrendo um caminho normal. Guzzo, no artigo citado, fazendo um paralelo entre os desejos dos perdedores de 2018 quanto a Bolsonaro e o que se propagava quanto à candidatura de Getúlio a Presidente em 1950, lembra a fala de Carlos Lacerda: “Não pode ser candidato. Se for candidato, não pode ser eleito. Se for eleito, não pode tomar posse. Se tomar posse, não pode governar”. Este é o retrato de nossa fragilíssima “democracia”.

De minha parte, em relação a Bolsonaro nestes pouco mais de 3 anos, dá para fazer uma inversão, pois impedido de governar ele já o foi desde o primeiro dia. Se alguém imagina impedi-lo de tomar posse se eleito, não está em juízo perfeito, não tem o menor compromisso com as consequências para o país, é o mínimo a se dizer. Candidato ele o será se nada lhe obstar. Portanto, só restam a seus oponentes duas alternativas: não deixar que seja candidato ou fraudar a contagem dos votos se as pesquisas prognosticarem sua vitória.

Qual o nível de certeza que tenho sobre esta “previsão”? Cem por cento! Justifico.

Desde a primeira atitude de Alexandre de Moraes[2] contra a Constituição Brasileira, eu me pergunto: o que motiva um juiz da Suprema Corte a agir contra a Nação sem qualquer receio de ter suas decisões revidadas, invalidadas, ou minimamente questionadas por instituições que se proclamam defensores da Lei? Uma primeira resposta é atribuir a alguma pressão externa não revelada. Através de ameaças à sua vida e/ou de seus familiares[3] (algo do tipo faça o que estamos lhe mandando ou...!), tal ação teria sequestrado a capacidade de agir e de julgar do referido Ministro. Para quem desconsiderar tal hipótese faço uma proposição. Tente se imaginar estando em uma posição de poder qualquer (não precisa ser no âmbito de funções da justiça) e se pergunte: que razões o fariam agir contra suas convicções morais e contra seus mais caros valores? Que forte razão seria esta que lhe faria capaz de enfrentar o desprezo provável de sua esposa/marido, seus filhos, seus amigos sem entrar em profunda vergonha? Se não viu, veja os vídeos que mostram as opiniões de Moraes no passado e no presente sobre liberdade de expressão. Tem alguma coisa muito estranha na transição de um momento para outro! Será só desvio de caráter? Oportunismo? É só uma pergunta.


Ok, vamos ignorar isso e buscar outra fonte de razões e para tanto vou recorrer a Geraldo Alckmin, o “Picolé de Chuchu” transmutado em “Pimentão Murcho Vermelho de Vergonha”. O que você acha que sustenta o novo “Geraldo Alquimista Amoral”? Você consegue imaginar o que o faz se tornar um “Lambe-9Fingers”, jogar no esgoto suas relações mais preciosas, sua carreira política, mesmo que ela tenha sido pautada por atos escusos, não republicanos, corrupção etc.? Eu não consigo. Tem algo muito, muito forte, eu diria até dramático, por trás do que ele optou por se tornar. Veja os dois vídeos de ex-Alckmim, o "antes" e o "depois", caso precise refrescar a memória. 

 

Prosseguindo. Vamos dar uma olhada na parcela silenciosa dos perdedores. O que estará fundamentando o silêncio em relação às arbitrariedades do STF, instituições  como OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), ABI (Associação Brasileira de Imprensa, a própria imprensa em sua quase totalidade, a silenciosa covardia subserviente da câmara dos deputados e do Senado, e muitas outras instituições? O que respalda rotular como fascista e antidemocrático um Presidente que fala e age vigorosamente em defesa das liberdades individuais e do total respeito à Constituição sem que tenha tomado qualquer atitude autoritária, mas tendo adversários que agem diuturnamente para o cerceamento das liberdades e aplaudem as arbitrariedades do STF, em público ataque aos princípios mais básicos da democracia? Quem são os que nos acusam do que eles fazem?[4]

Hoje tenho a convicção de que a tecnologia digitrônica capacitou cada cidadão do planeta Terra - independente de classe social, de nacionalidade e de nível de instrução - a expressar suas opiniões e formar imensos grupos em defesa de desejos e necessidades comuns, corrompendo de forma inesperada, rápida e drástica, a estrutura do modelo democrático e hipócrita sob o qual vivemos a partir da revolução industrial. O modelo “elite e povo” até então era explícito, claro: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. A formulação “todo poder emana do povo e por ele será exercido” é a primeira e máxima hipócrita das constituições. Não só da nossa. Ninguém há de imaginar que lá constasse algo como “todo poder emana das elites e em seu nome será exercido para exploração e submissão do povo”. Mas esta é a incômoda realidade. O problema é quando o tal “povo” pode se manifestar com razoável força e, portanto, pode mandar. Mas quem deverá obedecer? Obviamente deveriam ser os mandatários do povo eleitos pelo voto. Eis a incômoda questão fundamental. Estamos, portanto, inseridos em um movimento de corrupção dos valores da civilização ocidental com uma força de destruição que nunca foi possível em nossa história.

A mão do leviatã estatal está queimando e o cheiro de carne tostada impregna os cérebros dos detentores do phoder. A dissonância cognitiva[5] nas mentes oligarcas, provocou uma ruptura de tal magnitude que os conceitos mais elementares têm seus significados invertidos. Quem fala em garantir a liberdade, manda prender quem o critica. Quem defende a democracia, ataca-a com decisões antidemocráticas. Quem fala em direitos individuais, agride, até fisicamente, quem dele discorda. Quem deveria se limitar a falar nos autos, discursa publicamente e no até no exterior, se proclamando do bem e agindo contra os do mal, você. Quem defende o respeito às Leis e à Constituição, é acusado de autoritário e fascista. Comunistas são do bem, holodomor[6] e holocausto são fake news da extrema direita, e prometem, se eleitos, um mundo como Pasárgada, onde Manuel Bandeira imaginou ser “um refúgio de delícias”. Como nada é sem significado e intenção, tudo é em nome do desespero pela perda do monopólio da informação e da boa e fácil agora antiga forma de manipulação das massas através dos convenientes serviços dos veículos servis de imprensa tradicionais.

Não nos iludamos, nem sejamos esperançosos quanto aos acontecimentos políticos dos próximos 6 a 9 meses. Será uma escalada tal qual a erupção de um vulcão: ela só terminará quando a energia que a sustenta tiver sido totalmente consumida. Há como impedi-la sem trauma? Não. Resta-nos resistir, pois toda escalada tem seu ápice seguido do inevitável declínio quando tudo se desgasta e quando a realidade faz caírem as máscaras das narrativas falaciosas. Então terá chegado o momento para forças contrárias ganharem suas batalhas. Por falar em batalhas, podemos ver tal processo como uma guerra. Elas não terminam com a aniquilação total dos inimigos, elas terminam quando um dos lados levanta a bandeira branca em reconhecimento, não da força do inimigo, mas da fraqueza e desgaste de suas próprias forças frente à capacidade de resistência encontrada.

Assumindo a similaridade metafórica com uma guerra entre exércitos, um deles é formado pelos “vitimistas”, os vitimados pela perda das eleições de 2018. São todos os defenestrados do poder em consequência das decisões do Presidente tomadas em total observância às suas promessas de campanha. Identificá-los, portanto, é fácil. Para saber o que torna um “vitimista” raivoso que diz odiar Bolsonaro, basta identificar qual foi a teta que ele mamava e secou. De outro lado estão os “estoicos”, aqueles que em lugar de aceitar uma cota de “quentinhas” do socinista de plantão, preferem ir à luta, enfrentar as vicissitudes e ir atingir seus objetivos com seu próprio esforço e mérito.  Para identificá-los, basta descobrir sua fonte de renda, se é de um encosto em algum mecanismo (benesse) estatal ou se é da determinação e do trabalho.

Persistir em nossas convicções, ter a consciência de que respeitar e lutar pela admissão de que cada um de nós é único, que nossas diferenças têm que ser protegidas e garantidas, e que qualquer que seja a melhor solução política para o equilíbrio da vida em sociedade, a natureza humana tem que ser o sustentáculo para uma vida digna. Esta simples, mas decisiva postura é o passaporte para o ingresso neste exército de estoicos.

Abaixo, uma edição (o vídeo completo está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Pq-Hk32T7lE) feita por mim com recortes do vídeo, gravado no mesmo dia 20/abr/22, de Rodrigo Constantino tratando das mesmas questões deste artigo.

Eu não partilho da possibilidade que o jornalista J. R. Guzzo aventa de “que todo mundo vai baixar a cabeça” e dar salvo-conduto para um golpe dos perdedores. Mas isso só se eu e você nos mantivermos nas fileiras da resistência estoica. Só se ninguém reagir à condenação de Daniel Silveira feita hoje pelos 10[7] (Ameaçados? Raptados?) ministros do STF neste dia em que escrevo.

Fique esperto. Fique determinado. Erga sua voz. A servidão voluntária não é uma boa saída.

Encerrando deixo o depoimento do pastor luterano Martin Niemöller (1892–1984), na Alemanha nazista:

"Quando os nazistas vieram buscar os comunistas, eu fiquei em silêncio; eu não era comunista. Quando eles prenderam os socialdemocratas, eu fiquei em silêncio; eu não era um socialdemocrata. Quando eles vieram buscar os sindicalistas, eu não disse nada; eu não era um sindicalista. Quando eles buscaram os judeus, eu fiquei em silêncio; eu não era um judeu. Quando eles me vieram buscar, já não havia ninguém que pudesse protestar."

 



[1] Quando estava no 2º ginasial, um professor que me deixou boas lembranças,  nos indicou para ler “O Mundo em que Vivemos”. Devia ter umas mil páginas, nunca o li, mas, na esperança de um dia o ler, o mantive comigo por uns 20 anos. Informação inútil, apenas dando vazão a uma saudade.

[2] Não só ele, Barroso, Fachin e Lewandovski são seus melhores seguidores.

[3] Lembro que rolou nas redes uma ligação de Moraes com o PCC. Ok, as agências de checagem dizem que é falso. De qualquer forma esse artigo aqui acrescenta algumas informações importantes sobre Moraes.

[4] Reportemo-nos aos recentes casos da agressora de Jundiaí a uma funcionária da HAVAN e à procuradora  do Maranhão esfaqueando um boneco representando Bolsonaro.

[5] Um pequeno exemplo desta “dissonância cognitiva” você pode ver aqui.

[6] Holodomor é como ficou conhecido o genocídio pela imposição da fome comandado por Stalin nos anos 1932 e 1933. Por coincidência vi há dois dias um bom filme (não lembro o título) na Netflix sobre a Rússia de Stalin, com Robert Duval no papel principal.

[7] Até André Mendonça, indicado por Bolsonaro, votou pela prisão de Daniel Silveira!!! 



sexta-feira, janeiro 08, 2021

A VELHA E AS NOVAS DICOTOMIAS


"As ideologias pressupõem sempre que uma ideia é suficiente para explicar tudo no desenvolvimento da premissa."

Hannah Arendt

Que a dicotomia direita/esquerda já não explica mais nada, muita gente já sabe mas ainda vai levar um certo tempo até que percebamos e adotemos uma outra que nos dê alguma noção, tanto das motivações dos movimentos políticos dos últimos 60 anos, quanto do que está por vir após a nação mais próspera do planeta se aventurar na intensificação de uma opção pelo socialismo em sua pior formulação (se é que isso é possível).

Os rótulos dicotômicos nos são úteis para super sintetizar um conjunto complexo de motivos e processos que sem eles, nossa vida seria impossível, ou, pelo menos, um inferno incompreensível. A velha dicotomia trazia toda a complexidade político-econômica para uma formulação simples: direita e esquerda. Entre os primeiros, os capitalistas gananciosos, entre os segundos, os comunistas estatizantes. Sob este rótulo, viveram os cidadãos do século XX entre tantos trancos, barrancos e guerras.

Capa do livro sobre a obra de Sowell

Assistindo as crônicas do Rodrigo Constantino, descobri Thomas Sowell, americano, negro, economista, professor universitário, filósofo político, escritor de dezenas de livros, um dos mais respeitados pensadores da atualidade, e em plena atividade aos 90 anos. Para organizar suas análises, ele apresenta duas ideias. A primeira, propõe que todos temos "visões" sobre a natureza humana, e ela é de duas categorias: a visão restrita - que considera e reconhece as limitações da natureza humana -, e a visão irrestrita - a que tem a convicção que a natureza humana pode ser aperfeiçoada, modificada. Basicamente, na minha interpretação, Sowell defende que a diversidade é a mola propulsora da evolução civilizatória e a melhor maneira de possibilitar ao indivíduo a busca pela felicidade, pois não há receita padrão para a felicidade na medida em que desejos e necessidades são únicos e, portanto, individuais.

Sowell também faz uma outra proposição. Esta é mais direta, mas popular, de fácil entendimento, qual seja a dos "ungidos" - aqueles que se autoproclamam como sendo "portadores da missão de guiar os outros para a realização de uma vida melhor" -, e a dos "ignorantes" - todos os demais identificados como incapazes de gerir as próprias vidas. Para a "elite ungida", liderada pelo subgrupo da intelligentsia, encastelada nas universidades, em toda a estrutura do ensino público (mas não só), nos sindicatos, partidos políticos e ONGs de toda espécie, "os males da sociedade são vistos fundamentalmente como um problema de ordem moral e intelectual, para a extinção dos quais os intelectuais estão especialmente equipados (...)". Eles não param por aí. No delírio dos ungidos, cabe até a capacidade de "poder resolver problemas psicológicos das pessoas, como os estigmas sociais e os traumas de guerra".

Instigado a refletir, moldei uma outra proposição para satisfazer nossas angústias de entendimento da realidade, em particular, brasileira. Partindo da constatação de que existe por aqui uma "elite" política que perdeu as últimas eleições; cujas campanhas foram financiadas por grandes empresas nacionais que acabaram por sofrer um revés significativo em suas intenções, desejos e lucros; de que muitos de seus proeminentes políticos estão na cadeia ou em casa de tornozeleira; e que tal conjunto de consequências motivou a aliança de todos em torno de um projeto de não aceitação da perda de poder, achei de criar um novo rótulo dicotômico: o dos "negacionistas" (*) - aqueles que negam, além da própria condição de imperfeição da natureza humana, negam tudo o que venha daqueles que foram eleitos, sejam opiniões, ações, decisões, propostas, projetos etc -, e os "aturdidos" -, todos nós que, a cada minuto, a cada hipocrisia no noticiário da "grande mídia", estamos nos perguntando: onde diabos isto vai parar!!!



(*) É evidente que estou me contrapondo à aplicação do rótulo "negacionista" como conceituado pelos tais perdedores e seus inspiradores e financiadores internacionais, ou seja, que negacionistas somos todos nós que não concordamos com as teses deles. Ex.: eu, particularmente, não concordo com a tese do aquecimento global, portanto, sou um negacionista por mais argumentos que eu tenha.

domingo, novembro 25, 2018

À ESQUERDA OU À DIREITA, AS MESMAS TÉCNICAS, MESMAS HIPOCRISIAS

A revista PIAUÍ de novembro/18, traz uma matéria muito esclarecedora escrita por Anne Applebaum(1). O título é "O pior está por vir" e aborda temas atuais que vivemos e ainda estamos vivendo. É bastante esclarecedor no sentido de que nos mostra que nossas angústias e dramas são mais comuns do que poderíamos imaginar.

A seguir, alguns trechos para dar uma ideia das temáticas, mas não exime de leitura para quem quer aprofundar um pouco mais.

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Naquele momento (celebração de ano novo dez/1999), com a Polônia na iminência de se integrar ao Ocidente, tinha-se a impressão de que torcíamos todos pelo mesmo time. Concordávamos sobre a democracia, o caminho para a prosperidade, o rumo que as coisas estavam tomando.

Aquele momento passou. Decorridas quase duas décadas, cheguei a mudar de calçada para evitar algumas das pessoas que celebravam o ano 2000. por sua vez, elas não só se recusavam a entrar na minha casa como tinham vergonha de admitir que um dia a frequentaram. Na verdade, cerca de metade dos convidados nunca mais falaria com a outra metade.

Dadas as devidas circunstâncias, qualquer sociedade pode se voltar contra a democracia. Aliás, a julgar pela história, todas as sociedades acabarão por fazê-lo.

Duas décadas atrás, diferentes interpretações de “Polônia” também já deviam estar presentes, à espera do momento de vir à tona, conforme as circunstâncias e em razão de ambições pessoais.

A quem cabe definir uma nação? E a quem, por conseguinte, cabe conduzir uma nação?

Monarquia, tirania, oligarquia, democracia: tudo isso era familiar a Aristóteles, há mais de 2 mil anos. Mas o regime antiliberal do partido único, ora encontrado em todo canto do mundo – considere-se a China, a Venezuela, o Zimbábue -, foi pela primeira vez desenvolvido por Lênin, na Rússia, a partir de 1917.

[Lênin será lembrado] não por suas convicções marxistas, mas por ter inventado esta persistente forma de organização política. Ela é o modelo pelo qual se pautam muitos dos autocratas hoje em ascensão no mundo.

A diferença do marxismo, o regime leninista de partido único não é uma filosofia. É um mecanismo para deter o poder. Ele funciona porque define claramente quem vem a ser a elite – a elite política, a elite cultural, a elite financeira.

O regime unipartidário bolchevique não era apenas antidemocrático: era também não competitivo e não meritocrático. Vagas nas  universidades, empregos no funcionalismo público e postos no governo e na indústria não cabiam aos mais diligentes ou aos mais capazes: cabiam aos mais leiais.

Como escreveu Hanna Arendt nos idos da década de 40, o pior tipo de regime unipartidário “invariavelmente substitui todo talento, quaisquer que sejam suas simpatias, pelos loucos e insensatos cuja falta de inteligência e criatividade é ainda a melhor garantia de lealdade”.

Ressentimento, inveja e, sobretudo, a crença na injustiça do “sistema” são sentimentos importantes entre os intelectuais da direita polaca.

A experiência fez com que Jaroslaw se desse conta de que não gostava de política, em especial da política do ressentimento: “Eu entendi o que era de fato fazer política: promover intrigas terríveis, vasculhar sujeita, fazer campanhas difamatórias.”

O apelo emocional de uma teoria conspiratória está em sua simplicidade. Ao explicar fenômenos complexos, esclarecer acasos e acidentes, ela propicia a sensação gratificante de se ter acesso privilegiado ou especial à verdade.

O apelo do autoritarismo é eterno.

O escritor venezuelano Moisés Naím visitou Varsóvia poucos meses depois que o [partido de direita] Lei e Justiça chegou ao poder. Pediu-me que descrevesse os novos dirigentes polacos: Pessoalmente, como eram? Enumerei alguns adjetivos: “raivosos”, “vingativos”, “rancorosos”. “Parecem”, ele disse, “ser iguaizinhos aos chavistas.”

Mais cedo ou mais tarde os perdedores contestarão o mérito da competição em si.

O regime autoritário ou mesmo o semi-autoritário – o regime de partido único, antiliberal - propicia essa esperança: de que a nação será conduzida pelas melhores pessoas, as que merecem mandar, os quadros do partido, os que acreditam na Mentira de Médio Porte. para tanto pode ser preciso subjugar a democracia, corromper a atividade empresarial ou arrasar o sistema judiciário. Mas nada disso é impossível para quem julga estar entre os que merecem mandar.


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Em conclusão, qualquer extremo do espectro das ideias políticas é composto por farinhas colhidas do mesmo saco. São desejos de autoritarismo de um conjunto de indivíduos dispostos a tudo para oprimirem quanto for necessário para que se mantenham no poder. As técnicas de execução dos propósitos são exatamente as mesmas. A diferença está apenas no modelo de hipocrisia apresentado no discurso.


(1) Americana, jornalista e  historiadora, casa com um diplomata polonês.

quarta-feira, agosto 29, 2018

REFLEXÕES CAÓTICAS: Elite Subsidiada II

O tema educação está nas pautas das entrevistas aos candidatos à presidente da república. Em especial, a gratuidade do ensino universitário. Não foi diferente ontem (28/8/18) com Bolsonaro na GloboNews.

Em maio de 1994 enviei mensagem à seção Cartas do Leitor de O Globo com o título Elite Subsidiada,  esta a razão de titular este post como Elite Subsidiada II. Daquela destaco esta frase: Que situação estapafúrdia é essa em que defendemos o direito de o pobre ter curso superior se ele nem ao menos sabe ler por falta de salas de aula, professores e material escolar?  Vinte e quatro anos depois, continuamos subsidiando ricos, mas gastando 6% do orçamento (50% acima da média dos países da OCDE), e com 7 milhões - dos 35 milhões de estudantes dos ensinos fundamental e básico - com defasagem de 2 ou mais anos causada por diversas razões (dados desta semana divulgados pelo UNICEF).

Em 1970 ingressei na USP. Minha escolha teve 2 motivos: fazer uma faculdade de excelência e sair de casa, criar asas, por este motivo as opções do Rio foram descartadas por muito próximas. Meu pai era um comerciante de classe média, mas já naquele momento tendo sua renda reduzida à metade do que houvera sido até 5 anos antes. Mesmo assim, ele faria, com prazer, um esforço para pagar uma faculdade particular. Eu, portanto, usufrui desta benesse do Estado em detrimento de alguém que efetivamente não poderia pagar nada. Tal como meus muitos colegas de classe cujos carros importados estavam estacionados à frente da faculdade.

Então o governo criou o financiamento estudantil (FIES) fazendo a alegria das universidades particulares que proliferaram em quantidade e baixa qualidade. Nunca entregamos tantos diplomas universitários a tantos analfabetos funcionais. E o problema não para por aí. Tenho a história de uma pessoa muito próxima que entrou para o sistema, poucos meses depois se acidentou gravemente, teve que interromper o curso, voltou meses depois, e hoje, ganhando pouco mais que o salário mínimo e tendo que contribuir significativamente com gastos da família, resolveu abandonar de vez, não sem antes ter que comparecer ao Banco do Brasil para negociar o pagamento de uma dívida de R$ 7.500,00 com o sistema por um diploma que jamais terá.

Nossos formuladores de políticas de educação esqueceram de levar em conta a realidade da vida de milhões de brasileiros. Este meu conhecido não vai se formar, não porque não tenha este sonho, é que a realidade dele é muito mais enfática do  que o discurso dos políticos.

E hoje, 30/08/18, o MEC divulga dados que nos dão conta de que mais de 70% dos que concluem o ensino médio não atingem o nível básico de conhecimentos em português e matemática. Provavelmente eles irão se integrar ao contingente crescente de analfabetos funcionais. A política de dar qualquer ensino desde que aumente a estatística simplista de mais gente nas escolas, só produz mais cidadãos frustados, pois serão preteridos pelo mercado de trabalho que optará, SEMPRE, pelos mais capazes. Como prêmio, tais "formandos" receberão a dívida do FIES a pagar em suaves prestações a serem deduzidas de seus salários em empregos de nível técnico se conseguirem.

Neste evento de divulgação dos estudos do MEC, o próprio ministro da Educação, Rossieli Soares, reconhece que o ensino médio está "no fundo do posso".

E assim vamos ficando cada vez mais para trás em relação aos países desenvolvidos, desenvolvidos porque descobriram o segredo do crescimento do desenvolvimento econômico que leva ao aumento da qualidade de vida.

Até quando vamos continuar na mediocridade da esquerdopatia crônica?

Encerrando, assistam aos vídeos abaixo:






Se você também não gosta de hipocrisia na política, você precisa conhecer o PARTIDO NOVO https://novo.org.br

segunda-feira, outubro 27, 2014

THE DAY AFTER

Neste dia seguinte em que parcela de nós sente o coração apertado, com um sentimento de derrota que não quer ir embora, me vem uma questão: se nós perdemos, "quem ganhamos"?

Para tentar encontrar  algumas respostas, começo lembrando que democracia não é uma disputa olímpica, com um vencedor e um bando de perdedores. Democracia é convivência entre opostos e, como consequência, é alternância de poder, nada a ver, portanto, com perder ou ganhar. Não ter esta percepção é confessar uma incapacidade para o convívio num ambiente em que é preciso administrar as diferenças. É admitir uma queda para o autoritarismo, o contraponto à democracia.