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quarta-feira, julho 12, 2017

BAUMAN, BORDONI E AS ORIGENS DA CRISE BRASILEIRA

Carlo Bordoni e Zygmunt Bauman (1925-2017)
Quem recentemente passou por aqui, sabe que estou em uma fase de ler o que Zygmunt Bauman nos deixou de herança (quem chegou só agora, veja postagens anteriores). Hoje acabei de ler "Estado de Crise" (2014/2016), um trabalho dele com seu amigo Carlo Bordoni, sociólogo e jornalista italiano, em forma de diálogo.

A seleção que fiz teve um só foco: frases, análises, avaliações que nos remetem à comparação/reflexão com o momento Brasil. E, em especial, a acontecimentos ocorridos e a ocorrer neste julho de 2017.

No livro, uma referência ao Brasil é feita apenas ao final do livro quando listado junto a outros países em que ocorreram movimentos de massa nas ruas.

Como sempre, entre colchetes "[]", interferências minhas.


CARLO BORDONI

Agora, (...) todo e qualquer prognóstico de solução [das crises] é continuamente atualizado e, em seguida, adiado para outra data. Parece que nunca vai acabar.

Nós temos de aprender a viver em crise, (...) pois a crise está aqui para ficar.

ZYGMUNT BAUMAN

Na percepção da população, o Estado foi rebaixado da posição de motor mais poderoso do bem-estar universal àquele de obstáculo mais odioso, pérfido e prejudicial.

Em sua condição presente, o Estado não dispõe dos meios e recursos para realizar as tarefas que exigem a supervisão e o controle efetivos dos mercados, para não falar de sua regulação e administração.

A presente crise difere das suas precedentes históricas à medida que é vivida numa situação de divórcio entre poder e política.

CARLO BORDONI

"O problema vem de fora, mas o problema tem de ser resolvido, para o melhor ou para o pior, no local."

A antipolítica resulta em populismo e nacionalismo, ambos perigosos e sujeitos aos mais devastadores desvios. Com frequência ela se mostra o prelúdio de regimes tirânicos e autoritários, como demonstra a história recente.

Como certos tipos de populismo, o nacionalismo hoje não vai além do drama de uma opereta tragicômica, exagerada pela mídia para entretenimento das massas que com justeza estão muito aflitas.

ZYGMUNT BAUMAN

Os governos (...) não são convincentes nem destinados a durar; na melhor das hipóteses, espera-se/reza-se para que sobrevivam até (...) a próxima abertura do pregão da bolsa de valores.

Todos os governos democráticos estão expostos a duas pressões contraditórias:

1 - a pressão dos eleitores que sejam capazes tanto de por governos em exercício quanto de tirá-los;


2 - a pressão de forças globalizadas, livres para flutuar com pouca ou nenhuma restrição no "espaço de fluxos" extraterritorial sem política.


Os cidadãos acreditam cada vez menos que os governos sejam capazes de cumprir suas promessas.

Que força há de poder preencher o posto/papel de agente da mudança social?  (...) Há uma abundancia de tentativas de encontrar novos instrumentos de ação coletiva (...) instrumentos que tenham mais chances de satisfazer a vontade popular (...). 

De uma maneira ou de outra, a indignação aí está, e nos indicaram uma maneira de descarregá-la, ainda que temporariamente: ir para as ruas e ocupá-las. 

[Não faltarão aventureiros ansiosos por propor]: "Confiem em mim, sigam-me, e eu os salvarei da miséria em que vocês afundarão ainda mais do que hoje."

Nós sabemos do que estamos fugindo, mas não temos a menor ideia de onde vamos. (...) A história é um cemitério de esperanças não realizadas e de expectativas frustradas.

De uma maneira ou de outra, a indignação está presente, e estabeleceu-se um precedente para descarregá-la: sair às ruas e ocupá-las.

O fenômeno "povo nas ruas" mostrou até o presente a sua capacidade de afastar alguns dos mais odiados objetos da indignação das pessoas, figuras culpadas por seus sofrimentos (...) Entretanto, ele ainda tem de provar, (...) que também pode ser útil no trabalho de construção que vem em seguida. (...) os lideres de países democráticos e as instituições que eles criaram para guardar a perpétua "reprodução do mesmo" parecem até aqui não ter percebido e não se preocupam; (..).

As pessoas que ora tomam as ruas (...) sabem com certeza o que elas não gostariam que continuasse a ser feito. O que elas não sabem, contudo, é o que precisa ser feito em vez de...

Líderes políticos potenciais não pararam de nascer. São as estruturas políticas em deterioração, decadentes e impotentes que os impedem de amadurecer

Por que se dar ao trabalho de quebrar a cabeça tentando responder à pergunta: "O que fazer?" se não há resposta para a pergunta "Quem irá fazê-lo?"

CARLO BORDONI

O evento mais recente, o atual, o novo, representa a face da verdade e derrota o evento anterior. 

O Estado [atual],  (...) está tão somente preocupado com sua própria estabilidade.

A democracia chegou a ser usada [como] um biombo para cobrir os piores tipos de opressão do homem pelo homem.

Há na democracia um caráter de ditadura da maioria sobre a minoria. [Não nos dias de hoje pelo que se observa nos mais importantes e recentes eventos eleitorais ocorridos no mundo. Em quase todos, se não todos, uma minoria impôs sua vontade à maioria, principalmente pelo alto nível de abstenção.]

O fato de que todos possam votar não garante, em si, uma vitória popular, nem que a forma de governo produzida por eleições seja realmente do interesse do povo.

O marxismo entendia democracia como "ditadura do proletariado", mas depois delegou a gerência do poder político a uma pequena minoria, a uma elite privilegiada.

Indiferentemente de quanto a fórmula "democracia representativa" possa ser boa, (...) é evidente que a crise da modernidade trouxe com ela a crise da democracia representativa.

A alta taxa de sindicalização nos países ocidentais é responsável por incitar a alta do preço da mão-de-obra e introduzir um conjunto de regulamentações de proteção e defesa do emprego, a ponto de forçar o capital a mudar de lugar.

ZYGMUNT BAUMAN

Alexandra de Felice, famosa comentarista do mercado de trabalho Frances, prevê que, se prosseguirem as atuais tendências, um membro regular da geração Y será obrigado a mudar de chefe e de empregador 29 vezes ao longo de sua vida de trabalho. 

CARLO BORDONI

A sociedade desmassificada atingiu um nível perfeito de igualdade: uma sociedade de indivíduos empobrecidos, gratificados pela indústria de alta tecnologia e pelo grande conforto da comunicação interpessoal, mas que são incapazes de exercer política autorregulada, porque ela foi tirada de seu controle.

O cidadão comum só pode ter responsabilidade no âmbito da política local (...).

Que necessidade há de representação no nível mais alto (considerando que o cidadão comum não entende as complexas questões econômicas de âmbito global e não tem competência para tomar decisões) quando a democracia - isto é, a real democracia, aquela que realmente interessa ao povo - é realizada plenamente nas questões do dia a dia?

Não podemos falar da existência de um cidadão global, mas apenas de um cidadão local afetado pela globalização.


Volto eu. Em resumo, estamos em um novo mundo, onde:

1 - A globalização tirou dos políticos a tarefa de definir prioridades do que fazer. Isto agora é resultado dos interesses dos mercadores produtores de bens.

2 - A facilidade de fluxo de capitais, completou o serviço tirando do Estado-nação o controle e o poder de fazer. Transferências de grandes volume de capital têm o poder de desequilibrar governos e quebrar Nações.

3 - As tecnologias de comunicação reduziram o tempo ao imediato, o que, praticamente, acabou com a reflexão sobre as coisas e o amadurecimento de opiniões/posições.

4 - Na modernidade líquida de Bauman, as certezas, a solidez das convicções, não existem mais. Agora tudo é passageiro, fluido, fugaz, passam como as águas no leito do rio.

5 - Dado o volume de informação injetada em nossos cérebros por minuto, o cidadão comum se tornou incapaz de sintetizar/entender as razões para seus infortúnios e o incapacita para o voto em uma democracia do passado (vontade da maioria) hoje dominada pela minoria que tenha mais sede de poder. 

6 - Na auto-estrada da história das Nações não há placa de retorno porque a pista é única em uma só direção. Todos os povos estão forçados a descobrir um novo sistema (veículo) capaz de  nos levar com segurança na travessia da vida tendo que lidar com as novas variáveis que aí já estão e as que nem imaginamos que virão, mas certamente virão.

A leitura completa é essencial para quem quiser entender o que está acontecendo no mundo de hoje. Se você não quiser comprar o livro, eu achei aqui todo o conteúdo de "Estado de Crise".



Descubra, por exemplo, que:

"A gestão partidária não pode ser feita por candidato ou por ocupante de cargo eletivo."


domingo, abril 09, 2017

PARADOXO DA FRAGMENTAÇÃO

A fragmentação dos partidos políticos (35 registrados e mais em formação) (*) precisa ser substituída por um sistema político que estruture a fragmentação da manifestação popular via comunicação em rede.

Este o paradoxo da fragmentação.

A democracia representativa, ou seja, a democracia exercida por representantes de uma pretensa vontade popular, morreu. O velório será longo, doido, sofrido. Sua morte será negada por alguns por algum tempo. E, por outros, a admissão, a aceitação, também será longa.

Ouço que recente pesquisa identificou que 83% dos eleitores brasileiros não se identificam com NENHUM PARTIDO POLÍTICO.

A pós-modernidade identificada por alguns pensadores, já foi ultrapassada pela era pós-rede. A fragmentação da opinião, do pensamento, da reflexão, e da ação, é uma realidade ainda não absorvida pelas oligarquias. 

Se temos certeza absoluta de que partido político não é mais a forma de canalizar a vontade popular, não temos qualquer noção de qual seria um sistema capaz de gerenciar uma realidade que apresenta um nível de fragmentação de desejos, necessidades, anseios, que beira a impossibilidade de encontrar duas pessoas que concordem entre si, mesmo em um nível conceitual, sem descer ao detalhe.

Mas as mudanças estão ocorrendo. Canais de manifestação de opinião surgem diariamente no Youtube. As redes sociais estão abarrotadas de conflitos e, uma característica infeliz da tecnologia, até agressões e ameaças verbais. Novos partidos, com novas propostas (ainda que duvidemos delas e deles), surgem como ação de resistência ao fim do sistema. Mas, enquanto isso e paralelamente, novos instrumentos de ação política se apresentam para o cidadão.


Me arrisco a propor uma reflexão. Em uma babel de opiniões, de "verdades" individuais, de intolerância com o outro, com todas as diferenças, há lugar para a democracia? Onde ninguém concorda com ninguém, há espaço para o regime da maioria? Tem algum senso se falar em maioria? Se a maioria é tênue (vide Brexit, Trump, Equador etc.), se é frágil, podemos considerá-la "representativa", legítima? Ou, pior, se ela não for possível de ser alcançada, qual minoria prevalecerá? Neste novo mundo, não estaremos todos, em futuro próximo, implorando por alguém que nos diga o que pensar, o que fazer? Será o regime autocrático, ditatorial, a melhor alternativa para as gerações futuras?


(*) Como exemplo de fragmentação de mote:

Partido da Mulher Brasileira
Partido Novo
Partido Republicano da Ordem Social
Partido Ecológico Nacional
Partido Pátria Livre
Partido da Causa Operária
Partido Humanista da Solidariedade




terça-feira, abril 14, 2009

O CRIME DA COTA

Eu e você fazemos parte de algumas minorias. No meu caso, entre outras, sou da minoria dos descendentes de imigrantes alemães, consequentemente um "indivíduo de cor branca" para o governo Lula, sem direito a vantagem no seu sistema de cotas. Não por isso, mas como todos nós, fui discriminado por algumas razões nos meus anos de escola. Nem por isso meu pai reivindicou para mim qualquer vantagem competitiva. Mas outros, descendentes de imigrantes africanos, "indivíduos de cor negra" e discriminados, na classificação petista, têm direito a receber proporcionalmente mais dos impostos que pago. Benesse com chapéu dos outros. Só isso já bastaria para mostrar a injustiça do sistema.