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quinta-feira, março 27, 2025

O AUTOCENTRISMO ALTRUÍSTA


No texto “O Altruísmo Egoísta” tratei sobre minha visão de que toda ação altruísta é, na realidade, um egoísmo disfarçado, um altruísmo de máscara, um falso altruísmo.

O egoísmo é um conceito moral, é uma avaliação que fazemos sobre as ações dos outros com base em normas culturais que visam regular nosso comportamento social.

Um egoísta, nesta visão, age exclusivamente em seu benefício, sem considerar e respeitar o direito e os interesses de outros à sua volta. Considera que a pessoa age sob o lema “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Mas, neste rótulo, há, quase sempre, a presença de dois ingredientes:  preconceito e inveja. O primeiro, devido à ideia de que o benefício da ação egoísta não deveria ser dado "àquele tipo” de indivíduo. O segundo, devido à percepção de “porque ele e não eu?”.

Descarto, portanto, que o egoísmo seja uma característica imanente ao ser humano. Considero uma aquisição cultural à medida em que é considerado como uma pretensa necessidade para a conquista de melhor posição na escalada social no mundo civilizado.

Tenho a convicção, esta sim, de que só agimos no interesse da proteção à nossa existência como princípio primeiro e maior, o que vai além da mera subsistência do organismo.

Fui passar alguns dias com a família de meu filho que mora no exterior. Não lembro do motivo, mas em um dos papos com meu neto de 14 anos, lhe disse que o interesse próprio é o que move as pessoas. Recebi, do alto de sua inocente arrogância adolescente, um sorrisinho e um olhar que diziam: “esse meu vô é meio maluquinho, ele diz cada coisa!”. Percebi e pensei: “Hum, tenho que lhe provar o que disse”. No dia anterior, motivado pela reclamação da mãe que me dissera, com exagero, que os dois irmãos “não ajudavam em nada”, eu provocara meu neto com o chiste “o pior cego é o que não vê a louça suja na pia”. A minha “inocente” provocação surtiu efeito, pois no dia seguinte o peguei lavando toda a louça do almoço. Fiquei quieto e quando surgiu o momento adequado, lhe perguntei:

- “E aí Vinny, por que você lavou a louça?”.

- Ah! Vô, porque eu quis!

- Ah! É! E por que você quis?

- Pra minha mãe não reclamar.

- Ah! É! Então foi por interesse de agradar sua mãe! Entendi.

Em lugar do sorrisinho, recebi um sorrisão do tipo “Hehe, meu avô me pegou nessa!”. E nos dias seguintes conversamos sobre o papel do “interesse” próprio nas decisões que tomamos em nosso dia a dia.

Isto não é egoísmo, é autocentrismo. É ter como guia da tomada de decisão, das mais simples às mais complexas, o interesse próprio, interesse que está basicamente subordinado à proteção de nossa existência física e, principalmente, mental. Enquanto a riqueza trás conforto e redução do desgaste físico, é a percepção de que nossa existência está protegida, a condição e razão para nos sentirmos bem[1].

Enquanto no egoísmo o mote da ação parte do outro, depende do outro, no autocentrismo desconsidera um outro, pois o mote é a satisfação espiritual, independente da existência do outro.

O autocentrismo é o incentivo à generosidade (altruísmo). Enquanto o autocentrado desconsidera qualquer outro, pois se basta, o egoísta TEM QUE considerar o outro, caso contrário ele falha em seu objetivo de sentir-se bem, de estar bem com sua existência espiritual.

O conceito de egoísmo é moral e está sob o âmbito da sociologia. O autocentrismo faz parte do comportamento ético[2] e, portanto, da antropologia, e indo mais fundo, da biologia, do estudo da natureza humana.

A Sociologia, cujo propósito é entender o comportamento humano no meio social, só será útil quando se concentrar no primeiro objetivo da vida: a proteção à sua estabilidade existencial.

De resto, é só discurso de intenção moralista.


Paulo Vogel

Neste meio, eu e você, somos a mensagem.

Mar/25



[1] Evito os termos “feliz” e “felicidade” por serem conceitos subordinados a valores pessoais e difíceis de serem definidos.

[2] No texto “Há diferença entre moral e ética?” exploro a questão.


quinta-feira, junho 01, 2017

UM POUCO MAIS DE ZYGMUNT BALMAN

Terminei a leitura de "Para que serve a sociologia" (Editora Zahar), de Zygmunt Bauman, intelectual polonês, falecido no início de 2017. Este livro é um trabalho de Bauman com dois outros intelectuais, Michel Hviid Jacobsen e Keith Tester, seus amigos, que estruturam muitas ideias do sociólogo usando a técnica de simular uma entrevista. Além de tratar do tema, sociologia, ele vai além, abordando as angústias contemporâneas onde o excesso de informação altera profundamente nossas prioridades e nosso modus vivendi

Eis algumas passagens que selecionei por extrema pertinência com nosso momento Brasil.


"O mundo se atrofiou em histórias, não em informações, e onde as histórias são atrofiadas também o é a capacidade de homens e mulheres entenderem suas vidas num contexto histórico mais amplo.

O caminho que leva a um mundo moral é longo, sinuoso e cheio de armadilhas – as quais, diga-se de passagem, é tarefa do sociólogo investigar e mapear.

Os intelectuais [na esteira de Gramsci] esperavam conduzir e/ou ser conduzidos a uma terra em que a longa marcha rumo à liberdade, à igualdade e à fraternidade finalmente alcançaria seu destino.

Theodor W. Adorno
Pierre Bordieau

Para Adorno, confiar a mensagem ao leitor desconhecido de um futuro indefinido pode ser preferível a transmiti-la aos contemporâneos considerados despreparados ou indispostos a ouvir, que dirá apreender e reter o que ouviram.

Pierre Bourdieu assinalou que o número de personalidades no cenário político capazes de entender e articular as expectativas e demandas de seus eleitores está diminuindo depressa. (...) problemas privados são categorizados como questões públicas.

(...) trazer à luz as contradições não significa resolvê-las. Um caminho longo e tortuoso se estende entre o reconhecimento das raízes de um problema e sua erradicação, e dar o primeiro passo não garante de maneira alguma que outros venham a ser dados, muito menos que o caminho seja percorrido até o fim.


As escolhas humanas não são mais determinadas do que são os movimentos dos jogadores de carteado pelas cartas que eles têm na mão. O lugar em que se está numa situação manipula a distribuição de possibilidades. Ele separa os movimentos viáveis dos inviáveis, assim como os mais prováveis dos menos prováveis. Mas nunca eliminam totalmente a escolha. (...) O poder humano significa a capacidade de manipular as probabilidades das escolhas humanas.


A parte “civilizada” da história humana foi desde o princípio, e provavelmente continuará a ser, uma mistura de aprendizado e esquecimento.

Adquirir novas habilidades sem abandonar as antigas é quase impossível. Para ter sucesso em enfrentar novos desafios, as velhas habilidades são de pouca ajuda, de modo que novas habilidades são exigidas.

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Talcott Parsons articulou assim a “questão hobbesiana”: como induzir, forçar ou doutrinar seres humanos, abençoados ou amaldiçoados com o dom ambíguo do livre-arbítrio, a serem guiados normativamente e a seguirem por rotina cursos de ação manipuláveis, embora previsíveis? (...) Em suma, como fazer as pessoas terem o desejo de fazer aquilo que devem fazer?
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Em “História para as últimas coisas”, Siegfried Kracauer assinala que, à medida que a “segurança paroquial” dá lugar à “confusão cosmopolita”, há um “sentimento generalizado de impotência e abandono”, de “estar perdido num território inexplorado e inimigo”, que – perigosamente – “induz muitas pessoas, presumivelmente a maioria delas, a correr para o abrigo de uma crença unificadora e reconfortante”.

Hoje nos encontramos num “interregno”, um estado em que as velhas formas de fazer as coisas não funcionam mais e os modos de vida antigos e herdados não mais se ajustam à presente conditio humana, mas as novas maneiras de enfrentar os desafios e os novos modos de vida mais adequados às novas condições ainda não foram inventados, posicionados e postos em movimento.

As formas de vida moderna podem diferir em muitos aspectos – mas o que une todas elas é exatamente a fragilidade, transitoriedade, vulnerabilidade e inclinação à mudança constante. “Ser moderno” significa modernizar-se – compulsiva e obsessivamente; nem tanto “ser”, muito menos manter sua identidade intacta, mas eternamente “tornar-se”, evitar a conclusão, continuar indefinido.

Cem anos atrás, “ser moderno” significava buscar “o estado final de perfeição”. Agora significa uma infinidade de aperfeiçoamentos, sem ter em vista nem desejar um “estado final”.

A trajetória de sucessivas mudanças lembra mais um pêndulo que uma linha reta. Cada mudança foi uma tentativa de conciliar demandas incompatíveis, mas os esforços, em geral, terminaram com a renúncia a uma parte de uma delas com o objetivo de satisfazer uma parte da outra. E assim, cada mudança inspirou, mais cedo ou mais tarde, a demanda de outra. (...) Outra forma de dizer a mesma coisa é que cada melhoramento trouxe novas deficiências. (...) os antecedentes só se revelam por meio de suas consequências.

A civilização (significando ordem social) é uma permuta em que alguns valores são sacrificados em função de outros. (...) Nesses termos, pode-se dizer que a história das mudanças sistêmicas é um sucessão de permutas.

Decidir ir a público envolve tornar o texto refém do destino (desconhecido e jamais totalmente previsível, que dirá controlável). Uma vez enviadas as mensagens têm vida própria, autônoma. (...) a versão do autor não goza de superioridade sobre as leituras dos destinatários, já que os significados emergentes são em geral produtos da interação entre o texto e os arcabouços cognitivos formados pelas variadas experiências dos leitores.

Ironia, distância, não comprometimento e acima de tudo a consciência do caráter de “até segunda ordem” das verdades é uma das poucas advertências da versão atual da razão que deveriam – realmente – ser levadas a sério.

As placas de trânsito mudam mais depressa que o tempo gasto para chegar aos destinos que elas apontam. Com o acúmulo de experiências como essa, é arriscado tratar com seriedade qualquer relato sobre a “situação do planeta”, que dirá prognósticos sobre suas condições futuras. Para o bem ou para o mal, nossos contemporâneos são treinados na arte da flexibilidade, o metavalor “imperativamente endossado e recomendado”, assim como popularmente aclamado, da modernidade líquida.

O mundo está mudando e se reordenando (não sem nossa cooperação ou omissão) com demasiada rapidez para que um conjunto de regras, qualquer que seja ele, permaneça funcional por toda a vida de um indivíduo, que dirá ultrapassá-la.

Me preocupa a separação e o iminente divórcio entre o poder, que é a capacidade de fazer com que as coisas sejam feitas, e a política, que é a capacidade de decidir quais coisas precisam ser feitas e quais não precisam.

Grande parte do poder antes contido na soberania do Estado evaporou-se no “espaço dos fluxos” global de Manuel Castells, enquanto a política até hoje continua a ser local.

O que se seguiu a este afastamento foi o paradoxo de uma progressiva coletivização dos problemas, juntamente com a privatização das ferramentas e dos meios necessários para sua solução. Um paradoxo cuja resolução ficou a cargo dos indivíduos, incumbidos da impossível tarefa de enfrentar de modo individual, por conta própria, desafios socialmente produzidos (e apenas socialmente solucionáveis).

O privado invadiu e conquistou a “ágora”, aquele espaço no qual se esperava que interesses privados fossem traduzidos em questões públicas, e onde necessidades públicas se traduzissem em direitos e deveres privados.

“Cortesia” é uma das últimas palavras que me viriam à mente se eu fosse descrever o mundo em que vivemos. “Hipocrisia”, sim. Contudo, confundir hipocrisia (ou seja, a tendência a manter distância do que causa a verdadeira dor e faz as pessoas realmente sofrerem, e a vender a crueldade sob o rótulo da benevolência) com cortesia, de qualquer forma, é o principal objetivo e a marca registrada da hipocrisia, sendo a “correção política” uma de suas manifestações flagrantes, ainda que hipocritamente disfarçada.

Usamos no dia a dia, pública e ostentosamente um tipo de linguagem antes confinado às sarjetas a aos antros do vicio. Não respeitamos mais os direitos de privacidade e intimidade. Talvez o lar do inglês ainda seja seu castelo, mas um castelo aberto aos visitantes 24 horas por dia, sete dias por semana, habitado por pessoas que temem a ausência ou escassez de observadores intrusos como a mais terrível das pragas do Egito.

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Nós nos deleitamos com a visão de aprendizes a perdedores que se mostram à porta da rua e dos habitantes da casa do Big Brother excluídos pelo voto após uma longa semana de humilhações e ridicularizações rotineiras. Não respeitamos nem a dignidade do outro nem a nossa. Quando ouvimos a palavra “honra”, recorremos a um dicionário.

É como se o “direito de difamar” tivesse se tornado um direito humano com tendência a ser universalmente respeitado e defendido com unhas e dentes pelas agências guardiães da lei.

Sem a ressurreição do respeito, não há chance para a solidariedade. Sem solidariedade, não há chance de despertar “as preocupações centrais da sociedade” de sua atual sonolência e forçá-las a abandonar o abrigo impenetrável da desatenção humana.

O que me põe de lado na comunicação ao estilo blog é a atordoante velocidade com que as mensagens entram e saem do domínio da atenção do público, quase sempre sem deixar testamento. Elas surfam pelas mentes em vez de se estabelecer dentro delas pelo tempo necessário para uma reflexão madura e para produzir consequências. Rapidamente lido, logo esquecido."


terça-feira, abril 25, 2017

A PROPÓSITO DE MORALIDADE

Estou lendo "Ética pós-moderna", de Zygmunt Bauman, intelectual polonês, considerado o mais brilhante sociólogo de nosso tempo, falecido no início de 2017. Apesar do título citar "ética", é de moral que ele mais trata. Este fato sinaliza que tais conceitos têm seus significados sobrepostos. Se você for procurar separá-los vai ficar bastante perdido. 


De minha parte, resolvi que moral tem minha natureza como alicerce - sendo esta única e individual conquanto indivíduo eu sou. Tenho regras de conduta que estão em meus genes, imutáveis, com um potencial de aprimoramento com as experiências proporcionadas pela vida e pela negociação que estabeleço com o Outro. 
É a moral que regula minhas interrelações não objetivadas, tais como entre familiares, entre amigos, entre conhecidos e desconhecidos, todos personagens obrigatórios e frequentes no meu cotidiano. O papel da moralidade é criar um campo de convívio onde prevalece o respeito pelo outro de modo a manter estável a convivência. Na moralidade cabem valorações de bem e mal, de correto e incorreto, de honestidade e desonestidade. A moral não tem código, tem valores, mas estes são subordinados a cada cultura e, portanto, impossível de serem universalizados. E o sem moral é aquele que não se importa com o outro. Muito diferente da ética.


A ética diz respeito ás regras de um grupo, uma comunidade, que tem uma tarefa em comum. A ética nada tem de genética. É uma criação dos homo sapiens. A ética é necessária para que objetivos possam ser alcançados por um grupo de indivíduos independente de suas características individuais. Um traficante deve ser tão ético no exercício de seu labor como parte, peça, de uma máquina que quer obter um ganho específico. Tal qual um gerente de compras exercendo seu papel em uma corporação, ou um médico obstetra que jurou obedecer um código de conduta, ou um advogado que é parte de um sistema de justiça agindo como defensor ou acusador em um processo criminal. Para ética não importa o meio, somente o fim. Seus pares não querem saber se você é bom ou mal, honesto ou desonesto. A única coisa que importa é que você respeite as regras. A ética tem um código e por isso é até passível de ser universalizada. E o sem ética é aquele que não realiza o que dele se espera.

Em resumo, considero que a moralidade é o conjunto de princípios acordado entre indivíduos para nos orientar quanto ao que esperar do comportamento do Outro, enquanto a ética é o código de regras de um grupo específico a ser fielmente cumprido por cada um de seus membros, independente do Outro. 

Tendo competência para sintetizar infinitamente superior à minha, Bauman formula assim: "A moral é uma questão de responsabilidade em relação ao Outro; ética é a prática de impor regras de conduta moral." Pimba!!!



Dito isto, e em função das graves discussões que hoje, amanhã e depois estaremos acompanhando, resolvi já ir deixando aqui algumas passagens do livro de Bauman (*). Os negritos são meus. Os itálicos são dele. Ei-las.



"Em nossos tempos (...) os políticos depuseram as utopias; e os idealistas de ontem tornaram-se pragmáticos.

Quando casada com individualismo autocelebrativo e livre de escrúpulos, a tolerância só se pode expressar como indiferença.

O código ético a toda prova nunca vai ser encontrado; tendo outrora chamuscado muitíssimas vezes nossos dedos, sabemos agora o que não sabíamos então ao embarcarmos nessa viagem de exploração: que uma moralidade não aporética e não ambivalente, uma ética que seja universal e "objetivamente fundamentada", constitui impossibilidade prática; talvez também um oximoron, uma contradição nos termos. (...) A maior parte das escolhas morais são feitas entre impulsos contraditórios. (...) O impulso de cuidar do Outro, quando levado ao extremo, conduz à aniquilação da autonomia do Outro, à dominação e à opressão. (...) A moralidade não é universalizável. (...) Contrariamente à opinião popular, e de certos escritores pós-modernistas, a perspectiva pós-moderna acerca de fenômenos morais não revela o relativismo da moralidade.

Os humanos são moralmente ambivalentes. (...) Nenhum código ético logicamente coerente pode "harmonizar-se" com a condição essencialmente ambivalente da moralidade. (...) Precisamos aprender que uma sociedade perfeita, assim como um ser humano perfeito, não é perspectiva viável, ao passo que tentativas de provar o contrário acabam sendo mais crueldade que humanidade e certamente menor moralidade.

Hans Jonas: "Nunca houve tanto poder ligado com tão pouca orientação para seu uso... Precisamos mais de sabedoria quando menos cremos nela."

A escala das conseqüências que nossas ações podem ter, tolhe-nos a imaginação moral que podemos possuir. (...) Nossas ferramentas éticas simplesmente não foram feitas para os poderes que atualmente possuímos.

Com o pluralismo de normas as escolhas morais surgem-nos intrínseca e irreparavelmente ambivalentes. Os nossos tempos são tempos de ambiguidade moral fortemente sentida.

A justificação para se ser moral é irritantemente individualista e autônoma - refere-se ela ao amor-próprio e ao interesse próprio - só se pode assegurar a realização do comportamento moral pela força heterônoma da Lei.

Por uma razão ou outra, a maioria das pessoas, ao escolher, não escolhem o que é moralmente bom. Assim é, paradoxalmente, a própria liberdade de julgar e escolher que necessita de força externa que leve a pessoa a fazer o bem para sua própria salvação, para seu próprio bem-estar, ou em seu próprio interesse.

A verdade é que a confusão permanecerá, o que quer que façamos ou saibamos, que as pequenas ordens ou sistemas que cinzelamos no mundo são frágeis, temporários, e tão arbitrários e no fim tão contingentes como suas alternativas."



Até terminar a leitura, voltarei aqui para reproduzir mais pensamentos de Bauman e fazer meus comentários de leigo.

(*) É relevante lembrar que Bauman elaborou estas reflexões antes de 1997 quando a obra foi publicada. Sem conhecer ainda, portanto, os efeitos da fragmentação de tudo provocada pelas tecnologias de comunicação.