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quinta-feira, junho 15, 2023

NÃO É POR VOCÊ, MANÉ, É PELO PHODER!

 

Há em cada Estado uma margem de obediência que se ganha apenas

através do uso da força ou através da ameaça do uso da força.”

 Bertran de Jouvenel,  filósofo, politólogo, economista e diplomata francês

 

A história da sociedade humana é a história da relação entre os que buscaram o poder e os que a eles se submeteram por proteção à vida. A evolução desde nossos ancestrais primatas até o homo sapiens moderno pelas graças do mecanismo da seleção natural, resultou em uma espécie frágil e dependente de proteção. Humanos levam mais de 12 meses para se firmaram sobre duas pernas e levam vários anos para serem capazes de se autossustentarem.

Sou crítico dos que agitam a bandeira da liberdade como o maior valor do ser humano. Não, não é. Liberdade é um valor necessário para relações sadias e produtivas entre os membros das “tribos” e entre as tribos. O maior valor para um ser, particularmente o humano, mas não só, é o da preservação da vida. A quase totalidade dos humanos [1]  abre mão de sua liberdade num piscar de olhos se tal renúncia garantir, ou pelo menos, prometer lhe preservar a vida. A maioria de nós, certa e rapidamente, abrirá mão da liberdade – qualquer que seja ela – para manter a vida, seja a própria, seja a de alguém que ama, seja até mesmo a título de uma suposta defesa de uma pátria que só existe no papel e na imaginação.

Com o advento do trabalho e das interrelações a ele inerentes, a prioridade quanto a “preservar a vida” passou a abranger, para cada indivíduo, a manutenção das circunstâncias que lhe são benéficas, de eventuais privilégios, enfim, de seu “status quo”. É esta premissa de preservação da vida que justifica uma pessoa não se arriscar a se demitir de um emprego que lhe faz mal física ou mentalmente; de funcionários públicos se rebelarem quando da ameaça de perda de “direitos adquiridos”; é a razão de profissionais, especialmente jornalistas, adequarem suas opiniões públicas – e mesmo privadas -, à opinião de seu empregador; e, sob o mesmo mote, políticos que, depois de eleitos, abandonam suas “convicções” e seus eleitores em prol de um padrão de vida que jamais terão em outra condição.

Antes de continuar preciso explicar a diferença de significado entre “poder” e “phoder”, grafia que venho também usando há algum tempo. O Poder, como entidade, é legítimo e absolutamente necessário em todas as atividades da vida em sociedade. Poder, em sua essência, é a capacidade de fazer, de liderar, de comandar, de ensinar. Um cirurgião tem a capacidade de realizar uma intervenção de cura; um administrador tem a de liderar diferentes profissionais para o atingimento de metas; o general a de comandar um exército em uma batalha em obediência a uma estratégia de defesa previamente definida; e pais e professores têm, em conjunto, a nobilíssima tarefa de formar crianças para uma vida adulta sadia. Quando uso, portanto, poder, estou me referindo a uma instituição necessária à continuidade do funcionamento da humanidade como é hoje. Entretanto, o poder, em todas as circunstâncias, não só nas acima citadas, é exercido por diferentes humanos, providos de diferentes genéticas que regulam suas ações e reações, seus desejos e instintos, seus corpos e suas mentes. A psicopatia, um distúrbio da mente que se define pela insensibilidade e falta total de empatia com o outro, todos os outros, permite a um cirurgião ser um assassino frio, um administrador ser um corruptor em busca de objetivos escusos; um general sacrificar milhares – até milhões – de jovens por puro desejo de conquista de território; pais a impingirem castigos cruéis, e professores a substituírem formação de jovens para a vida por lavagem cerebral a partir de seus desejos de imposição de uma verdade ideológica. É sempre a este exercício doentio, patológico, que denomino de “phoder”, pois sua única intenção é realizar o que preciso for exclusivamente em benefício próprio, independente de quanto prejuízo e sofrimento provoque em outros.

Afirmei que a história da humanidade pode ser contada pela história do poder, mas, muito mais pelo “phoder” do que pelo poder. Na realidade, a história da humanidade foi conduzida sob uma relação sadomasoquista. No lado “sado” uma minoria tirânica disposta a tudo para se manter no topo da pirâmide. No lado “maso” um rebanho de crentes e medrosos, ambos submissos em função da preservação de suas vidas.

Todo este blá-blá-blá até aqui é só para tentar mostrar aos inocentes úteis que não é direita ou esquerda, não é democracia ou ditadura, não é exército ou salvador da pátria, não é pobre ou rico, não é Estado ou mercado. É só “phoder”, mané!

Ok, quem sou eu para fazer tal afirmação!?

Pois bem. Leia o livro “Democracia, o Deus que falhou”, de Hans-Hermann Hope. Não tem paciência, tem preguiça, não tem dinheiro? Ok. Então acesse o extrato  que fiz  [2] . De qualquer forma, mesmo que você não venha a concordar comigo, sua visão de como a banda toca o mundo, vai, no mínimo, mudar muito (depois me conta!).

Aceitando ou não essa minha indicação de leitura, você precisa assistir o documentário “O Grande Despertar”, de Mikki Willis  [3] . Por si só é arrasador e desmantelador das narrativas políticas atuais, mas combinado com “o Deus que falhou”, vai detonar sua visão idealista do mundo, esteja você identificado com ideias à direita ou à esquerda.

Espero ter oferecido algo para seu crescimento intelectual. Para quando você ouvir a expressão “para o bem da sociedade”, e outras similares, você saia correndo.

Vou chegando ao final citando duas falas do documentário:

“A verdadeira mudança lá fora, começa com a verdadeira mudança interior”.

Esta outra se refere aos americanos, mas cabe a nós: “Hoje, somos verdadeiramente um povo privilegiado, numa terra privilegiada. Mas com as bênçãos vêm as responsabilidades, e com as responsabilidades vêm os riscos. O desafio do nosso tempo é que devemos aceitar ambas as atribuições, das nossas bênçãos e os riscos envolvidos em defendê-las, por nós mesmos e pelas gerações futuras, e devemos fazê-lo sem hesitação se quisermos ser beneficiários dignos daquela preciosa herança de liberdade que nos foi transmitida através dos sacrifícios épicos daqueles que partiram antes.”

Encerro com George Orwell, o mais referenciado futurólogo e premonitório:

“A forma mais eficaz para destruir as pessoas, é negar e obliterar a sua própria compreensão da sua história.”

 

1  – Há, evidentemente, uma certa cota de heróis, aqueles que se arriscam a perder a vida em benefício de outro ou de uma causa, mas estes são uma parcela muito pequena.

2 – A leitura do extrato não substitui a leitura integral da obra. Quaisquer conclusões e inferências feitas pelo leitor é de sua exclusiva e inteira responsabilidade. 

3 – Acesse o filme neste link (duração de 1h41m): https://rumble.com/v2sw69g-filme-the-great-awakening-2023.html


Esta crônica de Ernesto Lacombe é uma cereja para este bolo de "phoder".






sábado, março 16, 2019

A CONSCIÊNCIA DOS EXLUÍDOS - Parte II


Assim como o globo terrestre se mantém girando infinitamente num só sentido, a história da humanidade não retrocede. Uma vez adotada uma nova solução, uma nova tecnologia, uma nova maneira de fazer qualquer coisa, não voltamos a fazer como antes, independente do resultado que esteja sendo obtido com a novidade. Obviamente estou considerando que tanto o planeta quanto o ecossistema não sejam abalroados por uma catástrofe monumental (um asteroide vir a colidir com a Terra, ou uma era do gelo vir a destruir as condições de vida atuais) e continuem a se comportar como sempre tem sido. Considerando estas exceções, o primeiro um exemplo raro de evento aleatório, imprevisível, pois, de resto, tudo é cíclico na natureza e no próprio universo.

A evolução(*) da humanidade não olha para trás, não se arrepende. Uma vez adotada uma nova solução, adeus às vigentes até então. Uma vez que o homem domou o cavalo, o próximo passo foi criar a carroça. Uma vez inventado o motor a combustão que possibilitou o automóvel, o avião veio a seguir e nem mesmo seu uso na revolução de 32 levando Santos Dumont ao suicídio (é o que se pensa), foi capaz de fazer a humanidade voltar à uma época sem máquinas voadoras. O sentido à frente, sem olhar para um retrovisor imaginário, é inexorável tanto na tecnologia quanto nos costumes. Uma outra faceta desta realidade é o que alguém já observou quanto à evolução tecnológica: se pode ser feito, será feito.

Se olhamos para a humanidade em sua essência ao longo da história, concluímos que muito pouco mudou. Nossas necessidades continuam básicas e as mesmas de milênios atrás: aquecimento, abrigo contra intempéries e inimigos, e alimento. Cito Montaigne: "A natureza exige muito pouco para nossa conservação, tão pouco que foge aos golpes possíveis da má sorte". O que mudou foi a forma de suprir tais necessidades.  Entretanto, a mudança de forma veio acompanhada da complexidade. Para o homem nômade, caçador-coletor, a simplicidade de obtenção (independente da dificuldade) era o padrão. 

A partir de um determinado momento, com o advento da agricultura, surgiu o conceito de trabalho, ou seja, um compromisso sistemático de obrigação de fazer algo para, em um processo de troca, um grupo pudesse obter a renda que propiciasse a satisfação daquelas tais necessidades básicas.

De lá para cá, o tal processo de evolução só fez tornar gradativa e sutilmente mais difícil ter uma atividade de trabalho produtiva o suficiente para todos. Uma nova divisão de categoria de humanos começa a se desenvolver: os que sabem e os ignorantes, os aptos e os inaptos, os incluídos na dinâmica social e os excluídos, os párias. 

Até pouco antes do fim da idade média(**), a troca de informação entre diferentes povos, a incorporação de novas soluções, se dava em unidades de tempo muito longas. E mesmo com o desenvolvimento tecnológico da navegação na Renascença e depois, a unidade de tempo de comunicação era da ordem de meses. Antes do telégrafo e do rádio, inventos do século XIX , a informação ganhou velocidade com os primeiros jornais impressos em meados do século XVIII fazendo a unidade de tempo no fluxo da informação se reduzir a semanas (ainda dependente da navegação). É a partir de então que o cidadão - não mais um indivíduo qualquer, mas integrante de uma massa que começa a ter recursos para se manifestar e ser ouvida -, tem acesso a informações que antes lhes eram de total inacessibilidade. Se até então ele se via um excluído graças a uma inevitabilidade da vida, a um resultado infeliz da conjunção dos astros e estrelas no instante de sua concepção ou nascimento, com o acesso à informação ele substitui a aceitação pela consciência de excluído, não mais pelas forças celestiais, mas pelas forças detentoras do poder que lhe obstaculizam de todas as maneiras ascender socialmente e ter acesso às modernidades.

É no início do século XX que surgem as transmissões via rádio. As últimas da política, da economia, da cultura... agora à distância de audição de um botão de sintonia. Minutos depois de, a milhares de quilômetros de distância, ter sido decretado o fim da guerra, as pessoas puderam sair às ruas para comemorar (Ouça Heron Domingues no Repórter Esso). É o máximo! Agora ele sabe que não está sozinho em suas percepções e frustrações. Existem outros excluídos como ele! A consciência de sua condição agora é real e universal.  Mas o melhor estava por vir entre os finais das décadas de 1940 e 1970. A televisão, a combinação da transmissão de voz e imagem! E agora com um toque especial: a verdade de sua condição social não só é real e universal, mas é ao vivo e em cores! 

Encerrando por hoje, acrescento o que aconteceu nesta semana trágica. O atentado na escola de Suzano - exemplo claro de reação à frustração - e a chacina na Nova Zelândia - exemplo emblemático do "ao vivo e em cores".

Até o próximo sábado.


(*) O sentido de evolução aqui usado é o de aprimoramento da técnica em termos de produtividade, não implicando obrigatoriamente em melhoria do ser humano ou de sua qualidade de vida.

(**) Idade Média: Período da história entre os séculos V e XV d.C., marcado pelo fim do Império Romano.

(***) Renascimento/Renascença: Período da história entre o final da Idade Média, meados do século XIV, e final do século XVI.  



As imagens aqui inclusas foram obtidas na internet e sem identificação de autor. Caso você seja autor de alguma, por favor me informe para que possa incluir o crédito. 


quarta-feira, agosto 03, 2016

EU & EREMILDO


Eremildo é um idiota e personagem criado pelo jornalista Elio Gaspari para representar coisas que acontecem mas de difícil compreensão para a maioria de nós. Para ninguém se ofender, me dirigirei a ele daqui em diante. Peço ao Gaspari, portanto, desculpas publicamente pelas referências, pois se me sirvo dele é como homenagem a este ícone que representa a ignorância do cidadão comum frente às idiossincrasias dos poderosos, particularmente, do pequeno poder.

A reflexão que apresento aqui tem motivação no fato do governo federal passar a exigir que candidatos a vagas no regime de cotas em concursos públicos que se declararem negros, terem que se submeter a uma avaliação para comprovação de que são realmente negros (!!!)A exigência de "comprovação presencial" beira a insanidade. Como alguém já alertou, nada mais perigoso que um incompetente com iniciativa. Além de prenunciar que vamos levar duas décadas (eles têm estabilidade de emprego) para desentranhar o petismo (e suas ideologias retrógradas, anti-humanas, e, curiosa mas não surpreendentemente, preconceituosas) das várias instâncias do Estado, também expõe a contradição do "politicamente correto", dado que expor um cidadão desnudo (creio eu) frente a uma comissão "avaliadora" da cor de sua pele é um exemplo extraordinário de algo politicamente incorreto, para não dizer, humilhante, esteja ele vestido ou só de cueca ou calcinha. 



Uma pausa é necessária e oportuna para ressaltar alguns aspectos do petismo. Um deles é a propriedade da verdade (outra, da honestidade, ficou provado que a escritura era falsa). Et pour cause, o petismo entende que "o povo" (e "povo" são todos os que não ocupam posição em qualquer nível da estrutura do poder político) precisa ser, mais do que protegido, abrigado de qualquer evento da vida que possa lhe ser... desagradável, incômodo, indesejável. "O povo" não pode sofrer qualquer infortúnio, qualquer dificuldade para ter o que eles acham que "o povo" precisa e/ou deseja. É uma psico-filosofia da evitação, mas como não dá para efetivá-la por decreto, a solução é criar, para cada nova proposição, um novo aparato policialesco. Para o petista, "o povo" não tem capacidade de ter responsabilidade sobre si mesmo. Para o petista, "o povo" tem que ser protegido "do povo" e não há ninguém melhor do que ele para oferecer isto em nome de seu altruísmo!!! Imagino que eles tenham como objetivo final dividir a população, meio a meio, metade do "nós" (eles), os com poder, qualquer poder, e o "eles" (nós), os eremildos recalcitrantes que precisam ser vigiados, controlados para não fazerem besteira. Creio que eles têm na mente, como ideal a ser alcançado, a imagem de cidadãos "do povo" tocando a vida tendo como sombra a nos viajar a projeção fiscalizadora da sombra de um deles.


Outra aspecto, que não percebemos antes de eleger Lula, é a média geral da qualidade da formação das hostes petistas. Atenção, falei "a média", não a totalidade. O resultado que o Brasil obteve destes mais de 13 anos do poder no PT, se deve exatamente a esta falta de quadros para gerir uma Nação como o Brasil na complexidade que adveio, principalmente, da globalização, do acesso à informação e da velocidade da comunicação. Não é mais possível que um cidadão, sem instrução e preparo, possa se eleger para qualquer cargo de poder, especialmente no nível federal. Num mundo de séculos atrás isto foi possível, não é mais. Ou entendemos isso, ou vamos continuar a praticar um populismo que nem mesmo os cidadãos de pouca instrução desejam, pois estes desejam que o país esteja sendo gerido por pessoas altamente capacitadas, único caminho para sustentar a esperança em um futuro mais digno. 

Volto ao tema.


Abaixo, eu, idiota desde criancinha, e meu Eremildo universal preferido.



Eu e Eremildo, incorrigíveis idiotas, estamos perplexos. E você, o que acha dessa proposta de aferição racial presencial? Antes de ser contra ou a favor, gostaria que você me acompanhasse num passeio pelo tema "preconceito". 

Como não sou antropólogo, preciso de sua tolerância (pré-disposição extremamente útil à manutenção de um convívio harmonioso com os semelhantes e, principalmente, com os diferentes) para a exposição de minha tese sobre a origem do preconceito que, em minha humilde opinião, remonta aos tempos em que descemos das árvores. Digo até que, se estamos aqui, eu e você, tal existência se deve ao preconceito ("juízo pré-concebido, que se manifesta numa atitude discriminatória, perante pessoas, crenças, sentimentos e tendências de comportamento. É uma ideia formada antecipadamente e que não tem fundamento sério"). Nesta definição, a expressão "não tem fundamento sério" está se referindo a um preconceito em pauta, e não à origem deste sentimento no ser-humano. Enquanto uma atitude preconceituosa não tem uma base, uma referência, uma opinião passível de receber a avaliação de "séria", factual, o preconceito em si tem fundamento na sobrevivência das espécies do mundo animal desde sempre. Onde houver o mecanismo da percepção, haverá expectativa, não necessariamente positiva, o que conduz ao preconceito. Repare ainda que na definição acima, o preconceito racial é tão só uma de suas manifestações, dado que ele pode ser até mesmo usado para "tendências de comportamento".

Sou geneticamente preconceituoso no geral, e preconceituoso cultural, intelectual, mental, no particular. No geral, sou igual a todos. Venho do mesmo casal de símios (provavelmente chimpanzés) que todos os meus semelhantes humanos. Se isto leva a deduzir que somos irmãos, o somos de uma irmandade perdida há cerca de 200 mil anos.
Quando o homo sapiens descobriu que podia produzir alimentos, deixou de vagar pelas estepes, fincou raízes (no duplo sentido) e construiu aglomerados. As ameaças dos diferentes deixou de ser ao indivíduo e passou a ser ao grupo, à comunidade, fazendo florescer, além do trigo, o sentimento de território. O preconceito, então como recurso a serviço da sobrevivência de uma tribo, de proteção aos semelhantes, aos "quase iguais", promoveu a construção de muralhas na primeira fase, depois a fronteiras nacionais, mais tarde a áreas de influência, união de nações para o livre comércio, até chegarmos ao terror reinante na defesa de falsas civilizações


Eu e Eremildo somos consequência desta história evolutiva. Quando nos deparamos com um irmão diferente, nos pomos em posição de defesa, em prontidão, prontos para o ataque. É natural. É genético. É humano. Somos irracionalmente preconceituosos. E o seremos enquanto o gene, ou genes, responsáveis por sua existência continuarem a ser replicados no DNA das próximas gerações.

No mundo animal, a cadeia alimentar se sustenta na visão de que outro animal, diferente e convenientemente mais fraco, é desprezível o suficiente para se tornar fonte primordial de alimento. Esta percepção negativa provém exatamente do preconceito, um juízo pré-concebido que respalda a ação para solucionar sua carência de proteínas. Na direção inversa, sendo um animal o diferente para um outro, corre o risco do outro possuir recursos biológicos superiores aos dele e suficientes para considerá-lo desprezível, fazendo-o ter a consciência de que precisa se manter alerta para não ser, literalmente, comido.

Entre os humanos, não foi e não é diferente. Pensemos no homem quando nômade coletor, constantemente frente a outros seres, novos, desconhecidos, humanos ou não, sem o onisciente Google e o onipresente Facebook, sem jornal, sem sinais de fumaça de outras tribos, sem um alguém para perguntar: "E aí, você conhece esse cara?". 

E onde encontrar suporte para resolver questões existencias (literalmente) íntimas que nos acompanham há milênios: "O que esperar deste outro?". Ele é ou não uma ameaça à minha integridade? Devo partir pra cima ou aguardar e aumentar meu risco?

Voltemos à questão das cotas. O papel das universidades, onde "o problema" do fraudador também tem que ser resolvido, não é promover a integração racial. Universidades têm o dever de formar uma elite intelectualmente preparada para assumir responsabilidades que a cada dia se tornam mais complexas de gerenciar. É nesta tarefa que precisam se concentrar, pois, ao serviço público, não cabe ser cabide de emprego para ninguém, sejam negros, brancos, cegos, surdos, mudos, o que seja. Servidor público tem o dever de servir ao cidadão que o sustenta com o máximo de eficiência, seja o serviço prestado por quem quer que seja, de qualquer raça, com ou sem diferença física ou intelectual. Os hipócritas burrocráticos preocupados em facilitar o acesso de não-brancos a universidades e autarquias, deveriam dedicar seus esforços e recursos a promover a maior capacitação das pessoas, indiscriminadamente, para competirem no único sistema capaz de contribuir para o desenvolvimento de uma nação: o meritocrático. E não tem sentido universidade gratuita quando isto significa subsidiar uma elite. À federação cabe garantir prioritariamente o ensino fundamental para todas as crianças e jovens, alicerçando a capacitação que será exigida do futuro cidadão no ambiente da sobrevivência adulta. Subsidiar apenas quando significar a justa recompensa para quem, sem recursos para continuar ou competir, a recebe por merecimento.


O sistema de cotas é absolutamente injusto. E não estou falando da injustiça pelo desmonte da meritocracia, isto é óbvio. É injusto porque discriminatório e preconceituoso na sua concepção, pois privilegia os negros, mas não os da nação indígena, nem os caucasianos europeus (será que sou caucasiano por ser neto de uma alemã e uma portuguesa?), nem os asiáticos de olhos puxadinhos, nem os anglo-saxões de olhos verdes, nem os latinos de olhos castanhos, nem os de qualquer origem com orelha de abano, nem as minorias com lábios leporinos, ou os portadores de vitiligo (perda da coloração da pele), ou de sindrome de Down  etc. etc. etc. Mas tem uma consequência inevitável e universal: incentivo inquestionável ao aumento da intolerância, da discriminação e do preconceito. Os hipócritas preferem tirar o sofá (ou o bode, como queira) da sala, colocando no lugar mais burrocracia(1) (você leu certo) e mais gastos e mais ingerência na vida alheia nossa. A hipocrisia do mandante abandona seu discurso "politicamente correto" e edita que "cada órgão deverá instituir uma comissão avaliadora que fará a verificação" com base em "aspectos fenotípicos". 

Espectrofotômetro.
Como não foi previsto o uso de espectrofotômetros, eu e Eremildo queremos saber como a tal "comissão" irá resolver os casos nebulosos, onde não houver "aspectos fenotípicos" claros que permitam a separação entre "nós e eles" tão proclamada pela lulista esquerda-cabide(2)? Como os candidatos poderão ficar protegidos dos preconceitos, fraquezas morais e interesses dos julgadores? Hummmm! Desconfio que as decisões serão com base na "discriminação" e, para que ninguém leve a pecha de racista, ou de ter avaliado tendenciosamente, a decisão final será por voto da maioria.

Isto poderia ser evitado se os incomodados com eventuais declarações falsas de cor (a razão declarada como fundamento para a norma), em lugar de criar comissões, simplesmente adquirissem este maravilhoso equipamento à disposição  no mercado.  Sua aquisição, preencherá todas as suas necessidades, inclussive pelo fato de a calibração do equipamento ser feita a partir do... preto!!! Que coincidência maravilhosa! Caso aceitem a minha sugestão, por favor me avisem para que possa contactar o fabricante e me tornar seu distribuidor exclusivo no Brasil, o que será bom para todas as partes envolvidas, inclusive porque aqueles 3% (ou 10%, ou 20%, vocês é que sabem) estarão garantidos. Só não garanto a interferência futura da "República de Curitiba".

Sou da raça humana, tenho absoluta convicção disso. Quando me olho no espelho, sempre, invariavelmente, vejo um ser-humano. Minhas manifestações, ações, reações, são características da raça humana como os antropólogos a definiram. Mas se fosse submetido à tal avaliação, conhecedor do princípio por trás da pergunta, não saberia o que responder pois tenho sérias dúvidas em como me enquadra neste conceito de “raça”. Sou consequência, entre outros, de minha avó alemã e minha avó luso-africana. A relevância desta realidade para mim é quase nenhuma. A serventia desta informação está limitada ao âmbito da minha identificação dentro de um ramo da árvore genealógica, me permitndo me apresentar a algumas pessoas dizendo: "Sou seu primo Paulo, filho da Neuza e do Joaquim. Muito prazer!".  O que tem relevância, o que nos importa, é sermos respeitados em nossa individualidade. E, definitivamente, não quero que conquistas possíveis com base em meus esforços, me sejam roubadas por alguém que entra pela janela das cotas.

A hipocrisia não para por aí. Humberto Adami, presidente da Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil [sim, isto existe, mesmo depois de mais de 120 anos do fim da escravidão, e pasme, foi criada pela OAB!!!] apresenta o seguinte argumento: "Essas regras são importantes para evitar fraudes que vêm sendo noticiadas em universidades e, agora, no serviço público". É a comprovação de que eles são mais que esquerda-cabide, eles querem tornar o Estado onipresente, onipotente, não importando os custos e quem vai pagar a conta de todas as comissões, de todos os órgãos, de todos os concursos!!! O propósito é emprego estável para mais "companheiros". Como são incompetentes e não sabem administrar as exceções (4), criam comissões. 

As pessoas em posição de poder, antes de falar e fazer monumentais besteiras, deveriam estudar teoria dos sistemas. Teriam a oportunidade de aprender que para todo sistema que se implante, surgirá um conjunto de agentes fraudadores. Aprenderiam que não há sistema imune a eles. E, por fim, aprenderiam que fraudadores de um sistema que funciona para a maioria, são a exceção e devem ser tratados excepcionalmente.

Coroando a hipocrisia nonsense, a notícia no jornal lembra que uma decisão judicial anulou um pedido da Polícia Federal que, em um de seus concursos, exigia o envio prévio de foto do candidato, porque, simplesmente, tal pedido é INCONSTITUCIONAL porque discriminatório!!!!! E agora? Qual político ou procurador do Ministério Público Federal se apresenta para entrar com uma ação para revogar esta exigência racista, idiota e inconstitucional?

Enquanto os hipócritas pensam que mudam a humanidade com este tipo de caminho, "a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no país; e a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada." Qual a sugestão hipócrita que eles têm para acabar com isso? Estupradores, assassinos, psicopatas, neuróticos, ladrões, fraudadores, hackers, gays, machões, pedófilos, voyeurs, autistas, cegos, diferentes físicos e mentais de toda natureza, e gente como você e eu, continuaram a surgir dos úteros das mulheres do mundo inteiro. Ou descobrimos o lugar e o papel de cada um no complexo sistema das relações sociais, ou nos matamos todos. 

O único caminho que poderá nos levar a uma tolerância para com o diferente é afastando as razões para ser uma ameaça a todos nós, diferentes que somos de todos os demais. O preconceito é parte do conjunto de irracionalidades e instintos que carregamos em nossa constituição. É ele que está na base do nacionalismo, do fascismo, do nazismo, das brigas entre torcidas, entre vizinhos, entre marido e mulher, entre colegas de trabalho, entre companheiros de copo no bar da esquina do chop de quinta. É ele que sustentou a liderança política de Lula fazendo o discurso do "nós e eles".

Em terra de cego quem tem um olho é o Rei, mas os cegos não sofrem preconceito, nem bullying, nem intolerância, e não precisam de cotas. Não existem cotas na China para indivíduos filhos de casais multirracias, que nascem com ollhos "ocidentais". Ou para baixinhos em comunidades Masai Mara. Ninguém precisa de proteção do Estado se o Estado cumprir com suas responsabilidades: criar as condições para que cidadãos e empresas possam competir munidos das capacitações básicas e, em segunda instância, criar e gerir tal competição com base em um arcabouço legal que tal prática seja justa e proveitosa para a Nação, no presente e no futuro.

É por isto que não entendo a dúvida de pais e educadores no debate que acontece, pelo menos no Brasil, se as crianças "especiais" devem ter um tratamento diferenciado, uma escola exclusiva, ou se devem frequentar os ambientes padrões. Se a vida tivesse me reservado um filho com qualquer incapacidade, mental ou física, faria todos os meus esforços para que passasse o máximo de tempo entre os seus. Obrigá-lo a frequentar a escola dos diferentes, seria puro exercício de sadismo e, provavelmente, eu seria um psicopata em algo grau. Não consigo entender o argumento da integração, haja vista que "os normais" continuariam a se ver como normais, ridicularizando-o, enquanto meu filho, "o diferente", não conseguindo fazer o que os outros realizam com extremamente facilidade, se veria sempre como excluído, alimentando sua frustração e sua raiva para com a vida. Não! Ao meu filho eu proporcionaria ao máximo uma existência entre os seus, onde ele pudesse estar em igualdade de condições, onde ele pudesse competir e se orgulhar de seus feitos! E, obviamente, onde ele recebesse atenção, carinho e amor, tanto quanto receberia em casa(3). Estruturado, com sua auto-estima no alto, se olharia no espelho e sentiria orgulho de si mesmo. E entre nós, os diferentes, não se sentiria jamais menor, ou inferior, porque no seu mundo, entre os seus, ele teria valor. Mas isto - e só não o vê quem não quer -, só poderia acontecer em ambientes dedicados aos especiais. Jamais jogado entre as feras com a desculpa de que precisa aprender a se virar sozinho e outros argumentos semelhantes em hipocrisia.

Ao longo de minha vida profissional, 90% do tempo fui administrador de gente integrando equipes para realização de objetivos de negócio. Ao longo dos anos aprimorei valores que transformei em princípios gerenciais. Aquele que considero o mais relevante, parte do fato de que as pessoas não têm qualidades ou defeitos, têm características. Pense no mais eficiente dos soldados do estado Islâmico, aquele que se deixa filmar decapitando jornalistas estrangeiros. Tenho a mais absoluta convicção que ele é um psicopata exemplar, pois só quem despreza a existência do outro em proveito próprio, é capaz de matar com a eficiência merecedora da mais alta aprovação pelos "seus". A partir deste princípio, conduzi minha atuação sempre na busca, mais que o profissional certo para uma função, busquei adequar a função às características do indivíduo. E minha justificativa principal para quem me questiona é: consigo, facilmente, ajustar o fluxo do trabalho, mas jamais mudarei a natureza de uma pessoa. Invisto, portanto, em pessoas que tenham caracteristicas que valorizo. Consigo aumentar, potencializar, uma capacidade nata, mas me é impossível criar dentro de um ser humano o que dentro dele não existe. Um dia, quando pudermos identificar um psicopata por um exame de DNA logo nos primeiros meses de vida, poderemos acabar com a corrupção, por exemplo, direcionando-os para tratamento psiquiátrico e evitando que se tornem políticos.

Eu e Eremildo somos preconceituosos desde minúsculos embriões. Como indivíduos da enésima geração de chita, já não somos tão primitivos quanto nossos antepassados. Neste mundo globalizado, onde trabalho e faço sexo virtualmente, sem nem mesmo a necessidade de saber como é o outro com quem me relaciono, qual o papel do gene do preconceito? Eu e Eremildo temos perdido horas para encontrar uma saída para o beco em que se meteu a evolução da espécie humana: não há mais seleção porque todos vivem o suficiente para se reproduzirem, o que nos leva, como já disse, mas repito, a ter que aceitar a realidade de que novos psicopatas, ególatras, narcisistas, nazistas, fascistas, petistas, comunistas e radicais de todos os matizes continuem nascendo.



Hoje dispomos de recursos tecnológicos que nos propiciam informação num clique de mouse para quaisquer de nossas dúvidas e ignorâncias. É ao Google, ao Face ou ao zap que fazermos a pergunta: "E aí, você conhece esse cara?" Eu e Eremildo, apesar de idiotas, não negamos nossos “instintos mais primitivos”, como o fez Roberto Jefferson apontando o dedo para José Dirceu, e temos, verdadeiramente, nos esforçado para amenizar em nosso íntimo a pressão genética, as mentiras de Dilma, a cafajestice de José Dirceu, a ignorância de tudo de Lula, os discursos de Trump e o terrorismo do estado Islâmico.

Não conheço a natureza e a intensidade dos preconceitos de Eremildo, o idiota. Então, falo por mim: sou preconceituoso até a raiz dos cabelos que um dia já tive. No topo da minha lista estão os que usam o poder para descarregar seus complexos, suas fraquezas, sua ignorância, sua imbecilidade, seu mau-caratismo, sua psicopatia enraizada sobre uma Nação a pretexto de serm proprietários da verdade. Sou absurdamente racista em relação a esta raça de humanos psicopatas em sua estrutura comportamental quando aboletados em um cargo público. Detesto políticos que tomam de assalto o Estado em proveito próprio. Odeio gente que bate à minha porta com a arrogante intenção de me converter para as verdades absolutas nas quais acreditam.


De resto, sempre que a minha irracionalidade se anuncia em uma intenção preconceituosa, me belisco para me lembrar de avaliar meus medos e inseguranças, tentando identificar estes instintos primários e agir para ignorá-los e me manter um sujeito civilizado, respeitando o direito do outro exercer na plenitude sua existência, porque é este respeito que espero dele. 


E no fim, a grande hipocrisia brasileira neste assunto é esta:


(1) BuRRocracia é um blog que mantenho sobre o tema em www.burrocracia.blog.br

(2) Esquerda-cabide é um rótulo meu para aqueles que adoram se pendurar em um bom emprego público e se arvorar possuidores da verdade absoluta.

(3) Sobre este tema, indico a leitura de "Longe da Árvore", de Andrew Solomon (um diferente). Acesse esta boa resenha no site da própria editora.

(4) Faz alguns anos, escrevi um texto explorando a diferença entre administrar "por" exceção e administrar "a" exceção.