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quinta-feira, março 11, 2021

O NOVO ANORMAL: MANIPULAÇÃO DOS FATOS


"Os próprios déspotas não negam que a liberdade seja excelente; mas a querem apenas para si mesmos e sustentam que todos os outros são totalmente indignos dela."

Alexis de Tocqueville

Nesta postagem vou usar um exemplo ligado à política, mas não vou falar de política.

Se a Era Digitrônica antes da pandemia já nos apresentava um "novo mundo", agora, depois das mudanças de hábitos impostas por nossos governadores em mal alegado combate à pandemia de COVID-19, nos traz muito, muito mais que um "novo normal" como inicialmente imaginamos e inocentemente previmos nos primeiros meses de 2020. Muito além das novas práticas cotidianas de asseio, distanciamento social e uso de máscara, nos assediam digitalmente em nossos celulares com práticas moralmente duvidosas que nos levam a refletir sobre quais serão as regras que nortearão, daqui pra frente, o nosso comportamento  ético em sociedade. Uma coisa já é certa: o nosso antigo normal está sendo violentamente corrompido e, para gáudio da esquerdopatia, sendo "desconstruído" pelas beiradas e substituído por um "novo anormal".

A natureza humana abarca todo um espectro de alternativas que vão desde indivíduos psicologicamente razoáveis, até aqueles que habitam o extremo da psicopatia com pitadas de esquizofrenia (1), passando, como sempre, pelos crédulos contumazes, inocentes úteis a ambos os extremos, e não esquecendo dos que hoje são chamados de isentões. Lembremos que na massa todo indivíduo é um bárbaro. Mas vou me ater ao extremo mais doentio. 

A difamação, a acusação eivada de falsidade, a manipulação de fatos, a descontextualização de falas no intuito de iludir desavisados, a maquiagem que embeleza o feio e a vilania, não são novidades nesta nova Era, pois sempre integraram o processo de aperfeiçoamento da civilização. O novo é (1) o potencial das ferramentas digitais de edição dos fatos, (2) o poder de disseminação das mensagens (em sentido amplo) para, literalmente, o mundo todo,  (3) a quase total impunidade para os falseadores/manipuladores, e (4) a facilidade que estes têm de abarcar apoiadores/seguidores expressa na quantidade de "likes".

Propagar o falso, o ignóbil, até então, tinha um limite muito estreito de consequências dado que a disseminação sempre estava sujeita a uma relação um-para-um, fosse via presença física, fosse através de uma ligação telefônica, fosse pelo envio de uma correspondência. Tais recursos redundavam em uma taxa de expansão muito lenta, permitindo tanto a reação, a tempo, à calúnia, ou ao que fosse, quanto por morte do tema ao findar o interesse na replicação. 

A Digitrônica, ao criar a relação um-para-muitos-milhões, simplesmente retirou do quadro de alternativas possíveis, tanto a possibilidade de reação a tempo, quanto de obsolescência da mensagem, pois, tal como os elefantes, a "internet nunca esquece".

Vários aspectos da nova Era podem, e devem, ser analisados (como Inteligência Artificial, privacidade, infinidade de informações na nuvem, censura oficial judiciosa, censura não governamental nas plataformas etc.), mas me atenho ao que diz respeito à dimensão da digitrônica, o suficiente para projetarmos um futuro em que nossos valores e nossos padrões de comportamento serão radicalmente diferentes dos que aprendemos e praticamos até hoje. E quando uso "nós" estou me referindo à humanidade composta por nossos descendentes muito mais do que a nós, viventes do presente. Fiquemos razoavelmente tranquilos, portanto, não estamos imunes a cair em desgraça, mas a probabilidade é pequena, bem menor que contrair a COVID!

Não me alongo mais. Apresento o que me motivou a tratar deste assunto. 

Recebi o vídeo a seguir no dia 9 de março de 2021, o "day after" da decisão de PT-Fachin anulando todas as sentenças já formadas e firmadas contra o "barbudo de 9 dedos". Aguardo você assistir antes de prosseguir:


Enquanto assistia e até o fim, tinha a impressão de que alguma coisa estava errada, não casava, não era... crível. É notória a fama de "cachaceiro" do velhinho, mas é razoável imaginar que um "cumpanheiro", estando ao seu lado seja lá em que recinto, era pessoa de sua confiança. Não dá para acreditar que tal indivíduo, não sendo um bolsonarisa, gravaria um recado para seguidores em momento tão significativo estando o personagem... bêbado? Pior ainda, imaginar que ele distribuísse tal "flagrante" nas redes sociais. Difícil de admitir tal desatino. Tendo esta percepção, fui ao Youtube e digitei "manda recado seguidores instagram". Eis o que encontrei.

 

Ficou surpreso? Saiba, portanto, que isto, e coisa ainda pior, pode acontecer com você se um demente resolver transformá-lo em alvo da ira por qualquer fala ou ato que você um dia venha cometer. Nem é preciso editar no sentido de "cortar e colar". Basta "dilatar" o tempo do vídeo e você fica... de porre. Difamar não é preciso, nunca foi, mas agora é muito fácil!

Só que...

O engano não ficou nisso. Ao olhar a data do vídeo descobri que este "recado" foi para seus seguidores quando ele saiu da prisão em 8 de novembro de 2019!!! Ao mentecapto imoral que fez uma edição arrastando o tempo do vídeo para criar a impressão de embriaguez, se associou outro desprovido cognitivo que aproveitou um outro evento para trazer de volta tal façanha pelo simples motivo que "difamar é preciso" para atender um intelecto malcheiroso que não consegue elaborar argumentos para sustentar suas crenças e valores. 

Atenção!!! Não sou lulista, espero que as próximas eleições joguem esse corrupto cínico para o limbo da história, mas, o quanto minha coragem intelectual permite, evito ser hipócrita. Não sou canalha, não sou bandido, e tenho princípios (2) dos quais não abro mão, entre eles o de não ser um "oportunista fanático messiânico" na construção e, principalmente, na divulgação de minhas opiniões.

Finalizando. Descobri a internet em 1996 e me deslumbrei. Frequentando-a diariamente desde então, evoluí meus conceitos sobre liberdade de expressão e seus limites, sobre respeito à individualidade, sobre natureza humana, e sobre regras básicas de convivência sadia. Continuo deslumbrado. É um "admirável mundo novo" tanto em sua melhor expressão quanto na pior delas. Nem nós, nem nossos filhos, estávamos capacitados para absorver a tal tecnologia em tão curto tempo. A rapidez de sua introdução na vida cotidiana foi e ainda é muito mais rápida que nossa capacidade de aprendizado. Nos resta relaxar e dar tempo ao tempo.

E, cuide-se. Não faça/fale/repercuta besteira. Você pode ser a próxima vítima!
 

(1) Esquizofrenia é uma perturbação mental caracterizada por episódios contínuos ou recorrentes de psicose. Os sintomas mais comuns são alucinações (incluindo ouvir vozes), delírios (convicções falsas) e desorganização do pensamento.

(2) Edmund Burke: Os princípios são a razão reta, expressa na sua forma permanente, e as abstrações são a sua corrupção. A conveniência é a sábia aplicação do saber geral às circunstâncias particulares. O oportunismo é a sua degradação.

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sexta-feira, novembro 20, 2020

MUNDO NOVO, ADMIRÁVEL OU ABOMINÁVEL? – O FUTURO


A existência de uma ditadura depende da ignorância da massa.

Ryszard Kapuscinski, jornalista polonês


Não tenho bola de cristal, não sou vidente, nem profeta do apocalipse. Vejo o presente, e com a vivência e mínimo conhecimento histórico, faço cá minhas deduções. O que percebo é um futuro que, se não for negro, se avizinha com contornos cinzentos.

O FUTURO NAS REDES SOCIAIS

Uma tecnologia imaginada para ser libertadora é hoje uma ferramenta castradora do direito à livre manifestação de opinião, e manipuladora da “verdade” para atingir objetivos econômicos e políticos tanto de indivíduos quanto das oligarquias, independente das ideologias, dos regimes políticos e do nível de psicopatia de quem dela faz uso. A quantidade e a intensidade das arbitrariedades estão em plena escalada. De indivíduos postando nas redes sociais ataques grotescos a quem emite opinião divergente, a ministros da suprema corte criando um inquérito “das fake news” que só reprime aqueles alinhados com o presidente da república, passando pela absurda censura promovida pelas próprias plataformas motivadas pelo medo de possíveis ações de uma justiça que tem olhos bem abertos para a proteção de seu próprio umbigo. Como escalada não vai parar por aqui. Não me arvoro determinar como isso acabará, mas uma tendência só arrefece quando atinge um ponto tal de saturação que dá razão, incentivo e momento para uma tendência contrária se mostrar viável.

Para ilustrar a nuvem de confusão que paira nos neurônios de dirigentes ao redor do mundo, vejam o que vi. Ao acessar um conteúdo no site da Folha, me deparei com um banner com a seguinte mensagem: “Vamos combater as notícias falsas. Para vencermos isso juntos, o Whatsapp, 1, limita o compartilhamento de mensagens altamente encaminhadas, 2, mostra quando uma notícia é encaminhada, 3, limita o número de participantes nos grupos”. Aguarde para breve a ação 4, 5... Não existe lei, apenas o aplicativo só aceita que você se comporte do jeito que eles (dirigentes) querem. Releia prestando muita atenção! O que considerávamos ser uma questão técnica é reconhecido publicamente pela plataforma como ações que visam impedir ou limitar a liberdade de expressão e opinião. O motivo declarado é “combater as notícias falsas”!!! Afora o fato de “notícia falsa” ser sempre aquela que vai contra os interesses do julgador, independente de o fato abordado ser falso ou não, para a dita plataforma TODA notícia, ou melhor, TODA mensagem distribuída nela é falsa, bastando considerar que as restrições valem para TODAS as mensagens!!! (1)

SEGURANÇA NO USO DA TECNOLOGA DIGITRÔNICA

Você já percebeu como se tornaram corriqueiras as tentativas de invasão de celular? E as invasões em computadores? E o sequestro de dados para posterior pedido de resgate? E quantos desses casos você tem visto as polícias chegarem aos autores e a justiça os condenar? O número de ataques para roubo de dados bancários cresceu 43% no primeiro semestre de 2020!!!  Se a impunidade é o combustível da criminalidade, que nível de caos o sistema financeiro terá que atingir para que algo (que algo?) seja feito?

AINDA HÁ SENTIDO NO CONCEITO DE PRIVACIDADE?

Não creio. Sou mais por considerar que privacidade pertenceu ao mundo analógico quando palavras como discrição, recato, humildade, proteção da intimidade, eram valores aplaudidos e copiados. Se na segunda metade do século XX, o auge era ter seus 15 minutos de fama, o êxtase nesta primeira metade do XXI já é ter “seguidores” (meu neto me confessou ontem que já tem 5!!!). Isso à custa de expor boa parcela de sua intimidade, deixar a humildade para os fracos e exaltar seus feitos, por menos relevantes que sejam. Sempre haverá uns tantos para lhe dar umas bajuladas, umas escovadas no ego e uns necessários “likes”.

O COMÉRCIO ELETRÔNICO

Enquanto o comércio eletrônico cresceu e ainda cresce na pantrônica, a parte da classe média oriunda do pequeno comércio está sendo dizimada. O  hábito de comprar pela Rede é cada dia mais praticado. No futuro não será mais necessária uma pandemia para nos trancafiar em casa, vai ser uma opção voluntária. Tudo pelo whatsapp, transportado por Uber Eats, pago com Betoni e via Pix! Espelho meu, há um ser mais digital do que eu!?

AS MÍDIAS TRADICIONAIS

Perderam seu poder. Num processo de negação pela morte anunciada, manipulam e distorcem os fatos numa tentativa desesperada de enganar uma audiência em declínio(2).  O tempo encurtou para tudo. Não temos mais tempo/saco para ler e as revistas e os jornais impressos veem suas tiragens despencarem vertiginosamente (bancas fecham ou viram lojinha de bugigangas). Queremos informação rápida, mastigada, sintetizada, e isso é o que obtemos tanto nas redes sociais quanto nos canais do Youtube. A Netflix me entrega via Smart TV, filmes, séries e documentários muito superiores às “antigas” novelas da rede Goebles. Sair de casa pra quê? Correr o risco de ser assaltado por algum excluído da digitrônica? Tô fora!

O HOME OFFICE

O espaço encurtou para os profissionais qualificados. Eles não precisam mais de salas, mesas, cadeiras, secretárias, contínuos, pois muito pode ser feito pelo computador no sofá de suas casas, ao som das arruaças das crianças e dos reclamos da mulher, quando as há. Quando não, fiquemos na companhia de uma obrigatória solidão tediosa. O home office, se não vai ficar do jeito e intensidade que está, veio para ficar. Se arrumar, pegar o buzão ou enfrentar um engarrafamento, andar uns quarteirões, dar alguns bons dias, trabalhar no convívio com os pares, chefes e subordinados, e “discutir o futebol”, será exclusividade dos menos qualificados.

ENSINO

Vou pular as questões "escola sem partido" e "ideologia de gênero" por imbecís de mais que são por si só. Atentemos apenas para o conteúdo curricular que já vem sendo questionado há muito tempo. Com a digitrônica, o ensino (abrangendo o professor, o aluno, o conteúdo e a disciplina) tal como até aqui, morreu, só ainda não contaram para o corpo docente, principalmente dos vinculados ao Estado, por causa do risco de uma rebelião por ameaça de perda de privilégios. Existem apenas duas matérias a serem aprendidas: língua pátria e posturas e cuidados no trato com a digitrônica. O resto, se aprende pesquisando, clicando e copiando quando a necessidade exigir.

DEMOCRACIA EM CRISE INTESTINAL

A democracia analógica derrete enquanto nada é proposto como alternativa. Minorias se multiplicam por todos os lados ocupando os espaços que uma maioria desarticulada não encontra seu ponto de unificação. Estamos nos confrontando com uma sociedade do mimimi – a moda pós a do politicamente correto. Jovens de iPhone clamam por uma igualdade di direitos que significa reivindicar uma igualdade de privilégios sem custo, caídos do céu, ou vindos da “nuvem”, ou, em última instância, usurpado de quem ralou para conquista-la (3). Só não dizem quem paga a conta, pois imaginam que “vaca dá leite” (4). Em síntese, não há como a democracia, tal como estruturada até aqui, conseguir se sustentar sob o ataque da dinâmica da comunicação digitrônica.

Não sei como será o futuro, mas não gosto de imaginar a evolução do que vejo neste meu presente. Não por mim, que não estarei mais por aqui, mas meu coração fica pequenininho quando penso nos filhos e netos de todos nós.

Deixo agora você com seus ícones, teclas e toques a pensar num futuro quase presente. De minha parte penso que não será abominável porque o ser humano é absolutamente resiliente, por esta característica é que eu e você existimos, mas temo, sinceramente, que não será admirável.

(1) Em Admirável Mundo Novo, há um diálogo em que o personagem Diretor afirma que o segredo para a felicidade e virtude dos cidadãos é “fazer as pessoas amarem o destino social do qual não podem escapar”.

(2) Sobre inversão de fatos lembro Bonner e Maju. 

(3) “No final, tudo se resume ao mesmo objetivo: um grupo querendo viver à custa do outro; um grupo querendo confiscar a renda do outro; um grupo querendo tolher a liberdade do outro em prol de seus "direitos".” Lew Rockwell, é chairman e CEO do Ludwig von Mises Institute.

(4) Assista este trecho de uma palestra do Mário Sérgio Cortella.

Este texto contribuiu para aprimorar sua visão sobre o tema? Se você tem um comentário, uma sugestão ou uma crítica a fazer, você pode usar o formulário de cpntato aí ao lado, ou, se souber, meu whatsapp particular.  Por importante, serei grato pelo seu feedback.

sábado, março 30, 2019

A CONSCIÊNCIA DOS EXCLUÍDOS - Parte IV

Postagens anteriores: A Consciência Dos Excluídos - Parte I - A Consciência Dos Excluídos - Parte II - A Consciência Dos Excluídos - Parte III

Sentir-se excluído do que quer que seja, não enseja como consequência inevitável, tornar-se um assassino solitário ou em série, um suicida, um traficante, um estuprador ou um bandido de qualquer naipe. É preciso ter uma base, um alicerce, que sirva de sustentação para as ações de revolta. 

A psicopatia(*), para uns, é um distúrbio psíquico (condição adquirida por eventos ao longo da vida), enquanto, para outros, é neurológico (genético). Para o que nos interessa, a origem não tem relevância, apenas sua existência, pois significa que o portador desta condição tem como característica fundamental a total insensibilidade aos sentimentos alheios. É este estado emocional que o faz cometer um leque de maldades sem que sinta o mínimo remorso ou culpa de seus atos cruéis (mais adiante discordo parcialmente desta última conclusão) (**).  

Psicopatas sempre existiram, é uma das alternativas de constituição de um ser humano. Seus atos estão apenas mais expostos nos dias atuais, tanto pelo imediatismo da informação, quanto pela tecnologia, basta nos lembrarmos da câmera transmitindo ao vivo o australiano assassinando pessoas na Nova Zelândia. 

A psicopatia, portanto, vem à frente da frustração. Indivíduos no poder não precisam se sentir frustrados para roubar uma empresa estatal - em benefício próprio e de políticos comparsas ou mandantes -, sem pudor, remorso ou culpa, mas só enquanto não são pegos (depois choram e fazem delação premiada). E no caso de executivos em ascensão meteórica, o estímulo da frustração é facilmente substituído pela ganância, o que lhes facilita enormemente destruir competidores, sem dó nem piedade, no trajeto ao topo (***). Assim como o psicopata não precisa da frustração para se manifestar, o frustrado não carece da psicopatia para mostrar sua insatisfação, basta nos reportarmos às manifestações dos coletes amarelos na França, ou à passeata do 13 de junho de 2013, no Brasil.

Há de existir um "elemento-gatilho", algo que dispara a ação psicopata. Acredito que 99% das manifestações psicopatas são contra alvos não rotulados, ou difusos, não personificados. Tais atos são considerados de interpretação moral subjetiva, dependendo de que lado se está. Para o autor da ação, a justificativa é inocente, do tipo "só estou cuidando dos meus interesses", "se não for eu, será outro", e por aí vai. Apenas não olham para trás, e assim não enxergam as vidas despedaçadas que deixam pelo caminho, o contingente de "almas" destruídas (Sérgio Naya em relação às vitimas do Palace II é exemplar).

Sobra-nos o 1% quando o alvo é a aniquilação de vidas humanas. Nestes casos, o gatilho que dispara a ação e aciona a arma, tem origens mais profundas. No meu entender, está no fundo do sentimento de frustração em se ver vítima de um outro, de um grupo social, econômico, étnico, ou de um governo, ou de uma injusta decisão divina. Seja nos tantos estupradores e feminicistas do cotidiano brasileiro; em Adélio, no caso Bolsonaro; nos dois jovens de Suzano; nos tantos outros aderentes ao Estado Islâmico; ao não tão jovem serial-killer de Cristchurch; em todos estes casos, houve um fato "click", o acionador do interruptor que ligou sinapses com destino certo: acabar com a vida de outro(s). 

O leque de "clicks" a que me refiro, é de raio infinito. Pode ser uma mulher em uma rua deserta, pode ser uma dada interpretação do texto sagrado, pode ser, nos dias atuais, o hábito de matar personagens em jogos eletrônicos. 

E aqui estou chegando ao fim destas quatro postagens. Tanto no caso de Cristchurch, quanto no de Suzano, minha convicção é a de que os assassinos agiram sob um surto psicótico que os levou para dentro de um jogo de guerra em uma tela de computador (resultado de psicopatia+frustração+estímulo). Em ambos os casos eles se viram atirando em personagens de desenho animado. Mas em Suzano, aconteceu algo mais. Ao perceber a chegada da polícia, o jovem de 17 anos acorda do transe, percebe o terror de seu ato, mata seu amigo e parceiro, e se suicida (por este fato minha discordância quanto a nunca "sentir o mínimo remorso" citado no 2º parágrafo).

Há quem esteja atribuindo "ao lado negro da internet" a razão de tal massacre. É, como se diz, atribuir ao sofá a traição do cônjuge, ao invés de aceitar o direito inalienável, inevitável, do outro decidir o que fazer com o... sofá. Quantos milhões e milhões de crianças têm estado nestes últimos anos à frente de telas de computador por horas a fio assumindo o controle de personagens rambóticos à caça de inimigos saídos da imaginação de mentes, no mínimo, extremamente criativas? Quantos deles estão se transformando em potenciais reais matadores? Que tal olhá-las como crianças felizes com o prazer de estar brincando com o aquilo que o mundo contemporâneo lhes está a disponibilizar?

Quando criança, adorava jogar búlica(****) na beira do rio (minha mãe me pegava pela orelha para ir almoçar). Para ganhar era preciso não deixar que os outros meninos chegassem primeiro na última búlica. A estratégia era "tecar" com força a bolinha de gude de um adversário, mandando-a para o mais distante possível. Nem por isto, quando adolescente ou adulto, me tornei um atirador de bolas de vidro na cabeça dos outros!!!

Até o próximo tema, espero que no próximo sábado!  



(*) Para saber sobre psicopatas .

(**) Em média, entre 1% e 3% da população mundial pode ser classificada como psicopata. Neste artigo da BBC, você tem mais informações. 

(***) É interessante o que está acontecendo atualmente com Jorge Paulo Lemman - o mago da meritocracia e do ¨fodam-se os demais" -, seus sócios e suas mega-empresas (ver revista Época de março/19).

(****) Conheça as regras do jogo de búlica..


As imagens aqui inclusas foram obtidas na internet e sem identificação de autor. Caso você seja autor de alguma, por favor me informe para que possa incluir o crédito.

quinta-feira, setembro 27, 2018

REFLEXÕES CAÓTICAS: Façam suas Apostas!



A 10 dias do primeiro turno destas eleições de 2018, vivenciamos o que "nunca antes na história" do mundo e, em particular, do Brasil, aconteceu. Novas variáveis, ou variáveis significativamente modificadas, tornam imprevisível o resultado final.

Se em 2014 a internet em muito pouco contribuiu para o debate político-eleitoral, em apenas 4 anos a disseminação/distribuição de informações, verdadeiras e falsas, pelas redes sociais, se tornou o fundamental meio para os candidatos chegarem ao cidadão, eleitor ou não, bastando-nos ver o exército de internautas, pagos e/ou voluntários, que os principais postulantes à presidência montaram. Nesta dimensão, isto é novo.

As leis eleitorais mudaram. Mudou a fonte de financiamento. Reduziu-se o prazo de campanha e consequentemente o tempo de televisão e rádio. O poder judiciário, em especial o STF, é instado a dar respostas aos mais inconcebíveis (a esta altura) questionamentos. Ontem o Supremo reuniu-se em plenário  para decidir sobre o óbvio: se o prazo de cadastramento biométrico venceu, então, venceu! Hoje, terá que se pronunciar sobre quanto os partidos devem - ou podem, ainda não se sabe este detalhe - gastar com propaganda de candidatas!!! Isto num país em que nem as próprias candidatas a vereadora votaram nelas próprias na eleição municipal de 2016 que teve quase 14.417 candidatas sem receber nenhum voto!!! Ver no site do TSE.)

Se em 2014, um candidato não concorreu por ter sido fatalmente vitimado em um acidente de avião, neste 2018 temos, como líderes da corrida até aqui, um presidiário a quem a justiça eleitoral vem permitindo que se apresente como candidato fantasma e alter-ego de sua representação física, e outro que há 3 semanas conduz sua campanha da UTI de um hospital, após ser esfaqueado em uma tentativa de assassinato.

Enquanto a eleição presidencial passada foi pautada pelo confronto entre esquerda radical e esquerda moderada, PT/PSDB, e os nomes envolvidos tinham alguma relevância, a deste ano os nomes não têm qualquer importância, pois está radicalizada entre extrema esquerda, PT, (com todos os partidos do espectro unidos após o primeiro turno, se houver) e uma pretensa extrema direita solitária, PSL (poucas adesões são previstas). Numa formulação mais simplificada: ou somos p-tilulistas, ou somos anti-p-tilulistas.

Adicionemos a isto, o viés politicamente correto que norteia os embates entre as facções. De um lado, ataca-se o outro por homofobia, racismo e machismo. Já o outro ataca o um por corrupção, aparelhamento ideológico das instituições do Estado e implantação da ideologia de gênero nas escolas públicas.  De uma lado, deseja-se incrementar o processo estatizante dos últimos anos, enquanto o outro quer esvaziar o Estado transferindo praticamente tudo para a iniciativa privada. Não há acordo possível em tamanho grau de oposição.

Levando em consideração tais variáveis, quais são suas apotas, se é que você tem coragem ou falta de juízo suficientes para fazê-las?

As pesquisas de hoje indicam alguma coisa pra você?

As pesquisas da próxima semana serão mais indicativas?

O que influenciará mais a decisão de voto nesta eleição: o horário eleitoral, as mídias sociais ou os resultados de pesquisas?

Que peso efetivo terão as mídias sociais de hoje até dia 7 de outubro para a definição (manutenção ou mudança) do voto de cada cidadão?

As fake news se intensificarão daqui por diante ou já estamos cansados disso?
A radicalização se manifestará de algum modo na boca-de-urna?

Haverá segundo turno para presidente? 

Ou um dos candidatos fará maioria de 50% mais 1, já no primeiro turno?

Na hipótese de segundo turno, o que será "matador" como técnica de embate entre os dois candidatos: se construir ou desconstruir o adversário?

Considerando que as primeiras pesquisas pós resultado do primeiro turno mostrarão como as forças opostas se aglutinarão, o horário eleitoral e os debates poderão causar alguma mudança no quadro inicial observado?

Quem ganhar, conseguirá minimamente conduzir o governo por 4 anos ou continuaremos a nos aprimorar em contestação de toda sorte, até mesmo, e provavelmente, pedidos de impeachment?

Dado o caráter plebiscitário da eleição para presidente, é muito provável que o eleito o será por pequena diferença e o será por uma minoria se comparada com a soma dos votos do perdedor mais os votos não computados (branco, nulo e abstenção). Nesta hipótese, o vencedor conseguirá implantar suas propostas em curto e médio prazos tendo tanta oposição?

Se a esquerda ganhar, Lula será solto? Se solto, governará da Casa Civil? 

Se a direita ganhar, o exército terá algum papel nos rumos do governo e na estabilidade política?



FAÇAM SUAS APOSTAS! OU NÃO!








domingo, novembro 06, 2016

A DEMOCRACIA SOB INVESTIGAÇÃO


Para os mais atentos, ligados nas reflexões políticas e econômicas, no entendimento das crises do hoje com vistas a projetar possíveis modelos futuros, já é possível identificar que a democracia começa a ser questionada e colocada sob investigação, não apenas no Brasil, como nosso umbigo nos leva a crer, mas em todo o mundo, particularmente no ocidente pela razão simples de ser uma região com predominância das liberdades individuais, tais como de expressão e religião, ao contrário dos países orientais, onde o Estado ou a Religião ou ambos, mantêm forte controle sobre os desejos e comportamentos dos cidadãos.

Ao participar do programa Painel, da Globo News, do dia 5 de outubro de 2016, o professor Eduardo Viola, titular de Relações Institucionais da Universidade de Brasília, apresenta o conceito de "disfuncionalidade democrática", a noção de que a democracia como exercida até há pouco não atende mais às demandas de uma sociedade que, dados os avanços tecnológicos, se move à revelia e à margem dos sistemas de governo. Ele sugere até mesmo que deixamos de eventualmente ser uma plutocracia - regime a serviço dos mais abastados - para um sistema que o cientista político Philippe C. Schmitter(*) chamou de politocracia, onde o sistema democrático deixa de estar alicerçado no governo do povo pelo povo, para servir aos interesses particulares dos políticos e distanciados das demandas da sociedade.

A democracia está em crise na Turquia, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Venezuela e no Brasil, não só, os cito apenas para mostrar que a motivação do debate não é regional, não tem respaldo na longevidade das nações, ou nas características peculiares das diferentes culturas. Há algo no ar "além dos aviões de carreira" a obstruir a visão dos cidadãos, de todos os povos governados por regimes democráticos.

Todos vêem que está errado. O que existe não serve mais, mas ainda não enxergamos o que poderá nos servir como um sistema razoável para resolver os impasses presentes e os anseios futuros.

Tudo isto, na minha humilde opinião, tem como pano de fundo a revolução que as tecnologias computacionais e de comunicação provocaram nos últimos 10 anos. Apple, Microsoft, Google, Facebook, Twitter, Youtube e Whatsapp, estão bagunçando com tudo o que sabíamos até aqui. Tudo o que aprendemos cansativamente nas escolas e na vida, virou lixo. O mundo mudou num movimento de baixo para cima. São as comunidades tecnologicamente instrumentalizadas demandando pressão para que as oligarquias no poder apresentem novas soluções. Por bem ou por mal, sinto prever.

Meu colega de trabalho está a uma distância desconhecida ao qual me conecto a megabytes por segundo. Trabalho de minha casa, sem qualquer necessidade de ir à empresa para a qual presto serviço. Faço compras com cliques em uma loja virtual totalmente em português, onde compro produtos diretamente da China e entregues por correio em minha casa. Antes de ir à consulta médica já sei tudo sobre a provável doença que tenho, tratamento, remédios, dieta a seguir etc.

Saber multiplicar pra quê? Raiz quadrada!!! O que uma planilha não resolve num clique? A capital do Tibet? Vou ao Google. Descobrir o significado, o sinônimo, a origem, da palavra, do conceito, vou à Wikipédia. Saber sobre o candidato, saber suas ideias, suas manifestações no passado, vou ao Youtube. Dizer o que penso ou questionar o que outros pensam, dar minha opinião não-abalizada sobre tudo, contar meus feitos, encher meu ego, me conecto e exponho no Face. Alertar meus familiares e amigos sobre qualquer coisa, pedir apoio a uma causa, repassar uma piada de bom ou mau gosto, posto uma mensagem no Whatsapp. Pressionar um político, dar sugestões, cobrar compromissos assumidos em campanha, mando uma mensagem eletrônica.

Nesta nova realidade cotidiana estamos fazendo muitas perguntas.

Democracia representativa para quê? 513 deputados federais para quê? 81 senadores para quê? Centenas de deputados estaduais para quê? Milhares de vereadores para quê?

Reforma política? Presidencialismo ou parlamentarismo, que importância isto tem? Voto distrital? Voto em lista? Permissão de coligações ou não?

Partidos políticos? Que necessidade de nossas vidas eles são capazes de atender?

Não entender que tudo, politicamente falando, terá que ser revisto, só prolongará nossa agonia atrasando a busca de novas soluções. A democracia como está, em particular a brasileira, precisa ser posta sob investigação. Quanto mais cedo, melhor.


(*) Há uma entrevista muito interessante deste cientista neste link (http://poliarquiaufrgs.blogspot.com.br/2011/03/philippe-schmitter-o-brasil-nao-precisa.html), dada em 2011 ao jornal Valor Econômico quando ele esteve no Brasil.




terça-feira, abril 21, 2009

IMAGÉTICO INTANGÍVEL

Estou lendo "A Nova cultura do Desejo", de Melinda Davis, antropóloga por formação, consultora de marketing por profissão. A proposta é discutir, destrinchar, entender as consequências dessa era de preocupações imagéticas que nos domina 24 horas por dia. Para quem está ligado nisso, é uma excelente leitura.