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quinta-feira, outubro 07, 2021

REFLEXÕES MIMIMÍSTAS

"A vontade deve ser mais poderosa do que o sofrimento físico e moral." 
Zenão de Cítio


Vou concordar com o Fiúza. Os conceitos direita/esquerda, conservadorismo/progressismo, liberalismo/estatismo, realismo/utopismo, e outros mais, não servem para sintetizar, ou minimamente explicar as diferenças entre os dois lados da moeda política circulante neste século XXI. Minha percepção é de estarmos sob o embate entre duas posturas de existência. Ou nos comportamos como vitimas da crueldade das tragédias da vida e clamamos por algo ou alguém que delas nos livre ou proteja, ou agimos como protagonistas altivos, livres e corajosos na superação cotidiana dos obstáculos que nos são apresentados consequentes, tanto de nossas escolhas, quanto de nossos infortúnios. Portanto, daqui em diante vou ver a dicotomia entre dois modos de vida como sendo entre os vitimistas e os estoicos[1].

Chamamos, jocosamente, de mimimístas aqueles que se encaixam no primeiro grupo. Aqueles que avaliam tudo que lhes acontece como indevido, imerecido ou injusto, seja resultante da herança genética, da ação do Outro na interação social, ou de ações do Estado em qualquer uma de suas três esferas de poder. A reação deles é sempre a de atribuir sua condição, seu sofrimento, sua mediocridade, sua incompetência, a algo fora de si mesmo, e sempre através de um “mimimi” choroso, um pobrecoitadismo encharcado de covardia, inveja e ressentimento.

São estoicos[2] aqueles para quem "a virtude é suficiente para a felicidade" e que, seguindo esta crença como princípio norteador de suas ações, ficam imunes aos infortúnios.

É destes conceitos e de outros a eles relacionados que proponho um exercício de reflexão a partir de alguns pensadores. De minha parte, considerando que tudo é passível de interpretação, ganhei a convicção de que ser ou não vitimista é a condição “sine qua non” para definir as preferências políticas independente de conceituações e formulações de sistemas oriundos da cabeça de integrantes da “intelligentsia” contemporânea.

 

Boas reflexões!!!

 

VITIMISMO

AYN RAND (1905/1982)

Recuso-me a pedir desculpa por ser mais capaz – não aceito pedir desculpa por ter tido sucesso -, me recuso a pedir desculpas por ter dinheiro. (...) quando se violam os direitos de um homem, violam-se os direitos de todos, e que um público constituído de seres desprovidos de direitos está fadado à destruição.

BRUCE BAWER (1956/...)

“Estamos assistindo à ‘revolução das vitimas’”.

FLÁVIO GORDON (1979/...)

”Algumas pessoas ou categorias de pessoas são sempre oprimidas, mesmo quando eventualmente oprimem. Os ‘negros’ são necessariamente oprimidos, os ‘brancos’, opressores...”[e por aí e além].

THEODORE DALRYMPLE (1949/...)

 [Vitimização é] “A fuga da responsabilidade.”

“Os que creem que a culpa de nossos males está em nossas estrelas e não em nós mesmos ficam perdidos quando as nuvens encobrem o céu.”

THOMAS SOWELL (1930/...)

[No final do século XIX] “já havia, entre muitos intelectuais, a ideia de se dirigir as massas, uma ideia que incumbia a terceiros a tarefa de dar sentido para a vida delas”.


ESTOICISMO

GAZETA DO POVO – 10/9/21

“Mano Ferreira falar sobre Luiz Gama, o escravo baiano que se alfabetizou sozinho, formou-se em Direito e ajudou a libertar centenas de escravos, e sobre como o combate às desigualdades raciais pode andar lado a lado com a defesa do livre mercado.”

JORDAN PETERSON (1962/...)

 “É a responsabilidade que dá sentido à vida.”

MARCO AURÉLIO (121/180)

“Quando algo ameaça lhe causar dor não é uma desgraça de forma alguma. Suportá-lo e prevalecer é o grande êxito.”

“Se é tolerável então tolere. Não reclame. Muito mais dolorosas são as consequências da raiva do que as suas causas.”

VIKTOR FRENKL (1905/1997) - prisioneiro em campo de concentração)

“Entre o estímulo e a resposta, o homem tem a liberdade de escolha.”


RESSENTIMENTO, RAIVA, ÓDIO

[A raiva, a inveja, o ciúme, o ódio, são sentimentos humanos. Enquanto os estoicos procuram reduzir tais manifestações ao mínimo, ou mesmo delas libertar-se, os vitimistas as enfatizam para angariar "vantagens competitivas".]

[Na massa todo indivíduo é um bárbaro.]

AYN RAND (1905/1982)

“Sabe o que caracteriza o medíocre? É o ressentimento dirigido às realizações dos outros.”

EDMUND BURKE (1729/1797)

“A raiva e o delírio destroem em uma hora mais coisas do que a prudência, o conselho, a previsão não poderiam construir em um século.”

“Quando o ressentimento alimenta a turva, as massas são como boias à deriva, e sem rumo definido não chegaremos a lugar algum desejado.”

JEAN-FRANÇOIS REVEL (1924/2006)

“O ressentimento é o alicerce da filosofia comunista.”

JEAN-JACQUES ROUSSEAU (1712/1778)

“Que admirem quanto quiserem a sociedade humana, nem por isso deixará de ser verdade que ela leva necessariamente os homens a odiarem-se entre si à proporção que seus interesses se cruzam, a se prestarem mutuamente aparentes favores e a se causarem, na verdade, todos os males imagináveis.”

“Não há um povo que não se regozije com os desastres de seus vizinhos. A perda de um quase sempre faz a prosperidade do outro.”

JOHN MCENROE (1959/...)

"Todos gostam do sucesso, mas detestam as pessoas bem sucedidas."

NIETZSCHE (1844/1900)

Nietzsche nos convida a viver de tal modo que nem os arrependimentos nem os remorsos tenham mais nenhum espaço, nenhum sentido.

 

ACASO, DESEJO, VONTADE, INCERTEZA

EPITETO (50/138)

"Se te debruçares sobre ti mesmo, e te perguntares a que domínio pertence o acidente, tu te lembrarás imediatamente que ele pertence ao domínio das coisas que não dependem de nossa vontade, que não são nossas.” 

FRIEDRICH A. HAYECK (1899/1992)

“Na opinião dos estóicos, os dois males que pesam sobre a existência humana, são a nostalgia e a esperança.” 

KARL POPPER (1902/1994)

“Subestimamos a incerteza.”

"Devemos marchar para o desconhecido, o incerto e o inseguro, utilizando a razão de que pudermos dispor para planejar tanto a segurança como a liberdade."

A necessidade humana de controlar ou de antecipar o futuro, garante o emprego de todos esses profetas especialistas.

Poucos são os céticos que se dão ao trabalho de olhar para trás e verificar a quantidade de previsões erradas de todo tipo de expert. 

"Uma das principais tarefas da razão humana é tornar o universo em que vivemos algo compreensível para nós."

MICHEL DE MONTAIGNE (1533/1592)

“Não há por que nos maravilharmos de que o acaso tenha tanto poder sobre nós, desde que estamos neste mundo por mero acaso.”

STEVE JOBS (1955/2011)

"Jamais poderia imaginar que as coisas que eu estava fazendo levariam a esse resultado a que cheguei. Hoje as pessoas julgam o que eu fiz em função do ponto a que cheguei, mas não houve da minha parte uma estratégia deliberativa orquestrada para chegar aonde cheguei. Porque aonde cheguei decorreu de um milhão de causas que até eu ignoro - causas psicológicas das pessoas que contratei, causas macroeconômicas que eu não podia controlar. E hoje as pessoas querem fazer de mim um guru por ter arquitetado as coisas de maneira que chegasse a esse resultado. Mas não sou causa dos resultados que eu mesmo colhi.”

 

IGUALDADE, DIFERENÇA, DIVERSIDADE

[Para quê ser mais habilidoso se isso não me traz maior recompensa?]

ALEXIS DE TOCQUEVILLE (1805/1859)

Democracia e socialismo não têm nada em comum além de uma palavra: igualdade. Mas note a diferença: enquanto a democracia procura a igualdade na liberdade, o socialismo procura igualdade na restrição e servidão.

FLÁVIO GORDON (1979/...) – Antropólogo, colunista do jornal Gazeta do Povo

“Vivemos a era da bondade espalhafatosa, auto comiserada, narcísica e vaidosa de si. (...) ‘Sou bom, logo, tudo me é permitido’.”

FRIEDRICH A. HAYECK (1899/1992)

“Há desigualdades irremediáveis, da mesma forma que há ignorância irremediável por parte de todos.”

MICHEL DE MONTAIGNE (1533/1592)

“A uns incumbe zelar pela paz, a outros pela guerra; uns têm o lucro como prêmio, outros a honra; àqueles a ciência, a estes a virtude; àqueles a palavra, a estes a ação; àqueles a justiça, a estes a intrepidez; àqueles a razão, a estes a força; e usam uns a toga e outros o uniforme.”

“A variedade é, efetivamente, normal na natureza (...). Nunca houve no mundo duas opiniões idênticas, como não há dois pelos nem dois grãos de cereal. A qualidade mais universal e comum é a diversidade.”

NIETZSCHE (1844/1900)

“O mundo não é um cosmos, é um caos, uma pluralidade irredutível de forças, de instintos, de pulsões que vivem em confronto.”

“A noção de “vontade de poder” é ‘a essência mais íntima do Ser’. Mas não vontade de conquistar ou ter, mas o desejo profundo de uma intensidade máxima de vida, a mais intensa e a mais viva possível.”

ROGER SCRUTON (1944/2020)

“Se as condições do conflito jazem, como evidentemente o fazem, na natureza humana, então a única esperança de removê-las é alimentar esperanças inumanas e se mover na direção de ações inumanas.” 


JUSTIÇA, DIREITOS

[Os desequilíbrios químicos passaram a entrar na equação para justificar as ações humanas.]

ADAM SMITH (1723/1790)

“A misericórdia em relação ao culpado significa crueldade para com os inocentes.”

“Como a sociedade não pode subsistir entre aqueles que estão sempre dispostos a ferir e machucar uns aos outros, a justiça é, instrumentalmente, a virtude primordial da sociedade.”

AYN RAND (1905/1982)

 [Para os ditos progressistas a regra de conduta moral é...] “Se vocês desejam algo, isso é mau; se os outros desejam algo, isso é bom; se a motivação de seu ato é seu bem-estar, não o realizem; se a motivação é o bem–estar dos outros, então vale tudo. (...) é para a própria felicidade que vocês têm que servir à felicidade dos outros. (...) Não, os que recebem não são maus, desde que não mereçam o valor que lhes deram. (...) É imoral viver do próprio trabalho, mas é direito viver do trabalho dos outros. (...) É mau criar a própria felicidade, mas é bom gozá-la quando o preço dela é o sangue dos outros. (...) É a infelicidade que lhes dá o direito de ter recompensas”.

“Eles não querem possuir a sua fortuna: querem que vocês a percam.”

“Elogiam qualquer empreendimento que se pretenda não lucrativo e maldizem os homens que ganharam os lucros que tornaram viável o empreendimento.”

“Se os culpados não pagam, então são os inocentes que têm que pagar.”

BERTOLD BRECHT (1898/1956)

“Alguns juízes são absolutamente incorruptíveis. Ninguém consegue induzi-los a fazer justiça.”

DAVID HUME (1711/1776)

“A justiça é a razão pela qual precisamos de governo.”

FRIEDRICH A. HAYECK (1899/1992)

“É um dos poucos que discute a justiça social caracterizando-a como ‘absurda’, uma ‘miragem’, ‘uma invocação vazia’, ‘uma superstição quase religiosa’ e um conceito ‘não pertence à categoria do erro, mas à da estupidez’.”

MÁRIO SERGIO CORTELLA (1954/...)

“Qual é o resultado que torna justo o caminho?”

“Não significa que um código valia de um jeito e agora vale de outro, mas que, se não considerarmos a ambiência histórica, social e cultural, não compreenderemos de fato os valores ali colocados.”

PLATÃO (-428/-438)

“Eu digo que a justiça nada mais é que a conveniência do mais forte.”

THOMAS SOWELL (1930/...)

“Criminosos atrás das grades é mais eficiente para reduzir o índice de criminalidade do que quaisquer teorias complexas ou políticas sofisticadas favorecidas pela intelligentsia.”

“O fato de criminosos cometerem crimes quando não mais estão encarcerados nada diz sobre a eficiência do encarceramento na redução da criminalidade.”

[Há] “juristas que insistem numa justiça de ‘resultados’ em detrimento das leis estabelecidas”.

YUVAL NOAH HARARI (1976/...)

“Se humanos desfrutam de direitos humanos iguais, super-humanos deveriam desfrutar de superdireitos?”

 

TRIBO, PERTENCIMENTO, IDENTIDADE

ALDOUS HUXLEY (1894/1963)

“Da família à nação, todo agrupamento humano é uma sociedade de universos insulares.”

E. M. FORSTER (1879/1970)

“Dei-me conta de que designar um inimigo e demonstrar a todo custo a inferioridade dele era a inseparável outra face da medalha da identificação do eu. Não existiria um ‘nós’ sem um ‘eles’.”

ERIC J. HOBSBAWN (1917/2012)

"Parentesco e 'sangue' têm uma óbvia vantagem em ligar membros de um grupo e excluir estranhos e, portanto, são centrais ao nacionalismo étnico. (...) A base crucial de um grupo étnico, como forma de organização social, é cultural e não biológica."

FLÁVIO GORDON (1979/...)

“No interior da academia (...) um tribalismo generalizado transformou o ambiente universitário numa praça de guerra entre as mais diferentes facções ideológicas, (...) o dialogo tornou-se impossível, já que cada facção fala a sua novilíngua particular. (...) Não há debates políticos que não sejam ações entre amigos.  (...) Não há crítica, apenas ausência de contato.”

FRIEDRICH A. HAYECK (1899/1992)

"Agir no interesse de um grupo parece libertar os homens de muitas restrições morais que regem seu comportamento como indivíduos dentro do grupo." [O que explica o vandalismo da "massa enlouquecida".]

GIOVANNI PAPINI (1881/1956)

“Todo ser humano gostaria de ser o primeiro entre seus iguais: ser superior, de um modo ou de outro, aos que o rodeiam. Quer dominar, mandar, parecer maior e mais rico, mais bonito e mais sábio... A história do gênero humano é pouco mais que o pavor da inferioridade.”

NATIONAL GEOGRAPHIC - OUTUBRO 2003

[Para os beduínos:] “O mais importante são os antepassados de uma pessoa, precisamos saber quem eles eram”, disse um dos homens. ‘Não dá para confiar em alguém que não pertença a nenhuma tribo’.” 

ROGER SCRUTON (1944/2020)

“A opção do brexit foi uma questão de crise de identidade.”

“Membros de tribos se veem como uma família; membros de comunidades de credo se veem como fieis; membros de nações se veem como vizinhos.”

“Se a lealdade do muçulmano britânico estiver com Alá e não com a comunidade local em que ele vive, ele dificilmente vai se tornar um bom cidadão.”

“E quando a diferença é identidade e a identidade é uma forma de diferença?”

YUVAL NOAH HARARI (1976/...)

"Todas as tribos humanas existentes estão empenhadas em fazer avançar seus interesses particulares e não em compreender a verdade global."

ZYGMUNT BAUMAN (1925/2017)

“Os símbolos de decisões identitárias gravados no próprio corpo sugerem (...) um compromisso mais sério e duradouro, e não somente um capricho momentâneo.”

 

RACISMO, PRECONCEITO

ERIC J. HOBSBAWN (1917/2012)

"O tipo 'certo' de classificação racial vai a par com o tipo 'certo' de posição social, independentemente da aparência."

FLÁVIO GORDON (1979/...) – Antropólogo, colunista do jornal Gazeta do Povo

“Caso você acalentasse a profunda ‘sensação’ de ser um craque de futebol, passaria a exigir na justiça a sua imediata convocação para a seleção brasileira? (...) Quando a subjetividade humana passa a servir de critério absoluto, tudo então há de ser permitido.”

SÓCRATES (-469/-399) (contado por Platão)

"Os filhos bem nascidos serão levados ao berço comum e confiados a amas de leite que terão habitações à parte em um bairro da cidade. Quando as crianças enfermiças sofrerem qualquer deformidade serão levadas como convém a um paradeiro desconhecido e secreto". 

YUVAL NOAH HARARI (1976/...)

“Um monge pregou compaixão por um mosquito, mas, confrontado com alegações de que mulheres muçulmanas tinham sido estupradas por militares de Mianmar, ele riu e disse: ‘Impossível. Os corpos delas são repulsivos demais’.”

“A polícia olha para a cor de sua pele com suspeita não por qualquer razão biológica, mas devido à história.” 

“Crescer como negro em Baltimore dificilmente faz com que seja fácil compreender a luta de crescer como lésbica em Hangzhou.”



[1] Exemplos de personalidades estoicas: Thomas Sowell, Martin Luther King, Cassius Clay, Stephen Hawkins, Edson Arantes do Nascimento, Elton John, Barak Obama, Yuval Noah Harari, Célio (meu jardineiro), Rogério (contínuo na minha empresa e juiz de futebol federado),Clodovil Hernandes, Rogéria, Glória Maria e milhões de outros.

[2] Estoicismo, escola filosófica fundada por Zenão de Cítio no início do século III a.C.







quarta-feira, setembro 08, 2021

CAPITALISMO, LIBERALISMO, MERITOCRACIA E PRECONCEITO

Motivado por opiniões postadas num grupo de Whatsapp que evidenciaram algum entendimento errôneo de alguns conceitos, o que é normal, vou procurar dar alguma contribuição sobre eles.

CAPITALISMO E LIBERALISMO

A maioria das pessoas (minha avaliação) faz uso destes dois termos como se fossem sinônimos. Não são. O conceito de capitalismo diz respeito à formação de capital para aplicação com o objetivo de obter retorno financeiro, preferencialmente, acima da inflação. Tal aplicação pode ser na criação de empresa para a produção de bens, ou para o comércio de bens, ou para a prestação de serviços específicos, ou como investimento em outras empresas. Quando falamos sobre capitalismo, estamos envolvidos, basicamente, com temas como propriedade, risco, produtividade, rentabilidade, crescimento, competição de mercado, identificação de tendências de demanda, lucro ou prejuízo.

Outro erro normalmente observado é quando as pessoas colocam em oposição capitalismo e comunismo, o que não é correto. Um dos melhores exemplos da atualidade é a China, um país de regime totalitário, partido único, um Estado no qual impera uma ordem social estruturada sobre as ideias de igualitarismo, propriedade comum e na ausência hipócrita de classes (ou alguém é inocente útil que acredita nisso?), quadro que define o que seja comunismo, onde o Estado é o planejador da economia, mas onde o capitalismo, ou seja, o direito de empreender através da acumulação de capital pelo lucro obtido em uma atividade qualquer, é o mecanismo realizador do que o governo deseja ver implantado. No Brasil atual, o melhor exemplo do capitalismo chinês são empresas que estão comprando propriedades (terras, imóveis e vencendo leilões de privatização) e não o Estado Chinês.

Quando contrapomos capitalismo e comunismo, estamos colocando de um lado a liberdade do cidadão de fazer/empreender aquilo que “lhe der na telha”, e de outro a submissão/servidão ao Estado que é o responsável pode dizer o que ele “deve” fazer. Em um próximo texto vou tratar de estatismo, uma consequência deste sistema político, comparado ao liberalismo econômico.

Feita esta distinção, podemos tratar agora de liberalismo. O capitalismo é um sistema[1] econômico com princípios, regras, leis, penalizações (tanto do Estado quanto do próprio mercado) etc. que visa regular as interações dos inúmeros agentes de modo, principalmente, a (1) evitar ou amenizar os efeitos de monopólio e cartéis, e (2) deixar a estes agentes a busca do equilíbrio entre fartura e escassez. Já o liberalismo é uma doutrina baseada na defesa da liberdade individual, ou seja, o direito dado ao cidadão, normalmente pela própria Constituição, para conduzir sua vida pessoal e profissional de acordo com sua vontade, seus desejos e interesses. As normas, quando existem, são morais, dinâmicas (estão em constante ajuste às realidades vividas) e diferentes em cada sociedade, pois dependem dos valores culturais nela praticados. Pode-se, portanto, inferir que liberalismo não é um sistema, nem mesmo diz respeito a capital, ele é o conceito que define o nível de liberdade que um cidadão tem dentro de uma sociedade. Politicamente, o liberalismo é tão somente o direito de se manifestar, opinar, escrever, publicar, votar sem coação, e o dever de respeitar este mesmo direito naqueles que não partilham das mesmas opiniões.

MERITOCRACIA E PRECONCEITO

Um método é uma maneira de se fazer alguma coisa. Uma expressão muito ouvida é “ele não tem método”, isto ou aquilo “não tem metodologia”. A meritocracia é um método para avaliar comparativamente o desempenho entre duas ou mais pessoas. A Olimpíada, assim como toda e qualquer competição entre humanos para atingir alguma meta, só existe porque o método para estabelecer quem vence, é a meritocracia: vence aquele que teve mais mérito, vence aquele cujo esforço e determinação empreendidas lhe permitiram fazer melhor que os demais[2]. Sei que acabo de dizer o óbvio, mas é que a coisa não para por aí, pois precisamos analisar o que ou quem define o vencedor.

Num jogo de futebol recente, o equipamento do VAR[3] deu problema exatamente na hora de um lance polêmico. Tanto o juiz em campo, quanto o próprio equipamento, quanto os juízes auxiliares que avaliam as imagens, foram agentes para a formulação da decisão final dada. Ok, não é um caso típico de meritocracia, uso apenas para mostrar que toda metodologia (juiz e VAR são aplicadores de um método) está sujeita a interpretações e subjetivismos. E é aí onde a coisa pega.

Tomando o exemplo acima, há quem é de opinião que se deveria acabar com o VAR. Outros, talvez, prefiram acabar com o juiz de campo. E talvez, os não aficcionados por futebol, queiram apenas que não se jogue mais futebol dadas as tantas “injustiças” que acontecem durante um jogo. Mas parece que a maioria gosta tanto dos momentos e sentimentos que o esporte lhes proporciona, que não se importam com erros eventuais na aplicação do método.

Uma situação frequente que sempre nos deparamos quando em nossas  relações humanas é a de julgamento do outro, por qualquer motivação que seja. É destas situações que surge o preconceito. Desde o homo sapiens habitante das cavernas, vivendo em pequenos grupos nômades, a necessidade de ter uma percepção rápida das suas circunstâncias se instaurou na gênese de nossos ancestrais como habilidade para a sobrevivência e perpetuação da espécie. Estamos aqui graças a isto.

O preconceito (conceito formado antes do conhecimento dos fatos) é como a libido; é instintivo. Não se acaba com uma como não se acaba com o outro por vontade utópica de terceiro, por decreto, pela ameaça de cadeia, pela força física ou pelo “paredão” – neste caso não sobraria ninguém para ter proveito do resultado[4]. Tal como a hipocrisia, é um dos recursos para os seres humanos explicarem o mundo à sua volta e tocaram o seu dia-a-dia. Mas ele está em todos nós, em todos os lugares e, principalmente, quando o método em pauta não é seguido com absoluta honestidade e obediência aos critérios do método na avaliação de quem vence e quem perde.

Mesmo quando o método foi corretamente aplicado, a interpretação do resultado feita pelo prejudicado, ou perdedor, ou preterido, ou vaiado, ou desconsiderado, frequentemente é impregnada pela frustração própria ou dos sonhos e desejos de familiares, amigos, mestres, treinadores, educadores etc.

Até aí, creio que todos podem estar razoavelmente em acordo de que tais situações são da vida, aquela que não é justa, nem injusta. Apenas é. O problema é quando pessoas normalmente impregnadas de utopia – aquilo que imaginamos como mundo ideal a partir do que nós achamos ser o ideal e que a psicologia coloca como “modelos para suportar a realidade” – passam a querer curar a humanidade das dores das tantas injustiças que enfrentamos desde a nossa concepção[5]. Quando tal frustração não leva para a formulação de teorias de controle da heterogeneidade da espécie humana, leva para uma atitude de vitimização, onde a pessoa passa a se considerar perseguida por outro, seja com base em suas características individuais, seja pelo resultado frustrante de suas tentativas em alcançar um ou outro objetivo. É de Michel de Montaigne a observação de que "condenamos tudo o que nos parece estranho e também o que não compreendemos". Analisar tudo sobre preconceito não é cabível aqui, apenas chamo a atenção sobre o papel que tem na sociedade. 

Eu procuro tirar minhas “verdades” da observação das minhas circunstâncias, da vida ao meu entorno, das conclusões que tiro sobre como se deu tal ou qual evento, que princípios estavam em jogo, que valores estavam sendo preservados ou atacados. E se aprendi algumas coisas que trago como realidades para uma boa civilização, são estas: cada ser humano é uno, indivisível e inigualável; a liberdade é o que nos permite realizar nossos sonhos; se eu por mim não fizer, quem o fará?; a pior das agressões à integridade do ser, é a  opressão que poucos fazem exigindo a servidão de muitos para ter como proveito tudo que seja em proveito próprio.

Até mais!


[1] Sistema, para o que nos interessa neste texto, é o conjunto de métodos interligados para solução de problemas/demandas a partir de um certo grau de complexidade.

[2] De Roger Scruton, destaco este texto: [Algumas pessoas insistem em que seja um método melhor] julgar o sucesso humano pelo fracasso de alguns. Isso sempre lhes fornece uma vítima a ser resgatada. No século XIX, eram os proletários. Nos anos 60, a juventude. Depois, as mulheres e animais. Agora, o planeta.”

[3] A Federação Internacional de Futebol (Fifa) implantou um sistema eletrônico de apoio à arbitragem conhecido pela sigla em inglês VAR (Video Assistant Referee). 

[4] Cabe aqui lembrar a afirmação da Ministra Damares Alves: "Erotização não combate preconceito".

[5] Este conceito é o que respalda uma parcela da população ser contra o regime de cotas, por exemplo. Cito o jornalista Ali Kamel, em artigo de abril de 2004: “Cotas, facilitando artificialmente o acesso à universidade, criarão mais desigualdade e frustração. O cotista, por definição menos preparado, passará mais tempo na universidade ou dela sairá antes da formatura. E porá a culpa no “racismo” dos brancos. O perigo é transformar a nossa sociedade multicor e tolerante numa sociedade bicolor, com ressentimentos mútuos”. Só não sei se ele, agora comprometido com a emissora amiga dos progressistas, mantém a mesma opinião. Afinal até Ministro do STF que pensava uma coisa antes, agora pensa e pratica o oposto...!!!!


Para Adam Smith as diferenças entre um filósofo e um porteiro 

resultam simplesmente da educação.



quarta-feira, julho 21, 2021

ROGER SCRUTON, E O PTdoG – (1944/2020)


Entre os mais de seus 30 livros, Roger Scruton[1], inglês, filósofo contemporâneo, está “Tolos, Fraudes e Militantes” que acabo de ler. Nele Scruton procura desmascarar as proposta de alguns pensadores que integraram a “Nova Esquerda”[2] no século XX que pretendia, e ainda pretende, consertar o homem e a civilização. Uma das conclusões a que se chega após a leitura é que a intelectualidade ungida é composta de loucos, neuróticos, psicopatas, e quando não, no mínimo dos mínimos, hipócritas cínicos.

De todos os capítulos – quase todos de leitura árida - dois vou referenciar aqui. O primeiro é o que trata de “Guerras culturais no mundo todo: a Nova Esquerda de Gramsci a Said”. Nele Scruton começa lembrando o objetivo síntese de suas ideias – elaboradas no cárcere, é bom lembrar – era o de substituir a cultura burguesa por “uma nova e objetiva hegemonia cultural”. O que passa na cabeça de alguém com essa pretensão? O que ele imaginava ser “objetiva”? Como se pode obter, em qualquer tempo e lugar, “hegemonia cultural” quando em cada canto do mundo o desenvolvimento da cultura se deu sobre a heterogeneidade dos seres humanos e em função de circunstâncias absolutamente particulares e únicas? O nível de arrogância, de pretensão sobre deter a verdade, e de um absolutismo intelectual que chega ao cume além do qual ninguém conseguirá ir além.

Para qualquer mente sana in corpore sano, tal proposição bastaria para deixar tal indivíduo no limbo da história, mas não foi o que aconteceu. Gramsci se tornou o guru, o “grande mestre”, o tutor maior dos perdedores, dos carentes de um guia intelectual, mesmo que não compreendam razoavelmente o que ele diz. Basta gritar “abaixo a burguesia!!!” e seguir marchando de iPhone na mão. Mas este não descarte, ou, resgate extemporâneo, se deu, com especial intensidade, no Brasil. Gramsci está nos fundamentos das ideias e ações de PSOL e, em particular, do PT. Tendo isto como fato, passo a não me interessar mais em analisar Gramsci, mas apenas as ideias deste “intelectual” que estão no âmago da conduta daqueles dois partidos que hoje diariamente e intensamente tentam nos empurrar para o precipício da escuridão utópica que eles defendem.

Passo, então, a me referenciar apenas ao PT do G (Partido dos Trabalhadores de Antonio Gramsci) sempre que citar, daqui em diante, alguma das ideias e sugestões daquele prisioneiro italiano que se tornarem práticas de seus membros. Passagens extraídas do texto de Scruton estarão entre aspas duplas, e se contiverem citações de Gramsci, estas estarão entre aspas simples e itálico.

Entre as maluquices do PTdoG, está a de que seus dirigentes acham que da união entre intelectuais comunistas e as massas (...) ‘emergirá uma nova forma de governo por consenso’.” Para o sujeito minimamente realista que pergunta “como os conflitos serão acomodados ou resolvidos”, eles não têm resposta. Mas é uma enganosa constatação de ignorância. Todos sabemos que o cidadão pode ser maluco, mas não tão burro. Não à toa, portanto, o PTdoG devota parte considerável de sua utopia “ao papel dos intelectuais, afirmando diretamente não apenas que são os verdadeiros agentes da revolução, mas também que devem sua legitimidade à ‘correção’ de suas opiniões”.

Para os “petistas do G”, não há necessidade nenhuma de integrar o “proletariado”. Você pode continuar a ser um bajulador do seu intelectual de estimação, ou cumprir sua “desobrigação” em alguma repartição pública, ou, melhor ainda, “continuar em qualquer cargo confortável que lhe tenha sido oferecido e trabalhar pela derrota da hegemonia burguesa”, mas todos, ressalto, enquanto, hipocritamente, “aproveitam seus frutos”.

Os “petistas do G” desejam um governo que lhes proteja das injustiças da vida. Eles querem saúde, alimento, moradia, segurança e lazer, tudo oferecido por um Estado centralizador. Para tal satisfação estão dispostos a abrir mão da propriedade, as esquecem que quanto mais dependentes, mais limitados serão seus direitos e sua liberdade. E por uma razão simples que eles fingirão não enxergar até alguns milhões de “dissidentes” serem assassinados como sempre o foram na história: “os objetivos, libertação e justiça social, não são compatíveis”.

O planejamento central reivindicado pelos próceres do PTdoG, é o melhor caminho para a criação de escassez, privilégios de classes, mercado negro, sobrevivência do mais forte (literalmente) e injustiça – para dúvidas quanto a esta afirmação, consultar a história da economia e da vida soviética depois de 1917.

O capítulo encerra com Scruton diagnosticando que “entramos em um período de suicídio cultural, comparável ao sofrido pelo Islã após a ossificação do Império Otomano”.

O último capítulo, “O que é a direita?”, é o segundo do qual trago aqui algumas reflexões. Pouco o texto se dedica a dar uma resposta. A única que Scruton apresenta é que uma vez que um indivíduo é “identificado como de direita (...) seu caráter é desacreditado e sua presença no mundo é um erro”. Independente desta “falha”, no meu entender, ele coloca algumas cerejas neste indigesto bolo que estão pretendendo nos servir em futuro próximo.

De minha parte, o que me chamou a atenção ao longo de toda a obra é falta gritante de uma explanação sobre as bases de um sistema socinista (socialista-comunista). Scruton confessa que buscou, “em vão, nas obras” de diversos autores “uma descrição de como a “igualdade dos seres” defendida em seus atormentados manifestos” poderia ser alcançada. O máximo a que se chega é à utopia das utopias, “uma sociedade da qual tudo que a torna possível – leis, propriedade, costumes, hierarquia, família, negociação, governo, instituições – foi removido”.

A ideologia socinista ou “a ‘práxis revolucionária’ apenas nos leva a destruir o que não sabemos substituir” sem nos dar a mínima pista, “em termos concretos, o fim para o qual trabalha”.

O que fato incontestável é que “a tentativa de conseguir ordem social sem dominação inevitavelmente leva a um novo tipo de dominação, muito mais sinistra que a deposta”.

E é de Foucault que podemos tirar o lembrete de que “um déspota estúpido pode prender seus escravos com correntes de ferro, mas um verdadeiro político os amarra ainda mais firmemente com as correntes de suas próprias ideias [onde] o elo é ainda mais forte porque não sabemos do que é feito”.

Scruton vai chegando ao final. “O mundo do comunismo é um mundo de dominação impessoal no qual todo o poder está nas mãos de um partido” porque “a ideologia é um conjunto de doutrinas (...) de assombrosa imbecilidade (...) A ideia de ‘ditadura do proletariado’ (...) pretendia pôr fim às indagações, de modo que a realidade não pudesse ser percebida”.

Claramente, estamos lidando com uma necessidade religiosa, uma necessidade plantada profundamente em nosso “ser genérico”. (...) E esse desejo é mais facilmente recrutado pelo deus abstrato da igualdade do que por qualquer forma concreta de compromisso social. Defender o que é meramente real se torna impossível quando a fé surge no horizonte com seus atraentes presentes de absolutos.

Como você chegou até aqui me resta, apenas, esperar que você tenha tirado algum proveito.

 



[1] Na wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Roger_Scruton

[2] São eles: Eric Hobsbawn (1917/2012), Edward Thompson (1924/1993), John Kenneth Galbraith (1908/20060, Ronald Dworkin (1931/2013), Jean-Paul Sartre (1905/1980), Michel Foucault (1926/1984), Jürgen Habermas (1929/...), Louis Althusser (1918/1980), Jacques Lacan (1901/1981), Gilles Deleuze (1925/1995), Antonio Gramsci (1891/1937), Edward Said (1935/2003), Alain Badiou (1937/...), e Slavoj Žižek (1949/...).

 

quinta-feira, julho 15, 2021

REFLEXÕES DE THOMAS SOWELL (1930/...)

Thomas Sowell[1] completou 91 anos no dia 30 de junho p.p. É americano, negro, economista, professor universitário, escritor com mais de 30 livros publicados. Um dos mais importantes filósofos do século XX. Não é hipócrita, nem vitimista, e, portanto, contra ações “afirmativas”, como regimes de cotas e outras proposições sociopatas que fingem ignorar a natureza humana. Neste início de segunda década do século XXI, conhecer suas ideias e proposições, refletir com suas reflexões, nos ajuda a iluminar a escuridão intelectual em que a “intelligentsia[2] mundial, em particular, obviamente, a brasileira, quer nos ver subjugados. Não se deixar embromar por narrativas e identificar a hipocrisia dos personagens da cena política atual, se tornou vital para a manutenção de nossa saúde mental. Espero que esta coletânea seja mais uma contribuição para esse propósito.

Bom proveito![3]

 

HOMEM, HUMANIDADE, POVOS

O homem é para o homem, um enigma.

A desigualdade é um traço comum a toda a humanidade.

As limitações morais do homem em geral e seu egocentrismo em particular não foram lamentadas por Adam Smith nem vistas como coisas a serem modificadas. [Smith tratou a tentativa de mudar a natureza humana tanto como vã quanto sem sentido.]

Considerando os limites inerentes dos seres humanos, a pessoa extraordinária (moral ou intelectualmente) é extraordinária somente dentro de uma determinada área muito restrita, talvez à custa de sérias deficiências em algum outro lugar, e pode haver pontos cegos que não lhe permitam ver algumas coisas que são claramente visíveis aos olhos de pessoas comuns.

Quando “os povos” são invocados, os povos concretos tiveram, na realidade, pouco a dizer a respeito das decisões tomadas. (...) Não tinham nem o grau de conhecimento nem a responsabilidade pelas consequências, as quais acabaram sendo desastrosas.

 

VISÕES

“O que são ‘visões’? São as moldadoras silenciosas de nossos pensamentos. (...) Uma visão tem um sentido de causalidade, ou seja, é mais como um palpite ou um “instinto” do que um exercício de lógica ou de verificação factual.” (...) O que faz uma visão ser uma visão não é sua abrangência, mas sua coerência.

Há tantas visões quantos seres humanos (...) e mais de uma visão pode ser compatível com um determinado fato.

Uma visão modela nossa orientação teórica e não a teoria determina nossa visão. (...) Fazemos praticamente qualquer coisa por nossas visões, exceto pensar a respeito delas.

Visões são somente a matéria-prima a partir da qual teorias são construídas e certas hipóteses são deduzidas.

“Conflitos de interesse predominam por períodos curtos, porém conflitos de visões dominam a história.”

Para a visão restrita [liberal], o que é moralmente fundamental é a fidelidade ao dever de seu papel na vida. (...) Já na visão irrestrita [progressista], o dever de uma pessoa é destinar o bem à humanidade.

A capacidade de sustentar asserções sem evidências é outro sinal da força e persistência das visões. (...) [Por esta razão] As visões são: (1) projeções simplificadas da realidade; e (2) estão sujeitas a contradição por fatos (...).

A manipulação dos números pode tornar quaisquer dados estatísticos consistentes com determinada visão, e a manipulação de outros números ou até mesmo dos mesmos números, vistos ou selecionados de forma diferente, pode produzir dados consistentes com a visão oposta.

“As visões são indispensáveis, mas perigosas porque nós as confundimos com a própria realidade.”

 

RACISMO, AÇÕES AFIRMATIVAS, FAVORECIMENTO

Um grupo étnico ou racial que enfatize o trabalho árduo, economize dinheiro e busque uma boa formação acadêmica, geralmente prosperará, independentemente do cenário político ou social. (...) Os negros estariam em melhor situação se progredissem por seus próprios meios.

Os indivíduos favorecidos por ações afirmativas (...) faz com que qualquer conquista de um indivíduo pertencente a esse grupo pareça suspeita.

“Favorecer um lado” provoca geralmente, a ambos os lados, uma situação futura pior, mesmo que de maneiras distintas e em graus diversos.

Uma das violações mais comuns dos padrões intelectuais pelos próprios intelectuais é atribuir uma emoção (racismo, machismo, homofobia, xenofobia, etc.) àqueles que detêm pontos de vista diferentes, em vez de responder a seus argumentos.

“A era das ações afirmativas nos Estados Unidos assistiu ao favorecimento dos negros mais afortunados, enquanto os menos afortunados perderam em termos de suas participações nas rendas.”

 

EDUCAÇÃO, PAIS, IGUALDADE

As escolas norte-americanas substituíram a educação pela doutrinação (...) [desviando-se do dever de] fazer com que os alunos sejam capazes de raciocinar por si mesmo.

Depois que os programas de “educação sexual” foram introduzidos nas escolas norte-americanas na década de 1960, coube aos pais o trabalho de colher os cacos e arrumar a bagunça sempre que uma filha adolescente aparecia grávida ou um filho adolescente contraía uma doença venérea. Nenhum professor ou nenhuma professora teve que arcar com as consequências de nada (...).

Professores (...) expandem sua influência, seja por meio de doutrinação ideológica dos alunos ou por sua manipulação psicológica com o intuito de alterar os valores que esses estudantes receberam dos pais.

A crença de que terceiros sabem mais que os outros (...) inclui impedir que as crianças consolidem os valores recebidos pelos pais caso valores mais “avançados” tenham a preferência daqueles que ensinam nas escolas e faculdades.

“Ser compreensivo ou não julgar um jovem com um background culturalmente limitado talvez pareça humano, mas pode ser o beijo da morte no que se refere a seu futuro.”

Qualquer um que pense que uma mãe não é importante para a criança, ou a criança para uma mãe, não sabe nada sobre seres humanos. [negacionistas]

Nas escolas e nas faculdades a intelligentsia alterou o papel da educação, que é de equipar os alunos com o conhecimento e as habilidades intelectuais para que possam avaliar as questões e alcançarem independência mental, transformando a educação em processo de doutrinação, com as conclusões já fornecidas pelo intelectual ungido.

Os intelectuais dão às pessoas que já têm a desvantagem da pobreza outra desvantagem adicional: a de que são vítimas.

É compatível com a visão irrestrita [progressista][4] promover fins igualitários por meios desiguais.

Partidários da visão irrestrita [progressista] colocam a liberdade de expressão acima dos direitos de propriedade.

 

INTELECTUAIS, “INTELLIGENTSIA

[O intelectual ungido] se coloca num patamar moral superior, como alguém preocupado e misericordioso, promotor da paz no mundo, defensor dos oprimidos, alguém que luta por preservar a beleza da natureza e salva o planeta da poluição perpetrada por outros que não comungam a mesma consciência.

[Os ungidos usam a técnica de] contornar a realidade [para implantar sua visão.] Eles não se ajustam à realidade; é a realidade que deve se adaptar a eles.

[O problema para os ungidos é que] a realidade teima em não cooperar. (...) [E a cada dia] há menos lugares para se esconder de evidências cientificas.

[Para o intelectual desconstrucionista] A plausibilidade ou não que uma nova idéia incita depende do que (...) já tem incorporado como crença.

“Alguns intelectuais tendem a gravitar em torno de instituições onde suas ideias ficarão menos sujeitas aos perigos do descrédito factual.”

[Os intelectuais ungidos] se furtam à responsabilidade e ao trabalho árduo de aprender os fatos reais sobre pessoas reais vivendo num mundo real.

Quando o conhecimento é (...) abrangente, (...) difundido de forma mais ampla, (...) os intelectuais não têm vantagem preponderante sobre o homem comum. (...) Intelectuais comportam uma mistura de conhecimentos precisos e vagas noções sobre as coisas.

[Na Idade Média] Valores existentes pareciam ameaçados somente porque a visão em que se baseavam parecia estar ameaçada – e não porque Copérnico e Galileu propagassem valores alternativos. [É a ameaça à verdade de alguém que provoca a reação irada.]

[As elites educadas se legitimam] como guias superiores, declarando que têm o direito de impor o que deve e não deve ser feito na sociedade [pois] estão convencidas da superioridade de seu conhecimento e de suas virtudes, uma fórmula certeira para o desastre.

A confiança no conhecimento acadêmico superior pode ocultar, dos próprios membros da elite, a extensão de sua ignorância e de seus equívocos. (...) [Os “ungidos”] não percebem a necessidade de buscar informações factuais antes de expressar sua indignação.

A real e eficiente rotina de milhões de pessoas (...) dá pouca atenção às supostas “barreiras” sociais tão alardeadas pelos integrantes da intelligentsia.

A discrepância entre o real e o ideal sempre será julgada, pelos infalíveis visionários intelectuais, como fracasso moral da sociedade.

Para os intelectuais ungidos são os defeitos inerentes aos seres humanos que são os problemas fundamentais. (...) A sociedade existente é amplamente discutida a partir de suas insuficiências, as quais precisam ser corrigidas.

Um “respeito decente pelas opiniões da humanidade” não tem hoje mais lugar num mundo pautado pela visão do intelectual ungido.

As burocracias são frequentemente capazes de manipular as visões da intelligentsia para seus próprios interesses (...).

 

IDEOLOGIA, CRENÇAS, FATOS

Os homens não podem criar diretamente resultados sociais, mas somente processos sociais.

Dedicação a uma causa pode legitimamente implicar sacrifícios de interesses pessoais, mas não sacrifícios da mente ou da consciência.

[Uma ideologia] pode aniquilar totalmente as evidências.

Nada parece ser mais difícil que buscar fatos ou argumentos contrários às nossas certezas. (...) porque é mais sedutor se agarrar a certezas que moldam o mundo segundo as nossas próprias convicções.

Quais pressupostos fundamentais existem por trás das tão variadas visões ideológicas de mundo em disputa nos tempos modernos?

Estamos no âmbito de um “discurso de propaganda” pensado para deslocar o eixo das coisas como são para as coisas como “devemos percebê-las”.

“A manipulação retórica é capaz de fazer perguntas de uma forma que torna a resposta desejada quase inevitável, qualquer que sejam os méritos ou deméritos concretos da questão.”

Por mais poderosa que a ideologia seja, ela não é onipotente. Fatos inevitáveis e brutais (...) levaram muitos, simultaneamente, a abraçar ou abandonar uma ideologia.

Na política, pouco importa quão desastrosa uma política possa se tornar, desde que as causas do desastre não sejam compreendidas pelo público  eleitor. (...) [Os políticos] possuem todos os incentivos para negar seus equívocos, uma vez que sua admissão pode condenar toda uma carreira.

Muitos entre a intelligentsia se consideram agentes de “mudança”, um termo muito usado de forma leviana, como se as coisas estivessem tão ruins que a mera e genérica “mudança” pudesse ser tomada como uma mudança para melhor.

Os intelectuais ungidos querem deter o privilégio exclusivo de decidir (...) quais pequenos riscos as pessoas estariam proibidas de contrair e a quais riscos bem maiores estão liberadas.

Os intelectuais buscam (...) apropriar-se das decisões que deveriam ser tomadas pelas pessoas diretamente envolvidas, as quais têm conhecimento e correm riscos pessoais concretos (...).

Na União Soviética [uma economia planejada e controlada pelo Estado] bens encalhados se empilhavam nos depósitos, ao mesmo tempo em que terríveis carências faziam as pessoas esperarem em longas filas por outros bens.

A possibilidade de impor a vontade de alguém no comportamento de outras pessoas é uma característica da visão irrestrita [progressista].

 

SOCIEDADE, DEMOCRACIA, GOVERNO, POLÍTICOS

“No grande tabuleiro da sociedade humana, cada peça individual tem um princípio de movimento próprio, inteiramente diferente daquele que a legislação possa escolher impor sobre ela.”

“Na política, pouco importa quão desastrosa uma política possa se tornar, desde que as causas do desastre não sejam compreendidas pelo público eleitor.”

Se as pessoas não querem uma coisa em particular, mesmo que a intelligentsia a considere desejável ou até imperativa, isso não é uma dificuldade. Isso é democracia.

Ao se conceber o conhecimento, tanto fragmentado quanto amplamente disperso, a coordenação sistêmica entre muitos suplanta a sabedoria especial de poucos.

O governo, enquanto entidade deliberadamente criada, pode agir com intenção e ser moralmente julgado por seus atos, mas não a sociedade. (...) O governo (...) não tem a onisciência de fato para prescrever resultados justos ou iguais.

O problema primordial dos políticos não é trabalhar para o bem público, mas ser eleito e permanecer no poder. (...) Os líderes das nações democráticas são sempre obrigados a se deparar com a perspectiva das eleições, e a atmosfera em que essas eleições são realizadas é de suma importância para os políticos que buscam manter a carreira em andamento e o partido no comando.

Monitorar o desejo de um grande número de resultados individuais costuma estar além das capacidades de qualquer indivíduo ou conselho.

“Marx e Engels (...) desconsideraram que o planejamento central seria uma perpétua tentação para os detentores do poder político em dirigir a economia inteira para a satisfação de seus próprios propósitos – incluindo o poder militar – ao invés de deixá-la servir o interesse dos consumidores.”

Na visão restrita [liberal] o controle deveria ser tão disperso quanto possível.

“O marxismo deve ser julgado como a arrogância de imaginar que uma sociedade inteira poderia ser construída a partir da base estabelecia pela visão de um único homem, ao invés de envolver a experiência de milhões de pessoas pelas gerações séculos afora.”

Sowell identifica 5 axiomas:

1 - problemas sociais existem [porque os ignorantes] não têm o conhecimento que os ungidos têm;

2 - desprezo por soluções descentralizadas (...) que sobreviveram a processos de aprendizado por tentativas e erros;

3 - condenação moral dos ignorantes pelos resultados não desejados pelos ungidos;

4 - os problemas podem ser evitados pela imposição da visão superior dos ungidos;

5 - as resistências contra as políticas dos ungidos se dão pelas limitações morais e intelectuais dos oponentes, não pelas leituras diferentes de evidencia complexa e inconclusiva.

Os 4 estágios típicos desse padrão ideológico são:

1 – uma crise é identificada;

2 – é proposta uma solução “definitiva” para o problema;

3 – constatação de resultados opostos aos desejados;

4 – e, por fim, a reação envolve afirmar que, se não fossem pelas políticas adotadas, os resultados seriam ainda piores.

Todo mundo é progressista segundo sua própria ótica.

[Os promotores do planejamento econômico centralizado] Em vez de confiarem nas interações sistêmicas dos mercados (...) preferem a imposição da visão da elite.

 

PROPRIEDADE, CAPITALISMO, LIBERDADE

“O que se observa é que aqueles países cujos inputs envolvem menos trabalho e mais empreendimento tendem a ter, em larga escala, mais altos padrões de vida, incluindo horas de serviço mais curtas.”

Exemplo de observação distorcida: o capitalismo tornou os trabalhadores mais pobres como se eles tivessem sido mais prósperos antes.

Os benefícios econômicos para a sociedade não foram buscados intencionalmente pelos indivíduos, mas surgiram sistematicamente de interações do mercado, sob pressões da concorrência e impulsionados pela motivação do ganho individual.

O fato é que a riqueza é produzida. Ela não é um simples fator natural já dado. Milhões de sujeitos são pagos segundo o valor atribuído ao que produzem e isso é feito subjetivamente, por milhões de outros indivíduos.

O conceito básico de liberdade, como não se sujeitar às restrições impostas por outras pessoas, e o conceito de poder, como habilidade de restringir as opções mantidas por outros, ficaram, ambos, de cabeça para baixo em alguns dos “reempacotamentos” [verbais] que sofreram nas mãos dos intelectuais que discutem assuntos econômicos.

Os direitos de propriedade são barreiras legais contra políticos, juizes e burocratas que arbitrariamente buscam se apropriar do patrimônio de alguns seres humanos, transferindo-os para outros.

 

JUSTIÇA

Por vezes, a “dificuldade” em se mudar as leis e especialmente a dificuldade em se criar emendas constitucionais é invocada como razão para justificar por que os juízes devem se tornar os agentes que aceleram as mudanças.

O ativismo judicial é um cheque em branco no qual se pode explorar qualquer direção, em qualquer questão dependendo das predileções de cada juiz em particular.

As elites intelectuais anseiam ampliar sua esfera de influência de poder decisório usando os tribunais como meio.

As batalhas políticas diárias são um pot-pourri de interesses específicos, emoções coletivas, conflitos de personalidade, corrupção e vários outros fatores.

Fundamentalmente para o conceito de justiça social é a noção de que indivíduos têm direito a alguma parte da riqueza produzida por uma sociedade simplesmente por serem membros daquela sociedade, independentemente de quaisquer contribuições individuais feitas ou não para a produção de tal riqueza.

 

TECNOLOGIA, MÍDIA, JORNALISMO, DIGITRÔNICA

As maravilhas tecnológicas modernas trouxeram pouca melhora para o que o rico já tinha, porém revolucionaram muito as vidas das massas.

É necessário somente que aqueles que têm o poder de filtrar as informações, seja no papel de jornalistas, editores, professores, acadêmicos ou produtores e diretores de filmes, decidam que há certos aspectos da realidade que as massas “não compreenderiam corretamente” e que um senso de responsabilidade social clama, por parte dos que detêm o poder de filtragem, pela supressão de alguns dados.

A influência dos intelectuais sobre o curso dos eventos na sociedade em geral, por meio de sua influência sobre o grande público, era menor do que hoje porque, na maioria dos paises em outros tempos, o público em geral exercia muito pouca influência na condução das políticas nacionais. [Esta era a realidade que a digitrônica mudou radicalmente.]

Fatos simplesmente não parecem importar para mitos na mídia, uma vez que eles têm um estereótipo fixo em suas mentes.

[Quando se trata de jornalismo] Em última instância (...) o importante é ser honesto com o leitor, o qual, afinal de contas, não pagou para aprender sobre o psiquismo ou a ideologia do escritor, mas para adquirir algum conhecimento real sobre o mundo.


[2] Uso o termo aqui para identificar os intelectuais que se manifestam tendo como padrão a proposição de verdades políticas e filosóficas inquestionáveis, pois tudo por eles elaborado está acima da capacidade, tanto de elaboração, quanto de entendimento, do homem comum. Neste grupo aparecem pensadores, escritores, educadores, jornalista, juristas et caterva. Por esta razão, tal como Sowell, trato os membros desta "classe" como "Ungidos".

[3] As citações selecionadas nesta postagem foram agrupadas de acordo com a similaridade ou correlação dos assuntos. Citações literais do autor aparecem entre aspas e, quando não, são conclusões a partir do entendimento de suas ideias; e entre colchetes é sempre uma anotação minha visando a melhor compreensão do texto.

[4] Sowell propõe dois conceitos para identificar as visões filosóficas: a restrita e a irrestrita. Como para entendê-las é preciso ler sua obra, podemos associar a visão restrita à visão “liberal-conservadora”, e a irrestrita à visão “progressista”.