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quinta-feira, março 27, 2025

O AUTOCENTRISMO ALTRUÍSTA


No texto “O Altruísmo Egoísta” tratei sobre minha visão de que toda ação altruísta é, na realidade, um egoísmo disfarçado, um altruísmo de máscara, um falso altruísmo.

O egoísmo é um conceito moral, é uma avaliação que fazemos sobre as ações dos outros com base em normas culturais que visam regular nosso comportamento social.

Um egoísta, nesta visão, age exclusivamente em seu benefício, sem considerar e respeitar o direito e os interesses de outros à sua volta. Considera que a pessoa age sob o lema “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Mas, neste rótulo, há, quase sempre, a presença de dois ingredientes:  preconceito e inveja. O primeiro, devido à ideia de que o benefício da ação egoísta não deveria ser dado "àquele tipo” de indivíduo. O segundo, devido à percepção de “porque ele e não eu?”.

Descarto, portanto, que o egoísmo seja uma característica imanente ao ser humano. Considero uma aquisição cultural à medida em que é considerado como uma pretensa necessidade para a conquista de melhor posição na escalada social no mundo civilizado.

Tenho a convicção, esta sim, de que só agimos no interesse da proteção à nossa existência como princípio primeiro e maior, o que vai além da mera subsistência do organismo.

Fui passar alguns dias com a família de meu filho que mora no exterior. Não lembro do motivo, mas em um dos papos com meu neto de 14 anos, lhe disse que o interesse próprio é o que move as pessoas. Recebi, do alto de sua inocente arrogância adolescente, um sorrisinho e um olhar que diziam: “esse meu vô é meio maluquinho, ele diz cada coisa!”. Percebi e pensei: “Hum, tenho que lhe provar o que disse”. No dia anterior, motivado pela reclamação da mãe que me dissera, com exagero, que os dois irmãos “não ajudavam em nada”, eu provocara meu neto com o chiste “o pior cego é o que não vê a louça suja na pia”. A minha “inocente” provocação surtiu efeito, pois no dia seguinte o peguei lavando toda a louça do almoço. Fiquei quieto e quando surgiu o momento adequado, lhe perguntei:

- “E aí Vinny, por que você lavou a louça?”.

- Ah! Vô, porque eu quis!

- Ah! É! E por que você quis?

- Pra minha mãe não reclamar.

- Ah! É! Então foi por interesse de agradar sua mãe! Entendi.

Em lugar do sorrisinho, recebi um sorrisão do tipo “Hehe, meu avô me pegou nessa!”. E nos dias seguintes conversamos sobre o papel do “interesse” próprio nas decisões que tomamos em nosso dia a dia.

Isto não é egoísmo, é autocentrismo. É ter como guia da tomada de decisão, das mais simples às mais complexas, o interesse próprio, interesse que está basicamente subordinado à proteção de nossa existência física e, principalmente, mental. Enquanto a riqueza trás conforto e redução do desgaste físico, é a percepção de que nossa existência está protegida, a condição e razão para nos sentirmos bem[1].

Enquanto no egoísmo o mote da ação parte do outro, depende do outro, no autocentrismo desconsidera um outro, pois o mote é a satisfação espiritual, independente da existência do outro.

O autocentrismo é o incentivo à generosidade (altruísmo). Enquanto o autocentrado desconsidera qualquer outro, pois se basta, o egoísta TEM QUE considerar o outro, caso contrário ele falha em seu objetivo de sentir-se bem, de estar bem com sua existência espiritual.

O conceito de egoísmo é moral e está sob o âmbito da sociologia. O autocentrismo faz parte do comportamento ético[2] e, portanto, da antropologia, e indo mais fundo, da biologia, do estudo da natureza humana.

A Sociologia, cujo propósito é entender o comportamento humano no meio social, só será útil quando se concentrar no primeiro objetivo da vida: a proteção à sua estabilidade existencial.

De resto, é só discurso de intenção moralista.


Paulo Vogel

Neste meio, eu e você, somos a mensagem.

Mar/25



[1] Evito os termos “feliz” e “felicidade” por serem conceitos subordinados a valores pessoais e difíceis de serem definidos.

[2] No texto “Há diferença entre moral e ética?” exploro a questão.


sexta-feira, junho 17, 2022

UM OÁSIS NO BRASIL


Há esperança para os brasileiros se a maioria de nós chegar ao Oásis BP e saciar a sede de liberdade bebendo de suas águas.

Existem na nuvem das redes sociais inúmeros guerreiros da resistência aos insanos ataques de lideranças socinistas – e seus inocentes úteis militantes - contra os valores da civilização ocidental construídos ao longo de milênios, com o único objetivo de destruí-los por completo. Não são poucos como alguns pensam[1], mas sim muitos e que se mantêm no anonimato.

Entre estes muitos guerreiros que bradam diariamente nas redes sociais as bandeiras da lucidez, da defesa das liberdades individuais, da integridade/honestidade intelectual, há os que ainda precisam resistir às ações absurdamente inconstitucionais realizadas por ministros do STF, ou respaldados por eles, tais como censura da palavra, cancelamentos, exclusão de canais, desmonetização, arresto de receitas e impedimento do exercício profissional, a ponto de alguns ter que se asilar em outro país por serem perseguidos políticos.

Mas há um oásis onde podemos encontrar e beber de uma água inodora, incolor, livre de impurezas e excelente tônico para a manutenção da saúde cognitiva. Para os brasileiros que viajam por nossas atuais estradas da mente repletas de estupradores da razão, assaltantes de coerência, criminosos intelectuais de toda espécie, é essencial, não só uma parada, mas uma longa estadia à beira do oásis chamado Brasil Paralelo.

A Brasil Paralelo [2] é uma empresa de comunicação criada por jovens que têm o sonho de contribuir para um Brasil próspero e inclusivo. Não proclama o vitimismo, combate a desinformação com mais informação, mais fontes de referência, mais diversidade e menos mimimi. De todos os conteúdos que você lá encontra, não há um que seja irrelevante para o aprimoramento do entendimento do que realmente está por trás dos fatos que presenciamos diariamente no Brasil.

Esta postagem foi estimulada por 4 vídeos que você deveria assistir. Você pode começar por qualquer um deles, o importante é a complementaridade que você vai perceber e pela síntese que vai extrair sobre a realidade do que ocorre, principalmente, nos diversos setores da cultura disseminadores de valores morais.


O Programa Conversa Paralela entrevistou os irmãos André Alba e Gabriel Spider, dois youtubers que vão contar fatos aterrorizantes sobre o que está acontecendo, especialmente, entre as HQs, os Animes e as reconfigurações da personalidade dos heróis que povoaram nosso imaginário que estão sendo realizadas em filmes clássicos  até mesmo pela Disney em “obediência” à esquerdopatia da ideologia de gênero.


Na seção “Originais BP” você encontra a séria “A Sétima Arte”, uma séria de 7 documentários sobre a história e a influência do cinema na cultura ocidental. Aconselho, em especial, o 3º episódio, “O Parasita”, não há problema em começar por ele. 





Na mesma seção, assista “A Face Oculta do Feminismo” e compreenda muito do que está por trás do movimento e suas reais intenções.


E na seção “Insight”, assista “As Ideias Governam o Mundo?”. A resposta talvez seja: depende de quem governa as ideias que, com o uso dos modernos recursos tecnológicos, a cada dia manipulam mais facilmente o que nós, quando espectadores passivos, somos manipulados quanto ao que pensar, opinar e fazer.

  

É isso. Não se deixe marionetar tão facilmente. Resista. Venha para o oásis BP e se integre à resistência.

P.S.: Não tenho nenhum intere$$e na BP, mas todo o interesse em ajudar os que me cercam e me são caros a permanecerem mentalmente sãos e ter certeza de que não estão loucos nem vendo fantasmas.

  

[1] Conheça alguns dos Estoicos da Resistência à Corrupção da Inteligência, na lista aqui ao lado

[2] Se você ainda não é assinante, assine, serão os 10 reais mensais mais bem gastos que você pode fazer. É um preço muito baixo para você se manter na resistência e não se deixar levar por mentiras, narrativas e inversão de valores.


domingo, dezembro 19, 2021

OS ARTIGOS FEDERALISTAS – E o Brasil de 2021

 

É uma verdade atestada pela experiência de todas as eras que o povo está em geral mais ameaçado quando os meios de violar seus direitos estão na posse daqueles de quem ele menos suspeita.

Alexander Hamilton, um dos “pais fundadores”.


Enquanto os americanos têm 234 anos de estabilidade constitucional, os brasileiros têm 130[1] de golpes e retrocessos institucionais. Faz algum tempo andei me perguntando que circunstâncias tornaram os Estados Unidos da América “a” mais bem sucedida democracia capitalista do mundo, enquanto, em idêntico período, o Brasil cavou um pib-abismo de distância? Hoje posso me responder com um certo grau de convicção que a estabilidade institucional fez toda a diferença e, digo mais, faz toda a diferença para qualquer nação que pretenda atender o objetivo que os “pais fundadores” estabeleceram para sua República: zelar “pela felicidade do povo”[2].

Para Leitores possíveis defensores de utopias distópicas - é a única rotulagem para esse tanto de desavisados & sabichões[3] - desligados do estudo da história das nações e da própria história da civilização ocidental, pois estão “muito ligados”, ou chapados, ou cheirados, ou injetados, ou, no mínimo, mentalmente lobotizados pelo vitimismo PSOL-PTdoG aprendido em patéticas aulas práticas em nossas escolas e universidades controladas por integrantes da chamada intelligentzia, digo apenas que a destruição de valores institucionais e culturais de uma sociedade são desejos de déspotas psicopatas que, quando no phoder, tomam como primeira providência degolar/fuzilar os inocentes úteis que, obrigatória e automaticamente, se tornam inúteis.


AS AMBIÇÕES HUMANAS

Volto aos “pais fundadores”. Falas frequentes nos artigos se referem à natureza humana, basicamente para chamar a atenção para a necessidade de as Leis preverem os desvios e as contradições naturais entre os homens no phoder, garantindo mecanismos de regulação das legítimas disputas.

Hamilton lembra que “os homens são ambiciosos, vingativos e gananciosos”. Mostra ser um homem experiente ao acrescentar que “homens (...) muitas vezes abusaram da confiança de que desfrutavam; e, tomando por pretexto alguma razão pública, não tiveram escrúpulos em sacrificar a tranquilidade nacional por benefícios ou recompensas pessoais”.

Ao tratar das diferenças, ele entende que, para os homens, enquanto existe “o vínculo entre sua razão e seu amor-próprio, suas opiniões e paixões influirão umas sobre as outras”Mas Madison faz um alerta: “É inútil opor barreiras constitucionais ao impulso de auto-preservação”. Portanto, o jogo é pesado, parece admitir ao dizer que “o poder é abusivo por natureza e que deve ser efetivamente impedido de transpor os limites a ele atribuídos”. Conclui que a solução de tudo passará pelo fato de que “a justiça é a finalidade do governo. (...) Ela sempre será perseguida até ser alcançada, ou até que a liberdade seja perdida nessa busca”.

 

PARALELOS COM O BRASIL

Foi entendimento de Montesquieu que “dos três poderes, o judiciário é quase nada”, com o que, além de concordar, pois o considero tão-somente guardião e aplicador das leis e, portanto, sem qualquer poder, pois este é o da Lei que visa a equidade e a justiça em sua aplicação. Entretanto, no caso do Brasil de 2021, há que se trocar o advérbio: aqui, atualmente, dos três poderes, o judiciário é quase tudo. Hamilton nos lembra outra obviedade: “Se os indivíduos formam uma sociedade, as leis dessa sociedade devem ser o regulador supremo de sua conduta”. Ele encerra deixando claro que “o judiciário não tem (...) nenhum controle sobre a força nem sobre a riqueza da sociedade, e não pode tomar nenhuma resolução ativa. Pode-se dizer que não tem, estritamente, força nem vontade”. No momento brasileiro não é o caso.

A justificativa para o que vem acontecendo quanto às instituições brasileiras[4], tem muitas razões importadas. Deixadas essas de lado, relaciono alguns princípios defendidos pelos “pais fundadores” com os eventos e movimentos originados por nosso momento específico político. Já é reconhecido pela parte da população que se mantém minimamente informada, que estamos sob uma ditadura do supremo poder judiciário. O STF como um todo, mas fatiado em decisões monocráticas de “iluministros”, rouba “na mão grande” atribuições do legislativo e do executivo com absoluta desenvoltura, com a certeza da impunidade acobertada por forças “ocultas” que, não identificadas, não sofrem resistência. Diz Madison: “O acúmulo de todos os poderes, legislativo, executivo e judiciário, nas mesmas mãos, (...) pode ser justamente considerado a própria definição de tirania”. Creio que para não ser acusado de estar exagerando, recorreu a Montesquieu acrescentando: “Quando o poder de julgar se une ao de legislar, a vida e a liberdade do súdito ficam expostas a controle arbitrário, pois o juiz poderia agir com toda a violência de um opressor”.

Considerando os inquéritos inconstitucionais de Alexandre de Moraes (não descartando decisões dos demais) parece que ao fazer tais referências estivesse Madison nos vendo através de um potente telescópio reverso, que em vez de apontar para os acontecimentos passados do universo, apontava para dois séculos e meio no futuro ao sul do Equador.

Já Hamilton repete o que se observou na História da humanidade até aqui: “dos homens que destruíram as liberdades de repúblicas, a maioria iniciou suas carreiras cortejando de maneira servil o povo: eles começaram como demagogos e terminaram como tiranos”.

Hamilton, usando o mesmo telescópio, preveniu sobre uma obviedade “ululante”: “Nenhum homem deve ser juiz em causa própria, ou em nenhuma causa em relação à qual tenha o mínimo interesse ou predisposição”, porque “seu interesse certamente distorceria o julgamento e, provavelmente, corromperia sua integridade”. Este é um fato que não admite interpretações dúbias, e que é hipocritamente ignorado pelas mais altas e importantes instituições brasileiras – tendo no topo o Senado Federal[5] -, mas contra o qual deveriam estar se insurgindo veementemente[6]. Hamilton é peremptório ao constatar que “uma vez sacada a espada, as paixões dos homens não respeitam limites de moderação”.

Hamilton aponta a máxima arbitrariedade contra os direitos de um cidadão ao dizer que “o poder sobre o sustento de um homem é um poder sobre sua vontade”. Sua veemência na defesa deste princípio o leva a citar William Blakstone (jurista britânico): “Despojar um homem da vida ou confiscar seus bens pela violência, em acusação ou julgamento, seria um ato tão brutal e notório de despotismos que deve de imediato fazer soar o alarme da tirania por toda a nação; mas confinar a pessoa, arrastando-a secretamente para a prisão, onde seus sofrimentos são ignorados ou esquecidos, é um expediente menos público, menos chocante e, portanto mais perigoso do governo arbitrário”. Mas nada impediu e continua impedindo Moraes de prender sem acusação e sem processo, e de obrigar plataformas digitais a impedir a monetização de cidadãos que escolheram exercer a lícita atividade de manifestar suas opiniões através de participação em redes sociais.

Alexandre de Moraes e seus “parceiros” têm absoluta consciência disso tudo e, frequentemente, agem contra aqueles que discordam de suas “verdades” se assumindo como um desses “homens que, o mais das vezes, (...) deixam-se levar (...) e acabam (...) se deixando confundir por astúcias”, como Hamilton observou.

Fico por aqui. Espero que o contato com algumas das ideias dos “pais fundadores” dos Estados Unidos da América esteja ajudando o Leitor a enxergar com ainda mais clareza onde está o famoso “busílis” da questão ”porque somos o que somos e porque eles são o que são”.

Volto já já, com minha última postagem deste meio que insano 2021 com “Os Artigos Federalistas – Os Homens e o Phoder”

 


[1] Desconsiderei a Constituição de 1824 por ter vigorado por 67 anos.

[2] Tenho lá minhas divergências com o tema “busca da felicidade”, mas apoio a definição de Hamilton que visa reforçar o compromisso dos governos com o povo.

[3] Desavisado & Sabichão é o título do único livro que escrevi até hoje.

[4] Abordei sobre a crise de papel das instituições brasileiras na postagem “NOSSAS INSTITUIÇÕES E A CONSPIRAÇÃO PÚBLICA”.

[5] É o Senado Federal a instituição à qual cabe, pela Constituição, julgar ações que em princípio possam ser consideradas “anti-constitucionais”.

[6] Entendo que o excepcional aumento de decisões monocráticas em detrimento de decisões colegiadas em audiências no plenário do STF se destinam a proteger seus integrantes de virem a ser expostos e julgados interesses conflitantes.

quarta-feira, julho 21, 2021

ROGER SCRUTON, E O PTdoG – (1944/2020)


Entre os mais de seus 30 livros, Roger Scruton[1], inglês, filósofo contemporâneo, está “Tolos, Fraudes e Militantes” que acabo de ler. Nele Scruton procura desmascarar as proposta de alguns pensadores que integraram a “Nova Esquerda”[2] no século XX que pretendia, e ainda pretende, consertar o homem e a civilização. Uma das conclusões a que se chega após a leitura é que a intelectualidade ungida é composta de loucos, neuróticos, psicopatas, e quando não, no mínimo dos mínimos, hipócritas cínicos.

De todos os capítulos – quase todos de leitura árida - dois vou referenciar aqui. O primeiro é o que trata de “Guerras culturais no mundo todo: a Nova Esquerda de Gramsci a Said”. Nele Scruton começa lembrando o objetivo síntese de suas ideias – elaboradas no cárcere, é bom lembrar – era o de substituir a cultura burguesa por “uma nova e objetiva hegemonia cultural”. O que passa na cabeça de alguém com essa pretensão? O que ele imaginava ser “objetiva”? Como se pode obter, em qualquer tempo e lugar, “hegemonia cultural” quando em cada canto do mundo o desenvolvimento da cultura se deu sobre a heterogeneidade dos seres humanos e em função de circunstâncias absolutamente particulares e únicas? O nível de arrogância, de pretensão sobre deter a verdade, e de um absolutismo intelectual que chega ao cume além do qual ninguém conseguirá ir além.

Para qualquer mente sana in corpore sano, tal proposição bastaria para deixar tal indivíduo no limbo da história, mas não foi o que aconteceu. Gramsci se tornou o guru, o “grande mestre”, o tutor maior dos perdedores, dos carentes de um guia intelectual, mesmo que não compreendam razoavelmente o que ele diz. Basta gritar “abaixo a burguesia!!!” e seguir marchando de iPhone na mão. Mas este não descarte, ou, resgate extemporâneo, se deu, com especial intensidade, no Brasil. Gramsci está nos fundamentos das ideias e ações de PSOL e, em particular, do PT. Tendo isto como fato, passo a não me interessar mais em analisar Gramsci, mas apenas as ideias deste “intelectual” que estão no âmago da conduta daqueles dois partidos que hoje diariamente e intensamente tentam nos empurrar para o precipício da escuridão utópica que eles defendem.

Passo, então, a me referenciar apenas ao PT do G (Partido dos Trabalhadores de Antonio Gramsci) sempre que citar, daqui em diante, alguma das ideias e sugestões daquele prisioneiro italiano que se tornarem práticas de seus membros. Passagens extraídas do texto de Scruton estarão entre aspas duplas, e se contiverem citações de Gramsci, estas estarão entre aspas simples e itálico.

Entre as maluquices do PTdoG, está a de que seus dirigentes acham que da união entre intelectuais comunistas e as massas (...) ‘emergirá uma nova forma de governo por consenso’.” Para o sujeito minimamente realista que pergunta “como os conflitos serão acomodados ou resolvidos”, eles não têm resposta. Mas é uma enganosa constatação de ignorância. Todos sabemos que o cidadão pode ser maluco, mas não tão burro. Não à toa, portanto, o PTdoG devota parte considerável de sua utopia “ao papel dos intelectuais, afirmando diretamente não apenas que são os verdadeiros agentes da revolução, mas também que devem sua legitimidade à ‘correção’ de suas opiniões”.

Para os “petistas do G”, não há necessidade nenhuma de integrar o “proletariado”. Você pode continuar a ser um bajulador do seu intelectual de estimação, ou cumprir sua “desobrigação” em alguma repartição pública, ou, melhor ainda, “continuar em qualquer cargo confortável que lhe tenha sido oferecido e trabalhar pela derrota da hegemonia burguesa”, mas todos, ressalto, enquanto, hipocritamente, “aproveitam seus frutos”.

Os “petistas do G” desejam um governo que lhes proteja das injustiças da vida. Eles querem saúde, alimento, moradia, segurança e lazer, tudo oferecido por um Estado centralizador. Para tal satisfação estão dispostos a abrir mão da propriedade, as esquecem que quanto mais dependentes, mais limitados serão seus direitos e sua liberdade. E por uma razão simples que eles fingirão não enxergar até alguns milhões de “dissidentes” serem assassinados como sempre o foram na história: “os objetivos, libertação e justiça social, não são compatíveis”.

O planejamento central reivindicado pelos próceres do PTdoG, é o melhor caminho para a criação de escassez, privilégios de classes, mercado negro, sobrevivência do mais forte (literalmente) e injustiça – para dúvidas quanto a esta afirmação, consultar a história da economia e da vida soviética depois de 1917.

O capítulo encerra com Scruton diagnosticando que “entramos em um período de suicídio cultural, comparável ao sofrido pelo Islã após a ossificação do Império Otomano”.

O último capítulo, “O que é a direita?”, é o segundo do qual trago aqui algumas reflexões. Pouco o texto se dedica a dar uma resposta. A única que Scruton apresenta é que uma vez que um indivíduo é “identificado como de direita (...) seu caráter é desacreditado e sua presença no mundo é um erro”. Independente desta “falha”, no meu entender, ele coloca algumas cerejas neste indigesto bolo que estão pretendendo nos servir em futuro próximo.

De minha parte, o que me chamou a atenção ao longo de toda a obra é falta gritante de uma explanação sobre as bases de um sistema socinista (socialista-comunista). Scruton confessa que buscou, “em vão, nas obras” de diversos autores “uma descrição de como a “igualdade dos seres” defendida em seus atormentados manifestos” poderia ser alcançada. O máximo a que se chega é à utopia das utopias, “uma sociedade da qual tudo que a torna possível – leis, propriedade, costumes, hierarquia, família, negociação, governo, instituições – foi removido”.

A ideologia socinista ou “a ‘práxis revolucionária’ apenas nos leva a destruir o que não sabemos substituir” sem nos dar a mínima pista, “em termos concretos, o fim para o qual trabalha”.

O que fato incontestável é que “a tentativa de conseguir ordem social sem dominação inevitavelmente leva a um novo tipo de dominação, muito mais sinistra que a deposta”.

E é de Foucault que podemos tirar o lembrete de que “um déspota estúpido pode prender seus escravos com correntes de ferro, mas um verdadeiro político os amarra ainda mais firmemente com as correntes de suas próprias ideias [onde] o elo é ainda mais forte porque não sabemos do que é feito”.

Scruton vai chegando ao final. “O mundo do comunismo é um mundo de dominação impessoal no qual todo o poder está nas mãos de um partido” porque “a ideologia é um conjunto de doutrinas (...) de assombrosa imbecilidade (...) A ideia de ‘ditadura do proletariado’ (...) pretendia pôr fim às indagações, de modo que a realidade não pudesse ser percebida”.

Claramente, estamos lidando com uma necessidade religiosa, uma necessidade plantada profundamente em nosso “ser genérico”. (...) E esse desejo é mais facilmente recrutado pelo deus abstrato da igualdade do que por qualquer forma concreta de compromisso social. Defender o que é meramente real se torna impossível quando a fé surge no horizonte com seus atraentes presentes de absolutos.

Como você chegou até aqui me resta, apenas, esperar que você tenha tirado algum proveito.

 



[1] Na wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Roger_Scruton

[2] São eles: Eric Hobsbawn (1917/2012), Edward Thompson (1924/1993), John Kenneth Galbraith (1908/20060, Ronald Dworkin (1931/2013), Jean-Paul Sartre (1905/1980), Michel Foucault (1926/1984), Jürgen Habermas (1929/...), Louis Althusser (1918/1980), Jacques Lacan (1901/1981), Gilles Deleuze (1925/1995), Antonio Gramsci (1891/1937), Edward Said (1935/2003), Alain Badiou (1937/...), e Slavoj Žižek (1949/...).

 

sexta-feira, outubro 23, 2020

MUNDO NOVO, ADMIRÁVEL OU ABOMINÁVEL? - O RECEPTOR

Se todos somos emissores, e se nossas mensagens podem ser distribuídas para  todos, então, todos somos passíveis de sermos atingidos por mensagens sem que tenhamos escolhido as fontes emissoras! É plausível a pergunta inevitável: “e agora José?”.

Ao olhar para o antes das redes sociais, a disseminação da informação unidirecional, era exercida por um cartel de meios tradicionais formado pelas mídias impressa, radiofônica e televisiva, onde os detentores do poder (privado e estatal) pautavam a sociedade política, cultural, moral e eticamente, pois sempre em obediência a seus interesses umbilicais. Éramos meros receptores, nada mais que uma esponja absorvente, sujeitos passivos ao conteúdo de um número limitado de fontes e diversidade de opiniões, pois na maior das vezes, estavam em total sintonia de discurso. Isto não existe mais. Tais emissores perderam o controle. O cartel foi desmontado. Um CADE transcendental, onipresente na nuvem, deu um basta no oligopólio ao abrir o mercado da comunicação bidirecional (multicast) para a participação de todos, cidadãos, empresas, instituições de todas as áreas e instâncias, e governos. A opinião dos meios tradicionais não só não vale mais como ganhou o rótulo de tendenciosa e manipuladora, o que faz dos veículos tradicionais receberem a avaliação de serem as instituições menos confiáveis hoje no mundo.

A primeira consequência foi a adoção, pela grande mídia, do discurso político em substituição ao relato dos fatos. Ou mais adequadamente colocado, o fim da relevância da investigação antes de noticiar o que quer que seja (repórter investigativo é espécie ameaçada de extinção). A história sobre o fato, as motivações, os agentes, a descrição do fato em si, e as consequências, não importam, só conta quem conta e como conta. A expressão da vez é a “narrativa sobre o fato” e como “narrativa” é julgamento subjetivo, parcial e, na maioria das vezes, emocional. O extrato resultante é o da sociedade que deixa de ser democrática – respeito à opinião adversa, para se tornar simplesmente uma sociedade “canceladora” (eu discordo, logo te cancelo).

Amanda e Loiola

Um segundo aspecto é que passamos à condição de receptores involuntários de uma mixórdia de narrativas, cujo exemplo mais atual nos é dado pela COVID-19, onde ninguém sabe nada ou quase nada, mas todos se acham no direito e no dever de fazer “alguma coisa”. Nosso grandíssimo problema não é separar o joio do trigo, é reconhecer um e outro para poder separar uma coisa de outra. Para estabelecer uma “verdade”, mesmo sendo só a “minha verdade”, estamos entalados com “verdades” que se contrariam sobre um mesmo fato, uma mesma notícia, um mesmo problema. Recebo “estudos que comprovam” tanto o sim quanto o não sobre qualquer tema da vida!!! É patético ver uma Amanda Klein(1), pseudo-jornalista, no programa do Lacombe, na Rede TV. Ela “se acha” tanto dona da “verdade” a ponto de contestar, em postura arrogante, previsões de um estudioso de viroses, o médico Alessandro Loiola com uma exclamação em tom jocoso: “Diga doutor, o pseudo-jornalista senhor então tem uma bola de cristal!”.

Se nós, adultos, estamos com este colossal problema, que dizer de nossos filhos e netos que nem mesmo percebem o problema ainda? Dar celular ou não? Instalar (e configurar!) filtros de conteúdo ou não. Quantos minutos (ou horas?)  lazer digital deve-se permitir. Como lidar com o bulliyng digital? Quem está se comunicando com eles é um avatar, um robô, um outro ser-humano, e ser for um, de que sociopatia é possível que ele sofra?

O "cara" do Fique em casa.

A necessidade do “eu preciso postar”, me manifestar nas redes sociais, leva políticos ao exercício da leviandade, da pressa em tomar decisões intempestivas que irão afetar toda mais de 200 milhões de brasileiros. Eis os dois exemplos do que falo. Um ex-ministro da saúde do governo mandou que todos ficassem em casa e que só se dirigissem a hospitais depois de terem sintomas graves. Quantos terão morrido por essa insanidade? Um governador declara que vai obrigar toda a população do seu estado a se vacinar, lembrando que isto, sendo possível realizar, é jurisdição exclusiva do governo federal, e quando nem mesmo uma vacina existe e, se vier a existir, virá com um “erro de origem”, pois terá sido fabricada pela China, o país que criou o vírus e o distribuiu para o mundo!

O que estou apontando é o fato do poder de disseminação das redes sociais ter criado um senso geral de urgência. É uma corrida para ver quem ganha seus segundos de fama e nos envolve nas mais estapafúrdias e contraditórias afirmações. Personagens como Amanda e Gregório Duvivier (um pseudo-comediante) são estúpidos, mas recebem aplauso de uma cota de audiência, cujas cabeças entortam, ou reforçam o desvio, pois, por preguiçosas quanto à obtenção do saber, se deixam moldar mais facilmente. A História não terá lugar para eles.

Na próxima semana trato de nossa nova condição como agentes da comunicação. Nem emissor, nem receptor, agora somos todos Eceptores.

 

(1) Para assistir ao que relatei, basta assistir os primeiros minutos deste vídeo. https://www.youtube.com/watch?v=-asWTIBThR0

domingo, novembro 20, 2016

COMENTÁRIOS DA SEMANA - 20 A 26/11/16

24 - O INOCENTE E BEM INTENCIONADO GEDDEL

O caso Geddel é uma agressão à inteligência do cidadão. O ministro da Cultura pede demissão alegando ter sido pressionado para liberar a construção, em área histórica de Salvador, de um prédio onde o solicitante adquiriu um apartamento na planta. A seguir o presidente da República finge que não nenhum problema sério de ética ocorreu e o mantém no cargo. 

Se considerarmos, por exemplo, esta notícia de setembro/16, podemos imaginar que provavelmente Geddel não foi deposto porque, como corre nas mesas de bares, "sem foro é com Moro".


20 - INSTIGADO POR CABRAL, O SÉRGIO

No passado chamei atenção para a total inutilidade do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), dado que nunca houvera se manifestado apontando movimentações "estranhas" de ninguém, isso com as águas da Lava Jato jorrando para todos os lados. Até que entendi a razão: o Coaf(*) é um órgão administrativo de assessoria da Receita Federal, mas foi criado para ser um instrumento fundamental no combate ao crime financeiro. Ora, a Lava Jato trata do quê mesmo? Mas ninguém viu os mais de 200 milhões de reais, em papel e/ou em bits, trafegarem de empreiteiras para pessoas físicas aboletadas no poder!!!

Hoje, a imprensa divulga a "suspeita" de que Cabral, o Sérgio, "administrava seu patrimônio" através de uma empresa de transporte de valores.

E o Coaf nunca soube de nada, não viu nada? O que tem a declarar a Receita Federal? É o que eu e muitos brasileiros gostariam de saber, até porque, para qualquer depósito não declarado de mil reais feito na conta de um de meus netos como presente de aniversário, por exemplo, nós somos intimados a prestar esclarecimento.

terça-feira, julho 19, 2016

HÁ 20 ANOS

Neste tempo de ilógicos atentados a inocentes, cuja eficácia não identificamos, lembrei-me de Samuel P. Huntington, economista norte-americano, que, em 1996 (portanto há 20 anos), publicou, premonitoriamente, "Choque de Civilizações", e fui buscar o "extrato" da leitura que fiz naquele final de década.

Não foi, portanto, por falta de aviso (o que me faz duvidar seriamente da eficácia do trabalho de caras como Huntington, Tofler, Huxley e outros, do passado e do presente, já que parecem ser intencionalmente ignorados).

A íntegra do extrato você acessa aqui, mas reproduzo a seguir o que achei de mais pertinente ao que estamos ouvindo e assistindo todos os dias. Não acredito que possamos imaginar a dimensão do que está por vir - nem visualizar uma porta de saída para este que é o maior dos conflitos -, por mais reflexões que façamos. Espero, apenas, ajudá-lo a organizar sua percepção para tocar a vida com o mínimo de sanidade mental e esperança.


"Civilização é o mais amplo agrupamento cultural de pessoas e o mais abrangente nível de identidade cultural que se verifica entre os homens, excetuando-se aquele que distingue os seres humanos das demais espécies."

"As civilizações se diferenciam umas das outras por sua história, língua, cultura, tradição e, sobretudo, religião."

"As interações entre os povos de diferentes civilizações estão aumentando; essas interações crescentes intensificam a consciência das civilizações, das diferenças entre as civilizações e entre as comunidades das civilizações."

"A desocidentalização e a nativização das elites ocorre em muitos países, ao mesmo tempo que as culturas, estilos e hábitos ocidentais, geralmente americanos, tornam-se populares entre a massa da população."

"Em conflitos ideológicos e de classe, a questão-chave era:”De que lado você está?” As pessoas podiam escolher um lado e podiam mudar de lado. Nos conflitos entre as civilizações a questão é: “O que é você?” Isso não pode ser mudado."

"O governo democrático moderno nasceu no Ocidente. Quando se desenvolveu em sociedades não-ocidentais, geralmente foi o produto do colonialismo ou da oposição ocidental."

"O fim da União Soviética pode dar à Turquia a oportunidade de se transformar em líder de uma civilização turca renascida que englobaria sete países, da fronteira da Grécia às da China. Estimulada pela postura ocidental, a Turquia está fazendo um vigoroso esforço para forjar essa nova identidade."

"Se os russos, deixando de se comportar como marxistas, rejeitarem a democracia liberal e passarem a se comportar como russos, mas não como ocidentais, as relações entre a Rússia e o Ocidente poderão de novo se tornar distantes e conflituosas."

"A curto prazo, seria claramente vantajoso para o Ocidente promover mais cooperação e união em sua própria civilização, em especial entre seus componentes europeus e norte-americanos, incorporar ao Ocidente as sociedades da Europa Ocidental e da América Latina, cujas culturas se aproximam da ocidental; promover e manter relações de cooperação com a Rússia e o Japão; evitar que conflitos intercivilizacionais locais se transformem em grandes guerras intercivilizacionais...."

"Para isso o Ocidente terá de manter o poderio econômico e militar necessário para proteger seus interesses diante dessas civilizações."

sexta-feira, abril 01, 2016

CHOQUE DE CULTURAS

Acabo de terminar a leitura de "Os lugares do meio", do jornalista Rory Stewart, publicado em 2008 pela Record.

É o relato da peregrinação que fez em 2002, no Afeganistão, entre as cidades de Herat e Cabul.

A leitura dá uma boa contribuição para avançarmos no entendimento do que acontece naquela região e em outras como na Síria, Egito, Iraque etc.


terça-feira, abril 21, 2009

IMAGÉTICO INTANGÍVEL

Estou lendo "A Nova cultura do Desejo", de Melinda Davis, antropóloga por formação, consultora de marketing por profissão. A proposta é discutir, destrinchar, entender as consequências dessa era de preocupações imagéticas que nos domina 24 horas por dia. Para quem está ligado nisso, é uma excelente leitura.