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quarta-feira, agosto 27, 2025

O DISCURSO DE HOWARD ROARK

NOTA INTRODUTÓRIA: Ayn Rand, a autora das ideias que trago aqui, construiu um personagem, portanto utópico, idealizado, com uma personalidade que leva ao extremo sua integridade em respeitar a si mesmo. Entre ele, o egoísta, e seus antagônicos, os altruístas, há uma infinidade de modelos de personalidade que mixam os dois princípios. O interesse da autora é questionar as ideias e valores defendidos por uma ideologia do coitadismo do desprovido, do medíocre, do parasita, tão presente hoje em nossa mundo, apesar destes escritos terem sido publicados há cerca de 80 anos, em plena Segunda Guerra Mundial. O seu interesse, portanto, não é o de tornar os bilhões de indivíduos do planeta em howards, mas demonstrar que a humanidade precisa deles para que os outros possam ter uma vida melhor. Boa leitura e fique bem! 

Considero Ayn Rand uma filósofa em essência, pois em seus romances ela vai muito além de ser uma escritora excepcional. Suas obras são um mergulho profundo na alma humana. Depois de ler “A Revolta de Atlas”, em 2024, terminei neste agosto de 2025 a leitura de “A Nascente”[1], uma verdadeira ode à integridade de pensamentos e atos. Seus personagens são construídos com um rigor só encontrado nos maiores escritores de todos os tempos. Sua leitura, se não transformar o leitor, abala-o inexoravelmente, pois ela não tem medo de apertar com toda a força os pontos mais dolorosos de nossos espíritos e certezas sobre nossos valores.

Resolvi fazer esta publicação para manifestar minha admiração pelo pensamento de Ayn Rand e no intuito de estimular outras pessoas a refletir sobre suas ideias. Retirei algumas partes de um discurso do personagem Howard que considerei pertinentes à nossa atualidade e editei esta postagem[2].

Preciso, antes, esclarecer dois termos que serão frequentes. O primeiro é “criador”, com letra minúscula, significando, simplesmente, “aquele que cria”, que faz, que realiza, que empreende, que corre riscos e assume as consequências com a naturalidade dos estoicos. O segundo, em contraste, é o “parasita”, aquele que se coloca como “vítima”, injustiçado, que clama por proteção e se guia pela inveja.

No prefácio, a autora justifica sua motivação para expor suas ideias dizendo que “não podemos abandonar o mundo para aqueles que desprezamos”. E mais adiante exemplifica dizendo que “os que odeiam o homem”, como ela o entende,  são aqueles que o veem como uma criatura desamparada, depravada e desprezível - e lutam para jamais deixá-lo descobrir que não é assim. Para ela, há uma história milenar de pregação intencional e maléfica da fragilidade humana.

Estas notas que faço visam tão-somente o entendimento correto das passagens selecionadas. Evidentemente para entender com absoluta clareza em que a autora acreditava, é preciso ler todo o romance.

Se você preferir, o áudio-vídeo desta publicação está no no “Canal do Paulinho”[3] com o título “O Discurso de Howard Roark”. Vamos lá.

“Há milhares de anos, o primeiro homem descobriu como fazer o fogo. Ele provavelmente foi queimado na fogueira que ensinara os seus irmãos a acender. Foi visto como um homem maligno que havia tratado com um demônio temido pela humanidade.

“Mas a partir de então, os homens possuíram o fogo para aquecer-se, para cozinhar sua comida, iluminar suas cavernas. Ele lhes deu uma dádiva que não haviam concebido, e removeu a escuridão da face da Terra.

“Séculos mais tarde, o primeiro homem inventou a roda. Ele provavelmente foi despedaçado na própria roda que ensinara seus irmãos a construir. Foi visto como um transgressor que se aventurou em território proibido. Mas a partir de então, os homens puderam viajar além de qualquer horizonte. Ele lhes deu uma dádiva que não tinham concebido e abriu as estradas do mundo.

“Esse homem, o primeiro que não se submete a ninguém, figura nos primeiros capítulos de todas as lendas que a humanidade já registrou sob suas origens. (...) Adão foi condenado a sofrer porque comeu o fruto da árvore do conhecimento. Qualquer que fosse a lenda, em algum lugar nas sombras de sua memória, a humanidade sabia que sua glória começou com um único homem e que ele pagou pela sua coragem.

“Ao longo dos séculos, existiram homens que deram os primeiros passos em novos caminhos, armados apenas com sua própria visão. Seus objetivos variavam, mas todos eles tinham algo em comum: o seu passo era o primeiro, o seu caminho era novo, a sua visão era original e a reação que receberam foi... o ódio.

“Os grandes criadores - pensadores, artistas, cientistas, inventores... - enfrentaram sozinhos os homens de seu tempo. Todas as grandes ideias originais foram atacadas. Todas as invenções revolucionárias foram denunciadas. O primeiro motor foi considerado uma bobagem. O avião impossível. A máquina de tear maligna. A anestesia, pecaminosa. Mas os homens de visão independente seguiram adiante. Eles lutaram, sofreram e pagaram. Mas venceram.

“Nenhum criador foi motivado pelo desejo de servir aos seus irmãos, porque estes rejeitavam a dádiva que ele oferecia, a dádiva que destruía a rotina preguiçosa de suas vidas. A verdade do criador era sua única motivação, a sua própria verdade e seu próprio esforço para alcançá-la da sua própria maneira. Uma sinfonia, um livro, um motor, uma filosofia, um avião ou um prédio... sua criação era seu objetivo e sua vida. (...) A criação que dava forma à sua verdade. Ele colocava a sua verdade acima de tudo e a defendia contra todos.

“Sua visão, sua força e sua coragem originavam-se de seu próprio espírito. O espírito de um homem, entretanto, é o seu próprio ego, a entidade que é a sua própria consciência. Pensar, sentir, julgar e agir são funções do ego.

“Os criadores não eram altruístas. (...) O criador não servia a nada nem a ninguém. Ele vivia para si próprio.

“É somente porque viveu para si próprio é que o criador pode conquistar as coisas que são a glória da humanidade. Essa é a natureza da conquista.

“O homem (...)  nasce desarmado, seu cérebro é sua única arma. (...) Tudo o que somos e tudo o que temos vem de um único atributo do homem: a capacidade de sua mente racional.

“Mas a mente é um atributo do indivíduo. Um cérebro coletivo é algo que não existe. (...)  O uso da razão tem que ser executado por cada um individualmente. (...) Nenhum homem pode emprestar seu cérebro para que outros pensem. Todas as funções do corpo e do espírito são individuais, não podem ser compartilhadas nem transferidas.

“A força motriz é a faculdade criativa, que usa [uma criação] como material e origina o próximo passo. Essa faculdade criativa (...)  é propriedade de cada indivíduo. (...) Nenhum homem pode dar a outro a capacidade de pensar, e essa capacidade é o nosso único meio de sobrevivência.

“O homem pode sobreviver de 2 maneiras, por meio do uso independente de sua mente ou como um parasita alimentado pelas mentes de outros. (...) O parasita toma emprestado. O criador enfrenta a natureza sozinho. O  parasita enfrenta a natureza através de um intermediário. A preocupação do criador é a conquista da natureza, a preocupação do parasita é a Conquista dos homens.

“O criador vive em função do seu trabalho, ele não precisa de ninguém. Seu objetivo principal está dentro de si mesmo. O parasita vive em função dos outros, ele precisa dos outros. Os outros são a sua motivação principal.

“O parasita declara que o homem existe para servir aos outros. Ele prega altruísmo, que é a doutrina que exige que o homem viva para os outros e dê mais importância aos outros que a si próprio.

“Aos homens foi ensinado que a dependência é uma virtude. Mas um parasita faz daqueles a quem serve parasitas também. O homem que vive para servir aos outros é o escravo. (...)  O mais repugnante é o conceito de escravidão espiritual. (...) O homem que se escraviza voluntariamente em nome do amor é a criatura mais desprezível que existe. Ele degrada a dignidade do homem e degrada o conceito de amor, mas essa é a essência do altruísmo.

Aos homens foi ensinado que sua primeira preocupação é aliviar o sofrimento dos outros. (...) Sob essa perspectiva, o homem deve desejar que os outros sofram, para que ele possa ser virtuoso. Essa é a natureza do altruísmo.

“O criador não se preocupa com a doença, mas com a vida. Ainda assim, o trabalho do criador eliminou doença após doença, curando tanto o corpo quanto o espírito do homem, e aliviou o sofrimento humano numa escala que altruísta nenhum jamais poderia conceber. (...) O criador é o homem que discorda. Aos homens foi ensinado que nadar a favor da corrente é uma virtude. Mas o criador é o homem que vai contra a corrente. Aos homens foi ensinado que se unir aos outros é uma virtude, mas o criador é o homem que fica sozinho.

“Aos homens foi ensinado que o ego é sinônimo do mal e que esquecer o ego e ser altruísta é o ideal da virtude, mas o criador é o egoísta no sentido mais absoluto, pois o homem sem ego é aquele que não pensa.

“Duas concepções foram oferecidas ao homem  como polos do bem e do mal: altruísmo e egoísmo. (...)  Quando a essas concepções foi adicionada a ideia de que o homem deve se alegrar com o sacrifício pessoal, [ou seja] a auto imolação, a armadilha se fechou. O homem foi forçado a aceitar o masoquismo como seu ideal, sob ameaça de que o sadismo era sua única alternativa. Essa foi a maior fraude jamais perpetrada contra a humanidade.

“A escolha não é o sacrifício pessoal ou domínio sobre os outros. Ela é independência ou dependência. O código do criador ou o código do parasita (...). Essa é a questão básica, e ela procede da alternativa entre a vida e a morte. (...) Tudo o que resulta do ego independente do homem é bom. Tudo o que resulta da dependência de um homem em relação ao outro é mau.

“O egoísta, no sentido mais absoluto, não é o homem que sacrifica os outros. O egoísta é o homem que está acima da necessidade de usar os outros. (...) Ele não existe para benefício de nenhum outro homem e não pede a nenhum outro homem que exista para seu benefício. Essa é a única forma possível de irmandade e respeito mútuo entre os homens.

“A Independência de um homem é a única medida da sua virtude, do seu valor. (...) Não o que fez ou deixou de fazer pelos outros. O único padrão de dignidade pessoal que existe é a independência.

“Os homens trocam o seu trabalho de livre e espontânea vontade, com mútuo consentimento e para vantagem mútua sempre que seus interesses pessoais [egoístas] coincidem e ambos desejam a troca. Se não desejam tratar um com o outro, não são forçados a fazer isso. Ambos podem continuar seguindo seus caminhos. Essa é a única forma possível de relacionamento entre iguais. Qualquer outra é uma relação entre escravo e dono, ou entre vítima e carrasco.

“O primeiro direito na Terra é o direito do ego. A principal obrigação do homem é consigo mesmo. Sua lei moral é nunca permitir que seus principais objetivos residam dentro de outros. Sua obrigação moral é fazer o que deseja, desde que seu desejo não dependa basicamente de outros (...)

“Aqueles que dominam os outros não são egoístas, eles não criam nada. A sua existência depende inteiramente de outros. (...)  Eles são tão dependentes quanto o mendigo, (...)

“O criador rejeitado, hostilizado, perseguido, explorado, perseverou, seguiu adiante e, com sua energia, carregou toda a humanidade com ele. O parasita não contribuiu com nada para esse processo, exceto com os obstáculos. (...)

“O bem comum do coletivo, da raça, da classe, do estado, foi a negação e a justificativa de todas as tiranias estabelecidas sobre os homens. Os maiores horrores da história foram cometidos em nome de motivos altruísticos. Será que já foi cometido algum ato de egoísmo que possa igualar a carnificina executada pelos discípulos do altruísmo? (...) Os piores carrascos foram os mais sinceros, eles acreditavam na sociedade perfeita, alcançada através da guilhotina e do pelotão de fuzilamento. Ninguém questionou na história o direito de matar porque matavam por motivações altruístas.

“Os atores mudam, mas o curso da tragédia permanece o mesmo. Humanitários que começam declarando seu amor pela humanidade e acabam com banhos de sangue. Assim foi e assim será enquanto se acreditar que uma ação é boa se for altruísta. (...)

“A única forma de os homens se beneficiarem mutuamente e a única declaração de um relacionamento apropriado entre eles é: não se meta.

“A sua própria felicidade (...)  é uma motivação pessoal individual, egoísta.  Olhem para os resultados, examinem suas próprias consciências.

“Agora, na nossa época, o coletivismo, o reinado do parasita (...) , do medíocre, o monstro antigo está à  solta e correndo descontrolado. Ele levou os homens a um nível de indecência intelectual nunca igualado na face da Terra. Causou horror numa escala sem precedentes. Envenenou todas as mentes. Engoliu a maior parte da Europa. Está tomando conta de nosso país.

“Eu vim aqui para dizer que não reconheço o direito de ninguém a um minuto sequer da minha vida, nem a nenhuma parte da minha energia, nem a nenhuma conquista minha. (...)

“Eu quis vir aqui dizer que sou um homem que não existe para servir aos outros. Isso precisava ser dito. O mundo está perecendo por causa de uma orgia de sacrifícios pessoais.

“Eu quis vir aqui dizer que a integridade do trabalho criativo de um homem é muito mais importante que qualquer projeto de caridade. Eu não reconheço nenhuma obrigação para com os outros homens, com uma única exceção, respeitar a sua liberdade e não participar de nenhuma maneira em uma sociedade escravocrata.

O que você acaba de ler, é uma mínima parte das ideias defendidas por Ayn Rand, uma cidadã russa que emigrou de seu país após a revolução bolchevique, e se tornou cidadã americana. Seu livro “A Revolta de Atlas” já ultrapassou a marca dos 11 milhões de exemplares vendidos e é considerado, depois da Bíblia, o livro mais influente nos Estados Unidos. “A Nascente” já ultrapassou 6 milhões e seu texto é discutido em universidades.”


Obrigado pela sua atenção.





[1] Ayn Rand (1905-1985). “A Nascente” (no original “Fountainhead”), foi escrito entre 1936 e 1943, quando foi publicado, isto depois de ter sido rejeitado por outras 12 editoras.

[2] Entre colchetes [] são inserções minhas.

[3] Canal do Paulinho: 

https://www.youtube.com/user/paulovogel09



sábado, abril 24, 2021

ENTENDA, NÃO É POLÍTICA, É UMA GUERRA PELO PHODER!

 "A força, a fraude e o saque, é só o que eles conhecem!" (1)

"Nesta guerra, a cada embate se joga uma moeda; se der cara, eles ganham, se der coroa, nós perdemos." (2)

Neste início dos anos 2020, não estamos vivenciando um debate de ideias sobre sistemas econômicos e políticos. Não, não é isso. Estamos sendo obrigados a combater em uma guerra que visa exclusivamente a tomada do phoder, o controle do dinheiro, da riqueza, e, para tal intento, a submissão do cidadão, e isto, não necessariamente pelas urnas"(3). É um fato "escarrado e cuspido" em nossa cara a todo instante. Esta postagem será uma tentativa de mostrar esta realidade àqueles que ainda guardam certas dúvidas, dúvidas do tipo "mas será que é isso mesmo?", "será que não é só teoria da conspiração?", "será que tem gente capaz de mentir, distorcer fatos, editar criminosamente falas, sem nem mesmo se importar com coerência, só para atacar por atacar?". Nem me alongo, só preste atenção no conteúdo deste vídeo da Paula Marisa postado em 21 ou 22 de abril/21. E para melhor compreensão do que vou expor, é aconselhável que você tenha lido antes a postagem "O Processo".

Depois de mais de um século e meio de infiltração silenciosa do arcabouço de princípios socinistas em todas as camadas da estrutura do Estado e das instituições de algum modo dele dependentes (sindicatos, ONGs, associações profissionais, movimentos "sociais", etc.), um verdadeiro cozinhar em fogo brando para a implantação de uma economia planejada pelo Estado, portanto centralizada, e portanto, dependente de um governo ditatorial, eis que se atinge o ponto em que eles entendem "chegada a hora" de ir pro pau... Brasil. Chega de tergiversar. "Vamos à guerra!!! Para o tudo ou... tudo.

Tenho assistido meus comentaristas políticos preferidos e cada dia mais os critico por ainda darem "trela" ao que falam indivíduos de todas as entidades (liste as que lhe vier à cabeça) da sociedade à esquerda do espectro político. Se este ignorante que vos escreve percebe esta evidência, não posso acreditar que tais profissionais, viventes e sobreviventes da atividade diária de avaliar os fatos políticos, ainda não perceberam a inutilidade de suas análises frente ao que realmente está acontecendo!!! Só posso entender o tempo que eles dedicam a criticar ou contra argumentar o que diz um presidente da OAB (petista); um governador como Agripino (petista de ocasião) ou um Flávio Dino (comunista); uma Marina Silva do PSOL (petista magoada) ou Freixo, seu companheiro mal intencionado; qualquer um dos ungidos ministros Supremacistas da Justiça, rasgadores da Constituição; ou uma mídia representada por Veras, Mirians, Mainardis e mesmo seus editores antibolsonaristas obedientes a seus patrões desmamados das tetas do Estado; ou, cerejas deste bolo estragado, com Caetanos, Felipes, Joyces e Frotas; só posso entender, repito, como sendo o dever de justificar o salário que recebem. Que justifiquem, é honesto. Mas que deixem de identificar lógica onde só há determinação em guerrear, lacrar, desconstruir e destruir. E esta guerra não é passatempo de videogame, ela é real, ela está acontecendo dentro de sua casa, na rua, no seu trabalho, na sua mente. Em uma guerra real, para "tomar o poder" (3), o inimigo TEM QUE ser derrotado, aniquilado, de preferência, morto. Como afirmei em "O Processo", qualquer coisa que eles digam tem apenas um propósito: "NEGAR.. E ATACAR!"

A moeda da comunicação digital, símbolo da era digitrônica, de um lado mostra o cidadão que tem sua voz potencializada e liberada, podendo expressar suas ideias e opiniões para o mundo em seus próprios termos e intensidade, sem, em tese, regulação de ninguém. Do outro lado está a arma que dá poder de ataque àqueles que não desejam ouvir, mas tão somente negar direitos ao discordante e negar até mesmo a si mesmos em suas incongruências, pois elas estão a serviço da aniquilação do  outro, e é o que importa.

Mas temos uma outra realidade a enfrentar. Esta parcela da população que está sendo atacada, ou seja, os liberais, conservadores ou não, não têm medo de guerrear, mas o querem fazer dentro de regras acordadas em alguma convenção de Genebra(4). Essa visão "inocente" nos levará inevitavelmente ao precipício, pois, o inimigo não tem qualquer gota de escrúpulo e limite para suas ações(5). Ou abrimos mão desta premissa ou "locupletemo-nos todos"(6).  

Mas sem partir "para a ignorância", ou usar de recursos não-democráticos, nos restam, sem prejuízo de outras, no curto prazo, algumas ações, se não de contra-ataque, pelo menos de resistência. 

A primeira, é simplesmente assinar toda e qualquer manifestação nas redes sociais com um "Bolsonaro 2022". E se você é um que está "decepcionado" com ele, chamo sua atenção para dedicar mais atenção para entender o que está acontecendo e imaginar o que poderá advir se a "direita" (simplificando) não se mantiver no poder para além de 22 (Atenção: não existe outra opção que não Bolsonaro).

A segunda, é defender o governo, junto aos indecisos ou "decepcionados", em todas as oportunidades que tiver (mas sem debate, é inútil). Nenhum pessoa minimamente reconhecedora das capacidades do ser humano, do direito à sua liberdade de condução da vida e de opinião, contrária à estatização dos meios de produção, contrária ao fim da propriedade privada, contrária à destruição da família e à pornorização da educação infantil e juvenil, pode aceitar que este governo, que o representa (é preciso lembrar, infelizmente), ser destruído de modo tão abjeto.

A terceira, é, neste 1º de maio, ir às ruas proclamando aquilo que suas convicções lhe mostram ser mais importante para ser exposto como mensagem ao Presidente. Este próximo sábado terá que entrar para a história como a maior manifestação de rua jamais vista! Não creio que venhamos a ter outra chance.

Encerro citando algumas passagens de A Revolta de Atlas (romance com 1216 páginas, mas que todos estes a quem me dirijo, deveriam ler).

"Não existem fatos objetivos. Toda reportagem não passa da opinião de alguém. Portanto, é inútil escrever sobre fatos." (7)

"Se nós, que somos os que fazem, os que produzem, (...) suportamos silenciosamente o castigo a que nos sujeitam por causa de nossas virtudes, que espécie de “bem” queremos que triunfe nesse mundo?" (Personagem Rearden) (8)

"(...) o fato é que o homem é um ser cuja consciência tem poder de escolha. (...) O homem cujos atos contradizem as suas convicções, não passa de um hipócrita barato. (...) O homem que se recusa a julgar, que nem concorda nem discorda, que afirma não haver absolutos e acredita desse modo se esquivar das responsabilidades – esse homem é responsável por todo o sangue que [poderá vir a ser derramado] no mundo. (...) Todo ato na vida do homem depende da vontade (...). As hordas de selvagens jamais constituíram obstáculos para os homens que marcham sob o estandarte da mente." (Personagem John Galt)

"(...) eles não poderiam ganhar de nós [se] não tivéssemos entregado o mundo a eles." (Personagem D’Anconia)



(1) Fala do personagem John Galt no romance A Revolta de Atlas, de Ayn Rand, se referindo aos que, no romance, estão no poder.

(2) Inspirado em formulação feita por Rodrigo Constantino.

(3) Em 2018 José Dirceu pontificou: "(...) é uma questão de tempo pra gente tomar o poder. Aí nós vamos tomar o poder, que é diferente de ganhar uma eleição”. 

(4) Wikipedia: "As Convenções de Genebra são uma série de tratados (...) que definem os direitos e os deveres de pessoas, combatentes ou não, em tempo de guerra."

(5) Lênin, em discurso: "(...) É chegada a hora de levarmos adiante uma batalha cruel e sem perdão (...).

(6) Atribuída ao jornalista Sérgio Porto, o criador do personagem Stanislaw Ponte Preta.

(7) Esta frase é atribuída, no romance A Revolta de Atlas, a um "famoso editor", o que me leva a suspeitar que o pensamento foi realmente manifestado por um "famoso editor" de meados da década de 1950 quando ele foi escrito. 

(8) Ajustei esta citação ao tempo presente.

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segunda-feira, abril 05, 2021

INTRODUÇÃO AO NÃO DEBATE

 

Sabe, acho que não consigo acreditar nisso tudo que está acontecendo agora.

Sei que está acontecendo para valer, mas não acredito.

Fico achando que a loucura é o estado em que a pessoa não sabe o que é real e o que não é. Bem, o que é real agora é uma loucura, e, se eu aceitá-lo como real, perco o juízo, não é?”


Edie Willers, personagem de Ayn Rand (*)

 

Em uma madrugada, provavelmente, de 1966, eu, com 17 anos, e dois amigos, sentados no interior do Aero Willis de meu pai, estacionado na garagem de casa, discordamos até o amanhecer sobre as “verdades” de nossas crenças e também sobre a falta de algumas delas. Considero aquela a última grande discussão sobre “visões” de mundo e de vida em que tenha  me envolvido desde então, pois as poucas que ainda ocorreram foram insignificantes comparadas àquela, pois a partir dali incorporei como princípio imutável que ninguém convence ninguém do que quer que seja quando está em pauta um conflito de visões fundamentais, em especial, religião, política e futebol.

Aceitar a opinião de outro só é possível quando ela corrobora, comprova a minha “verdade”, ou quando ela não me pressiona a encarar eventuais contradições ou hipocrisias que ela possa conter. Concordar com uma visão contrária à minha, até então, é violar minha integridade moral, pois me obriga a abandonar uma convicção extraída das conclusões tiradas dos eventos e circunstâncias da minha vida até ali. Não é possível alguém se deixar convencer, portanto, porque essa admissão implicaria, necessariamente, a admissão de minha ignorância, ou credulidade, ou burrice, frente, normalmente, a uma plateia que me julgará negativamente dali em diante. Basicamente o erro crasso em um debate sobre visões divergentes, é o risco altíssimo de, em um ambiente sem privacidade, sem sigilo, sermos expostos ao ridículo, à vergonha, à chacota. Em tais circunstâncias elevamos a voz, usamos termos chulos e agressivos, nos retiramos tempestivamente do ambiente, ou, no extremo do desespero em manter nossa integridade, partimos para a agressão física. Discutir visões, definitivamente não é uma boa ideia.

Mas as pessoas mudam de opinião, reveem premissas, conceitos, conclusões, todos nós sabemos. Exemplos pipocam à nossa volta o tempo todo, até mesmo em depoimentos públicos de celebridades da vida artística, intelectual e política. Então, por que e quando mudam?

A reação à aceitação de uma opinião não é pela opinião em si, mas pelo contexto em que ela é proposta. Quando assisto uma entrevista ou crônica em um canal digital, por exemplo, e me é apresentada uma visão diferente e eu percebo nela uma visão melhor, ou mais realista, ou mais prática, ou mais óbvia, daquela que sustento, e por mais oposta que seja, estou em uma circunstância em que o diálogo, o debate, a discussão, se estabelece de meu eu comigo mesmo. Esta é a diferença. Não estou sob olhares julgadores, não estou sob a ameaça de ter minha visão achincalhada, posso simplesmente dizer a mim mesmo “é, isso me parece mais coerente, esse a quem assisto me mostrou um lado que ainda não havia percebido”, e ISSO faz toda a diferença. Numa outra perspectiva, temos a fala de um pai que tem que ser combatida, seja  em razão do conflito de gerações, seja porque não “posso dar mole pra esse cara”, enquanto na sala de aula, onde o professor é o Mestre, uma “autoridade” que disserta, sem exigir o confronto, é muito mais fácil nos tornarmos “esponjas” para qualquer proposição, principalmente quando sabe-se que vale ponto na avaliação final.

Uma amiga, funcionária graduada de uma universidade federal, me conta que em conversa com um dos professores, revelou-lhe que fugia de qualquer discussão com simpatizantes do pensamento à esquerda do espectro político, pela impossibilidade de uma conversa construtiva. Em resposta, este professor reagiu com certa indignação dizendo que era “nossa” obrigação (os liberais, conservadores), não se eximir de tais embates sob pena de os deixarmos mais convictos de suas “insanidades”. Me causou feliz surpresa saber que ainda existem funcionários e professores em nossas universidades que não foram atingidos pela pandemia das “verdades” dos defensores da “nova ordem mundial” e que se enchem de pensamentos preventivos e certezas “sem comprovação científica”. Eu lhes dedico meu mais profundo respeito, mas estou com minha amiga e não abro. Ninguém, portanto, convence ninguém, pois a única possibilidade é o autoconvencimento.

Todo esse papo é uma introdução, uma preparação para a próxima postagem quando vou mostrar a guerra em que estamos metidos e, portanto, a inutilidade de perdermos tempo e energia imaginando que os “hipócritas ungidos”, ou os loucos, ou os déspotas, ou os negacionistas, um dia se disporão a uma conversa, a uma troca de ideias. Não o farão, porque negar e atacar, não importa o que, é vital para a tomada do poder, sua única possibilidade de sobrevivência.

  

(*) Reflexão extraída do romance “A Revolta de Atlas”, pág. 593.

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