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quinta-feira, setembro 07, 2023

EXTIRPANDO A DEMOCRACIA - 1: Do “Laissez-faire” à Tirania

 

INTRODUÇÃO

 

Como o que pretendo trazer à reflexão trata de conceitos que precisam ser entendidos por todos os leitores de uma mesma maneira, este texto é introdutório aos demais que trarei em seguida.

Uma das lições aprendidas na faculdade de administração que até hoje estão na minha memória foi a que apresentou às três formas de administração - as técnicas de conduzir com sucesso algum processo produtivo (em sentido amplo). São elas: a autocracia[1], a democracia e o laissez-faire[2]. Cada uma tem suas próprias características e a escolha de qual aplicar em cada caso é determinada pela avaliação de três fatores: circunstâncias, objetivo e tempo

Nós, humanos, temos diferenças no modo de conduzir nossas vidas. Temos os bonzinhos, os mauzinhos e os nem tanto.  Mas não é disso que vamos tratar, apesar do fato de sermos os agentes ativos e passivos nos processos produtivos. Isto será tratado ao longo desta prosopopeia na medida em que for preciso separar o indivíduo da técnica. Na vida particular, cada um tem seu jeito próprio de conduzir as coisas, temos de nos responsabilizar por nossas decisões e arcar com as consequências, quer tenhamos extraído[3] aprendizado delas ou não. Na vida social, profissional, econômica e política, as coisas são diferentes porque existem os outros, e como alguém já identificou, “o inferno são os outros”!

Nesta introdução, apresento apenas os 3 conceitos sem entrar nas reflexões sobre sistemas políticos. Ressalto que é muito provável que você ache o que mostro hoje pueril, óbvio, e por aí, mas entenda que preciso equalizar entre todos os leitores uma mesma base de informação conceitual para que não haja muitas dúvidas quanto ao que estiver sendo dito mais à frente.

O que chamo previamente atenção do Leitor é para o fato de que cada uma das 3 técnicas produz o melhor resultado dependendo da combinação dos 3 fatores citados. Elas não são intercambiáveis, onde se aplica uma com melhor resultado, as demais serão um desastre. Esta afirmação a faço como dedução de minhas vivências, tanto profissionais, quanto familiares.

 

LAISSEZ-FAIRE

Nesta introdução, vou usar esta expressão em substituição a liberalismo, termo que tem significados diferentes dependendo de que país e de em que espectro político estamos inseridos.

Podemos assumir que no princípio era o laissez-faire. O homo sapiens das cavernas não estava sob a vontade de um outro, e, em tese, era dono de seu nariz. Ele podia escolher caçar ou dormir. Banhar-se no rio ou caminhar pela mata. Deitar-se sobre a relva ou, depois de extrair uma resina de um “Pau Brasil”, pintar imagens nas paredes de sua caverna. As escolhas só dependiam de suas próprias circunstâncias, objetivos e tempo. “Deixe estar, se faltar comida eu resolvo depois”.

Naqueles tempos, muito pouco do que se fazia em benefício próprio, pouco ou nada afetava um outro ou seu pequeno grupo de caçadores-coletores.

Nestes termos, fica evidente que tal técnica, ou modo de agir, tem seu valor quando o objetivo de produção do que quer que seja é de exclusivo interesse do autor do processo. Uma área de maior aplicação deste princípio de produção está, evidentemente, nas artes, todas as artes, porque o produto final é fruto da vontade, intenção e forma de expressão de seu autor. Mas não só. Também nos esportes individuais, na medicina, na advocacia, são áreas em que esta é, na maioria dos casos, a única técnica cabível para a concretização de um objetivo.

Para não deixar nenhuma dúvida, imagine se Gala, musa de Salvador Dalí, ficasse espreitando por trás de seus ombros e emitindo opinião sobre o que ele estivesse pintando! Imagine o professor de uma especialidade qualquer da medicina que, depois de diplomado seu aluno mais brilhante, resolvesse se colocar ao lado de seu pupilo em uma sala de cirurgia e ficasse opinando ou criticando o que ele estivesse fazendo!? Ou se algum diretor de equipe de Fórmula 1 ficasse dando ordens a Barrichelo para que deixasse Schumacher ultrapassá-lo a 100 metros da linha de chegada. Ah! Isto já aconteceu!!! Estas são evidências de decisões autocráticas em circunstâncias em que elas não resultarão no melhor resultado.

Podemos, ainda, usando os mesmos exemplos imaginar um debate democrático entre Dalí e Gala sobre qual a forma que o relógio derretendo deveria aparecer sobre a mesa; entre o mestre e o aluno enquanto o paciente estivesse anestesiado e com seu coração exposto em um peito aberto, ou, uma discussão entre todos os membros de uma equipe se tal ordem de ultrapassagem seria moralmente aceita ou não!? “Hoje sim, hoje nãããooo!”

 

AUTOCRACIA

Na aula já citada, o professor ilustrou cada forma através de exemplos práticos. Me lembro dele usar para justificar a autocracia a atuação dos bombeiros em um incêndio e do exército em uma batalha, por mostrarem que as duas outras opções, consideradas as circunstâncias, o objetivo e o tempo, teriam um altíssimo índice de probabilidade de resultar em um tremendo desastre, ou algum nível de insucesso, quanto ao objetivo final de ter as chamas debeladas no menor tempo possível ou de vencer a batalha com as menores perdas de vida possível.

A autocracia tem como fundamento a ação a partir de uma ordem inquestionável, não porque seja a melhor – não há nem mesmo tempo para se tentar descobrir qual seria ela -, mas porque existem situações – até mesmo na vida pessoal – em que algo, qualquer algo, precisa ser imediatamente feito. Em tais circunstâncias a ação pensada, estudada, medida, tem que ser substituída pela ação/reação. E não importa o jeito como ela exercida. Também não importa se quem está no comando, na responsabilidade de decidir, tem um conhecimento prévio que o capacita, ou por ameaçar no presente com uma arma apontada para a cabeça dos demais, ou por ameaça/promessa de retaliação futura. A autocracia não tem como objetivo a melhor solução, ela simplesmente está a serviço de acabar com o problema, a ameaça, a resistência, a rebeldia, ou, então,... o fogo, a catástrofe, o desastre.

O corolário desta tese é que quando a autocracia age sobre processos onde a democracia (ou o laissez-faire) é a técnica que produz com qualidade o que se quer produzir, ou seja, onde não há demanda por urgência, ela tem o poder de corromper (em todos os sentidos) tanto o correr do processo quanto o resultado final.

Cuidado, não atribuir autocracia à liberdade e direito de fazer. A autocracia é sempre uma força externa ao autor da ação e independente de sua vontade. A escravidão no passado, a servidão ideológica no presente, não é uma escolha nem livre, nem democrática. Ela é impositiva, todos os possíveis direitos lhe são negados. Extraídos.

 

DEMOCRACIA

A forma democrática de conduzir processos produtivos é associada sempre a regime político, eleições, alternância de poder etc. O termo[4] foi criado para rotular um sistema político que parte da vontade da maioria[5] para a imposição de leis sobre a totalidade dos cidadãos, em tese, ignorando os anseios de minorias. Considerado este fim, ela só se diferencia da autocracia pelo fato de a imposição não vir de um só, ou um pequeno grupo, mas pelo consenso e desejo de uma pretensa “maioria”, mesmo que apenas de 50% mais 1.

Os livros de história indicam a Grécia antiga como seu berço. Foi Aristóteles que defendeu a ideia de que “democracia seria definida enquanto um Estado em que os homens livres governassem”. Nos tempos modernos não é bem isso que acontece. Mas vou deixar para discutir a democracia no campo político para depois.

Para entendermos democracia no âmbito da vida familiar, social e profissional, é mais adequado usarmos o conceito de participação na tomada de decisões.

No ambiente empresarial e mesmo familiar e social, podemos sintetizar os processos de tomadas de decisão “democráticos” como “participativos”. Todos são ouvidos, as ideias vão sendo escrutinadas e eliminadas gradativamente as que apresentam maiores riscos, menor chance de bom resultado, até que uma maioria chega a um consenso sobre o caminho que menor dano lhes causa. Os descontentes que se mudem! Tal sistema é amplamente utilizado no âmbito da justiça criminal através de júris compostos por diversos cidadãos, ou magistrados, que buscam formar, ou a unanimidade – como no sistema judicial americano -, ou a maioria de metade mais um, como em nosso sistema judicial, onde o exemplo mais notório é o nosso tão “estimado” STF.

A opção pelo laissez-faire é evidentemente impraticável, pois a justiça diz respeito à tomada de uma decisão cujas consequências recairão sobre um outro e não sobre quem a toma, e fazer uso da autocracia será sempre a imposição de uma sentença ignorando os direitos de defesa de um pretenso réu infrator.

Com estas poucas considerações creio que todos os leitores têm elementos para identificar em qualquer processo de solução de problema, qual forma de administração deve prevalecer como escolha.

 



[1] Autocracia tem o sentido, a partir da análise dos radicais gregos autos e kratos, de poder por si próprio.

[2] Laissez-faire é uma expressão em francês, significa “deixe fazer”, que simboliza o liberalismo econômico.

[3] Evidentemente uso o verbo “extrair” instigado por 9Fingers que recentemente (jul/23) manifestou o desejo e intenção de “extirpar” cidadãos brasileiros do convívio com os demais humanos.

[4] A origem do termo remonta à Grécia antiga, onde “demo”, povo, e “kracia”, governo.

[5] O termo “maioria” na verdade nunca foi respeitado ao longo da história. Em nossa Era moderna isto é fácil de ser constado olhando o resultado das eleições em qualquer país do ocidente. Lá vamos verificar que “maioria” significa em torno de 30% do eleitorado, e, em muitos casos, o número dado ao vencedor é menor do que os que não votaram (nulos, brancos e ausentes).








sexta-feira, outubro 01, 2021

REFLEXÕES: O QUE PENSARAM OS FILÓSOFOS CLÁSSICOS?

  

Quem parece ter sido o primeiro a fazer proposições metafísicas foi o grego Homero.  Uns datam sua existência entre 1200 e 1100 a.C., mas há os que afirmam ter sido ele apenas uma lenda, atribuindo as obras “Ilíada” e “Odisseia” a vários autores entre 1200 e 700 a.C. Independente de polêmicas, é nestas obras que aparecem as primeiras propostas de antropomorfização, por assim dizer, dos deuses do Monte Olimpo, e a percepção da individualidade humana é afirmada nesta passagem: "Ninguém, com toda certeza, é capaz de assumir a liderança em todos os campos, pois para um homem os deuses concederam as proezas da guerra, a outro, a dança, para um outro, a música e o canto, e, num outro, o todo poderoso Zeus colocou uma boa cabeça."

Podemos considerar, portanto, que a filosofia tem cerca de dois mil e setecentos anos, tendo surgido e se consolidado, principalmente, na Grécia antiga. É entre os séculos VIII e VI a.C., que vamos encontrar registros das primeiras reflexões sobre a nossa existência, quem somos, de onde viemos, para onde vamos e, principalmente, como devemos ser, proceder, viver. 

Filosofia é... Bem, parece haver várias proposições para dar um significado ao termo. Pesquisando na rede você vai encontrar algumas. Em minha humilde interpretação, a filosofia é o exercício de abstrair o pensamento na busca de uma interpretação da existência humana, tentando conceituar uma regra geral para uma dada proposição através da identificação de padrões, cujo objetivo final é obter orientações para a manutenção da viabilidade e estabilidade da vida em sociedade, ou comunidade, como queira. Ficou um pouco longo, mas espero que não tenha sido hermético como o que você encontrou (ou vai encontrar) na grande rede. 

Fiz uma coletânea dos filósofos mais citados[1], lembrados, referenciados. Cada um deles sob o nome que a história deixou registrado, seguido de, entre parênteses, os “presumíveis” anos de nascimento e morte, onde números negativos significam a.C. e positivos d.C. A estes dados acrescento a natureza de sua atividade e a sua “nacionalidade”[2]. E sempre abaixo, uma referência a suas ideias, e uma ou mais de suas reflexões extraídas de registros que chegaram até nossos dias.

Para quem se aprofundar além desta superficialidade que apresento aqui, chamo sua atenção para observar alguns aspectos deste período que vai de 8 séculos antes de Cristo ao século 1. 

Primeiro, a preocupação em definir o que é e o que não é moral e, principalmente, quanto ao valor da virtude (a ponto de que aquele que não a tivesse não mereceria viver). Lembremos que no período de vida destes filósofos a escravidão era o padrão das relações socioeconômicas.

Segundo, a utopia de que seria possível ter uma humanidade padronizada, a possibilidade de se “educar” a todos na “virtude”, na moral, e em total respeito à ética, era visto não só como desejável, mas viável (claro que para alguns escolhidos, não para todos).

Terceiro, mas consequente, é preciso considerar que a realidade da ciência naqueles tempos era, se comparada com o que sabemos hoje depois de tantas descoberta no âmbito da psicologia, psiquiatria e genética, há que sempre se fazer a pergunta: “O que eles pensariam se soubessem o que nós sabemos?”

Tudo que incluí aqui sobre os filósofos busquei na internet[3] e você poderá fazer o mesmo para obter mais sobre cada um deles e mesmo sobre outros não inclusos aqui. .

Bom proveito!!!


Hesíodo (-750/-650) – Poeta Grego  

Sua poesia é a primeira feita na Europa na qual o poeta vê a si mesmo como um tópico, um indivíduo com um papel distinto a desempenhar.

"Qualquer um que prejudica os outros, faz mal a si."

“Convida aquele que mora próximo de ti para comer, pois se alguma coisa estranha acontecer em teu lugar, os vizinhos sem atar o cinto acorrem, os parentes, não.”

“Ótimo é aquele que de si mesmo conhece todas as coisas; bom, o que escuta os conselhos dos homens judiciosos; mas o que por si não pensa, nem acolhe a sabedoria alheia, esse é, em verdade, um homem inteiramente inútil.”

Zaratustra de Balkh, ou Zoroastro (-660/-583) – Filósofo Persa

No entanto, a aproximação usando evidências linguísticas e socioculturais permite situar sua existência em algum período do II milênio a.C.

É o primeiro a propor o monoteísmo, e o Bem e o Mal como duas entidades.

"O que lavra a terra com dedicação tem mais mérito religioso do que poderia obter com mil orações sem nada fazer. Age como gostarias que agissem contigo."

Tales de Mileto (-623/-558) – Filósofo Grego

Há quem o considere o "Primeiro filósofo ocidental”. Considerava a água como a substância líquida primordial.

“A esperança é o único bem comum a todos os homens; aqueles que nada mais têm - ainda a possuem.”

“Toma para ti o conselho que dá aos outros.”

Anaximandro (-610/-547) – Filósofo Grego

Anaximandro foi um visionário e suas ideias são atualmente utilizadas na ciência, tendo relação com a Física Moderna. Iniciador da astronomia grega. Para ele a Terra teria o formato de um cilindro.

“Todos os seres derivam de outros seres mais antigos por transformações sucessivas.”

“As estrelas são porções comprimidas de ar, com a forma de rodas cheias de fogo, e emitem chamas a partir de pequenas aberturas.”

“O Sol é um círculo vinte e oito vezes maior que a Terra; é como uma roda de carruagem, cujo aro é côncavo e cheio de fogo, que brilha em certos pontos de abertura como os bicos dos foles.”

Anaxímenes de Mileto (588/-524) – Filósofo Grego pré-socrático.

Para ele a substância primária (o arché) era o "ar". Primeiro a afirmar que a luz da Lua provinha do Sol.

“A variação quantitativa de tensão da realidade originária dá origem a todas as coisas.”

“Como nossa alma, que é ar, nos governa e sustém, assim também o sopro e o ar abraçam todo o corpo.”

“A verdade é de quem fala a verdade.”

Xenófanes de Colofon (-580/-480) -    Filósofo Grego

Refutou a tese de Homero relativa ao antropomorfismo dos deuses gregos [semelhança com os homens], visto por ele como uma simples projeção humana, sem qualquer relação objetiva com a realidade. Fundador da escola de Eléia.

“É preciso um sábio para reconhecer um sábio.”

“Se os bois e os cavalos tivessem mãos e pudessem pintar e produzir obras de arte similares às do homem, os cavalos pintariam os deuses sob forma de cavalos e os bois pintariam os deuses sob forma de bois.”

Pitágoras de Samos (-571/-497) – Filósofo Grego

Propõe que os elementos básicos do cosmos não são constituídos de matéria, mas de formas e relações que se manifestam por meio de números e proporções.

“O universo é uma harmonia de contrários.”

“A Evolução é a Lei da Vida, o Número é a Lei do Universo, a Unidade é a Lei de Deus.”

“A matemática é o alfabeto com o qual Deus escreveu o universo.”

“Observa o teu culto à família e cumpre teus deveres para com teu pai, tua mãe e todos os teus parentes.”

Heráclito de Éfeso (-535/-475) – Filósofo Grego pré-socrático

Pai da dialética. Para ele, o elemento original era o fogo, e tudo é movimento, nada pode permanecer estático. Também apresenta a tese de que nada existiria se, ao mesmo tempo, não existisse o seu oposto. Na harmonia entre os contrários, Heráclito viu aquilo que definia como o logos, a lei universal da Natureza. A filosofia deve privilegiar a racionalidade, pois os sentidos e/ou a experiência não dão conta de explicar a totalidade. Para ressaltar que nada se repete, ele observou que “não se pode banhar duas vezes no mesmo rio”, pois o rio não será o mesmo.

“Viver é, sem cessar, morrer e se rejuvenescer.”

Ésquilo (-525/-456) – Dramaturgo Grego, pai da tragédia.

Uma de suas obras, “Os Persas”, continua sendo uma grande fonte de informação sobre o  período da invasão à Grécia pelos Persas.

“Há poucos homens capazes de prestar homenagem ao sucesso de um amigo, sem qualquer inveja.”

“Faz parte da natureza dos mortais pisar ainda mais em quem já caiu.”

Parmênides de Eléia (-525/-450) – Filósofo Grego

Mudança e tempo não existem. Tudo o "que é" só pode ser eterno, pois não pode "vir a ser", e não pode ser destruído.

A filosofia de Parmênides se apresenta como um contraste entre a verdade e a aparência. A aparência é percebida pelos sentidos que nos mostram o ser e o não ser e nos levam a diversos erros. Já a verdade somente pode ser buscada pela razão, que para Parmênides demonstra que não podemos pensar o não ser, pois não podemos pensar sem que esse pensar seja sobre algo. 

“O mundo sensível é uma ilusão.”

“Não se confia no que se vê.”

“A essência das coisas não muda.”

Anaxágoras de Clazômena (-500/-428) – Filósofo Grego pré-Socrático

A matéria primordial é composta por uma infinidade de partículas que variam qualitativamente, porque possuem qualidades semelhantes (homeomerias). Para ele, a Lua não passava de um pedaço da Terra que se desprendeu. Fundador da Primeira Escola Filosófica de Atenas. 

“Todas as coisas estavam juntas, infinitas ao mesmo tempo em número e em pequenez, porque o pequeno era também infinito.” 

“Em cada coisa existe uma porção de cada coisa.”

“Nenhuma delas [as coisas existentes] podia ser distinguida por causa de sua pequenez.” 

Filolau de Crotona (-500/-400) – Pensador Grego

Foi o primeiro a atribuir movimento à Terra. O fogo era considerado pelos pitagóricos o elemento mais puro. Entre o fogo central e a Terra existia um outro planeta, invisível, que Filolau chamou de antiterra. Os nove corpos celestes (Sol, Mercúrio, Vênus, Terra, Lua, Marte, Júpiter, Saturno e Urano) eram os corpos celestes conhecidos na época, e a antiterra como décimo corpo celeste se movia em órbitas circulares em torno do fogo central. "E todas as coisas que podemos conhecer contêm número, pois sem ele nada pode ser concebido nem conhecido."

“Todas as coisas, pelo menos aquelas que conhecemos, contêm números. 

"A natureza do mundo é um composto harmonioso de elementos infinitos e finitos."

“Os antigos teólogos e sacerdotes… testificam que a alma está unida ao corpo por uma questão de punição; e, portanto, é enterrada no corpo como em um sepulcro”.

Sófocles (-496/-406) – Dramaturgo Grego

Por quase 50 anos, Sófocles foi o mais celebrado dos dramaturgos nos concursos dramáticos da cidade-estado de Atenas. De sua autoria as obras: Antígona; Édipo Rei; Electra.

"Silêncio completo parece-me tão grave quanto alarido descontrolado."

“Não conspira quem nada ambiciona.”

“Há muitas maravilhas neste mundo, mas a maior de todas é o homem.”

“Os filhos são para as mães as âncoras da sua vida.”

Zenão de Eléia (-490/-430) – Filósofo Grego, seguidor de Parmênides. Concebeu contra a pluralidade alguns paradoxos.

”Se a pluralidade existe, as coisas serão ao mesmo tempo limitadas e infinitas em número.”

“O que se move deve sempre alcançar o ponto médio antes do ponto final.” 

De fato, se há mais de uma coisa, vemos que entre a primeira e a segunda existe, então, uma terceira. Assim, entre a primeira e a terceira, existirá uma quarta; e assim, ao infinito.

“O que se move está sempre no mesmo lugar agora.”

Empédocles de Agrigento (-490/-430) – Filósofo Grego

Primeiro a explicar o eclipse solar.

"Sobrevive aquele que está melhor capacitado". [Observação feita 2.460 anos antes de Darwin.]

Górgias de Leontinos (-487/-380) – Sofista[4] Grego

O conhecimento do assunto em um debate é desnecessário, porque toda opinião é falsa e as palavras não tem nenhum significado fixo, pois servem apenas para lisonjear e persuadir. Ele se demonstrou cético em relação à ciência e à razão.

“A arte da persuasão ultrapassa todas as outras, e é de muito a melhor, pois ela faz de todas as coisas suas escravas por submissão espontânea e não por violência.”

“Difícil explicar o que leva o ser a direcionar as suas ações em função do meio.
Por vezes deixamos de fazer tanta coisa, justamente por conta do meio.
Liberte-se, escuta a tua intuição e serás feliz.”

Pródico (-483/-376) – Sofista Grego

Conhecido como precursor de Sócrates. Escreveu dois tratados: Da Natureza e Da Natureza dos Homens.    

“O sol e a lua e os rios e as nascentes e em geral tudo o que é útil à nossa vida, os antigos os chamavam de deuses por sua utilidade, tal como os egípcios fazem para o Nilo, e por isso o pão se chamava Deméter, e o vinho Dionísio, e a água Poseidon, e o fogo Hefesto e assim tudo.”

Protágoras (-480/-410) – Filósofo Grego

Considerava-se profundo conhecedor da virtude. Para Protágoras, as coisas são conhecidas de uma forma particular e muito pessoal por cada indivíduo, o que vai contra, por exemplo, ao projeto de Sócrates de chegar ao conceito absoluto de cada coisa. Para ele a verdade depende da experiência pessoal.

“As verdades não são verdadeiras ou falsas em si, mas apenas dentro de um sistema de pensamento que contenha regras que permitam colocar qualquer verdade à prova.”

"O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são."

Eurípedes (-480/-406) – Poeta Grego

Ressaltou em suas obras as agitações da alma humana em especial a feminina. Obras: As Troianas, Medeia e Electra.

“Fala se tens palavras mais fortes do que o silêncio, ou então guarda silêncio.”

“Tudo é mudança; tudo cede o seu lugar e desaparece.”

Melisso de Samos (-470/-400 Datação imprecisa.) – Militar e Poeta Grego.  

Pela sua obra depreende-se que foi mais um polemista e defensor das ideias de Parmênides de Eléia, portanto antipitagórico.

“O ser é também incorpóreo, mas esse incorpóreo não quer dizer que ele seja imaterial, ele tem que ser incorpóreo porque não pode ter uma forma e os corpos têm forma. Se o ser tivesse uma forma ele teria que ser limitado pois a forma tem limites e o ser não pode ter limites. (...) O ser é pleno e qualquer forma de vazio e nada não existem.”

Sócrates (-470/-399) – Filósofo Grego

"A verdade é algo imanente ao mundo e aos homens. O pensamento reflexivo leva o homem ao bem viver.” Maiêutica: para cada tese apresentada, sugere-se uma objeção que tenha por objetivo esgotar todas as possibilidades de questionamento, objetivando o surgimento da verdade.

"Só sei que nada sei."

"Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses."

"A vida irrefletida não vale a pena ser vivida."

Hippias de Élis (-460/-400) – Matemático e Sofista Grego

Contemporâneo de Sócrates. Platão e Xenofonte o retratam vaidoso e arrogante, mas suas preleções e discursos públicos apresentados em Olímpia eram cuidadosamente preparados e faziam sucesso. Do ponto de vista filosófico, Xenofonte destaca que ele pelo menos reconhecia, assim como Sócrates, a ideia de que há leis naturais ou divinas, não escritas, que não podem ser mudadas pelo homem.

Demócrito de Abdera (-450/-370) – Filósofo Grego

O “filósofo que ri" ou "filósofo hilário". Expoente da teoria atômica, ou atomismo: tudo o que existe é composto por elementos indivisíveis chamados átomos.

“Se você sofreu alguma injustiça, console-se; a verdadeira infelicidade é cometê-la.”

“A felicidade não reside nas posses e nem em ouro, ela mora na alma.”

“Na realidade, não conhecemos nada, pois a verdade está no íntimo.”

Leucipo de Abdera (ou de Mileto) (-450/-370 - Datação imprecisa.) – Atomista[5] Grego

Mestre de Demócrito. A tradição lhe atribui a autoria de um único livro intitulado A grande ordem do mundo, também chamada Grande Cosmologia, um texto muito diferente da Pequena Cosmologia de Demócrito. 

“Nada acontece ao acaso, mas tudo a partir de razão e por necessidade.” 

Platão (-427/-347) – Filósofo Grego

Obcecado pela salvação dos homens e lutava contra a personalização dos deuses. “É preciso ir além das aparências para chegar à essência das coisas.”

Platão situa a justiça humana como uma virtude indispensável à vida em comunidade, é ela que propicia a convivência harmônica e cooperativa entre os seres humanos em coletividade. 

“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.”

“A punição que os bons sofrem, quando se recusam a agir, é viver sob o governo dos maus."

“O maior castigo consiste em ser governado por alguém ainda pior do que nós, quando não queremos ser nós a governar.”

Diógenes de Sinope (o Cínico) (-412/-323) – Filósofo Grego

Fundou a “escola cínica"[6]. A resposta ética do Cinismo era buscar viver em conformidade com a natureza, levando em conta a observação do comportamento dos animais, pois “eles não buscam o supérfluo”.

“Só é verdadeiramente livre quem está sempre pronto para morrer.”

“Qual o melhor momento para o jantar? Se alguém é rico, quando quiser, sé pobre, quando puder.”

Pirro de Élis (ou Élida) (-365/-270) – Filósofo Grego

Considerado o primeiro filósofo cético e fundador da escola que veio a ser conhecida como pirronismo. Os princípios de sua obra são expressos, em primeiro lugar, pela palavra acatalepsia, que define a impossibilidade de se conhecer a própria natureza das coisas.  Pirro conclui que, dado que nada pode ser conhecido, a única atitude adequada é ataraxia, "despreocupação". 

A mesma coisa aparece diferentemente a diferentes pessoas (...). A cada afirmação pode-se contrapor outra contraditória, mas com base igualmente boa, (...). Podemos ter opiniões, mas certeza e conhecimento são impossíveis. Daí nossa atitude frente às coisas deve ser a completa suspensão do julgamento.

Ele distingue o que é o bem por natureza e o que é o bem pelas convenções humanas e chega à conclusão de que não existem coisas verdadeiras ou coisas falsas, não existem também na natureza conceitos como a feiúra e a beleza ou a bondade e a maldade, esses conceitos todos são criações dos homens e ele os nega por serem somente uma convenção, um costume.  

É impossível afirmar se algo é realmente falso ou verdadeiro, se uma atitude é justa ou injusta. Todos esses conceitos vão depender do que está convencionado nas relações sociais e não da natureza, e essa não faz convenções.

Para os céticos, o saber é algo impossível de ser alcançado e que não existem afirmações que possam ser verdadeiras e que não sejam postas em dúvida.

“Não podemos ter certeza de nada, mesmo as afirmações mais triviais.

Aristóteles (-384/-322) – Filósofo Grego

"O Estagirita" por ter nascido em Estagira, na Macedônia. Aluno de Platão, professor de Alexandre, O Grande. Pensador multidisciplinar (contribuiu para quase todos os campos do conhecimento humano).

Teoria do silogismo dedutivo, ou lógica dedutiva: "Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal”.

"Nunca existiu uma grande inteligência sem uma veia de loucura."

"As pessoas dividem-se entre aquelas que poupam como se vivessem para sempre e aquelas que gastam como se fossem morrer amanhã."

"O sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz."

Epicuro de Somos (-341/-270) – Filósofo Grego

Argumenta contra a existência de um deus que seja ao mesmo tempo onisciente, onipotente e onibenevolente. Isto é, se duas delas forem verdade, excluem automaticamente a outra.

Enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente.

Enquanto onipotente e onibenevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é onisciente.

Enquanto onisciente e onibenevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é onipotente.

Epicuro não era um ateu, apenas rejeitava a ideia de um deus preocupado com os assuntos humanos.

"A morte é uma quimera: porque enquanto eu existo, não existe a morte; e quando existe a morte, já não existo."         

Zenão de Cítio (-336/-264) – Filósofo Grego

Propôs uma tripartição na filosofia: a lógica fornece um critério de verdade; a física constitui um materialismo monista e panteísta; e a ética regula as ações humanas, cujo objetivo é a conquista da felicidade. Esta deve ser perseguida "segundo a natureza". Fundou a escola estoica. Com base nas ideias dos cínicos, o estoicismo enfatizava a paz de espírito, conquistada através de uma vida plena de virtude, de acordo com as leis da natureza. O estoicismo floresceu até o advento do cristianismo.

“Quem é um amigo? Um outro eu.”

“A natureza deu-nos duas orelhas e uma só boca para nos advertir de que se impõe mais ouvir do que falar.“

Agripa (viveu provavelmente no final do século primeiro) – Filósofo Grego

Para ele existiam cinco formas para podermos alcançar a interrupção dos nossos juízos:

1 - Discordância, os filósofos vão sempre discordar sobre diversas coisas, sendo impossível escolher entre a opinião de um e de outro.

2 - Prova última, toda prova parte do princípio de que existe uma prova para esta prova e esse argumento pode ser levado ao infinito, pois sempre vai existir uma prova que prova a prova da prova;

3 - Relatividade, onde nós somente podemos conhecer os objetos relativos à nossa capacidade e à nossa forma de compreensão, que sempre será diferente da capacidade e da compreensão de todas as outras pessoas;

4 - Hipótese, porque todas as provas têm um fundamento último que não se pode provar e é, portanto, uma convenção, e que não é uma lei natural;

5 - Círculo vicioso, as convenções tomam por evidente e demonstrado justamente aquilo que se deveria demonstrar e isso acontece porque é impossível a demonstração do que se quer demonstrar.    

Sêneca (4/65) – Intelectual Romano.

Primeiro representante do Estoicismo[7] romano. Apesar de ter sido contemporâneo de Cristo, Sêneca não faz quaisquer relatos significativos de fenômenos milagrosos que aparentemente anunciavam o nascer de uma poderosa nova religião.

“Aos outros perdoa sempre, a ti nunca.”

“A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelos inteligentes como falsa, e pelos governantes como útil.”



[1] Se não listei algum que você tem em conta como importante, me diga. E caso encontre alguma informação errada, serei grato se me corrigir.

[2] Atribuir “nacionalidade” quando ainda não existiam “nações” é apenas para acompanhar como todos o fazem.

[3] Entre outros sites: pt.wikipedia.org, citações.in, pensador.com, kidfrases.com, frasesfamosas.com.br, citador.pt, filosofia.com.br

[4] O sofismo ou sofisma é uma estrutura de pensamento que foge às regras da lógica. Nesse sentido, ele conduz a conclusões falsas. A origem do termo é datada nos séculos V e IV a.C., quando os sofistas atuavam como mestres da retórica na Grécia Antiga.

[5] Demócrito e Leucipo foram dois filósofos pré-socráticos pluralistas da Escola de Abdera. Ambos são conhecidos por terem formulado a primeira teoria atomista. Demócrito foi discípulo de Leucipo e aperfeiçoou a sua teoria sobre os átomos. Leucipo e Demócrito estão inscritos na história como filósofos pré-socráticos.

[6] O Cinismo foi uma escola filosófica grega criada por Antístenes, seguidor de Sócrates, aproximadamente no ano 400 a.C., mas seu nome de maior destaque foi Diógenes de Sínope. Estes filósofos menosprezavam os pactos sociais, defendiam o desprendimento dos bens materiais e a existência nômade que levavam.

[7] Estoicismo é uma escola e doutrina filosófica que surgiu na Grécia Antiga, que preza a fidelidade ao conhecimento e o foco em tudo aquilo que pode ser controlado somente pela própria pessoa, desprezando todos os tipos de sentimentos externos, como a paixão e os desejos extremos.









sexta-feira, julho 28, 2017

EPICURO, O DEFENSOR DA HUMANIDADE

Eis que sou presenteado pelo acaso com a oportunidade de conhecer Epicuro, filósofo grego que viveu entre 341-270 a.C. e colocou sua vida em defesa do sentimento de humanidade de todos os homens e mulheres. O livro "A doutrina de Epicuro" é um trabalho de Benjamim Farrington publicado originalmente em 1967, portanto, a 50 anos atrás.

Eis o que selecionei de mais significativo.

[Entre aspas e italizado, mas sem referência a autor, são sempre falas/escritos de Epicuro. Todos os grifos são meus.]

Epicuro
Epicuro, de Atenas, a mais famosa das cidades-estado gregas, fundador de um movimento que se difundiu por todo o mundo mediterrâneo e durou 700 anos, cujo objetivo era fazer a humanidade voltar à felicidade depois da devastação das guerras.

O princípio fundamental de seu pensamento era o de que uma sociedade feliz deve basear-se na "amizade", um acordo mútuo para não infligir nem sofrer injustiças, e não na "justiça", isto é, numa constituição ideada por um legislador e imposta por sanções.

"Devemos meditar sobre as coisas que fazem a nossa felicidade."

  
"Vã é a palavra de um filósofo que não cura nenhum sofrimento do homem."

Um epicurista deveria ser meigo e afável.

"O motivo pelo qual Epicuro se mantinha afastado da vida pública", diz seu biógrafo, "era seu excepcional interesse pela igualdade."

Seus adeptos eram proibidos de participar da vida pública.

Para Epicuro, nenhuma legislação penal, se pudesse ser aplicada, forçá-lo-ia a aceitar a cosmologia de Platão. (...) À moderna religião dos deuses estelares [de Platão], opôs o que chamou de "a ideia comum de Deus gravada na mente de todos". (...) a autoridade dominadora do legislador foi abandonada em favor do principio do consentimento voluntário.

Epicuro estava basicamente interessado em defender a autonomia da vontade individual. (...) Embora fosse inimigo implacável do que chamava de "o mito" (nome pelo qual se referia à doutrina de que os deuses controlam todos os fenômenos da natureza), afirmava que "seria melhor conformar-se com o mito sobre os deuses do que ser um escravo do fatalismo dos filósofos naturais". (...) A sua concepção do átomo levava em conta um mundo de natureza animada, diferençado daquele por ser, em vários graus, o teatro da vontade.

Foi em Cólofon, por volta de 312 a.C. que nasceu o movimento epicurista. (...) Seu sistema era uma resposta prática ao problema que lhe era imposto por todas as experiências da sua vida, a saber: descobrir "de que modo os homens poderiam defender-se dos homens".

"Devemos nos libertar da prisão dos negócios e da política. (...) Alguns desejos são naturais e necessários, outros, naturais, porém desnecessários, alguns não são nem naturais nem necessários, mas apenas devidos à imaginação ociosa."

O ponto fundamental da ética epicurista é a interiorização da virtude pela exaltação do papel do sentimento sobre a razão.

"Quando afirmamos que o prazer é a meta (...) o que temos em vista é o ser livre da dor no corpo e da angústia na mente. A isso damos o nome de vida agradável, e não é obtida pelo beber e festejar contínuos, pela satisfação dos nossos apetites com rapazes e mulheres, ou pelos banquetes dos ricos, mas pelo raciocínio sóbrio, pela procura paciente dos motivos para escolha e recusa e pela nossa libertação das falsas opiniões que mais contribuem para prejudicar a nossa paz de espírito."

Nos círculos governamentais, o direito do estado de ditar as crenças dos cidadãos era a norma aceita. (...) Dentro do movimento epicurista, a diferença entre estado e religião já era um fato consumado.

"A morte, o mais aterrador dos males, não é nada para nós; enquanto vivemos a morte não existe, quando vem a morte, nós não existimos."

"Os seres humanos não devem ser coagidos, mas persuadidos."
  
Em sua literatura epistolar endereçada às suas comunidades espalhadas no Oriente, Epicuro surge como o precursor de São Paulo.


Cícero
Cícero (106-43 a.C.): "Pelo uso das nossas próprias mãos criamos dentro do reino da Natureza uma Segunda Natureza para nós mesmos."

Ensina o pontífice Cevola a Cícero: "É conveniente que o povo seja iludido em questões de religião."

Diz Cícero: "A constante necessidade que tem o povo do conselho e da autoridade da aristocracia mantém o estado coeso."

Faustel de Coulange, em sua obra La Cite Antique, diz: "Na cidade antiga, o estado e a religião eram tão completamente unos que era impossível não só imaginar um conflito entre eles como também distinguir um do outro."

E nas palavras de Estrabão (64 a.C. - 24 d.C.), o geógrafo: [os governantes] "precisavam controlar o povo pelos medos supersticiosos e estes não podem ser manifestados sem mitos e portentos."

Crítias, brilhante escritor e político ativo, em 403 a.C., coloca o seguinte discurso no orador de uma de suas peças: "Houve uma época em que a vida de um homem era desregrada, selvagem e estava à mercê da força. Nenhuma recompensa vinha do bem e nenhum castigo, do mal. Creio que foi então que os homens imaginaram leis para castigar o pecador, de modo que a justiça pudesse exercer igual domínio sobre todos e frustrar a violência. Assim, o pecador era castigado. Mas posteriormente observou-se que as leis só atingiam a violência manifesta, enquanto o crime oculto escapava. Foi então que algum homem mais inteligente do que seus pares inventou o medo dos deuses, para que os homens gemessem as conseqüências até mesmo dos seus feitos, palavras e pensamentos secretos. Nasceu a religião.

Platão
Em ensinamento de Epinomis, o décimo terceiro livro das Leis, de Platão: "os homens, que são feitos de barro, devem aprender com as estrela, que são feitas de fogo. As estrelas são a encarnação da alma.

A descrição de Atenas por Plutarco (46-120 d.C): "Aos nobres estavam afeitos o controle da religião, o suprimento das magistraturas, a exposição da lei e a interpretação da vontade do céu."

Políbio (200-118 a.C.): "As massas em todos os estados são instáveis, cheias de desejos licenciosos, ira irracional e paixão violenta. O melhor que se pode fazer é refreá-las pelo medo do invisível e outras imposturas. Não foi gratuitamente, mas com intenção deliberada, que os homens de outrora introduziram nas massas idéias sobre os deuses e opiniões sobre a vida futura."

Diz Políbio: "Não foi sem motivo, mas deliberadamente, que os homens de outrora introduziram nas massas noções sobre os deuses e opiniões sobre a vida futura."
  
Tito Lívio (59 a.C. - 17 d.C.): "A melhor maneira de controlar um povo ignorante e simples é enchê-lo de medo dos deuses."

Aristóteles
Enquanto Platão salientava a realidade do universal e permitia ao particular apenas uma existência indistinta e derivativa, Aristóteles foi o primeiro a ver a necessidade de considerar a realidade como individual, e o indivíduo como o real.


Aristóteles concluiu que a noção de um bem universal é uma ilusão. Devemos perguntar "Bom para quem, para que finalidade e quando?". Para ele nenhum legislador pode promulgar uma regra universalmente válida. [E concluiu:] o que é alimento para um homem, para outro é veneno.

Para Aristóteles a função do estado não é esmagar o indivíduo, mas proporcionar-lhe o ambiente em que ele possa atingir o seu potencial mais elevado.

Aristóteles, como Platão, aprovava os deuses antropomórficos como "um mito criado para garantir a obediência da multidão e uma atenção adequada às leis".
  
O ensino filosófico de que os sentimentos são maus em si próprios, fazem parte da teoria política de que a sociedade justa só pode existir se a minoria monopoliza o poder e defende esse monopólio patrocinando ou tolerando a crença em deuses caprichosos e irados (...). Epicuro atacou todo este conjunto de ideias.

A Igreja Cristã, no poder, revelou-se um grupo de perseguição, eliminando a liberdade de pensamento e impondo, pela força, se necessário, a uniformidade de crença. 


PREDECESSORES, CONTEMPORÂNEOS E POSTERIORES A EPICURO

Sólon (640-558 a.C.)
Pitágoras (570-495 a.C.)
Clístenes (565-492 a.C.)
Sócrates (469-399 a.C.)
Crítias (460-403 a.C.)
Platão (428-348 a.C.)
Aristóteles (384-322 a.C.)
Epicuro (341-270 a./C.),
Políbio (200-118 a.C.)
Cícero (106-43 a.C.)
Estrabão (64 a.C. - 24 d.C.)
Tito Lívio (59 a.C. - 17 d.C.)
Plutarco (46-120 d.C)
Alexandre de Abonútico (105-170 d.C.)


A Editora Unesp publicou "Carta sobre a Felicidade", escrita por Epicuro para Meneceu, um de seus discípulos. Selecionei algumas passagens, mas antes, lembro que Epicuro propaga que seu objetivo é ajudar a tornar feliz o homem que pratica uma decidida exortação ao exercício da filosofia.

"Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz."

"Os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas."

"Acostume-se à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações."

"Não há nada de terrível em deixar de viver."

"Quando a morte está presente, nós é que não estamos."

"O conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo."

"De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir."

[Para Epicuro] "o prazer é nosso bem primeiro e inato."


"Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta."

"Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres (...) que consistem no gozo dos sentidos (...), mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma."

"De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem (...); é dela que originaram todas as demais virtudes."




Se você também não gosta de hipocrisia na política, você precisa conhecer o 
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