domingo, junho 14, 2026

TRAUMA DE JUVENTUDE

 

Reflexões inacabadas

 

Sou publicitário e empresário, e desde que me entendo por gente, sou um insatisfeito. Acho que já nasci assim, deve ser genético, o que não duvido, porque, enquanto a maioria das pessoas nasce num prazo de 9 meses (ou até menos), eu fui tirado a forceps da barriga de minha mãe lá pela 46ª semana de gestação. A minha infância até que foi bem feliz, como deve ter sido a de todos, fora alguns puxões de orelha, uns beliscões, umas palmadas e alguns nãos como castigos. Os nossos problemas só começam mesmo na adolescência. Aos 14 anos já procurava na fumaça do cigarro o segredo da vida. Há três anos larguei do vício, mas não da procura. É por causa dela que conto o que conto.

 

Existe um fato que ocorreu por volta de 1965 ao qual atribuo a origem do que tem sido a minha busca onde quer que eu tenha estado. Eu tinha 16 anos e era um adolescente amando os Beatles, mas meu herói ainda era meu pai. Ele era um comerciante, na verdade, por ofício, um confeiteiro. Dedicou a vida a uma só missão:  fazer bolos, doces, biscoitos e pães da melhor maneira que eles pudessem ser feitos. Eu o admiro por isso. Foram mais de 50 anos dando continuidade a uma história que começara no final do século XIX, em 1898, com o nome de Padaria Alemã, pelas mãos de Maria Vogel, filha de alemães imigrantes, tia de meu pai. Mas a intolerância dos tempos da Primeira Guerra Mundial, obrigou à mudança do nome para Padaria e Confeitaria Petrópolis. Depois da guerra, para preservar suas origens e valores, ela adicionou ao nome um providencial "Ex-Alemã" e assim se tornou conhecida e parte das tradições petropolitanas.

 

Em algum dia daquele ano, meu pai chegou para o jantar com um ar desanimado. Perguntei o porquê e nunca mais me saiu da cabeça o seu breve desabafo. Àquela época, o Brasil navegava em uma inflação anual de 40% e os salários eram reajustados uma só vez, em primeiro de maio. Por livre e espontânea vontade, no ano anterior, meu pai resolvera aumentar seus funcionários, de três em três meses, com base na inflação do trimestre passado. Quando chegou maio, portanto, bastava aplicar o índice referente aos últimos três meses e o salário estaria mais que bem ajustado, pois o método de meu pai proporcionava uma remuneração anual significativamente maior que um só ajuste no ano. Entretanto, o  sindicato da categoria entrou na justiça do trabalho alegando que eram aumentos espontâneos e reivindicaram a aplicação integral do índice anual sobre o salário de abril, já fruto do reajuste trimestral. A justiça lhes deu ganho de causa. Me dizem que foi culpa dele por não ter anotado nas carteiras de trabalho que o ajuste era devido à inflação. A considerar como verdade, temos um exemplo da burocracia judicial se sobrepondo realidade dos fatos.

 

Todo empregador já viveu experiências semelhantes no relacionamento com empregados. Mas, ali, era apenas um garoto vendo seu pai desiludido e revoltado com a justiça que o punia por ser mais justo que a lei. Perguntei se ele havia explicado direito e sua resposta foi mais ou menos a seguinte: "Expliquei, meu filho, mas não quiseram entender. O que me entristece é que eles, os empregados, ao final, saíram perdendo. A partir de agora, aumento, só quando e quanto a lei determinar". Mais tarde eu fui entender que a justiça havia dado uma lição a meu pai de como se devia tratar os empregados. Mas ali, frente a meu pai, um garoto jurou que um dia encontraria a resposta à sua indignação e então poderia dizer: "Não fique triste, meu pai, eu descobri porque eles agiram assim". No dia seguinte, já esquecido da jura, eu cantava "Help" a plenos pulmões.

 

Trinta anos depois e muitas frustrações em encontrar porquês, me dei conta de quanto aquele fato havia estado na minha vida. Desde aquele dia, vivo numa incessante busca pelo entendimento de por que as pessoas agem do jeito que agem. Por que pensamos o que pensamos? Por que filhos não se entendem com seus pais ou por que eu e meu filho brigamos tanto? Por que brigo com minha mulher por coisas insignificantes? Por que antipatizo tanto com meu vizinho? Por que empregados conspiram contra patrões e patrões tratam empregados como uma manada de búfalos que precisa ser contida? Por que as relações entre empregadores e empregados têm que necessariamente ser na base do eu finjo que pago e eles fingem que trabalham? Por que trabalho no que não gosto e com quem não gosto? Afinal, o que comanda nossas atitudes? Qual a lógica do ser humano se é que existe alguma?

 

No trajeto de líder que fiz de monitor de uma patrulha de escoteiros até empresário de propaganda, estudei, testei, tentei, usei, experimentei as mais diversas teorias sobre o que está no cerne das relações humanas em geral, e em particular entre empregadores e empregados. Vi muita receita fácil e pouco diagnóstico. Pílulas de placebo, se bem não fazem, nada fazem. Livros de autoajuda são o melhor caminho para o engodo intelectual e espiritual. O mundo está repleto deles. Autores que sabem tudo sobre o que é melhor para nós sem nunca nos terem visto. Estão sempre dispostos a nos transmitir as "suas verdades”. Isto é tão presente em nosso cotidiano, uma seita me diz para meditar junto a um monge Tibetano para resolver meu relacionamento com meu chefe! Como ficaria o mundo se todos se convencessem desta "necessidade"? E como ficaria o Tibet? Há pouco tempo assisti a uma palestra onde me aconselharam a passear pela floresta para me energizar. E, last but not least, a olhar para o tomate na feira à procura do belo. Não sou contra florestas ou tomates, apenas florestas só me serão benéficas se eu me sentir bem nelas e tomates não são exatamente o meu referencial do belo. Eu não posso aconselhar ninguém a andar por duas horas ao longo do calçadão da praia junto com um amigo como forma de se sentir mais feliz. Mas eu sou mais feliz quando faço isso. O fato de você aconselhar alguém a ir à igreja como forma de encontrar a paz interior, e esta pessoa ir e gostar de ter ido, não quer dizer que ir à igreja trás a paz. O que teimamos em não ver é que se a pessoa aceita nossa sugestão significa que ela está à procura de algo que lhe transmita a sensação de paz. Por estar à procura, ela está disposta a experimentar novos ambientes e testar suas sensações até encontrar o que lhe proporcione o que procura. Mas isso não tem graça, pois estamos sempre desejando ver nossas ideias, crenças, atitudes, comportamentos e opiniões, adotados pelos outros. É muito doido! Precisamos que nossa verdade seja a verdade do outro! As formuletas deste tipo até poderiam ser consideradas se viessem acompanhadas de atestado de responsabilidade caso alguma coisa saísse errada. Mas, obviamente, este ninguém estaria disposto a assinar. Quando os “conselhos” adotados dão errado, há sempre uma resposta na ponta da língua: "Ah! mas é que ele não fez direito." Ou então uma bem calhorda: "Mas você deu os três pulinhos, rodopiou, repetiu “sapo-sêco-mangalô-treis-veiz”? Não? Então foi isso."

 

Na verdade o que está em jogo é o poder. Acha que estou exagerando? Pois digo que pouco há que dê tanto prazer quanto a sensação de poder sobre um outro. Se achar superior a um outro, em qualquer sentido, “não tem preço”. E liberdade de pensamento e poder nunca tiveram um convívio produtivo. Quando todos pensam de um mesmo modo, fica mais fácil a dominação.

 

Ao longo de toda a história da humanidade, a supressão das liberdades sempre foi o primeiro ato do dominador, e padronizar é a receita para garantir ausência de questionamentos.

 

sábado, abril 25, 2026

MASSA, PODER E ESTUPIDEZ



O ser vivo, qualquer ser vivo, tem como seu guia de vivência a entidade Medo. Ela se manifesta em diversas instâncias e intensidades, mas todas diretamente relacionadas à sobrevivência. Mas para os humanos, com suas consciências “evoluídas”,  o reconhecimento desta condição é absolutamente incômodo e a saída que vislumbramos é nos tornarmos estúpidos, sabendo que estupidez é o sinônimo “mais que perfeito” para o negar as realidades de si e de seu entorno.

Temos medo porque odiamos perder privilégios. Odiamos imaginar perder a vida, o primeiro dos privilégios (evidentemente para aqueles que têm noção de a vida ser um privilégio que o acaso concedeu a uma específica estrutura de átomos!). A partir deste, todos os demais são uma sequência de medos de perder privilégios. Para o Homem moderno, o medo de perder a casa para o banco, a namorada para o amigo, o amigo para o ciúme, o emprego para o beneficiado de uma cota qualquer, o bolsa família para a troca de governo, e assim “ad aeternum”. O medo é o mote da vida e o pai da estupidez. Por nossos privilégios não nos vexamos de ser estúpidos, de nos mantermos com antolhos para não termos que ver e conviver com o que ameaça nossos privilégios.

Estupidez e hipocrisia são irmãos siameses[1], um não sobrevive sem o outro. Para ser estúpido e sobreviver, preciso ser hipócrita. Se não sou hipócrita, não sou estúpido.

Vejamos o jogo (jogo?, não!), guerra de poder, especificamente no caso do ex-Brasil[2].  Tanto de um lado quanto de outro do espectro político, o que é objeto das ações é, por uns, o medo de perder o poder, por outros, o medo de não chegar ao poder. Integrantes, defensores, militantes, partidários, cidadãos apolíticos, TODOS somos bonecos manipulados pelo medo, seja o de perder privilégios, seja o de almejar privilégios.

A exaltação de Lula só se sustenta enquanto se descarta, consciente, mas estupidamente, tudo o que possa ameaçar a coerência. Sou estúpido, logo sobrevivo. Lula está no poder por ação de uma massa minoritária de apoiadores brasileiros de todos os níveis e de todas as instâncias (econômica, social, política e intelectual). Bolsonaro foi posto para fora, mas continua um potencial candidato ao poder, pois sustentado também por uma massa não majoritária de sustentadores também de todas as instâncias. Enquanto o lulismo teme o bolsonarismo e usa como recurso a estupidez para desmoralizar as propostas liberais com a intenção de eliminar a ameaça potencial a seus privilégios, o bolsonarismo teme o lulismo e usa do mesmo artifício, a estupidez, para desqualificar seus atos e ideias de todas as formas, com a intenção de destruir o "progressismo", pois um obstáculo à chegada do poder e dos privilégios.

É a isto que a política se resume. Um contingente de gentes que necessitam do exercício de poder, divididos em dois grupos, os que querem mantê-lo e os que querem conquistá-lo. É só isso em essência, mas uma essência que só se manifesta através de massas cuja estupidez é manipulada, parte por uns, parte por outros. Contingente que denomino de IIUs, “inocentes inúteis, úteis”. Mas quem não é?

 


[1] Não sei como construir esta proposição na linguagem dita “politicamente correta”.

[2] A constituição brasileira foi incinerada pelos seus protetores. Como um país só existe a partir de uma “Constituição”, caso contrário ele não pode ser “constituído”, então, por dedução primária, não existe mais um país denominado Brasil. 



segunda-feira, março 16, 2026

REFLEXÕES SOBRE O ESTOICISMO


Confesso que nada sabia sobre os conceitos da filosofia estoica. Exceção ao “ouvir dizer” que estoicos são aqueles que se bastam, que não atribuem os infortúnios da vida a qualquer entidade fora de si mesmos. Exceção outra saber que Epiteto e Marco Aurélio foram dois de seus expoentes. Minha identificação como estoico, portanto, era superficial, frágil.

Graças a um desses “encontros” proporcionados pelos fluxos de Eventos/Instantes[1], assisti, muito recentemente, a um filme americano cujo personagem principal é um professor que tem por hábito presentear aniversariantes com uma edição de “Meditations”,  obra de autoria do Imperador Marco Aurélio, escrita, portanto, há quase dois mil anos. Graças a Eventos/Instantes passados que me trouxeram informações sobre os interesses de meu neto Diogo, lhe sugeri a leitura da edição em língua inglesa[2], ao que ele respondeu com um “Já li” e que até o consultava como uma das fontes para suas reflexões. Como temos trocado ideias e percepções sobre a vida, encomendei a edição  em português que veio acompanhada de duas outras: “A Arte de Viver”, de Epiteto, e de “Sobre a Brevidade da Vida”, de Sêneca, outro estoico que viveu no século I DEC.

Comecei por Marco Aurélio (121-180 DEC) que registrou suas ideias no período em que governou o Império Romano entre 161 e 180  (em co-regência com Lúcio Vero, de 161 a 169; sozinho, de 170 a 177; e com Cômodo, seu filho, de 177 a 180,  quando de sua morte.

Me chamou a atenção a aceitação em dividir o poder. Com Vero, foi a primeira vez que dois imperadores dividiram o poder absoluto em Roma, e desconheço as razões para tal arranjo, mas a segunda foi por escolha sua, obviamente garantindo que a hereditariedade do poder não viesse a ser questionada.

O Imperador não “dava ponto sem nó”. Seus escritos, inspirados em Sêneca e Epicteto, são um pacote de regras morais para garantir a governabilidade de um Império que se estendia da Europa à Ásia. Como técnicas de domínio, fez uso da divulgação de códigos éticos por ele elaborados, e pelas ideias nascentes do cristianismo, em especial a ideia de o amor ao próximo e o bem à coletividade serem as fontes da felicidade. Listo algumas passagens que avalizam minha percepção:

  • “A finalidade dos seres racionais é obedecer a razão e a lei da cidade e sua Constituição mais venerável.”
  • “Que o Deus que está em você proteja um ser viril, venerável, um cidadão, um Romano, um chefe, um homem que disciplinou a si próprio, que está pronto como um soldado atento ao toque da marcha a sair da vida e cuja palavra dispensa juramento e fiadores.”
  • “Não é evidente que os inferiores existem para se inspirarem nos superiores? Olha, mas as coisas que possuem vidas são superiores às coisas inanimadas e entre os seres vivos, são superiores aqueles que possuem a faculdade da razão.”
  • “Em um aspecto, o homem (sic) é o que há de mais aparentado a nós [nós quem?], tanto que devemos desfazer bem e suportá-los. Mas, na medida em que são obstáculos às ações que me são próprias, convertem-se os homens em algo diferente para mim, não menos que o Sol, o vento ou a besta.”
  • “Abrace tudo o que lhe acontece, ainda que lhe pareça penoso, porque conduz aquele objetivo, a saúde do mundo e ao progresso e ao bem-estar de seus.”
  • “Concebi a ideia de uma Constituição baseada na igualdade ante a lei, regida pela equidade e pela liberdade de expressão igual para todos, e de uma realiza que honra e respeita, acima de tudo, a liberdade de seus súditos [acrescento eu que desde que ajam de acordo com seus ensinamentos].”
  • “A finalidade dos seres racionais é obedecer à razão e à lei da cidade e sua constituição mais venerável.”
  • “Quem foge do seu senhor é um desertor. A lei e nosso senhor, e quem a transgride é um desertor. “
  • Pense que só ao entre racional foi dado obedecer voluntariamente, conquanto seja imperativo obedecer simplesmente.
  • “Considere também que não há grande diferença entre morrer amanhã ou daqui a muitos anos.” [Conselho perfeito de um General para os soldados que manda para o front!]
  • “Por culpa [de alguns homens] poderia ser criado obstáculo para alguma das minhas atividades, mas graças ao meu instinto e à minha disposição, não são obstáculos, devido à minha capacidade de seleção e de adaptação às circunstâncias.”
  • “Tudo quanto eu fizer, quer por mim mesmo, quer com a ajuda alheia, deve tender a um objetivo único; o que é útil e conveniente a minha comunidade.”
  • “O dar, sem vacilo, a cada um segundo seu mérito.”
  • “Afasta a sua sede de livros, para não morrer amargurado, mas verdadeiramente resignado e grato de coração aos deuses.”
  • “Aprenda a reverenciar o que há de melhor no universo, o que se serve de tudo, e comanda todas as coisas.” [Não mais os deuses, mas Deus.]
  • “O único fruto da vida terrena é uma piedosa disposição e atos uteis à comunidade.”
  • “Tudo quanto eu fizer, quer por mim mesmo, quer com a ajuda alheia, deve tender a um objetivo único: o que é o último e conveniente à minha comunidade?
  • “O que mais buscarei se minha presente ação é própria de um ser inteligente, sociável e sujeito à mesma lei de Deus?
  • “O único fruto da vida terrena é uma piedosa disposição e atos úteis à comunidade.”
  • “Grande é o homem que cuida de não fazer o que vai contra a divindade e aceita tudo o que Deus lhe atribui. Isso é estar em harmonia com a natureza.”

Evidentemente, manutenção do poder político e honestidade intelectual não podem conviver na mesma sala sem expor conflitos morais. “Meditações” é um balaio de incongruências e contradições entre defender a natureza humana e a necessidade de que os cidadãos se mantenham subservientes às leis dele, que, como visto acima, se considerava um ser “superior”.

Tratemos de Epiteto (50-135 DEC), que foi contemporâneo de Marco Aurélio por cerca de 14 anos[3].  Se me considerei um estoico, foi por reflexões como estas:

  • “Eu, em Correntes? Você pode colocar grilhões em meus pés, mas a minha vontade, nem mesmo o próprio Zeus pode dominar”.
  • “Seja persistente, as pessoas que o ridicularizam agora, depois, o admirarão.”
  • “Quem afronta, insulta ou agride não é a pessoa, mas sim a visão que temos desses atos como um insulto. (...) Fique certo de que é a sua própria opinião que o provoca.”
  • “Se você assumir um papel que está além da sua capacidade, você tanto se desonrará nele quanto deixará de lado um papel no qual poderia ter sucesso.”
  • Os homens não se abalam com as coisas, mas com a percepção que têm das coisas.
  • “A matéria da arte de viver é a vida de cada um.”
  • “Com certeza não é fácil manter sua vontade em Harmonia com a sua natureza e manter as aparências ao mesmo tempo. Mas enquanto você estiver absorto em um, você necessariamente irá negligenciar o outro.”

Tais pensamentos são como “música para os meus ouvidos”. Não tiro nem coloco uma vírgula. Mas meu entusiasmo durou pouco. Tal como Marco Aurélio, Epicteto cai, não só em contradições, mas diz absurdos tais como:

  • “Reprima completamente o desejo (sic), pois se você deseja alguma das coisas que não estão em nosso poder, você necessariamente ficará desapontado.” [Mas qual é o problema em se desapontar? Não é parte da experiência de viver? Não é o reconhecimento de uma decisão errada que é  a essência do crescimento intelectual e espiritual?
  • “Deve-se sempre estar alerta para quando o capitão chamar (...) Se, em vez de uma trufa ou marisco, uma esposa ou um filho for concedido a você, não há nenhum problema. Mas se o Capitão chamar, corra para o navio. Deixe todas essas coisas e não olhe para trás.”  O absurdo aqui se revela mais absurdo quando Epicteto compara a perda de uma xícara que se quebra com a perda de um filho ou de uma esposa. Encerra ele o relato da comparação:
  • “ Se qualquer um deles morrer, você poderá suportar.” [!!!] Ele foi além da simples repressão ao desejo, ele aponta para um visão de ausência  absoluta de compaixão, amor e empatia, uma frieza só compatível com um compromisso de servilidade ao poder em vigência. Psicopatia pura. Mas não satisfeito, Epicteto arranja uma justificativa digna de nossos “regressistas” contemporâneos, o ladrão que rouba como preposto do desejo de outro:
  • Através dele [do ladrão], aquele que a deu a pediu de volta. [!!!! Não ria!]

Tal quadro mostra que toda a filosofia, aqui a considerada como “clássica”, ou “original”, ou “primeira”, está impregnada de interesses pessoais circunstanciais. A estupidez se manifesta na humanidade desde áureos tempos.

E chegamos a Séneca (4 AEC a 65 DEC), que antecedeu a Epicteto e Marco Aurélio, mas chegou a ser parcialmente contemporâneo dos dois.

Tive acesso a muito pouco sobre este pensador. O que exponho está no que publicou sob o título de "Sobre A Brevidade da Vida", onde, obviamente, fala sobre vida e morte. E foi conselheiro de Nero e, em princípio, toma por base "ideais estoicos clássicos de renúncia aos bens materiais em busca da tranquilidade da alma mediante o conhecimento e a contemplação".[4] 

Foi contemporâneo de Jesus de Nazaré e teria trocado reflexões com Paulo (Saulo) levando este a incorporar ao cristianismo ideias do estoicismo.

Vejamos algumas reflexões de Séneca:

  • “A filosofia molda e constrói a alma e ordena a nossa vida, orienta a nossa conduta, mostra-nos o que devemos fazer e o que devemos deixar por fazer.”
  • “A vida do filósofo, portanto, tem um amplo espectro e ele não está confinado pelos mesmos limites que os outros. Algum tempo se passou? Ele o recupera pela memória. O tempo está presente? Ele o usufrui. Ainda está por vir? Ele o antecipa. Ele torna sua vida longa, combinando todos os tempos em um só.”
  • “O melhor remédio para a ira é o tempo. Implore à sua raiva para que lhe dê tempo, não para que você perdoe a ofensa, mas para que possa formar uma decisão correta sobre ela.”
  • “Por que preciso me preocupar com o que digo na presença do meu amigo? Não deveria eu me considerar sozinho quando estou na companhia dele?”
  • “Ele recorre a Sócrates para desvalorizar o Ser: “Você é uma pequena alma que carrega consigo um cadáver.” [Ou seja, reduz a natureza humana à existência de um nada.]
  • “Os ensinamentos estóicos (...) inspiram esperanças de uma recuperação moral (...).” [A “verdade estoica” como panaceia para uma vida morna.]
  • “De quem irão refrear as paixões? A quem tornarão mais corajoso, mais justo, mais nobre?” [O que ele quis dizer? Que “verdades estoicas” não servem para tal?]
  • “Toda espera nos é penosa. No entanto, o momento que desejamos é breve e rápido, tornando-se muito mais curto por nossa própria culpa, pois fugimos de um prazer para outro, sem permanecer fixos em apenas um desejo.”
  • “O que é se não inflamar nossos vícios, ter os deuses como nossos patrocinadores e desculpar nossa própria fraqueza por meio do exemplo da divindade.”

Bem, o Leitor tem ideias bastantes com o que refletir. Para mim, o estoicismo, como todos os ismos, cai num balaio de interesses filosóficos personalíssimos a serviço das circunstâncias da ocasião. E repare que passados 20 séculos, parece que são questões emergidas no presente!

Para encerrar, vou apresentar algumas citações divididas em ... categorias: observações extraídas da vida prática – não são conselhos, são alertas -, citações estranhas ou hilárias, e outras que são opiniões com as quais compartilho em alguma medida.

OBSERVAÇÕES DA PRÁTICA

  • “E como dizia Zenão: mesmo na mente do sábio, uma cicatriz permanece depois que a ferida está completamente curada.”
  • “O maior obstáculo da vida é a expectativa, que depende do amanhã e do desperdício do hoje. Você dispõe daquilo que não está nas suas mãos, as circunstâncias, e deixa de lado o que está em suas mãos.”
  • “Todas as coisas que ainda estão por vir estão na incerteza.”
  • “Certo homem é possuído por uma avareza insaciável; outro por uma devoção laboriosa a tarefas inúteis; um é obcecado pelo vinho; outro, paralisado pela preguiça; outro homem está exaurido. [E assim é a vida, cada um vivendo-a do seu melhor jeito!]
  • "Realizar sua ambição depende da decisão de outros; (...)”.
  •  “Novas preocupações tomam o lugar das antigas. A Esperança realizada faz nascer nova esperança; a ambição, nova ambição.”
  • “Nunca faltarão razões para a ansiedade ter nascido na prosperidade ou na miséria. A vida avança em uma sucessão de envolvimentos.”
  • “Um povo faminto não escuta a razão, nem se apazigua com a justiça, nem se inclina por qualquer súplica.”

 

CITAÇÕES ESTRANHAS (Além das já mencionadas.)

  • “Nenhum sucesso é alcançado por um homem que se ocupa com muitas coisas (...) uma vez que a mente distraída por interesses divididos não absorve nada profundamente, mas rejeita tudo o que lhe é imposto.” [Ainda bem!]
  • “Não está em nosso poder escolher os pais que a Fortuna nos deu, eles foram dados aos homens por acaso. No entanto, podemos ter um renascimento de acordo com nossa escolha. Há famílias do mais nobre intelecto. Escolha aquela na qual deseja ser adotado.” [Pode haver conselho mais prático e frio: abandone seus pais e busque outros mais “promissores”!]
  • “Vergonhoso é aquele que, ao morrer, arranca um sorriso do herdeiro a quem muito tempo fez esperar.” [Há, há, há!]
  • “Deus está perto de você, ele está com você, ele está dentro de você.” [Mas por que você precisa ficar me dizendo como devo ser?]

 

OPINIÕES COMPARTILHADAS

  • “Se desejamos saber o quão breve sua  vida é, que se reflita sobre quão curta  é a parte que nos toca.”
  • “Todos os intelectos brilhantes de todos os tempos nunca deixaram de se espantar com a densa escuridão da mente humana. Os homens não permitem que ninguém se apodere de suas propriedades e correm a pegar em pedras e armas se houver a menor disputa sobre os limites de suas terras, mas permitem que outros invadam suas vidas - na verdade, eles próprios convidam os invasores.”
  • “Todos apressam a vida e sofrem com a ânsia do futuro e o tédio do presente.”



[1] Trato extensamente sobre Eventos/Instantes no que escrevo em “UniPerso”.

[2] Meu neto hoje mora nos Estados Unidos e estuda em um universidade na Florida.

[3] Há controvérsias. De acordo com algumas fontes, Epicteto teria morrido em Nicópolis, entre os anos de 125 e 130.

[4] Fonte: Wikipedia