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sábado, outubro 21, 2017

VIDA EM FRAGMENTOS, HÁ MAIS DE VINTE ANOS

"Vida em Fragmentos - Sobre a Ética Pós-Moderna", de Zygmunt Bauman, é um ensaio escrito em 1995(*) sobre as realidades da Europa naquele momento histórico a partir do ponto de vista de um pensador europeu. 

Apesar de passados 27 anos desde a publicação da primeira edição, é desconcertante, atordoante, a atualidade de suas análises, tanto em relação ao mundo como quanto ao que se pode aplicar para o entendimento do que vivemos no Brasil.

A seguir, reproduzo algumas passagens para dar uma ideia do que estou dizendo. Muito mais há além disso, especialmente sobre moralidade na pós-modernidade. O extrato completo você acessa aqui.

(*) Só foi publicado no Brasil em 2011, pela Zahar!!!

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Sobrevivência é o nome do jogo, e a sobrevivência em questão é, em regra, sobreviver até o próximo por do sol. As coisas são tomadas à medida que se apresentam, esquecidas à medida que se vão.

Determinação para viver um dia de cada vez, descrever a vida cotidiana como uma sucessão de pequenas emergências, passam a ser os princípios orientadores de toda conduta racional.

[Segundo George Steiner, no mundo atual, a mensagem a ser transmitida é construída para ter] impacto máximo e obsolescência instantânea, uma vez que o espaço por ela ocupado precisa ser esvaziado tão logo tenha sido preenchido, para abrir espaço a novas mensagens que já forçam a entrada.

Ruas hoje arrumadas se tornam perigosas amanhã, as fábricas desaparecem com os postos de trabalho, habilidades não encontram mais compradores, o conhecimento se transforma em ignorância, a experiência profissional se converte em deficiência, redes de relações seguras desmoronam e enlameiam o espaço com lixo pútrido.

O cotidiano deve ser cada vez mais sangrento, chocante e, além do mais, "criativo", a fim de despertar algum sentimento que seja, e verdadeiramente chamar a atenção.

Um sintoma amplamente divulgado do retorno da violência é a crescente dificuldade em manter separada orientação paterna firme e abuso infantil; flerte e assedio, investida sexual e atentado violento ao pudor.

"A tecnologia se desenvolve porque se desenvolve"; cada vez mais novos meios são criados seguindo apenas seu próprio ímpeto (o ímpeto dos laboratórios de pesquisa e dos lucros do marketing).

É banal dizer que se pode matar hoje sem nunca olhar a vitima no rosto. Depois que afundar uma faca num corpo, estrangular ou atirar a curta distância foram substituídos por pontos que se deslocam numa tela de computador - como se faz nos divertidos consoles de viedogame ou na tela de um Nintendo portátil -, o assassino  não precisa mais ser impiedoso. Ele não tem a oportunidade de sentir piedade. Este, entretanto, é o aspecto mais óbvio e trivial, ainda que o mais dramático, de "uma ação à distância".

Os vira-latas de ontem eram os não produtores; os de hoje, são os não consumidores.

O divórcio entre a autarquia política e autarquia econômica não poderia ser mais completo, e parece irreversível.

A disputa pela soberania torna-se cada vez mais a competição por um melhor negócio na distribuição mundial de capital. Isso se aplica aos dois tipos de clamor por soberania ora observados. De um lado, os provenientes de localidades prósperas, como a Lombardia (Itália), a Catalunha (Espanha) (...)

[Uma explicação para o que enfrentamos nos relacionamentos com as empresas nos dias atuais.] As organizações se defendem [de nós] através do fenômeno da "flutuação de responsabilidade". Considerando que o membro da organização siga suas regras fielmente e faça o que seus superiores lhe disseram para fazer, não é ele quem assume a responsabilidade por qualquer efeito que sua ação possa produzir sobre seus objetivos. Quem assume, então? A questão é atordoante, uma vez que todos os outros membros da organização também seguem procedimentos e ordens. Parece, diz Hannah Arendt, que a organização é governada por ninguém - ou seja, é movida apenas pela lógica impessoal de princípios autopropulsores.

Nas palavras de Mulgan, "o egoísmo e a ganância, além da corrupção no governo e nas empresas, passaram a ser as marcas distintivas da era  neoconservadora.

[E quanto à sua história de fidelidade com as empresas, especialmente com bancos, não valer mais de nada] cada transação comercial, para ser verdadeiramente racional, deve começar do zero, esquecendo méritos passados e dívidas de gratidão.

Num mundo em mudança, à deriva, que possível beneficio pode um indivíduo obter da união de forças com outros também em destroços?

Quem precisa de política quando os interesses e significados seguem direções apartadas? O interesse pela política sempre teve seus altos e baixos, mas agora parece que conhecemos uma cepa totalmente nova do vírus da apatia eleitoral.

Mais importante e ainda menos provável é a perspectiva de um esforço legislativo que siga imperativos éticos de longo prazo, em vez de ser empurrado como um plâncton por cálculos e ganhos eleitorais imediatos e de curta duração.

As pessoas podem influenciar os assuntos que lhes digam respeito de duas maneiras: por meio da voz ou por meio da saída. A diferença entre voz e saída é a diferença entre compromisso e desprendimento, responsabilidade e indiferença, ação política e apatia.

O perigo é de a sede humana de controle e supremacia degenerar em crueldade e opressão desumanas.








quarta-feira, outubro 18, 2017

SERES EM PEDAÇOS.

"Consequências da fragmentação: precipita a extinção e o declínio da população; a fragmentação causa mudanças no balanço competitivo entre as espécies, exacerbando as ameaças à sua diversidade." 
Coletado na web, sem autoria.

Estamos nos tornando seres despedaçados pós fragmentação das coisas no mundo da modernidade líquida. Nem todos já se sentem assim. Uns percebem que não são mais sólidos em suas certezas como até em um passado recente e buscam âncoras de resistência; outros já se vêem em pedaços que não se juntam e se perguntam "até quando?". Outros, simplesmente negam tal possibilidade de desmanche existencial.

Mas a fragmentação é ubíqua. Onipresente e onipotente. Só não é onisciente pois a informação é superficial, incompleta e desconexa. "La pièce de résistance" é negar o contraditório. Só queremos ouvir o que nos conforta em nossas angústias. O trabalho é temporário por tempo indeterminado. O amor é fluido como as águas do rio que rumam a outros leitos. Tudo o que era sólido derreteu sob o calor das tecnologias disruptivas. Onde foram parar nossas certezas? Não sabemos mais e não temos tempo para lidar com nossos filhos. Educá-los foi transferido para a exclusividade de escolas e professores presos aos métodos do século XIX porque não dão conta de entender seus papéis no século XXI. Os eventos passam como ventos em nossas vidas, rápidos, fortes e caóticos, enquanto nossa capacidade de adaptação/adequação/assimilação é desesperadoramente lenta. Nossas escolhas são fluídas, frágeis, pois nem mesmo temos tempo e discernimento para enxergar e avaliar as opções?

A verdade não tem qualquer relevância. Vale a versão midiática. A que atende aos interesses super-imediatos. O fato é ignorado, apenas a interpretação oficial deve ser considerada. E vale enquanto um novo fato, um novo interesse sem mesmo ter conexão com o anterior, não há continuidade, apenas sobreposição. A enxurrada de tuítes, zaps, posts, curtidas e notícias do último minuto, anexadas a charges, fotos ou vídeos, se fundem numa massa grotesca, confusa e disforme, transferida para a lixeira no tempo de uma viagem de metrô, de uma espera na ante-sala do dentista, porque o espaço de armazenamento se esgotou.

Estamos em pedaços. Não somos mais inteiros. Como maridos, devemos ser mães. Como mães, devemos ser provedoras. Como profissionais nos dizem que temos que ser multifuncionais. Esqueça a competência. A autoridade do conhecimento não é mais necessária pois o Google é nosso Papai-Sabe-Tudo deste nosso século. Tudo o que querem de nossos jovens é a energia de fazer que neles parece infinita. O trabalho é pontual. Somos parte de uma pequena parte. O resultado final quase nunca nos é dado saber. Pois não importa a qualidade do resultado. $$ó o re$ultado.   


A privacidade protegida nas constituições das nações mundo afora, é um conceito perdido em discursos vazios. Somos bisbilhotados em nossos comportamentos cotidianos mais comezinhos. A nuvem agora armazena tudo sobre mim. Tem as fotos que tirei com meu celular; tem imagens minhas captadas e gravadas por câmeras espalhadas por ruas, salas de espera, halls de bancos; tem toda a história de meus relacionamentos contada pelas milhares e milhares de mensagens trocadas pelos tantos aplicativos que tenho instalado; tem o rastreamento de todos os links que visitei em todas as minhas navegações, desde simples consultas na wikipédia até meus sites pornográficos preferidos, passando, obviamente, por todos os meus desejos de consumo satisfeitos ou apenas manifestos. Não existo mais como ser-humano. Meu ser, eu como indivíduo, sou construído a partir de uma pergunta (query) construída com parâmetros para atender um objetivo específico, aplicada sobre um banco de dados ao qual não tenho acesso e muito menos controle sobre o conteúdo. Neste contexto, deixei de ser uno, me tornaram um infinito de seres virtuais.

Nossa fragmentação nos deixou com um vazio. Nosso sentimento de pertencimento, a cola de nossa solidez perdida, estragou, perdeu a validade e a eficácia. Já vivemos o vazio pós sermos empurrados no precipício do mundo globalizado. Estranhamos o outro, nos defendemos do outro, agredimos o outro, porque  não temos nada que nos sobreponha como valor comum. Estamos tão fragmentados que não nos reconhecemos mais nem mesmo em nossos núcleos familiares. A intolerância se instalou nas casas onde cada um é solitário com seu computador ou smartphone pessoal. Nossa comunicação deixou até mesmo de ser restrita a 140 caracteres. Agora ela se resume a 👍,👎,😉 ou 😖.

Não nos vemos mais como uma só humanidade. Só a minha humanidade é real. A minha opinião é a única e universal verdade. Só a minha existência importa. A solidariedade deixa de ser uma atitude moral para virar um conceito utópico, distante, inalcançável, irreal. Desnecessário. A moral deixa de ser um impositivo para o sentimento de felicidade e para a qualidade das relações humanas.

Se toda tendência provoca uma tendência contrária, quanto ainda falta para que esta ganhe tal vulto que nos confronte e nos induza a refletir, questionar, reavaliar e optar? O que haverá num futuro momento de equilíbrio de tendências contrárias?  Abandonamos a era da modernidade sólida substituindo-a por uma pós-modernidade líquida que nos receita Rivotril ou Lexotan seguido de sessões em um divã no consultório do psiquiatra (não mais que Viagras para levantar o ânimo e provocar um gozo em nossa existência, agora, virtualmente vã). 

Se vamos reagir a esse destino, que destino teremos por opção? Um futuro de sólidas convicções flexíveis?





quarta-feira, julho 12, 2017

BAUMAN, BORDONI E AS ORIGENS DA CRISE BRASILEIRA

Carlo Bordoni e Zygmunt Bauman (1925-2017)
Quem recentemente passou por aqui, sabe que estou em uma fase de ler o que Zygmunt Bauman nos deixou de herança (quem chegou só agora, veja postagens anteriores). Hoje acabei de ler "Estado de Crise" (2014/2016), um trabalho dele com seu amigo Carlo Bordoni, sociólogo e jornalista italiano, em forma de diálogo.

A seleção que fiz teve um só foco: frases, análises, avaliações que nos remetem à comparação/reflexão com o momento Brasil. E, em especial, a acontecimentos ocorridos e a ocorrer neste julho de 2017.

No livro, uma referência ao Brasil é feita apenas ao final do livro quando listado junto a outros países em que ocorreram movimentos de massa nas ruas.

Como sempre, entre colchetes "[]", interferências minhas.


CARLO BORDONI

Agora, (...) todo e qualquer prognóstico de solução [das crises] é continuamente atualizado e, em seguida, adiado para outra data. Parece que nunca vai acabar.

Nós temos de aprender a viver em crise, (...) pois a crise está aqui para ficar.

ZYGMUNT BAUMAN

Na percepção da população, o Estado foi rebaixado da posição de motor mais poderoso do bem-estar universal àquele de obstáculo mais odioso, pérfido e prejudicial.

Em sua condição presente, o Estado não dispõe dos meios e recursos para realizar as tarefas que exigem a supervisão e o controle efetivos dos mercados, para não falar de sua regulação e administração.

A presente crise difere das suas precedentes históricas à medida que é vivida numa situação de divórcio entre poder e política.

CARLO BORDONI

"O problema vem de fora, mas o problema tem de ser resolvido, para o melhor ou para o pior, no local."

A antipolítica resulta em populismo e nacionalismo, ambos perigosos e sujeitos aos mais devastadores desvios. Com frequência ela se mostra o prelúdio de regimes tirânicos e autoritários, como demonstra a história recente.

Como certos tipos de populismo, o nacionalismo hoje não vai além do drama de uma opereta tragicômica, exagerada pela mídia para entretenimento das massas que com justeza estão muito aflitas.

ZYGMUNT BAUMAN

Os governos (...) não são convincentes nem destinados a durar; na melhor das hipóteses, espera-se/reza-se para que sobrevivam até (...) a próxima abertura do pregão da bolsa de valores.

Todos os governos democráticos estão expostos a duas pressões contraditórias:

1 - a pressão dos eleitores que sejam capazes tanto de por governos em exercício quanto de tirá-los;


2 - a pressão de forças globalizadas, livres para flutuar com pouca ou nenhuma restrição no "espaço de fluxos" extraterritorial sem política.


Os cidadãos acreditam cada vez menos que os governos sejam capazes de cumprir suas promessas.

Que força há de poder preencher o posto/papel de agente da mudança social?  (...) Há uma abundancia de tentativas de encontrar novos instrumentos de ação coletiva (...) instrumentos que tenham mais chances de satisfazer a vontade popular (...). 

De uma maneira ou de outra, a indignação aí está, e nos indicaram uma maneira de descarregá-la, ainda que temporariamente: ir para as ruas e ocupá-las. 

[Não faltarão aventureiros ansiosos por propor]: "Confiem em mim, sigam-me, e eu os salvarei da miséria em que vocês afundarão ainda mais do que hoje."

Nós sabemos do que estamos fugindo, mas não temos a menor ideia de onde vamos. (...) A história é um cemitério de esperanças não realizadas e de expectativas frustradas.

De uma maneira ou de outra, a indignação está presente, e estabeleceu-se um precedente para descarregá-la: sair às ruas e ocupá-las.

O fenômeno "povo nas ruas" mostrou até o presente a sua capacidade de afastar alguns dos mais odiados objetos da indignação das pessoas, figuras culpadas por seus sofrimentos (...) Entretanto, ele ainda tem de provar, (...) que também pode ser útil no trabalho de construção que vem em seguida. (...) os lideres de países democráticos e as instituições que eles criaram para guardar a perpétua "reprodução do mesmo" parecem até aqui não ter percebido e não se preocupam; (..).

As pessoas que ora tomam as ruas (...) sabem com certeza o que elas não gostariam que continuasse a ser feito. O que elas não sabem, contudo, é o que precisa ser feito em vez de...

Líderes políticos potenciais não pararam de nascer. São as estruturas políticas em deterioração, decadentes e impotentes que os impedem de amadurecer

Por que se dar ao trabalho de quebrar a cabeça tentando responder à pergunta: "O que fazer?" se não há resposta para a pergunta "Quem irá fazê-lo?"

CARLO BORDONI

O evento mais recente, o atual, o novo, representa a face da verdade e derrota o evento anterior. 

O Estado [atual],  (...) está tão somente preocupado com sua própria estabilidade.

A democracia chegou a ser usada [como] um biombo para cobrir os piores tipos de opressão do homem pelo homem.

Há na democracia um caráter de ditadura da maioria sobre a minoria. [Não nos dias de hoje pelo que se observa nos mais importantes e recentes eventos eleitorais ocorridos no mundo. Em quase todos, se não todos, uma minoria impôs sua vontade à maioria, principalmente pelo alto nível de abstenção.]

O fato de que todos possam votar não garante, em si, uma vitória popular, nem que a forma de governo produzida por eleições seja realmente do interesse do povo.

O marxismo entendia democracia como "ditadura do proletariado", mas depois delegou a gerência do poder político a uma pequena minoria, a uma elite privilegiada.

Indiferentemente de quanto a fórmula "democracia representativa" possa ser boa, (...) é evidente que a crise da modernidade trouxe com ela a crise da democracia representativa.

A alta taxa de sindicalização nos países ocidentais é responsável por incitar a alta do preço da mão-de-obra e introduzir um conjunto de regulamentações de proteção e defesa do emprego, a ponto de forçar o capital a mudar de lugar.

ZYGMUNT BAUMAN

Alexandra de Felice, famosa comentarista do mercado de trabalho Frances, prevê que, se prosseguirem as atuais tendências, um membro regular da geração Y será obrigado a mudar de chefe e de empregador 29 vezes ao longo de sua vida de trabalho. 

CARLO BORDONI

A sociedade desmassificada atingiu um nível perfeito de igualdade: uma sociedade de indivíduos empobrecidos, gratificados pela indústria de alta tecnologia e pelo grande conforto da comunicação interpessoal, mas que são incapazes de exercer política autorregulada, porque ela foi tirada de seu controle.

O cidadão comum só pode ter responsabilidade no âmbito da política local (...).

Que necessidade há de representação no nível mais alto (considerando que o cidadão comum não entende as complexas questões econômicas de âmbito global e não tem competência para tomar decisões) quando a democracia - isto é, a real democracia, aquela que realmente interessa ao povo - é realizada plenamente nas questões do dia a dia?

Não podemos falar da existência de um cidadão global, mas apenas de um cidadão local afetado pela globalização.


Volto eu. Em resumo, estamos em um novo mundo, onde:

1 - A globalização tirou dos políticos a tarefa de definir prioridades do que fazer. Isto agora é resultado dos interesses dos mercadores produtores de bens.

2 - A facilidade de fluxo de capitais, completou o serviço tirando do Estado-nação o controle e o poder de fazer. Transferências de grandes volume de capital têm o poder de desequilibrar governos e quebrar Nações.

3 - As tecnologias de comunicação reduziram o tempo ao imediato, o que, praticamente, acabou com a reflexão sobre as coisas e o amadurecimento de opiniões/posições.

4 - Na modernidade líquida de Bauman, as certezas, a solidez das convicções, não existem mais. Agora tudo é passageiro, fluido, fugaz, passam como as águas no leito do rio.

5 - Dado o volume de informação injetada em nossos cérebros por minuto, o cidadão comum se tornou incapaz de sintetizar/entender as razões para seus infortúnios e o incapacita para o voto em uma democracia do passado (vontade da maioria) hoje dominada pela minoria que tenha mais sede de poder. 

6 - Na auto-estrada da história das Nações não há placa de retorno porque a pista é única em uma só direção. Todos os povos estão forçados a descobrir um novo sistema (veículo) capaz de  nos levar com segurança na travessia da vida tendo que lidar com as novas variáveis que aí já estão e as que nem imaginamos que virão, mas certamente virão.

A leitura completa é essencial para quem quiser entender o que está acontecendo no mundo de hoje. Se você não quiser comprar o livro, eu achei aqui todo o conteúdo de "Estado de Crise".



Descubra, por exemplo, que:

"A gestão partidária não pode ser feita por candidato ou por ocupante de cargo eletivo."


quinta-feira, junho 01, 2017

UM POUCO MAIS DE ZYGMUNT BALMAN

Terminei a leitura de "Para que serve a sociologia" (Editora Zahar), de Zygmunt Bauman, intelectual polonês, falecido no início de 2017. Este livro é um trabalho de Bauman com dois outros intelectuais, Michel Hviid Jacobsen e Keith Tester, seus amigos, que estruturam muitas ideias do sociólogo usando a técnica de simular uma entrevista. Além de tratar do tema, sociologia, ele vai além, abordando as angústias contemporâneas onde o excesso de informação altera profundamente nossas prioridades e nosso modus vivendi

Eis algumas passagens que selecionei por extrema pertinência com nosso momento Brasil.


"O mundo se atrofiou em histórias, não em informações, e onde as histórias são atrofiadas também o é a capacidade de homens e mulheres entenderem suas vidas num contexto histórico mais amplo.

O caminho que leva a um mundo moral é longo, sinuoso e cheio de armadilhas – as quais, diga-se de passagem, é tarefa do sociólogo investigar e mapear.

Os intelectuais [na esteira de Gramsci] esperavam conduzir e/ou ser conduzidos a uma terra em que a longa marcha rumo à liberdade, à igualdade e à fraternidade finalmente alcançaria seu destino.

Theodor W. Adorno
Pierre Bordieau

Para Adorno, confiar a mensagem ao leitor desconhecido de um futuro indefinido pode ser preferível a transmiti-la aos contemporâneos considerados despreparados ou indispostos a ouvir, que dirá apreender e reter o que ouviram.

Pierre Bourdieu assinalou que o número de personalidades no cenário político capazes de entender e articular as expectativas e demandas de seus eleitores está diminuindo depressa. (...) problemas privados são categorizados como questões públicas.

(...) trazer à luz as contradições não significa resolvê-las. Um caminho longo e tortuoso se estende entre o reconhecimento das raízes de um problema e sua erradicação, e dar o primeiro passo não garante de maneira alguma que outros venham a ser dados, muito menos que o caminho seja percorrido até o fim.


As escolhas humanas não são mais determinadas do que são os movimentos dos jogadores de carteado pelas cartas que eles têm na mão. O lugar em que se está numa situação manipula a distribuição de possibilidades. Ele separa os movimentos viáveis dos inviáveis, assim como os mais prováveis dos menos prováveis. Mas nunca eliminam totalmente a escolha. (...) O poder humano significa a capacidade de manipular as probabilidades das escolhas humanas.


A parte “civilizada” da história humana foi desde o princípio, e provavelmente continuará a ser, uma mistura de aprendizado e esquecimento.

Adquirir novas habilidades sem abandonar as antigas é quase impossível. Para ter sucesso em enfrentar novos desafios, as velhas habilidades são de pouca ajuda, de modo que novas habilidades são exigidas.

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Talcott Parsons articulou assim a “questão hobbesiana”: como induzir, forçar ou doutrinar seres humanos, abençoados ou amaldiçoados com o dom ambíguo do livre-arbítrio, a serem guiados normativamente e a seguirem por rotina cursos de ação manipuláveis, embora previsíveis? (...) Em suma, como fazer as pessoas terem o desejo de fazer aquilo que devem fazer?
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Em “História para as últimas coisas”, Siegfried Kracauer assinala que, à medida que a “segurança paroquial” dá lugar à “confusão cosmopolita”, há um “sentimento generalizado de impotência e abandono”, de “estar perdido num território inexplorado e inimigo”, que – perigosamente – “induz muitas pessoas, presumivelmente a maioria delas, a correr para o abrigo de uma crença unificadora e reconfortante”.

Hoje nos encontramos num “interregno”, um estado em que as velhas formas de fazer as coisas não funcionam mais e os modos de vida antigos e herdados não mais se ajustam à presente conditio humana, mas as novas maneiras de enfrentar os desafios e os novos modos de vida mais adequados às novas condições ainda não foram inventados, posicionados e postos em movimento.

As formas de vida moderna podem diferir em muitos aspectos – mas o que une todas elas é exatamente a fragilidade, transitoriedade, vulnerabilidade e inclinação à mudança constante. “Ser moderno” significa modernizar-se – compulsiva e obsessivamente; nem tanto “ser”, muito menos manter sua identidade intacta, mas eternamente “tornar-se”, evitar a conclusão, continuar indefinido.

Cem anos atrás, “ser moderno” significava buscar “o estado final de perfeição”. Agora significa uma infinidade de aperfeiçoamentos, sem ter em vista nem desejar um “estado final”.

A trajetória de sucessivas mudanças lembra mais um pêndulo que uma linha reta. Cada mudança foi uma tentativa de conciliar demandas incompatíveis, mas os esforços, em geral, terminaram com a renúncia a uma parte de uma delas com o objetivo de satisfazer uma parte da outra. E assim, cada mudança inspirou, mais cedo ou mais tarde, a demanda de outra. (...) Outra forma de dizer a mesma coisa é que cada melhoramento trouxe novas deficiências. (...) os antecedentes só se revelam por meio de suas consequências.

A civilização (significando ordem social) é uma permuta em que alguns valores são sacrificados em função de outros. (...) Nesses termos, pode-se dizer que a história das mudanças sistêmicas é um sucessão de permutas.

Decidir ir a público envolve tornar o texto refém do destino (desconhecido e jamais totalmente previsível, que dirá controlável). Uma vez enviadas as mensagens têm vida própria, autônoma. (...) a versão do autor não goza de superioridade sobre as leituras dos destinatários, já que os significados emergentes são em geral produtos da interação entre o texto e os arcabouços cognitivos formados pelas variadas experiências dos leitores.

Ironia, distância, não comprometimento e acima de tudo a consciência do caráter de “até segunda ordem” das verdades é uma das poucas advertências da versão atual da razão que deveriam – realmente – ser levadas a sério.

As placas de trânsito mudam mais depressa que o tempo gasto para chegar aos destinos que elas apontam. Com o acúmulo de experiências como essa, é arriscado tratar com seriedade qualquer relato sobre a “situação do planeta”, que dirá prognósticos sobre suas condições futuras. Para o bem ou para o mal, nossos contemporâneos são treinados na arte da flexibilidade, o metavalor “imperativamente endossado e recomendado”, assim como popularmente aclamado, da modernidade líquida.

O mundo está mudando e se reordenando (não sem nossa cooperação ou omissão) com demasiada rapidez para que um conjunto de regras, qualquer que seja ele, permaneça funcional por toda a vida de um indivíduo, que dirá ultrapassá-la.

Me preocupa a separação e o iminente divórcio entre o poder, que é a capacidade de fazer com que as coisas sejam feitas, e a política, que é a capacidade de decidir quais coisas precisam ser feitas e quais não precisam.

Grande parte do poder antes contido na soberania do Estado evaporou-se no “espaço dos fluxos” global de Manuel Castells, enquanto a política até hoje continua a ser local.

O que se seguiu a este afastamento foi o paradoxo de uma progressiva coletivização dos problemas, juntamente com a privatização das ferramentas e dos meios necessários para sua solução. Um paradoxo cuja resolução ficou a cargo dos indivíduos, incumbidos da impossível tarefa de enfrentar de modo individual, por conta própria, desafios socialmente produzidos (e apenas socialmente solucionáveis).

O privado invadiu e conquistou a “ágora”, aquele espaço no qual se esperava que interesses privados fossem traduzidos em questões públicas, e onde necessidades públicas se traduzissem em direitos e deveres privados.

“Cortesia” é uma das últimas palavras que me viriam à mente se eu fosse descrever o mundo em que vivemos. “Hipocrisia”, sim. Contudo, confundir hipocrisia (ou seja, a tendência a manter distância do que causa a verdadeira dor e faz as pessoas realmente sofrerem, e a vender a crueldade sob o rótulo da benevolência) com cortesia, de qualquer forma, é o principal objetivo e a marca registrada da hipocrisia, sendo a “correção política” uma de suas manifestações flagrantes, ainda que hipocritamente disfarçada.

Usamos no dia a dia, pública e ostentosamente um tipo de linguagem antes confinado às sarjetas a aos antros do vicio. Não respeitamos mais os direitos de privacidade e intimidade. Talvez o lar do inglês ainda seja seu castelo, mas um castelo aberto aos visitantes 24 horas por dia, sete dias por semana, habitado por pessoas que temem a ausência ou escassez de observadores intrusos como a mais terrível das pragas do Egito.

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Nós nos deleitamos com a visão de aprendizes a perdedores que se mostram à porta da rua e dos habitantes da casa do Big Brother excluídos pelo voto após uma longa semana de humilhações e ridicularizações rotineiras. Não respeitamos nem a dignidade do outro nem a nossa. Quando ouvimos a palavra “honra”, recorremos a um dicionário.

É como se o “direito de difamar” tivesse se tornado um direito humano com tendência a ser universalmente respeitado e defendido com unhas e dentes pelas agências guardiães da lei.

Sem a ressurreição do respeito, não há chance para a solidariedade. Sem solidariedade, não há chance de despertar “as preocupações centrais da sociedade” de sua atual sonolência e forçá-las a abandonar o abrigo impenetrável da desatenção humana.

O que me põe de lado na comunicação ao estilo blog é a atordoante velocidade com que as mensagens entram e saem do domínio da atenção do público, quase sempre sem deixar testamento. Elas surfam pelas mentes em vez de se estabelecer dentro delas pelo tempo necessário para uma reflexão madura e para produzir consequências. Rapidamente lido, logo esquecido."