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segunda-feira, agosto 07, 2017

NESTE MEIO EU SOU A MENSAGEM


Zygmunt Bauman e Ezio Mauro
Depois de Epicuro, voltei a Zygmunt Bauman (quem chegou só agora, veja postagens anteriores). Li "Babel, entre a incerteza e a insegurança" (Ed. Zahar 2016). Escrito com Ezio Mauro, jornalista e escritor italiano. Também esta obra em forma de diálogo.


Neste livro, os autores tratam dos sentimentos e dúvidas dos cidadãos no mundo fluido atual. O que selecionei tem, como sempre, uma correspondência com nós, cidadãos brasileiros deste pós ruas de 2016.


O título desta postagem, "Neste meio eu sou a mensagem", é uma conclusão que cheguei em 1997 depois de meu primeiro ano de internauta. Eu não imaginava o quanto ela se tornaria uma síntese de nossos dias atuais.

Como sempre, entre colchetes "[]" e negritos, são interferências minhas.


EZIO MAURO
Estamos descobrindo que acreditar nas formas e instituições da democracia não é o bastante. A democracia não é autossuficiente.

Governos democráticos são instáveis porque tudo está fora de controle

Autonomia da crise: a crise é indiferente ao processo democrático [e] tira vantagem das fraquezas desse processo e exagerando-as.


ZYGMUNT BAUMAN

Freud
Como observou Freud, em nome de maior segurança, nós tendemos a estar prontos para sacrificar e ceder grande parte de outro valor que exaltamos, a liberdade.

De maneira pendular, nós vamos da ânsia por mais liberdade à angustia por mais segurança.

Eleitores apenas procedem mecanicamente (...) eles vão às cabines eleitorais para escolher males menores.

A apatia política não é novidade. (...) Já na virada para o século XX, pensadores já nos advertiam sobre a passividade dos membros da base dos partidos políticos, bem como da maioria do eleitorado, causada pela incapacidade da gente comum, equipada apenas de conhecimentos médios, de compreender a espantosa complexidade das questões que os poderes investidos confrontam diariamente e com que são obrigados a lidar. [Desde lá já se observava que os cidadãos] são incapazes de contribuir com qualquer coisa relevante.

A passividade dos cidadãos era baseada na confiança de que governos e parlamentos podiam realizar a tarefa [de conduzir a sociedade] e cumprir suas promessas. Contudo, agora não é mais assim.

A política é reduzida à dimensão de evento, o guru substitui o líder, a celebridade toma o lugar do renome, a popularidade, o lugar da reputação.

A democracia foi sustentada pela tradução contínua de interesses privados em questões públicas e de necessidades públicas em direitos e deveres privados.

Não há sentido em desenvolver lealdade para com nossos colegas de trabalho, os quais já não são mais companheiros de armas. Não faz sentido, tampouco, desenvolver lealdade para com a empresa. Quem sabe quanto tempo vão eles permitir que você fique? Essa é a mentalidade dos nossos tempos.

Onde isso vai dar? Estamos preocupados com o estado lamentável da democracia e a impotência cada vez mais patente das instituições criadas em seu nome. Preocupamo-nos com a política reduzida a espetáculo; os cidadãos, a espectadores; o discurso político, a oportunidades para tirar a foto; e a batalha de idéias, à competição entre "marqueteiros".

Existe alguma perspectiva realista de um movimento de massa em defesa da nossa democracia doente e vulnerável?

Essas manifestações [de rua], inclino-me a dizer, são casos de "solidariedade explosiva": por um instante as pessoas suspendem as diferenças de seus interesses e de suas preferências a fim de liberar a energia acumulada pelo grande número de manifestantes e de maneira tão impressionante (e esperançosamente efetiva).

EZIO MAURO

Hoje nos falta um "telhado", algo que compartilhamos e que pode nos manter juntos, dando-nos um sentido de pertencimento e de identidade na nossa relação uns com os outros.

O que está em jogo aqui não são apenas as conseqüências de graves transformações no trabalho, mas o próprio trabalho.

Rifkin, em The Zero Marginal Cost Society: Uma vez que, nos mercados capitalistas, capital e trabalho se alimentam um do outro, o que acontece quando tão poucas pessoas estão produtivamente empregadas que não  há compradores para adquirir os bens e serviços de quem os vende?

Para Ulrich Beck o que está em jogo não são apenas milhões de desempregados. (...) Tudo o que temos está em jogo. A liberdade política e a democracia na Europa estão em jogo.

Se participarmos de alguma batalha política ou se nos trancarmos em  nossas casas, isso não faz nenhuma diferença.

Não somos mais capazes de encontrar razões para construir, propor, reformar.

O cidadão é chamado a abastecer seu voto com sua raiva, a qual é então preservada em compartimentos esterilizados até o período eleitoral seguinte.


ZYGMUNT BAUMAN

Os seres humanos se ressentem de atenção e negligência; ter seu mérito reconhecido e apreciado é, segundo Platão, uma necessidade humana fundamental.

A economia "erótica" ou consumista é conhecida por ajustar a demanda à oferta seduzindo consumidores prospectivos a desejar produtos de que ele nunca imaginou precisar.

Peter Sloterdijk: Hoje, o indivíduo é em primeiro lugar e acima de tudo um consumidor, não um cidadão.


EZIO MAURO

Eis onde estamos: a exclusão é a nova forma da desigualdade, não apenas uma de suas consequências.

Quem vive no espaço dos fluxos não tem mais necessidades de laços nem de responsabilidade [social].

Precisamos dar um novo significado (...) a ex-cidadãos que não têm mais identidade, indivíduos que não projetam nenhuma sombra social, não deixam nenhuma pegada política em pleno meio onde vivemos.


ZYGMUNT BAUMAN

Hoje, todos estão sozinhos não só na morte, mas em seus esforços para continuar vivos. (...) Ser abandonado e excluído, rejeitado e relegado à lixeira não engendra solidariedade, gera e causa desrespeito mútuo, desconfiança, rancor e aversão (...) um vale-tudo pelas migalhas que caem das mesas festivas da sociedade de consumo.

Sindicatos? Greves? Nada a esperar daí, a não ser mais fábricas fechadas e abandonadas pelos proprietários de capital, ofendidos com as reivindicações e a militância inospitaleira e arrogante dos obstinados habitantes locais.

Acredito que o que nos mantém vivos e atuantes é a imortalidade da esperança. E como Camus, "Eu me rebelo, logo existimos."


EZIO MAURO

Colin Crouch: Quanto capitalismo a democracia pode aguentar?

(...) pois na democracia o poder está sempre em leilão.



ZYGMUNT BAUMAN

Por "natureza prática" queria dizer que devemos ser realistas - brutalmente honestos com nós mesmos - quando se trata de nossas chances de levar as transformações a cabo.

A necessidade é uma ilusão, ou pior: para citar o discurso de William Pitt, o Jovem, em 18 de novembro de 1783, a "necessidade é o pretexto para todas as violações da liberdade humana. É o argumento dos tiranos, é o credo dos escravos.

O mundo dos seres humanos é um reino de possibilidades-probabilidades, não de determinações e necessidades.

A ruína notória de todo e qualquer governo do dia: o déficit crônico de poder que seria necessário para lidar com os problemas que afetam a vida cotidiana e as perspectivas de vida de seus cidadãos.


EZIO MAURO

Eu permaneço no interior dos fluxos, plenamente imerso na poeira fina da informação, exposto aos ritos televisionários de poder. Esse mecanismo, porém, só anda numa direção, e tudo o que posso fazer é mudar de canal ou desligar o aparelho à noite.

Sou um cidadão-cliente: na verdade, um consumidor. Eu compro e recebo idéias pré-processadas e transmitidas de formas funcionais para a narrativa de outrem.


ZYGMUNT BAUMAN

Pelo uso da força, as pessoas podem ser obrigadas a fazer algo de que prefeririam se abster. Pelo uso do dinheiro (grandes quantidades de dinheiro), as pessoas podem ser induzidas a fazer o que não fariam por iniciativa própria. Pelo uso da sedução, as pessoas podem ser tentadas a fazer coisas pela pura felicidade de fazê-lo.

As tentações da irresponsabilidade são quase irresistíveis.

Desde o começo da humanidade os seres humanos preferiram deixar a responsabilidade [de conduzir o mundo, a vida], total e indivisa, para os deuses.

Sejamos francos e honestos: a maior parte das pessoas sob a maioria das circunstâncias não está ansiosa para (e nem gostaria de) jogar as responsabilidades sobre seus próprios ombros.

Os jovens atuais vivem numa "conectividade" que substituiu sub-repticiamente as coletividades dos velhos tempos. (...) os jovens de hoje "têm acesso a todas as pessoas" com seus smartphones. Com os Sistemas de Posicionamento Global, eles têm acesso "a todos os lugares. Com a internet, a todos os conhecimentos".


EZIO MAURO

O que estamos excluindo de nosso processo cognitivo é precisamente a seleção, vale dizer, a capacidade de estudar, entender, descartar, definir, refinar e finalmente escolher.

O homem que viveu o processo a partir dos anos 1970 [acabou por se tornar o] "solitário interconectado" que você, Bauman, mencionou.

Se posso fazer tudo sozinho, todas as formas de mediação são injustificadas e arrogantes.

Se tudo é simultâneo, só conta o que é imediato, não o que foi acumulado (...).

Aqui e agora, a impressão toma o lugar da opinião.


ZYGMUNT BAUMAN

Uma "rede" não é um espaço para desafiar as idéias recebidas e as preferências de seu criador. Ela é povoada exclusivamente por pessoas de mesma opinião, dizendo o que a pessoa que os admitiu deseja ouvir e prontas a aplaudir tudo o que quem as admitiu ou nomeou venha a dizer; dissidentes são exilados ao primeiro sinal de discordância.


EZIO MAURO

Eu sou tecnicamente capaz de investigar a sua vida, todos os mínimos  recantos, em nome de sua segurança e da dos demais. Por essa razão, eu o faço.

A internet mudou radicalmente não só a comunicação e a conexão, mas também a história, já que na rede tudo acontece no presente; mudou a geografia, pois a internet é ubíqua; mudou a economia, com companhias digitais que valem mais do que os negócios off-line; mudou os costumes, virando de pernas para o ar o equilíbrio do saber entre nós e nossos filhos.

Bertrand Russel chama de "imunidade à eloquência" a capacidade de resistir à falsa mágica das palavras do Poder.

A revolução da espacialidade desencadeada pela globalização, junto com a revolução tecnológica, produziu a explosão da espacialidade moderna - do espaço nacional, social, político -, desintegrando a soberania popular e a soberania pública, tornando impossível qualquer controle de mandatos e qualquer limite à representação.


ZYGMUNT BAUMAN

Stanley Milgram
Stanley Milgram, pesquisador universitário de Yale, pediu a estudantes dessa universidade altamente prestigiosa - pessoas ostensivamente bem educadas, inteligentes e instruídas - para dar choques de 400 volts, muito doloroso, em participantes de um pretenso estudo científico sobre processo de aprendizagem; 65% deles obedeceram ao comando (para surpresa e consternação dos especialistas, que esperavam que no máximo 5% concordassem com isso!).

[A explicação para tipos de casos como este e outros, como por exemplo, soldados que obedecem a ordens de extermínio de outros cidadãos, é a percepção de que deveriam obedecer aos "superiores", ou às "pessoas no comando", às "pessoas que sabiam o que estavam fazendo".]


A geração atual é uma geração de "solitários sempre em contato".

EZIO MAURO

Mil cacos de informação nada acrescentam ao conhecimento.

Eu mesmo estou no fluxo, eu quero estar nele, eu também sou o fluxo. E tudo se encontra no fluxo, ou pelo menos tudo de que eu necessito.

Em apenas poucos segundos posso responder aos tuítes de Madonna sobre suas ações de caridade como se ela estivesse falando comigo. Eu sou o protagonista, eu sinto o fluxo à minha volta.

Tudo que funcionava como mecanismo de salvaguarda antes da internet, desaba com ela. (...) a rede me leva para dentro dos fenômenos em movimento, quero estar neles como senhor: não reconheço nenhuma autoridade externa. (...) Eu entrei no filme, não vou voltar para a platéia.

Clay Shirky: Filtrar e depois publicar, quaisquer que sejam suas vantagens, repousava sobre uma escassez de mídia que é coisa do passado. A expansão da mídia social significa que o único sistema em funcionamento é publicar e depois filtrar.

[Estamos assistindo] ao fim da hierarquia, da verticalidade da informação, em nome da horizontalidade da comunicação.

Entre meu mouse que descarta opiniões discordantes da minha opinião e meu orgulho satisfeito com as opiniões que concordam comigo jaz o gargalo inevitável pelo qual estou me afunilando, feito de sinais tranquilizadores, mensagens reconfortantes e pensamentos confirmadores. Nós tendemos a viver e a navegar entre nossos iguais, mas o conceito de igualdade dos séculos XIX e XX mudou de significado. Hoje não é social, não é político, não é econômico. Igualdade agora significa apenas concordância, um mundo concorde à minha volta.

Manuel Castells
Castells: Na nossa sociedade, os protocolos de comunicação não são baseados em compartilhamento de cultura, mas na cultura do compartilhamento.

Castells: Não há oposição entre cognição e emoção porque a cognição política é moldada emocionalmente e os cidadãos tomam decisões gerenciando conflitos entre sua condição emocional (como se sentem) e sua condição cognitiva (o que eles sabem). (...) Quando o conflito se acirra, as pessoas tendem a acreditar no que elas querem acreditar. E, mesmo numa crise econômica, é a resposta emocional de um indivíduo à crise, e não uma avaliação refletida sobre qual a melhor resposta para a crise, que organiza o pensamento e a prática política das pessoas.

ZYGMUNT BAUMAN

Kafka: Hoje os portões retrocederam para lugares mais remotos e mais altos, ninguém indica o caminho; muitos carregam espadas, mas apenas para brandi-las, o olho que tenta segui-las fica confuso.


Kafka se associa à suspeita de que hoje o significado do significado é "não ter um significado definido e reconhecível, não o procurar, não o exigir. Contentar-se com os sinais".




EZIO MAURO

Agora os jovens trocam mensagens vazias com seus telefones só para dizer oi, cutucar, confirmar; impulsos são a síntese ultima da palavra e do n Ada e os confundem.

Sinto, logo sou. Estou on-line, logo sinto.

O símbolo, como disse Lippmannn, "assegura unidade e flexibilidade sem consentimento real. Ele obscurece a intenção pessoal, neutraliza a discriminação, ... ele cimenta o grupo... para ações deliberadas. Ele torna a massa móvel apesar de imobilizar a personalidade.

On-line, todos nós nos tornamos receptores e condutores da informação - grande ou pequena - que chega até nós e transita por nós para seguir adiante, sabe-se lá para onde.

Não obstante, como diz Evgeny Morozov, precisamos compreender logo que a internet "penetra e altera todos os caminhos da vida política, não só aqueles que conduzem à democratização", mas também os vantajosos para os poderes instituídos, que podem afiar sues sistemas de propaganda, tornar a vigilância mais eficaz, manipular a nova mídia, controlar o espaço público, voltando-o para o entretenimento e não para a política. Indaga ele: "E se o potencial libertador da internet também contiver as sementes da despolitização e, assim, da 'desdemocratização'?"


ZYGMUNT BAUMAN

Bronislaw Malinowski, um dos principais fundadores da antropologia moderna, cunhou o conceito de "expressões fáticas" - um nome familiar para exclamações do tipo "Alô", "Como vai", "Tudo bem", "Oi", ou "Bem-vindo". A única informação que as expressões fáticas contêm e comunicam é "Estou aqui! E noto que você também está aqui".

E há outra tentação on-line à qual é mais difícil de se resistir: substituir a dura necessidade de discussão por uma jovial liberdade de discurso de ódio.


EZIO MAURO

Vivemos por fragmentos e fragmentamos a  história. Kurt Vonnegut escreveu: "Comunidades eletrônicas não constroem nada. Você acaba de mãos vazias."

Hoje, os efeitos de todo evento isolado se espalham, segundo um processo on-line, em direções e com consequências políticas e culturais que são em última análise imprevisíveis e extravasam toda proporção do evento original.

Ian McEwan
Para Ian McEwan, "a liberdade de expressão, o ato de dar e receber informação, fazer perguntas embaraçosas, pesquisa acadêmica, críticas, fantasia, sátira - o intercâmbio no interior de toda a gama da nossa capacidade intelectual, essa é a liberdade que dá origem às demais. A liberdade de expressão não é inimiga da religião, é sua protetora. Por ser assim, é que há um grande número de mesquitas em Paris, Londres, Nova York. Em Riad, onde ela está ausente, nenhuma igreja é permitida. Importar uma Bíblia hoje implica pena de morte."

O que Simone Weil escreveu em 1934 ainda é válido: "O homem nunca foi tão incapaz, não só de subordinar suas ações a seus pensamentos, mas até de pensar." O que Albert Camus disse vinte anos mais tarde também ainda é válido: "Talvez seja difícil encontrar uma época em que o número de pessoas humilhadas seja tão grande."


ZYGMUNT BAUMAN

Seja como for, eu continuo a repetir que, entre os veículos disponíveis para a viagem ao longo da estrada, é o diálogo sério, com disposição favorável (informal, aberta, cooperativa), buscando a compreensão mútua e o beneficio recíproco, que merece mais confiança. Esse tipo de diálogo (...) exige, acima de tudo, muita serenidade, muito equilíbrio e muita paciência.

[Mas as perspectivas disto se disseminar esbarram no] slaktivismo(*) das redes sociais que instigam seus usuários a expressar seus interesses sobre questões públicas e sua preocupação com os males da sociedade usando o mouse para clicar em "curtir", "compartilhar" ou "tweet", enquanto se iludem de que "estão praticando bem sem sair da poltrona.

(*) Slacktivismo - ativismo de preguiçosos


EZIO MAURO - Epílogo

Joshua Meyrowitz: Na sociedade de caçadores e coletores, a falta de fronteiras tanto ao caçar quanto ao coletar leva a muitos paralelos surpreendentes com as sociedades eletrônicas (eles também não tinham "noção de lugar").

Bulgákov: Alguma coisa vai acontecer, pois uma situação como esta não pode se arrastar para sempre.

O espaço ao qual nos apegamos, ainda desconhecido, ainda receptivo ao debate, é a estrada para sair de Babel.





Se você também não gosta de hipocrisia na política, você precisa conhecer o 
PARTIDO NOVO 
 https://novo.org.br


quarta-feira, julho 12, 2017

BAUMAN, BORDONI E AS ORIGENS DA CRISE BRASILEIRA

Carlo Bordoni e Zygmunt Bauman (1925-2017)
Quem recentemente passou por aqui, sabe que estou em uma fase de ler o que Zygmunt Bauman nos deixou de herança (quem chegou só agora, veja postagens anteriores). Hoje acabei de ler "Estado de Crise" (2014/2016), um trabalho dele com seu amigo Carlo Bordoni, sociólogo e jornalista italiano, em forma de diálogo.

A seleção que fiz teve um só foco: frases, análises, avaliações que nos remetem à comparação/reflexão com o momento Brasil. E, em especial, a acontecimentos ocorridos e a ocorrer neste julho de 2017.

No livro, uma referência ao Brasil é feita apenas ao final do livro quando listado junto a outros países em que ocorreram movimentos de massa nas ruas.

Como sempre, entre colchetes "[]", interferências minhas.


CARLO BORDONI

Agora, (...) todo e qualquer prognóstico de solução [das crises] é continuamente atualizado e, em seguida, adiado para outra data. Parece que nunca vai acabar.

Nós temos de aprender a viver em crise, (...) pois a crise está aqui para ficar.

ZYGMUNT BAUMAN

Na percepção da população, o Estado foi rebaixado da posição de motor mais poderoso do bem-estar universal àquele de obstáculo mais odioso, pérfido e prejudicial.

Em sua condição presente, o Estado não dispõe dos meios e recursos para realizar as tarefas que exigem a supervisão e o controle efetivos dos mercados, para não falar de sua regulação e administração.

A presente crise difere das suas precedentes históricas à medida que é vivida numa situação de divórcio entre poder e política.

CARLO BORDONI

"O problema vem de fora, mas o problema tem de ser resolvido, para o melhor ou para o pior, no local."

A antipolítica resulta em populismo e nacionalismo, ambos perigosos e sujeitos aos mais devastadores desvios. Com frequência ela se mostra o prelúdio de regimes tirânicos e autoritários, como demonstra a história recente.

Como certos tipos de populismo, o nacionalismo hoje não vai além do drama de uma opereta tragicômica, exagerada pela mídia para entretenimento das massas que com justeza estão muito aflitas.

ZYGMUNT BAUMAN

Os governos (...) não são convincentes nem destinados a durar; na melhor das hipóteses, espera-se/reza-se para que sobrevivam até (...) a próxima abertura do pregão da bolsa de valores.

Todos os governos democráticos estão expostos a duas pressões contraditórias:

1 - a pressão dos eleitores que sejam capazes tanto de por governos em exercício quanto de tirá-los;


2 - a pressão de forças globalizadas, livres para flutuar com pouca ou nenhuma restrição no "espaço de fluxos" extraterritorial sem política.


Os cidadãos acreditam cada vez menos que os governos sejam capazes de cumprir suas promessas.

Que força há de poder preencher o posto/papel de agente da mudança social?  (...) Há uma abundancia de tentativas de encontrar novos instrumentos de ação coletiva (...) instrumentos que tenham mais chances de satisfazer a vontade popular (...). 

De uma maneira ou de outra, a indignação aí está, e nos indicaram uma maneira de descarregá-la, ainda que temporariamente: ir para as ruas e ocupá-las. 

[Não faltarão aventureiros ansiosos por propor]: "Confiem em mim, sigam-me, e eu os salvarei da miséria em que vocês afundarão ainda mais do que hoje."

Nós sabemos do que estamos fugindo, mas não temos a menor ideia de onde vamos. (...) A história é um cemitério de esperanças não realizadas e de expectativas frustradas.

De uma maneira ou de outra, a indignação está presente, e estabeleceu-se um precedente para descarregá-la: sair às ruas e ocupá-las.

O fenômeno "povo nas ruas" mostrou até o presente a sua capacidade de afastar alguns dos mais odiados objetos da indignação das pessoas, figuras culpadas por seus sofrimentos (...) Entretanto, ele ainda tem de provar, (...) que também pode ser útil no trabalho de construção que vem em seguida. (...) os lideres de países democráticos e as instituições que eles criaram para guardar a perpétua "reprodução do mesmo" parecem até aqui não ter percebido e não se preocupam; (..).

As pessoas que ora tomam as ruas (...) sabem com certeza o que elas não gostariam que continuasse a ser feito. O que elas não sabem, contudo, é o que precisa ser feito em vez de...

Líderes políticos potenciais não pararam de nascer. São as estruturas políticas em deterioração, decadentes e impotentes que os impedem de amadurecer

Por que se dar ao trabalho de quebrar a cabeça tentando responder à pergunta: "O que fazer?" se não há resposta para a pergunta "Quem irá fazê-lo?"

CARLO BORDONI

O evento mais recente, o atual, o novo, representa a face da verdade e derrota o evento anterior. 

O Estado [atual],  (...) está tão somente preocupado com sua própria estabilidade.

A democracia chegou a ser usada [como] um biombo para cobrir os piores tipos de opressão do homem pelo homem.

Há na democracia um caráter de ditadura da maioria sobre a minoria. [Não nos dias de hoje pelo que se observa nos mais importantes e recentes eventos eleitorais ocorridos no mundo. Em quase todos, se não todos, uma minoria impôs sua vontade à maioria, principalmente pelo alto nível de abstenção.]

O fato de que todos possam votar não garante, em si, uma vitória popular, nem que a forma de governo produzida por eleições seja realmente do interesse do povo.

O marxismo entendia democracia como "ditadura do proletariado", mas depois delegou a gerência do poder político a uma pequena minoria, a uma elite privilegiada.

Indiferentemente de quanto a fórmula "democracia representativa" possa ser boa, (...) é evidente que a crise da modernidade trouxe com ela a crise da democracia representativa.

A alta taxa de sindicalização nos países ocidentais é responsável por incitar a alta do preço da mão-de-obra e introduzir um conjunto de regulamentações de proteção e defesa do emprego, a ponto de forçar o capital a mudar de lugar.

ZYGMUNT BAUMAN

Alexandra de Felice, famosa comentarista do mercado de trabalho Frances, prevê que, se prosseguirem as atuais tendências, um membro regular da geração Y será obrigado a mudar de chefe e de empregador 29 vezes ao longo de sua vida de trabalho. 

CARLO BORDONI

A sociedade desmassificada atingiu um nível perfeito de igualdade: uma sociedade de indivíduos empobrecidos, gratificados pela indústria de alta tecnologia e pelo grande conforto da comunicação interpessoal, mas que são incapazes de exercer política autorregulada, porque ela foi tirada de seu controle.

O cidadão comum só pode ter responsabilidade no âmbito da política local (...).

Que necessidade há de representação no nível mais alto (considerando que o cidadão comum não entende as complexas questões econômicas de âmbito global e não tem competência para tomar decisões) quando a democracia - isto é, a real democracia, aquela que realmente interessa ao povo - é realizada plenamente nas questões do dia a dia?

Não podemos falar da existência de um cidadão global, mas apenas de um cidadão local afetado pela globalização.


Volto eu. Em resumo, estamos em um novo mundo, onde:

1 - A globalização tirou dos políticos a tarefa de definir prioridades do que fazer. Isto agora é resultado dos interesses dos mercadores produtores de bens.

2 - A facilidade de fluxo de capitais, completou o serviço tirando do Estado-nação o controle e o poder de fazer. Transferências de grandes volume de capital têm o poder de desequilibrar governos e quebrar Nações.

3 - As tecnologias de comunicação reduziram o tempo ao imediato, o que, praticamente, acabou com a reflexão sobre as coisas e o amadurecimento de opiniões/posições.

4 - Na modernidade líquida de Bauman, as certezas, a solidez das convicções, não existem mais. Agora tudo é passageiro, fluido, fugaz, passam como as águas no leito do rio.

5 - Dado o volume de informação injetada em nossos cérebros por minuto, o cidadão comum se tornou incapaz de sintetizar/entender as razões para seus infortúnios e o incapacita para o voto em uma democracia do passado (vontade da maioria) hoje dominada pela minoria que tenha mais sede de poder. 

6 - Na auto-estrada da história das Nações não há placa de retorno porque a pista é única em uma só direção. Todos os povos estão forçados a descobrir um novo sistema (veículo) capaz de  nos levar com segurança na travessia da vida tendo que lidar com as novas variáveis que aí já estão e as que nem imaginamos que virão, mas certamente virão.

A leitura completa é essencial para quem quiser entender o que está acontecendo no mundo de hoje. Se você não quiser comprar o livro, eu achei aqui todo o conteúdo de "Estado de Crise".



Descubra, por exemplo, que:

"A gestão partidária não pode ser feita por candidato ou por ocupante de cargo eletivo."