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terça-feira, março 11, 2025

O ALTRUISMO EGOÍSTA

"A própria ingenuidade de um olhar novo (...) 

às vezes pode lançar uma nova luz sobre antigos problemas."

Jacques Monod (1910-1976), filósofo francês, em seu livro "O Acaso e a Necessidade". 


Os conceitos altruísmo e egoísmo, e o consequente tema altruísmo verso egoísmo, têm sido foco de minhas reflexões desde o final da década de 1960, e a partir de quando li, no final dos anos 1970, “O Gene Egoísta” (Selfish Gene), de Richard Dawkins, passei a focar minha atenção para entender as motivações dos diversos comportamentos humanos. Desde então, e pendularmente, me aprimorei - pelo menos em minha autoavaliação – nesta área do conhecimento, isto, portanto, há mais de 50 anos. Já é mais que hora de organizar minhas “conclusões” e passá-las adiante para outras mãos e mentes com o objetivo de expor a máscara de hipocrisia que encobre de moralidade o uso de tais conceitos morais para controlar a ação dos indivíduos e dos grupos sociais em qualquer nível de atuação.


Lá pela metade deste meu périplo mental de 5 décadas, me concentrei em questionar o rótulo-síntese dado por Dawkins a seu trabalho que visou organizar, sob sua visão, as descobertas da genética que entendeu estarem na base da evolução das espécies. Entretanto, o título escolhido, recebeu crítica de acadêmicos e leitos. Seu mote “egoísta” – em inglês selfish – foi assumido como um conceito moral aplicado à ação da genética, interpretação impossível de ser sustentada dada a natureza dos genes.

Um gene é um segmento de DNA formado por uma “sequência de ácidos nucleicos que contém uma receita para produzir uma proteína que exerce função específica” em um organismo vivo. Portanto, um evento absolutamente isento de regras morais, pois os genes são uma unidade biológica sem qualquer consciência, seja de si mesmo, seja de seu papel no processo de constituição dos seres vivos. É isso. Sem considerações adicionais.

Sem crítica à escolha de Dawkins, apenas aponto a razão de muita gente “boa” ter rejeitado de antemão seu trabalho simplesmente por ele ter usado “egoísta” em vez de... em vez de... Fui verificar as alternativas. Achei duas: “self-centered” e “ego-centered”, ambas publicitariamente ruins e sem trazer qualquer vantagem. É,... ele fez o melhor que pôde!

Tal como receita de bolo, portanto, o gene não está nem aí se o forno estava ou não na temperatura certa na hora de ser posta para funcionar. A receita se encerra nela mesma. O gene não sofre as alterações que a minha mãe, sempre desobediente, fazia nas receitas que ela “aprendia”. Tal como Cezar, os genes lavam as mãos para o que acontece depois.

Toda esta introdução para dizer que não é de egoísmo que vou tratar, mas sim, de altruísmo, pretensamente o inverso dele. Por quê? Uma primeira parte da resposta está neste texto, a segunda numa próxima publicação. Avante! "Um por todos, todos por um!". Me perdoem, acabei de ler, aos 76 anos (!!!), "Os 3 Mosqueteiros"!!! Caso típico de adolescência tardia!

Altruísmo foi um conceito proposto no escopo das ideias positivistas[1] de Auguste Comte[2] na primeira metade do século XIX. Ele o definiu como sendo “uma disposição humana que leva as pessoas a se dedicarem aos outros”. Considerava o altruísmo a manifestação do “amor pelos outros” e “como a base da moralidade e um princípio fundamental para as relações sociais”.

Vamos dissecar tais ideias. Para começar tenho dúvida quanto ao que Comte queria transmitir com a afirmação “uma disposição humana”. Seria uma “disposição” inata, genética? Aprendida na educação formal? Sob a influência parental? Ou, última opção, por uma ”disposição” interesseira? Desconfio que tal esclarecimento não seja encontrado em seus textos. Então, lá vou eu fazer minha tentativa!

Pós um olhar para história das relações humanas, dos estupros, dos conflitos tribais, das barbáries, dos genocídios, das guerras, é minha convicção que não está na natureza dos humanos[3] “uma disposição” para “se dedicarem aos outros”, ou manifestarem “amor pelos outros”. É evidente que Comte se inspirou - ele nunca o admitiu - no “mito do bom selvagem”, de Rousseau[4] , a crença de que o ser humano seria naturalmente bom e inocente. 

Ainda sobre a tal “disposição” ser inata, deixo, para sua reflexão a seguinte observação: antes mesmo do cristianismo, já constavam do Antigo Testamento, entre outros, os mandamentos “Não matarás”, “Não cometerás adultério”, “Não roubarás” e “Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo”. Por que seriam necessários tais “conselhos" para uma conduta moralmente positiva  se a “disposição” para o altruísmo fosse uma condição inata no ser humano? É exatamente por esta pré-condição não existir, que dogmas comportamentais estranhos à natureza humana, são "sugeridos" como necessários a se obter, se não a solução, pelo menos uma tendência à estabilidade das relações sociais e à perpetuação no poder do governante da ocasião. Vamos em frente.

Tenho muita dificuldade em aceitar que aprendemos - no sentido de adotar como comportamento - o que quer que seja que contrarie nossa individual e única natureza, o que me leva, por princípio, a descartar a segunda hipótese, do aprendizado. O ser humano não muda pelas circunstâncias, ele se adapta a elas, o que é absolutamente diferente de aprender no sentido de incorporar como regra de vida. Consequentemente a ideia de um pretenso comportamento “altruísta” ser aprendido, seja na escola, seja na família, é uma impossibilidade, a não ser que...

(

Parágrafos entre colchetes são meus, os demais estão na resenha do livro “Manifesto do Altruísmo” de Felipe Kourilsky, feita por Arthur Virmond de Lacerda, Neto .

[Como tantos outros pensadores, Comte foi tendencioso ao que enxergou como “verdade” a ser estruturada para consumo de seus seguidores. Não estou sozinho nesta constatação. Para Jacques Monod, "a importância relativa atribuída à escolha de exemplos, refletem tendências pessoais". E sentencia: "A modéstia convém ao sábio, mas não às ideias que o habitam e que ele deve defender".]

Para Comte, “o embasamento da educação” dos indivíduos deveria passar por “simultaneamente, na razão e no sentimento, ou seja, na cultura intelectual e na afetividade, pelo que a felicidade humana consistirá no maior desenvolvimento possível das afeições benevolentes”.

Segundo Comte, como as atitudes altruístas são, por natureza, as únicas desinteressadas [sic], a moralidade poderia se fundamentar nas emoções. Seria um tipo de “religião da gentileza” (...) [O grifo é meu.]

[E aí Comte se contradiz. Se a busca é “educar pela razão” e assemelhar a uma "religião", então significa impor um comportamento por considerar a natureza humana incapaz de tal fundamento!]

)

A não ser que o altruísmo seja exercido como estratégia pessoal para a obtenção de benefícios práticos, sejam materiais ou espirituais. E chegamos à terceira e última opção.

Antes preciso citar uma outra característica atribuída ao “altruísmo”, a de ser a “ação de ajudar alguém sem esperar nada em troca”. Sem chance. Toda ação consciente, subconsciente ou, até mesmo, inconsciente intenciona uma consequência, um resultado, podendo este ser financeiro, econômico, político, material, espiritual, transcendental, que diabos for, mas sempre e eternamente buscando um retorno imediato ou futuro. 

Me cito a título de exemplo. No âmbito das relações familiares e de amizade, admito e dou graças, sou um privilegiado. Qualquer um dos que integram estes dois grupos foram, são e sempre serão objeto de meu “altruísmo” interessado em ajudar o outro, porque espero que tal atitude tenha como retorno o bem-estar, a alegria de meu ego. Se qualquer um deles me acordar no meio da noite carecendo de ajuda, saltarei da cama em seu socorro como se uma mola me impulsionasse. E a razão para tal disposição é puro suco de egoísmo, interesse psicológico de me sentir maravilhosamente bem sendo aquele que acudiu o familiar ou o amigo! É óbvio que me sinto feliz pelo outro se tudo terminar bem, tanto quanto é óbvio que me sentirei mal por ele se tudo terminar mal, mas, é aí que reside o busílis da questão, mesmo aí me sentirei muito bem por ter agido como agi. E não espero, nem dependo, num casos destes, de qualquer retribuição ou agradecimento. A ação, em si, me basta como recompensa.

Vou pedir que o Leitor dedique alguns minutos para pensar no que vou lhe propor agora. Tente listar uma ou duas ações que você imaginaria fazer sem que tal não lhe desse qualquer retorno a seu ego, qualquer satisfação puramente espiritual. Pense bem, não é lhe dar um retorno pífio, mas sim não lhe proporcionar um retorno mesmo que de um valor mínimo, mesmo que só de um valor puro e levemente espiritual! Proponho de uma outra maneira. Tente lembrar o que você já fez exclusivamente contra você, contra seus interesses, contra sua natureza por livre e espontânea vontade! Mas atenção! Não vale situações similares à do marido que odeia lavar a louça, mas o faz contra a sua vontade, para evitar o mau humor (ou coisa pior!) da esposa. Acrescente ainda uma reflexão sobre por que uma pessoa não se digna ajudar outra quando uma situação demanda[5], direta ou indiretamente, sua ação “altruísta”? 

O tal do “altruísmo” não existia antes de Comte na história humana, já que foi ele o “inventor” do conceito. É que não existia mesmo! O que sempre existiu, existe e existirá para todo o sempre, este sim, é o “egoísmo”, é a atitude guiada pelos sentimentos interiores, pelas percepções dos exteriores – as circunstâncias, diria Ortega y Gasset - e pelas necessidades presentes e prementes.

O “altruísmo” é só o egoísmo de máscara.

Hoje cuidei de um lado desta moeda moral, cujos dois lados, para mim, têm a mesma "cara". Na próxima publicação tratarei do egoísmo e de um outro conceito que, em minha humilde opinião, é o que importa para a vida. Ter dedicado algum tempo sobre a proposta de reflexão que fiz acima, vai ajudar bastante.

Até lá,

Paulo Vogel

Neste meio, eu sou a mensagem!

Mar/25



[1] A filosofia positiva de Comte nega que a explicação dos fenômenos naturais, assim como sociais, provenha de um só princípio. A visão positiva dos fatos abandona a consideração das causas dos fenômenos (...). Fonte: Wikipedia

[2] Isidore Auguste Marie François Xavier Comte foi um filósofo francês que formulou a doutrina e ficou conhecido como "pai do positivismo". Ele é considerado como o primeiro filósofo da ciência no sentido moderno do termo. Comte também é visto como o fundador da disciplina acadêmica de Sociologia. Fonte: Wikipedia.

[3] Sempre que utilizo expressões generalistas do tipo “natureza humana”, quero dizer simplesmente “a grande maioria de”, e/ou que “não é esperado que seja de outro modo”. Neste caso específico, não é que um indivíduo não possa ser “altruísta” por tendência inscrita em seu DNA, é que não é uma condição observada na maioria dos seres humanos.

[4] Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo suíço, portanto, 100 anos antes de Comte.

[5] Recentemente minha sobrinha e o marido, estando em uma moto, derraparam em uma curva da estrada. Machucados, mas lúcidos, ficaram sentados na beira da estrada à espera de socorro. Carros e carros passaram sem manifestar qualquer ação “altruísta”, exceto a de um motociclista que parou e lhes deu a ajuda de que precisavam. Qual a razão de seu “altruísmo”? Eu diria que foi seu sentimento de “pertencimento” à classe dos “motociclistas sempre solidários”!

sábado, fevereiro 18, 2023

SHIBUYA OU LEVIATÃ

 

Eu não tenho um sonho como Martin Luther King Jr., mas tenho um desejo, o de manter um debate com um adepto de políticas socinistas[1]. Recuso-me a ofensas, lacrações e “não vou lhe responder” como ouvi de um bolsofóbico a uma pergunta simples que lhe fiz. Como meu dogma é “ninguém convence ninguém”, o propósito é o de tentar entender o que sustenta um indivíduo, informacionalmente[2] bem aquinhoado, defender com posturas radicais a negação, ou melhor, o descarte das características fundamentais do ser humano, em prol da construção de um modelo que propõe a transformação de todos nós em zumbis e posteriormente a criação destes novos seres em linha de montagem gerenciada pelo “grande Leviatã”, o Estado totalitário nas mãos dos psicopatas e seus baba-ovos úteis. E, em contrapartida, ter a oportunidade de apresentar de modo coerente os fatos e percepções que estão na base do modo como conduzo minha vida e de como entendo que as sociedades humanas devem ser administradas.

Imbuído, portanto, deste desejo, pretendo apresentar aqui algumas questões de lógica política, social, biológica e moral, basicamente. Aqueles que me lerem fica desde já lhes dado o direito e a liberdade de, via Whatsapp, por comentário aqui no blog, ou por mensagem de emeio, me enviar seus pensamentos, reflexões, questionamentos e contra-argumentos. Sem isso, isto não terá sentido dar continuidade com outras proposições além desta (veja aqui[3] normas básicas de conduta a serem observadas).

Vamos à primeira questão. A ideia central do socinismo é o poder do Estado sobre os cidadãos de segunda classe[4]. E eu tenho uma torturante dificuldade em imaginar uma fórmula que parta do princípio de que um punhado de indivíduos – cerca de 1% da população – tenha um aparato tal de conhecimento, “verdades”, que os habilita a impor regras aos demais, em todos os aspectos da vida, de como devem se conduzir! O busílis da questão é como conseguir que 99% de cidadãos de uma nação abram mão de suas percepções, convicções, características genéticas, valores adquiridos por educação familiar, muito disto oriundo de um autoaprendizado diário, para adotarem plena e completamente valores que, em alguma medida, são contrários às suas naturezas?

Se a natureza humana é diversa e única, se não existe nos atuais 8 bilhões de seres humanos dois que sejam iguais – esta não é uma constatação minha, mas da genética - no máximo podem haver dois semelhantes, divergentes em um certo conjunto de certezas individuais, por maior que sejam as convergências, como, e por quê, há indivíduos que creem poder normatizar o funcionamento do espírito humano que é condutor de nossas reações emocionais e atos consequentes?

Provavelmente alguns leitores hão de ter visto esta imagem de um cruzamento em frente à estação Shibuya do metrô de Tóquio. Ele é um dos dois mais movimentados do mundo.

 

Eu considero esta imagem o exemplo de como tudo na vida funciona, ou seja, é a liberdade de busca de interesses individuais diversos que se tem o melhor resultado final para todos. Um vídeo que encontrei mostra ainda melhor o que estou dizendo.


Perceba que, exceto o semáforo e as faixas de pedestres, não há qualquer regra sendo obedecida. Melhor dizendo, a regra é cada um por si, pelos interesses egocêntricos que transitam pela mente de cada um dos mais de 2 mil humanos naqueles momentos da travessia. Repare que há indivíduos em todos os sentidos e direções. Há um indivíduo que pedala transversalmente às faixas e boa parte nem mesmo caminha sobre elas. E apesar da luz vermelha ter acendido, ainda há indivíduos atravessando.

Isto mostrado vem a pergunta que deixo para os estatistas. Considerando que Shibuya é a síntese de como todos nós nos conduzimos ao longo de nossos milhões de minutos de vida, como seria o algoritmo para fazer com que cada indivíduo agisse apenas conforme os desejos do Estado? Como dizer para cada cidadão que eles precisam seguir um conjunto de regras impossíveis de serem memorizadas[5] e executadas conforme o desejo do “grande Leviatã”[6]?



[1] Lembrando: socinista é a denominação que uso para referenciar o pacote hipócrita das ideias socialistas – lado soft - e comunistas – lado hard - de subjugação da natureza humana.

[2] Estou procurando abolir o uso do qualificativo “culto” a quem quer que seja, eu incluso. Por tudo que vi/ouvi nestes últimos 5 anos, ganhei a convicção de que cultura é algo subjetivo, fluido, maleável e manipulável. Prefiro, então, trabalhar apenas com a quantidade de informação a que uma pessoa teve acesso e guardou em sua bagagem mental. Evidentemente, e aí está o problema, informação também é algo fluido, maleável e manipulável, mas não é subjetiva, a informação é ou não existe. À cultura pode receber uma avaliação de qualidade, a informação não, por mais que narrativas tentem e discursos usem referenciar “fontes confiáveis” como uma chancela para o que querem que outros acreditem. Toda informação tem em seu bojo um “interesse” particular em sua disseminação.

[3] Primeiro, palavrão usado como agressão, acusações morais ou intelectuais, humilhação, depreciação, ameaças de qualquer natureza, e manifestações de intolerância quanto a mim ou, eventualmente, quanto a terceiros, serão motivo para encerramento de troca de ideias e bloqueio ou filtragem quando tais recursos estiverem disponíveis. Segundo, as minhas argumentações serão postadas aqui no blog e sempre junto com a opinião que tiver dado motivo a ela. Entretanto, só identificarei o autor da mensagem a que estiver respondendo se eu tiver sido autorizado explicitamente a fazê-lo, do contrário farei referência apenas a “um leitor”. Terceiro, é preciso ter em mente que o objetivo é crescer intelectualmente, tanto no nível pessoal quanto no que possa contribuir para outros cidadãos.

[4] A divisão da população em duas categorias, os dominadores e os dominados, não é um privilégio do socinismo, qualquer sistema de administração de uma sociedade, por menor que ela seja, só existe enquanto há tal separação. A diferença é de forma, não de conteúdo.

[5] Experimente criar uma receita a ser obedecida a cada pedestre de modo a que todos cheguem ao final da travessia no tempo e local desejado.

[6] Uso aqui Leviatã no sentido dado por Thomas Hobbes, filósofo inglês, que em sua obra afirmava que a "guerra de todos contra todos" que caracteriza o "estado de natureza" só poderia ser superada por um governo central e autoritário. O governo central seria uma espécie de monstro - o Leviatã - que concentraria todo o poder em torno de si, e ordenando todas as decisões da sociedade. Fonte: Wikipedia.