Reflexões inacabadas
Sou publicitário e empresário, e desde que me entendo por gente, sou um
insatisfeito. Acho que já nasci assim, deve ser genético, o que não duvido,
porque, enquanto a maioria das pessoas nasce num prazo de 9 meses (ou até
menos), eu fui tirado a forceps da barriga de minha mãe lá
pela 46ª semana de gestação. A minha infância até que foi bem feliz, como deve
ter sido a de todos, fora alguns puxões de orelha, uns beliscões, umas palmadas
e alguns nãos como castigos. Os nossos problemas só começam mesmo na
adolescência. Aos 14 anos já procurava na fumaça do cigarro o segredo da vida.
Há três anos larguei do vício, mas não da procura. É por causa dela que conto o
que conto.
Existe um
fato que ocorreu por volta de 1965 ao qual atribuo a origem do que tem sido a
minha busca onde quer que eu tenha estado. Eu tinha 16 anos e era um
adolescente amando os Beatles, mas meu herói ainda era meu pai. Ele era um
comerciante, na verdade, por ofício, um confeiteiro. Dedicou a vida a uma só
missão: fazer bolos, doces, biscoitos e pães da melhor maneira que eles
pudessem ser feitos. Eu o admiro por isso. Foram mais de 50 anos dando
continuidade a uma história que começara no final do século XIX, em 1898, com o
nome de Padaria Alemã, pelas mãos de Maria Vogel, filha de alemães
imigrantes, tia de meu pai. Mas a intolerância dos tempos da Primeira Guerra
Mundial, obrigou à mudança do nome para Padaria e Confeitaria Petrópolis. Depois
da guerra, para preservar suas origens e valores, ela adicionou ao nome um
providencial "Ex-Alemã" e assim se tornou conhecida e parte das
tradições petropolitanas.
Em algum dia daquele ano, meu pai chegou para o jantar com um ar desanimado. Perguntei o
porquê e nunca mais me saiu da cabeça o seu breve desabafo. Àquela época, o
Brasil navegava em uma inflação anual de 40% e os salários eram reajustados uma
só vez, em primeiro de maio. Por livre e espontânea vontade, no ano anterior,
meu pai resolvera aumentar seus funcionários, de três em três meses, com base na
inflação do trimestre passado. Quando chegou maio, portanto, bastava aplicar o
índice referente aos últimos três meses e o salário estaria mais que bem
ajustado, pois o método de meu pai proporcionava uma remuneração anual
significativamente maior que um só ajuste no ano. Entretanto, o sindicato da categoria entrou na justiça do
trabalho alegando que eram aumentos espontâneos e reivindicaram a aplicação
integral do índice anual sobre o salário de abril, já fruto do reajuste
trimestral. A justiça lhes deu ganho de causa. Me dizem que foi culpa dele por
não ter anotado nas carteiras de trabalho que o ajuste era devido à inflação. A
considerar como verdade, temos um exemplo da burocracia judicial se sobrepondo
realidade dos fatos.
Todo empregador já viveu experiências semelhantes no relacionamento com empregados.
Mas, ali, era apenas um garoto vendo seu pai desiludido e revoltado com a
justiça que o punia por ser mais justo que a lei. Perguntei se ele havia
explicado direito e sua resposta foi mais ou menos a seguinte: "Expliquei,
meu filho, mas não quiseram entender. O que me entristece é que eles, os
empregados, ao final, saíram perdendo. A partir de agora, aumento, só quando e
quanto a lei determinar". Mais tarde eu fui entender que a justiça havia
dado uma lição a meu pai de como se devia tratar os empregados. Mas ali, frente
a meu pai, um garoto jurou que um dia encontraria a resposta à sua indignação e
então poderia dizer: "Não fique triste, meu pai, eu descobri porque eles
agiram assim". No dia seguinte, já esquecido da jura, eu cantava
"Help" a plenos pulmões.
Trinta anos depois e muitas frustrações em encontrar porquês, me dei conta de quanto aquele
fato havia estado na minha vida. Desde aquele dia, vivo numa incessante busca
pelo entendimento de por que as pessoas agem do jeito que agem. Por que
pensamos o que pensamos? Por que filhos não se entendem com seus pais ou por
que eu e meu filho brigamos tanto? Por que brigo com minha mulher por coisas
insignificantes? Por que antipatizo tanto com meu vizinho? Por que empregados
conspiram contra patrões e patrões tratam empregados como uma manada de búfalos
que precisa ser contida? Por que as relações entre empregadores e empregados
têm que necessariamente ser na base do eu finjo que pago e eles fingem que
trabalham? Por que trabalho no que não gosto e com quem não gosto? Afinal, o
que comanda nossas atitudes? Qual a lógica do ser humano se é que existe
alguma?
No trajeto de líder que fiz de monitor de uma patrulha de escoteiros até
empresário de propaganda, estudei, testei, tentei, usei, experimentei as mais
diversas teorias sobre o que está no cerne das relações humanas em geral, e em
particular entre empregadores e empregados. Vi muita receita fácil e pouco
diagnóstico. Pílulas de placebo, se bem não fazem, nada fazem. Livros de
autoajuda são o melhor caminho para o engodo intelectual e espiritual. O mundo
está repleto deles. Autores que sabem tudo sobre o que é melhor para nós sem
nunca nos terem visto. Estão sempre dispostos a nos transmitir as "suas
verdades”. Isto é tão presente em nosso cotidiano, uma seita me diz para
meditar junto a um monge Tibetano para resolver meu relacionamento com meu
chefe! Como ficaria o mundo se todos se convencessem desta "necessidade"?
E como ficaria o Tibet? Há pouco tempo assisti a uma palestra onde me
aconselharam a passear pela floresta para me energizar. E, last but not
least, a olhar para o tomate na feira à procura do belo. Não sou contra
florestas ou tomates, apenas florestas só me serão benéficas se eu me sentir
bem nelas e tomates não são exatamente o meu referencial do belo. Eu não posso
aconselhar ninguém a andar por duas horas ao longo do calçadão da praia junto
com um amigo como forma de se sentir mais feliz. Mas eu sou mais feliz quando
faço isso. O fato de você aconselhar alguém a ir à igreja como forma de
encontrar a paz interior, e esta pessoa ir e gostar de ter ido, não quer dizer
que ir à igreja trás a paz. O que teimamos em não ver é que se a pessoa aceita
nossa sugestão significa que ela está à procura de algo que lhe transmita a
sensação de paz. Por estar à procura, ela está disposta a experimentar novos
ambientes e testar suas sensações até encontrar o que lhe proporcione o que
procura. Mas isso não tem graça, pois estamos sempre desejando ver nossas ideias,
crenças, atitudes, comportamentos e opiniões, adotados pelos outros. É muito
doido! Precisamos que nossa verdade seja a verdade do outro! As formuletas
deste tipo até poderiam ser consideradas se viessem acompanhadas de atestado de
responsabilidade caso alguma coisa saísse errada. Mas, obviamente, este ninguém
estaria disposto a assinar. Quando os “conselhos” adotados dão errado, há sempre
uma resposta na ponta da língua: "Ah! mas é que ele não fez direito."
Ou então uma bem calhorda: "Mas você deu os três pulinhos, rodopiou,
repetiu “sapo-sêco-mangalô-treis-veiz”? Não? Então foi isso."
Na
verdade o que está em jogo é o poder. Acha que estou exagerando? Pois digo que pouco
há que dê tanto prazer quanto a sensação de poder sobre um outro. Se achar superior
a um outro, em qualquer sentido, “não tem preço”. E liberdade de pensamento e
poder nunca tiveram um convívio produtivo. Quando todos pensam de um mesmo
modo, fica mais fácil a dominação.
Ao
longo de toda a história da humanidade, a supressão das liberdades sempre foi o
primeiro ato do dominador, e padronizar é a receita para garantir ausência de
questionamentos.
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