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quinta-feira, outubro 07, 2021

REFLEXÕES MIMIMÍSTAS

"A vontade deve ser mais poderosa do que o sofrimento físico e moral." 
Zenão de Cítio


Vou concordar com o Fiúza. Os conceitos direita/esquerda, conservadorismo/progressismo, liberalismo/estatismo, realismo/utopismo, e outros mais, não servem para sintetizar, ou minimamente explicar as diferenças entre os dois lados da moeda política circulante neste século XXI. Minha percepção é de estarmos sob o embate entre duas posturas de existência. Ou nos comportamos como vitimas da crueldade das tragédias da vida e clamamos por algo ou alguém que delas nos livre ou proteja, ou agimos como protagonistas altivos, livres e corajosos na superação cotidiana dos obstáculos que nos são apresentados consequentes, tanto de nossas escolhas, quanto de nossos infortúnios. Portanto, daqui em diante vou ver a dicotomia entre dois modos de vida como sendo entre os vitimistas e os estoicos[1].

Chamamos, jocosamente, de mimimístas aqueles que se encaixam no primeiro grupo. Aqueles que avaliam tudo que lhes acontece como indevido, imerecido ou injusto, seja resultante da herança genética, da ação do Outro na interação social, ou de ações do Estado em qualquer uma de suas três esferas de poder. A reação deles é sempre a de atribuir sua condição, seu sofrimento, sua mediocridade, sua incompetência, a algo fora de si mesmo, e sempre através de um “mimimi” choroso, um pobrecoitadismo encharcado de covardia, inveja e ressentimento.

São estoicos[2] aqueles para quem "a virtude é suficiente para a felicidade" e que, seguindo esta crença como princípio norteador de suas ações, ficam imunes aos infortúnios.

É destes conceitos e de outros a eles relacionados que proponho um exercício de reflexão a partir de alguns pensadores. De minha parte, considerando que tudo é passível de interpretação, ganhei a convicção de que ser ou não vitimista é a condição “sine qua non” para definir as preferências políticas independente de conceituações e formulações de sistemas oriundos da cabeça de integrantes da “intelligentsia” contemporânea.

 

Boas reflexões!!!

 

VITIMISMO

AYN RAND (1905/1982)

Recuso-me a pedir desculpa por ser mais capaz – não aceito pedir desculpa por ter tido sucesso -, me recuso a pedir desculpas por ter dinheiro. (...) quando se violam os direitos de um homem, violam-se os direitos de todos, e que um público constituído de seres desprovidos de direitos está fadado à destruição.

BRUCE BAWER (1956/...)

“Estamos assistindo à ‘revolução das vitimas’”.

FLÁVIO GORDON (1979/...)

”Algumas pessoas ou categorias de pessoas são sempre oprimidas, mesmo quando eventualmente oprimem. Os ‘negros’ são necessariamente oprimidos, os ‘brancos’, opressores...”[e por aí e além].

THEODORE DALRYMPLE (1949/...)

 [Vitimização é] “A fuga da responsabilidade.”

“Os que creem que a culpa de nossos males está em nossas estrelas e não em nós mesmos ficam perdidos quando as nuvens encobrem o céu.”

THOMAS SOWELL (1930/...)

[No final do século XIX] “já havia, entre muitos intelectuais, a ideia de se dirigir as massas, uma ideia que incumbia a terceiros a tarefa de dar sentido para a vida delas”.


ESTOICISMO

GAZETA DO POVO – 10/9/21

“Mano Ferreira falar sobre Luiz Gama, o escravo baiano que se alfabetizou sozinho, formou-se em Direito e ajudou a libertar centenas de escravos, e sobre como o combate às desigualdades raciais pode andar lado a lado com a defesa do livre mercado.”

JORDAN PETERSON (1962/...)

 “É a responsabilidade que dá sentido à vida.”

MARCO AURÉLIO (121/180)

“Quando algo ameaça lhe causar dor não é uma desgraça de forma alguma. Suportá-lo e prevalecer é o grande êxito.”

“Se é tolerável então tolere. Não reclame. Muito mais dolorosas são as consequências da raiva do que as suas causas.”

VIKTOR FRENKL (1905/1997) - prisioneiro em campo de concentração)

“Entre o estímulo e a resposta, o homem tem a liberdade de escolha.”


RESSENTIMENTO, RAIVA, ÓDIO

[A raiva, a inveja, o ciúme, o ódio, são sentimentos humanos. Enquanto os estoicos procuram reduzir tais manifestações ao mínimo, ou mesmo delas libertar-se, os vitimistas as enfatizam para angariar "vantagens competitivas".]

[Na massa todo indivíduo é um bárbaro.]

AYN RAND (1905/1982)

“Sabe o que caracteriza o medíocre? É o ressentimento dirigido às realizações dos outros.”

EDMUND BURKE (1729/1797)

“A raiva e o delírio destroem em uma hora mais coisas do que a prudência, o conselho, a previsão não poderiam construir em um século.”

“Quando o ressentimento alimenta a turva, as massas são como boias à deriva, e sem rumo definido não chegaremos a lugar algum desejado.”

JEAN-FRANÇOIS REVEL (1924/2006)

“O ressentimento é o alicerce da filosofia comunista.”

JEAN-JACQUES ROUSSEAU (1712/1778)

“Que admirem quanto quiserem a sociedade humana, nem por isso deixará de ser verdade que ela leva necessariamente os homens a odiarem-se entre si à proporção que seus interesses se cruzam, a se prestarem mutuamente aparentes favores e a se causarem, na verdade, todos os males imagináveis.”

“Não há um povo que não se regozije com os desastres de seus vizinhos. A perda de um quase sempre faz a prosperidade do outro.”

JOHN MCENROE (1959/...)

"Todos gostam do sucesso, mas detestam as pessoas bem sucedidas."

NIETZSCHE (1844/1900)

Nietzsche nos convida a viver de tal modo que nem os arrependimentos nem os remorsos tenham mais nenhum espaço, nenhum sentido.

 

ACASO, DESEJO, VONTADE, INCERTEZA

EPITETO (50/138)

"Se te debruçares sobre ti mesmo, e te perguntares a que domínio pertence o acidente, tu te lembrarás imediatamente que ele pertence ao domínio das coisas que não dependem de nossa vontade, que não são nossas.” 

FRIEDRICH A. HAYECK (1899/1992)

“Na opinião dos estóicos, os dois males que pesam sobre a existência humana, são a nostalgia e a esperança.” 

KARL POPPER (1902/1994)

“Subestimamos a incerteza.”

"Devemos marchar para o desconhecido, o incerto e o inseguro, utilizando a razão de que pudermos dispor para planejar tanto a segurança como a liberdade."

A necessidade humana de controlar ou de antecipar o futuro, garante o emprego de todos esses profetas especialistas.

Poucos são os céticos que se dão ao trabalho de olhar para trás e verificar a quantidade de previsões erradas de todo tipo de expert. 

"Uma das principais tarefas da razão humana é tornar o universo em que vivemos algo compreensível para nós."

MICHEL DE MONTAIGNE (1533/1592)

“Não há por que nos maravilharmos de que o acaso tenha tanto poder sobre nós, desde que estamos neste mundo por mero acaso.”

STEVE JOBS (1955/2011)

"Jamais poderia imaginar que as coisas que eu estava fazendo levariam a esse resultado a que cheguei. Hoje as pessoas julgam o que eu fiz em função do ponto a que cheguei, mas não houve da minha parte uma estratégia deliberativa orquestrada para chegar aonde cheguei. Porque aonde cheguei decorreu de um milhão de causas que até eu ignoro - causas psicológicas das pessoas que contratei, causas macroeconômicas que eu não podia controlar. E hoje as pessoas querem fazer de mim um guru por ter arquitetado as coisas de maneira que chegasse a esse resultado. Mas não sou causa dos resultados que eu mesmo colhi.”

 

IGUALDADE, DIFERENÇA, DIVERSIDADE

[Para quê ser mais habilidoso se isso não me traz maior recompensa?]

ALEXIS DE TOCQUEVILLE (1805/1859)

Democracia e socialismo não têm nada em comum além de uma palavra: igualdade. Mas note a diferença: enquanto a democracia procura a igualdade na liberdade, o socialismo procura igualdade na restrição e servidão.

FLÁVIO GORDON (1979/...) – Antropólogo, colunista do jornal Gazeta do Povo

“Vivemos a era da bondade espalhafatosa, auto comiserada, narcísica e vaidosa de si. (...) ‘Sou bom, logo, tudo me é permitido’.”

FRIEDRICH A. HAYECK (1899/1992)

“Há desigualdades irremediáveis, da mesma forma que há ignorância irremediável por parte de todos.”

MICHEL DE MONTAIGNE (1533/1592)

“A uns incumbe zelar pela paz, a outros pela guerra; uns têm o lucro como prêmio, outros a honra; àqueles a ciência, a estes a virtude; àqueles a palavra, a estes a ação; àqueles a justiça, a estes a intrepidez; àqueles a razão, a estes a força; e usam uns a toga e outros o uniforme.”

“A variedade é, efetivamente, normal na natureza (...). Nunca houve no mundo duas opiniões idênticas, como não há dois pelos nem dois grãos de cereal. A qualidade mais universal e comum é a diversidade.”

NIETZSCHE (1844/1900)

“O mundo não é um cosmos, é um caos, uma pluralidade irredutível de forças, de instintos, de pulsões que vivem em confronto.”

“A noção de “vontade de poder” é ‘a essência mais íntima do Ser’. Mas não vontade de conquistar ou ter, mas o desejo profundo de uma intensidade máxima de vida, a mais intensa e a mais viva possível.”

ROGER SCRUTON (1944/2020)

“Se as condições do conflito jazem, como evidentemente o fazem, na natureza humana, então a única esperança de removê-las é alimentar esperanças inumanas e se mover na direção de ações inumanas.” 


JUSTIÇA, DIREITOS

[Os desequilíbrios químicos passaram a entrar na equação para justificar as ações humanas.]

ADAM SMITH (1723/1790)

“A misericórdia em relação ao culpado significa crueldade para com os inocentes.”

“Como a sociedade não pode subsistir entre aqueles que estão sempre dispostos a ferir e machucar uns aos outros, a justiça é, instrumentalmente, a virtude primordial da sociedade.”

AYN RAND (1905/1982)

 [Para os ditos progressistas a regra de conduta moral é...] “Se vocês desejam algo, isso é mau; se os outros desejam algo, isso é bom; se a motivação de seu ato é seu bem-estar, não o realizem; se a motivação é o bem–estar dos outros, então vale tudo. (...) é para a própria felicidade que vocês têm que servir à felicidade dos outros. (...) Não, os que recebem não são maus, desde que não mereçam o valor que lhes deram. (...) É imoral viver do próprio trabalho, mas é direito viver do trabalho dos outros. (...) É mau criar a própria felicidade, mas é bom gozá-la quando o preço dela é o sangue dos outros. (...) É a infelicidade que lhes dá o direito de ter recompensas”.

“Eles não querem possuir a sua fortuna: querem que vocês a percam.”

“Elogiam qualquer empreendimento que se pretenda não lucrativo e maldizem os homens que ganharam os lucros que tornaram viável o empreendimento.”

“Se os culpados não pagam, então são os inocentes que têm que pagar.”

BERTOLD BRECHT (1898/1956)

“Alguns juízes são absolutamente incorruptíveis. Ninguém consegue induzi-los a fazer justiça.”

DAVID HUME (1711/1776)

“A justiça é a razão pela qual precisamos de governo.”

FRIEDRICH A. HAYECK (1899/1992)

“É um dos poucos que discute a justiça social caracterizando-a como ‘absurda’, uma ‘miragem’, ‘uma invocação vazia’, ‘uma superstição quase religiosa’ e um conceito ‘não pertence à categoria do erro, mas à da estupidez’.”

MÁRIO SERGIO CORTELLA (1954/...)

“Qual é o resultado que torna justo o caminho?”

“Não significa que um código valia de um jeito e agora vale de outro, mas que, se não considerarmos a ambiência histórica, social e cultural, não compreenderemos de fato os valores ali colocados.”

PLATÃO (-428/-438)

“Eu digo que a justiça nada mais é que a conveniência do mais forte.”

THOMAS SOWELL (1930/...)

“Criminosos atrás das grades é mais eficiente para reduzir o índice de criminalidade do que quaisquer teorias complexas ou políticas sofisticadas favorecidas pela intelligentsia.”

“O fato de criminosos cometerem crimes quando não mais estão encarcerados nada diz sobre a eficiência do encarceramento na redução da criminalidade.”

[Há] “juristas que insistem numa justiça de ‘resultados’ em detrimento das leis estabelecidas”.

YUVAL NOAH HARARI (1976/...)

“Se humanos desfrutam de direitos humanos iguais, super-humanos deveriam desfrutar de superdireitos?”

 

TRIBO, PERTENCIMENTO, IDENTIDADE

ALDOUS HUXLEY (1894/1963)

“Da família à nação, todo agrupamento humano é uma sociedade de universos insulares.”

E. M. FORSTER (1879/1970)

“Dei-me conta de que designar um inimigo e demonstrar a todo custo a inferioridade dele era a inseparável outra face da medalha da identificação do eu. Não existiria um ‘nós’ sem um ‘eles’.”

ERIC J. HOBSBAWN (1917/2012)

"Parentesco e 'sangue' têm uma óbvia vantagem em ligar membros de um grupo e excluir estranhos e, portanto, são centrais ao nacionalismo étnico. (...) A base crucial de um grupo étnico, como forma de organização social, é cultural e não biológica."

FLÁVIO GORDON (1979/...)

“No interior da academia (...) um tribalismo generalizado transformou o ambiente universitário numa praça de guerra entre as mais diferentes facções ideológicas, (...) o dialogo tornou-se impossível, já que cada facção fala a sua novilíngua particular. (...) Não há debates políticos que não sejam ações entre amigos.  (...) Não há crítica, apenas ausência de contato.”

FRIEDRICH A. HAYECK (1899/1992)

"Agir no interesse de um grupo parece libertar os homens de muitas restrições morais que regem seu comportamento como indivíduos dentro do grupo." [O que explica o vandalismo da "massa enlouquecida".]

GIOVANNI PAPINI (1881/1956)

“Todo ser humano gostaria de ser o primeiro entre seus iguais: ser superior, de um modo ou de outro, aos que o rodeiam. Quer dominar, mandar, parecer maior e mais rico, mais bonito e mais sábio... A história do gênero humano é pouco mais que o pavor da inferioridade.”

NATIONAL GEOGRAPHIC - OUTUBRO 2003

[Para os beduínos:] “O mais importante são os antepassados de uma pessoa, precisamos saber quem eles eram”, disse um dos homens. ‘Não dá para confiar em alguém que não pertença a nenhuma tribo’.” 

ROGER SCRUTON (1944/2020)

“A opção do brexit foi uma questão de crise de identidade.”

“Membros de tribos se veem como uma família; membros de comunidades de credo se veem como fieis; membros de nações se veem como vizinhos.”

“Se a lealdade do muçulmano britânico estiver com Alá e não com a comunidade local em que ele vive, ele dificilmente vai se tornar um bom cidadão.”

“E quando a diferença é identidade e a identidade é uma forma de diferença?”

YUVAL NOAH HARARI (1976/...)

"Todas as tribos humanas existentes estão empenhadas em fazer avançar seus interesses particulares e não em compreender a verdade global."

ZYGMUNT BAUMAN (1925/2017)

“Os símbolos de decisões identitárias gravados no próprio corpo sugerem (...) um compromisso mais sério e duradouro, e não somente um capricho momentâneo.”

 

RACISMO, PRECONCEITO

ERIC J. HOBSBAWN (1917/2012)

"O tipo 'certo' de classificação racial vai a par com o tipo 'certo' de posição social, independentemente da aparência."

FLÁVIO GORDON (1979/...) – Antropólogo, colunista do jornal Gazeta do Povo

“Caso você acalentasse a profunda ‘sensação’ de ser um craque de futebol, passaria a exigir na justiça a sua imediata convocação para a seleção brasileira? (...) Quando a subjetividade humana passa a servir de critério absoluto, tudo então há de ser permitido.”

SÓCRATES (-469/-399) (contado por Platão)

"Os filhos bem nascidos serão levados ao berço comum e confiados a amas de leite que terão habitações à parte em um bairro da cidade. Quando as crianças enfermiças sofrerem qualquer deformidade serão levadas como convém a um paradeiro desconhecido e secreto". 

YUVAL NOAH HARARI (1976/...)

“Um monge pregou compaixão por um mosquito, mas, confrontado com alegações de que mulheres muçulmanas tinham sido estupradas por militares de Mianmar, ele riu e disse: ‘Impossível. Os corpos delas são repulsivos demais’.”

“A polícia olha para a cor de sua pele com suspeita não por qualquer razão biológica, mas devido à história.” 

“Crescer como negro em Baltimore dificilmente faz com que seja fácil compreender a luta de crescer como lésbica em Hangzhou.”



[1] Exemplos de personalidades estoicas: Thomas Sowell, Martin Luther King, Cassius Clay, Stephen Hawkins, Edson Arantes do Nascimento, Elton John, Barak Obama, Yuval Noah Harari, Célio (meu jardineiro), Rogério (contínuo na minha empresa e juiz de futebol federado),Clodovil Hernandes, Rogéria, Glória Maria e milhões de outros.

[2] Estoicismo, escola filosófica fundada por Zenão de Cítio no início do século III a.C.







quinta-feira, junho 01, 2017

UM POUCO MAIS DE ZYGMUNT BALMAN

Terminei a leitura de "Para que serve a sociologia" (Editora Zahar), de Zygmunt Bauman, intelectual polonês, falecido no início de 2017. Este livro é um trabalho de Bauman com dois outros intelectuais, Michel Hviid Jacobsen e Keith Tester, seus amigos, que estruturam muitas ideias do sociólogo usando a técnica de simular uma entrevista. Além de tratar do tema, sociologia, ele vai além, abordando as angústias contemporâneas onde o excesso de informação altera profundamente nossas prioridades e nosso modus vivendi

Eis algumas passagens que selecionei por extrema pertinência com nosso momento Brasil.


"O mundo se atrofiou em histórias, não em informações, e onde as histórias são atrofiadas também o é a capacidade de homens e mulheres entenderem suas vidas num contexto histórico mais amplo.

O caminho que leva a um mundo moral é longo, sinuoso e cheio de armadilhas – as quais, diga-se de passagem, é tarefa do sociólogo investigar e mapear.

Os intelectuais [na esteira de Gramsci] esperavam conduzir e/ou ser conduzidos a uma terra em que a longa marcha rumo à liberdade, à igualdade e à fraternidade finalmente alcançaria seu destino.

Theodor W. Adorno
Pierre Bordieau

Para Adorno, confiar a mensagem ao leitor desconhecido de um futuro indefinido pode ser preferível a transmiti-la aos contemporâneos considerados despreparados ou indispostos a ouvir, que dirá apreender e reter o que ouviram.

Pierre Bourdieu assinalou que o número de personalidades no cenário político capazes de entender e articular as expectativas e demandas de seus eleitores está diminuindo depressa. (...) problemas privados são categorizados como questões públicas.

(...) trazer à luz as contradições não significa resolvê-las. Um caminho longo e tortuoso se estende entre o reconhecimento das raízes de um problema e sua erradicação, e dar o primeiro passo não garante de maneira alguma que outros venham a ser dados, muito menos que o caminho seja percorrido até o fim.


As escolhas humanas não são mais determinadas do que são os movimentos dos jogadores de carteado pelas cartas que eles têm na mão. O lugar em que se está numa situação manipula a distribuição de possibilidades. Ele separa os movimentos viáveis dos inviáveis, assim como os mais prováveis dos menos prováveis. Mas nunca eliminam totalmente a escolha. (...) O poder humano significa a capacidade de manipular as probabilidades das escolhas humanas.


A parte “civilizada” da história humana foi desde o princípio, e provavelmente continuará a ser, uma mistura de aprendizado e esquecimento.

Adquirir novas habilidades sem abandonar as antigas é quase impossível. Para ter sucesso em enfrentar novos desafios, as velhas habilidades são de pouca ajuda, de modo que novas habilidades são exigidas.

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Talcott Parsons articulou assim a “questão hobbesiana”: como induzir, forçar ou doutrinar seres humanos, abençoados ou amaldiçoados com o dom ambíguo do livre-arbítrio, a serem guiados normativamente e a seguirem por rotina cursos de ação manipuláveis, embora previsíveis? (...) Em suma, como fazer as pessoas terem o desejo de fazer aquilo que devem fazer?
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Em “História para as últimas coisas”, Siegfried Kracauer assinala que, à medida que a “segurança paroquial” dá lugar à “confusão cosmopolita”, há um “sentimento generalizado de impotência e abandono”, de “estar perdido num território inexplorado e inimigo”, que – perigosamente – “induz muitas pessoas, presumivelmente a maioria delas, a correr para o abrigo de uma crença unificadora e reconfortante”.

Hoje nos encontramos num “interregno”, um estado em que as velhas formas de fazer as coisas não funcionam mais e os modos de vida antigos e herdados não mais se ajustam à presente conditio humana, mas as novas maneiras de enfrentar os desafios e os novos modos de vida mais adequados às novas condições ainda não foram inventados, posicionados e postos em movimento.

As formas de vida moderna podem diferir em muitos aspectos – mas o que une todas elas é exatamente a fragilidade, transitoriedade, vulnerabilidade e inclinação à mudança constante. “Ser moderno” significa modernizar-se – compulsiva e obsessivamente; nem tanto “ser”, muito menos manter sua identidade intacta, mas eternamente “tornar-se”, evitar a conclusão, continuar indefinido.

Cem anos atrás, “ser moderno” significava buscar “o estado final de perfeição”. Agora significa uma infinidade de aperfeiçoamentos, sem ter em vista nem desejar um “estado final”.

A trajetória de sucessivas mudanças lembra mais um pêndulo que uma linha reta. Cada mudança foi uma tentativa de conciliar demandas incompatíveis, mas os esforços, em geral, terminaram com a renúncia a uma parte de uma delas com o objetivo de satisfazer uma parte da outra. E assim, cada mudança inspirou, mais cedo ou mais tarde, a demanda de outra. (...) Outra forma de dizer a mesma coisa é que cada melhoramento trouxe novas deficiências. (...) os antecedentes só se revelam por meio de suas consequências.

A civilização (significando ordem social) é uma permuta em que alguns valores são sacrificados em função de outros. (...) Nesses termos, pode-se dizer que a história das mudanças sistêmicas é um sucessão de permutas.

Decidir ir a público envolve tornar o texto refém do destino (desconhecido e jamais totalmente previsível, que dirá controlável). Uma vez enviadas as mensagens têm vida própria, autônoma. (...) a versão do autor não goza de superioridade sobre as leituras dos destinatários, já que os significados emergentes são em geral produtos da interação entre o texto e os arcabouços cognitivos formados pelas variadas experiências dos leitores.

Ironia, distância, não comprometimento e acima de tudo a consciência do caráter de “até segunda ordem” das verdades é uma das poucas advertências da versão atual da razão que deveriam – realmente – ser levadas a sério.

As placas de trânsito mudam mais depressa que o tempo gasto para chegar aos destinos que elas apontam. Com o acúmulo de experiências como essa, é arriscado tratar com seriedade qualquer relato sobre a “situação do planeta”, que dirá prognósticos sobre suas condições futuras. Para o bem ou para o mal, nossos contemporâneos são treinados na arte da flexibilidade, o metavalor “imperativamente endossado e recomendado”, assim como popularmente aclamado, da modernidade líquida.

O mundo está mudando e se reordenando (não sem nossa cooperação ou omissão) com demasiada rapidez para que um conjunto de regras, qualquer que seja ele, permaneça funcional por toda a vida de um indivíduo, que dirá ultrapassá-la.

Me preocupa a separação e o iminente divórcio entre o poder, que é a capacidade de fazer com que as coisas sejam feitas, e a política, que é a capacidade de decidir quais coisas precisam ser feitas e quais não precisam.

Grande parte do poder antes contido na soberania do Estado evaporou-se no “espaço dos fluxos” global de Manuel Castells, enquanto a política até hoje continua a ser local.

O que se seguiu a este afastamento foi o paradoxo de uma progressiva coletivização dos problemas, juntamente com a privatização das ferramentas e dos meios necessários para sua solução. Um paradoxo cuja resolução ficou a cargo dos indivíduos, incumbidos da impossível tarefa de enfrentar de modo individual, por conta própria, desafios socialmente produzidos (e apenas socialmente solucionáveis).

O privado invadiu e conquistou a “ágora”, aquele espaço no qual se esperava que interesses privados fossem traduzidos em questões públicas, e onde necessidades públicas se traduzissem em direitos e deveres privados.

“Cortesia” é uma das últimas palavras que me viriam à mente se eu fosse descrever o mundo em que vivemos. “Hipocrisia”, sim. Contudo, confundir hipocrisia (ou seja, a tendência a manter distância do que causa a verdadeira dor e faz as pessoas realmente sofrerem, e a vender a crueldade sob o rótulo da benevolência) com cortesia, de qualquer forma, é o principal objetivo e a marca registrada da hipocrisia, sendo a “correção política” uma de suas manifestações flagrantes, ainda que hipocritamente disfarçada.

Usamos no dia a dia, pública e ostentosamente um tipo de linguagem antes confinado às sarjetas a aos antros do vicio. Não respeitamos mais os direitos de privacidade e intimidade. Talvez o lar do inglês ainda seja seu castelo, mas um castelo aberto aos visitantes 24 horas por dia, sete dias por semana, habitado por pessoas que temem a ausência ou escassez de observadores intrusos como a mais terrível das pragas do Egito.

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Nós nos deleitamos com a visão de aprendizes a perdedores que se mostram à porta da rua e dos habitantes da casa do Big Brother excluídos pelo voto após uma longa semana de humilhações e ridicularizações rotineiras. Não respeitamos nem a dignidade do outro nem a nossa. Quando ouvimos a palavra “honra”, recorremos a um dicionário.

É como se o “direito de difamar” tivesse se tornado um direito humano com tendência a ser universalmente respeitado e defendido com unhas e dentes pelas agências guardiães da lei.

Sem a ressurreição do respeito, não há chance para a solidariedade. Sem solidariedade, não há chance de despertar “as preocupações centrais da sociedade” de sua atual sonolência e forçá-las a abandonar o abrigo impenetrável da desatenção humana.

O que me põe de lado na comunicação ao estilo blog é a atordoante velocidade com que as mensagens entram e saem do domínio da atenção do público, quase sempre sem deixar testamento. Elas surfam pelas mentes em vez de se estabelecer dentro delas pelo tempo necessário para uma reflexão madura e para produzir consequências. Rapidamente lido, logo esquecido."


terça-feira, julho 19, 2016

HÁ 20 ANOS

Neste tempo de ilógicos atentados a inocentes, cuja eficácia não identificamos, lembrei-me de Samuel P. Huntington, economista norte-americano, que, em 1996 (portanto há 20 anos), publicou, premonitoriamente, "Choque de Civilizações", e fui buscar o "extrato" da leitura que fiz naquele final de década.

Não foi, portanto, por falta de aviso (o que me faz duvidar seriamente da eficácia do trabalho de caras como Huntington, Tofler, Huxley e outros, do passado e do presente, já que parecem ser intencionalmente ignorados).

A íntegra do extrato você acessa aqui, mas reproduzo a seguir o que achei de mais pertinente ao que estamos ouvindo e assistindo todos os dias. Não acredito que possamos imaginar a dimensão do que está por vir - nem visualizar uma porta de saída para este que é o maior dos conflitos -, por mais reflexões que façamos. Espero, apenas, ajudá-lo a organizar sua percepção para tocar a vida com o mínimo de sanidade mental e esperança.


"Civilização é o mais amplo agrupamento cultural de pessoas e o mais abrangente nível de identidade cultural que se verifica entre os homens, excetuando-se aquele que distingue os seres humanos das demais espécies."

"As civilizações se diferenciam umas das outras por sua história, língua, cultura, tradição e, sobretudo, religião."

"As interações entre os povos de diferentes civilizações estão aumentando; essas interações crescentes intensificam a consciência das civilizações, das diferenças entre as civilizações e entre as comunidades das civilizações."

"A desocidentalização e a nativização das elites ocorre em muitos países, ao mesmo tempo que as culturas, estilos e hábitos ocidentais, geralmente americanos, tornam-se populares entre a massa da população."

"Em conflitos ideológicos e de classe, a questão-chave era:”De que lado você está?” As pessoas podiam escolher um lado e podiam mudar de lado. Nos conflitos entre as civilizações a questão é: “O que é você?” Isso não pode ser mudado."

"O governo democrático moderno nasceu no Ocidente. Quando se desenvolveu em sociedades não-ocidentais, geralmente foi o produto do colonialismo ou da oposição ocidental."

"O fim da União Soviética pode dar à Turquia a oportunidade de se transformar em líder de uma civilização turca renascida que englobaria sete países, da fronteira da Grécia às da China. Estimulada pela postura ocidental, a Turquia está fazendo um vigoroso esforço para forjar essa nova identidade."

"Se os russos, deixando de se comportar como marxistas, rejeitarem a democracia liberal e passarem a se comportar como russos, mas não como ocidentais, as relações entre a Rússia e o Ocidente poderão de novo se tornar distantes e conflituosas."

"A curto prazo, seria claramente vantajoso para o Ocidente promover mais cooperação e união em sua própria civilização, em especial entre seus componentes europeus e norte-americanos, incorporar ao Ocidente as sociedades da Europa Ocidental e da América Latina, cujas culturas se aproximam da ocidental; promover e manter relações de cooperação com a Rússia e o Japão; evitar que conflitos intercivilizacionais locais se transformem em grandes guerras intercivilizacionais...."

"Para isso o Ocidente terá de manter o poderio econômico e militar necessário para proteger seus interesses diante dessas civilizações."