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domingo, dezembro 27, 2020

OUVIDOS ATENTOS AOS PASSOS DO ANDAR DE CIMA

Depois das redes sociais os passos dos que ocupam o andar de cima já não podem ser tão barulhentos como antes. Se até então causavam certo incômodo, havia a vantagem de que sabíamos mais ou menos o que estavam fazendo. Agora, pisam como se pisaria em ovos se tal fosse possível. Não querem fazer o mínimo som porque as antenas da digitrônica giram freneticamente para captar qualquer frequência que não esteja de acordo com as expectativas do térreo. 

Como em todos os finais de ano, costumo, a exemplo de muitos, olhar pelo retrovisor para ver se ficaram pendentes de solução questões importantes que deveriam ter sido resolvidas no seu tempo e não o foram e que, portanto, se arrastam para influir no futuro próximo. Não bastassem nossas incertezas quanto à COVID, não gosto do que estou percebendo e me sinto muito apreensivo quanto ao que iremos viver no ambiente político em 2021. Vou apontar alguns eventos para sua avaliação.

1 - Comecei a me preocupar quando vi atitudes de Moro incompatíveis, na minha opinião, não só com a postura de ministro - o show midiático montado -, mas, principalmente, agindo com absoluto mau-caratismo em relação ao Presidente da República a quem devia, no mínimo, lealdade, aquela mesma que sempre recebeu.

2 - O fato de Bolsonaro não ter peitado, com a Constituição na mão, o STF quando este o impediu de nomear o diretor da Polícia Federal (em 29/4). Na época, a única justificativa que encontrei, foi a pressão da "entourage" de farda para uma não confrontação sob um risco alegado de crise institucional. Ali, para mim, ao ceder, o Presidente sinalizou, primeiro, que o Supremo era mais supremo que a própria Constituição, e, portanto, poderia dali em diante fazer o que bem entendesse e, segundo, admitiu que generais mandam mais que capitão. 

3 - Em 28 de maio, usando expressão chula, Bolsonaro, reagindo à decisão do ministro Alexandre de Moraes de abrir inquérito para apurar as tais não conceituadas "fake news", bradou que "ordens absurdas não se comprem". Ameaças sem cacife, também não se cumprem, como ele mesmo demonstrou.

4 - Em primeiro de outubro, Bolsonaro confirma a indicação do desconhecido desembargador Kassio Marques Nunes - indicado por Dilma para o TRF-1 - para preencher a vaga no STF. Desagradou fortemente sua base aliada e até hoje não conseguiu justificar satisfatoriamente a seu eleitorado tal decisão. E chamou atenção o fato de logo após ter fechado com Kassio Nunes, Bolsonaro levou dse dirigiu com o indicado à casa de não menos que Gilmar Mendes, onde lá já estavam Toffoli e Alcolumbre.

5 - Em 16 de setembro, a Polícia Federal intima Bolsonaro a depor presencialmente em inquérito aberto depois da saída de Moro. O Presidente entrou com recurso e em 9 de dezembro, Luiz Fux, presidente  do Supremo, adia para 2021 o tal depoimento.

6 - Em decisão que surpreendeu a todos, o Supremo decidiu que nossa Constituição não é inconstitucional e que, portanto, o parágrafo 4º do artigo 57 não deixa qualquer margem de dúvida e deve ser respeitado, não permitindo que os atuais presidentes da Câmara e do Senado possam se candidatar à reeleição. O que ficou para ser contado no futuro é se havia um acordo prévio entre os ministros do STF para aprovar a reeleição e, se havia, quem foi o "traidor" que permitiu o resultado de 6 a 5 confirmando o texto da Lei.

7 - Mas esta minha cronologia foi atropelada pela entrevista de Paulo Guedes à revista Veja (data de capa 23 de dezembro). Nela, Guedes relata sua atuação para desmontar uma agenda para, em 60 dias, derrubar Bolsonaro. Tal propósito parece ter tido início logo após vir a público o vídeo da reunião de 22 de abril, ocasião em que Weintraub, então ministro da Educação, manifestou sua indignação com as ações do Supremo dizendo que, por ele, "botava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF". A ideia do golpe, portanto, foi uma reação dos ministros do STF a esta declaração, mas, por provável sentido de autopreservação moral, colocaram como articuladores Maia e Dória. Guedes relata que Gilmar Mendes lhe "sugeriu" que o governo precisava dar um sinal de pacificação. A transferência de Weintraub para o Banco Mundial, foi a solução acordada. Um detalhe a ser ressaltado neste episódio (denúncia praticamente ignorada pela grande mídia e pelo Congresso), é a ação descarada anticonstitucional e antidemocrática realizada pelos ministros do STF, ação esta que não deixa mais dúvida de quem manda no país. Para alguns detalhes a mais veja aqui.

8 - Guedes não contou o que contou por iniciativa própria. Palavra por palavra, tudo foi previamente acordado. As entrevistas nas páginas amarela de Veja sempre foram espaço para desabafos de quem se via injustiçado e de revelações importantes feitas por quem esteve no centro de acontecimentos não integralmente revelados. Foi o caso de Paulo Guedes. Em casos anteriores de magnitude similar, a repercussão sempre se deu em todos os demais veículos, impressos, radiofônicos e televisivos. Não desta vez. Onde eventualmente ecoou, o foi com muita... discrição, sutileza, sem alarde. Nossos parlamentares fizeram vista grossa e ouvidos moucos. Profundamente frustrados com essa história, devem ter ficado nossos partidos e militantes de esquerda, pois imagino eu, se tivessem sido chamados teriam dado o melhor de si para poderem ajudar na "execução" da agenda. Na minha humilde percepção, Bolsonaro tentou criar um fato político. Não teve êxito.

9 - Cabe um aviso importante aos radicais de direita que veem nos militares uma possível esperança de "cortar pela raiz" a presença, ainda gigantesca, da esquerda nas instituições políticas e culturais: o sonho e mote de ação dos atuais militares (generais no topo) é de uma utópica conciliação das duas correntes de pensamento. Esta, talvez, seja a razão por trás dos... recuos de Bolsonaro.

Outros fatos, obviamente, aconteceram e acontecem, mas estes são os que mais me deixam preocupado. Não que o que quer que venha a acontecer na política tenha alguma chance de me afetar, mas acho que temos uma boa chance de, além dos danos já causados ao país pela COVID, virmos a perder mais alguns anos na direção de tornar o Brasil uma nação mais promissora para seus cidadãos. Neste futuro, penso eu egoisticamente, estarão meus filhos e netos. Os filhos e netos de meus amigos e entes queridos. Os filhos e netos dos que me lerem até aqui. 

Após ter publicado esta postagem, tive acesso ao vídeo da entrevista com Sandra Terena, esposa de Oswaldo Eustáquio, feita em 21/9/20, dia em que ela foi exonerada pela ministra Damares Alves, alegadamente por imposição de "alguém" com o argumento esdrúxulo de ser esposa do jornalista. Assista, pois reforça a tese de quem está mandando no país.

E instantes depois me deparo com uma declaração do jurista Evandro Pontes feita em uma entrevista a Ana Paula Henkel, pasmem, em 13 de agosto de... 2019!!! A síntese está nesta frase: "O golpe não virá, ele JÁ FOI DADO pelo STF que virou uma instituição paraestatal. Vivemos, portanto, sob um regime judiciário de exceção". Para saber mais, acesse aqui.

Que venha 2021! Nós o enfrentaremos, como sempre, quaisquer que sejam as circunstâncias, alicerçados em nossos valores e convicções.

sábado, abril 25, 2020

NOVES FORA HIPOCRISIAS...

Tenho poucas qualificações além de ser um observador da vida, dos seres humanos e cultivador de um gosto especial por projetar consequências futuras de fatores e atos do presente. Isto posto e, portanto, do alto da minha ignorância do que se passa nas alturas do poder, vou registrar minha tese sobre o imbróglio Bolso/Moro ou Moro/Bolso, como prefiram.

Desde os primeiros dias da era digitrônica, quando ela ainda engatinhava nos idos da década de 90, já mostrava seu potencial de interferir no modus operandi das relações humanas e dos humanos com as "entidades" da civilização em todos os níveis de atuação. Um dos exemplos disto é a profunda alteração na dinâmica política em função do "encurtamento dos tempos" que ocorreu nestes últimos 30 anos. Quando antes tudo demorava um tempo favorável à digestão dos acontecimentos, hoje o tempo que dura é apenas uma questão de quão larga é a banda de transmissão medida em gigabits por segundo. Sendo mais específico, a demora na circulação da comunicação, nos dava certa garantia de que a informação, antes de provocar reações, tinha grande probabilidade de ser ingerida, gerida e dela extraído um extrato menos venenoso, menos danoso, e mais fortalecedor de nossas próprias ideias e princípios.

Em nossa era digitrônica, o Ministro faz uma coletiva de imprensa em que antes mesmo de seu término já se espalham por todas as mídias interpretações, considerações e projeções tão díspares quanto os interesses de seus propagadores - cidadãos, políticos, empresários, jornalistas (principalmente), blogueiros, etc.

Somadas as falas, as contra-falas, as fofocas, as fake news e outros ingredientes midiáticos duvidosos, escusos, e tirados os noves, até aí o resto que sobra é sempre o mesmo: uma grande hipocrisia.

As questões relevantes, o que realmente compõe o arcabouço dos acontecimentos, as reais motivações de cada ator neste grande jogo de poder não-digital, sem heróis pré-configurados, sem armas totalmente conhecidas, sem regras de pontuação e sem saber o que determina o como e quando o jogo acaba, simplesmente não são postas à evidência do maior número de cidadãos. Seria contra-produtivo!

Quais então seria tais questões? Temos nós, incautos e manipulados cidadãos-eleitores, possibilidade de conhecê-las? Possível é, mas não é fácil. Por isso vou expor algumas observações para organizar meu pensamento e tentar ajudar meu leitor a fazer mesmo.

Desde muito certas coisas vindas de Moro me incomodam. Como acontece quando nos identificamos com o que faz/pensa alguém, somos psicologicamente induzidos a fingir que não relevamos coisas que... hum... "é melhor não pensar nisso". Lembra da divulgação da conversa entre Lula e Dilma sobre a nomeação para ministro da Casa Civil? Não ficou um cheirinho de merda no ar? E a omissão recente de Moro sobre a obstrução do direito de ir e vir cometidas em obediência a ordens de governadores e prefeitos? Outros "eventos" estranhos ocorreram, mas saí de minha cegueira voluntária depois da forma imoral que ele escolheu para marcar a comunicação de seu pedido de demissão. Enquanto ele cobrava do Presidente uma razão "técnica" para exonerar o Diretor Geral da PF, ao mesmo tempo ele não dava sua real razão para intencional e claramente criar uma crise política com graves consequências para o país. Qual sua intenção? Por que simplesmente não se concentrou em sintetizar os resultados de sua gestão, o que seria absolutamente justo, em lugar de fazer insinuações sobre pretensos interesses escusos de Bolsonaro? Para esse tipo de atitude, quando acontece conosco, classificamos o sujeito taxativamente como um tremendo mau-caráter.

O segundo aspecto importante a que devemos dedicar especiais reflexões é quanto ao grande, monumental feito realizado por Bolsonaro a partir de seu primeiro dia de governo: o desmonte do establishment (*), anglicanismo horroroso que Paulo Guedes gosta de usar. Chamo sua atenção para avaliar com extremo cuidado e à luz de princípios de uma democracia plena, a atuação de Ministros do STF que têm se arvorado iniciativas de completo ataque à Constituição, como, por exemplo, Celso de Melo interpelando Rodrigo Maia sobre as razões de não colocar em pauta os tantos pedidos de impechment que foram protocolados na Câmara. Respondi assim, em rede social, a comentário manifestando a retirada de apoio a JB: "Só a coragem destemperada de JB para revirar o status quo da política então vigente. Quem o acusa está esquecendo que há um jogo político de alta resistência que: 1) faz tudo o que pode para minar o poder de ação do governo federal; 2) fazem de tudo para se refestelarem com as verbas que deveriam estar a serviço do país; e 3) não estão nem aí para todos nós". E acrescentei um "lembrem-se":
Mas aqui vou deixar uma outra pergunta: como estaria sua integridade moral, psíquica, fisiológica, mental, se estivesse no lugar dele, passando pelas mesmas pressões?

Um terceiro aspecto tem a ver com o valor pessoal que Bolsonaro me parece ter como sendo o maior que preza: a família. Não sem razão, portanto, levou para o Planalto seus 4 filhos, sendo que 3 deles políticos eleitos, cada um em uma esfera, cada um com responsabilidades de atuação na estrutura do poder executivo federal. Proteger qualquer um deles é o que ele faz e é o que a maioria de nós faria. Pelo menos até onde os preceitos morais de cada um não fosse ferido de morte. Dito isto, me acompanhe com vagar, porque vou fazer uma suposição a partir do fato incontestável de que o inquérito sobre "rachadinhas" no Rio de Janeiro, cujo protagonista principal é Fabrício Queiroz, um amigo pessoal de Flávio e Jair Bolsonaro, não anda, não chega a nenhuma conclusão final. 

É do "conhecimento" popular desde áureos tempos que a maioria dos assessores nomeados por políticos de cargos eletivos ou não, destinam, em princípio, 30% de seus salários para o político que o nomeou. Arrisco-me a deduzir que esta prática é uma, ou talvez a principal razão para que os salários de servidores públicos sejam na média o dobro dos salários da iniciativa privada para as mesmas funções e qualificações. Isto é razoável supor porque, do contrário, ninguém toparia ganhar 30% menos no serviço público quando poderia ganhar os 100% na iniciativa privada!!! Esta seria, na minha hipótese, uma prática que ao longo do tempo foi ganhando ares de "normalidade", a ponto de que novos integrantes, mesmo que íntegros como madre Tereza, com o passar dos meses e ganhando um salário não condizente com sua "abnegação pelo povo", cheguem à conclusão de que os "mais antigos" têm toda razão em praticar a "rachadinha" como justo complemento de renda. Na minha hipótese, portanto, talvez o problema do papai seja que entre os integrantes do poder isto sempre tenha sido normal, até que alguém use tal "desvio moral" como pretexto para atacá-lo. Dar uma gorjeta para o guarda é prática normal até o dia em que você é publicamente exposto tendo praticado tal ato. Sacou? No caso em pauta, como defender agora tal prática em tempos passados? Supondo, obviamente, que nos dias atuais a prática tenha sido no mínimo suspensa temporariamente.

Antes de encerrar, deixo a opinião de que a democracia precisa ser reinventada para lidar com os desafios impostos pela era digitrônica. Em particular aquelas que, como a brasileira e a americana, têm mandatos de 4 anos, com eleições intercaladas a cada 2 anos, dinâmica que impede projetos de longo prazo e favorecem a constante disputa pelo poder, levando, inevitavelmente, a pedidos de impeachment, independente de quem seja eleito, de quanto apoio tenha o governante, de quais seus níveis de acerto etc. É impossível um país ter estabilidade para se desenvolver se não puder agir com objetivos e metas de longo prazo. É inconcebível que a quase 3 anos da próxima eleição presidencial, esteja hoje em pauta em todas as mídias a doisputa de 2022!!! É insano ter diversos governadores que, em plena pandemia, estão em flagrante campanha para Presidente da República!!! 

Noves fora a hipocrisia, portanto, sobra o restolho, o inevitável lixo do jogo político, jogo do qual só participamos como gândulas, apanhadores de bola-fora de jogadas mal executadas! Entendeu a ironia?


(*) Significa "todos os que compõem a elite no poder".