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sábado, novembro 04, 2023

EXTIRPANDO A DEMOCRACIA – 5: Do “Laissez-faire” à Tirania

 

AS REPÚBLICAS DEMOCRÁTICAS

 

 “O homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se acorrentado”.

Jean-Jacques Rousseau


Comecei esta série apresentando três modelos de processo de produção: laissez-faire – onde a decisão do que fazer é livre e individual -, autocrata – onde a decisão é de um líder -, e democrata – onde a decisão resulta do debate em busca de um consenso majoritário. Mas não é simples adaptá-los a sistemas políticos. O leitor que se dispuser a pesquisar, não vai entender nada, pois o que vai encontrar é uma confusão de conceitos[1]. Então, vou seguir um caminho próprio.

Começo por categorizar “Sistemas de Poder”, ou seja, qual é a natureza, a origem, do poder. Vejo estas três fontes: a hereditária – o direito de exercer o poder máximo é ganho por uma regra de relações familiares (monarquias e dinastias); a teocrática – o poder é exercido pela religião; e a republicana (presidencialismo e parlamentarismo) – o poder é exercido por alguém escolhido periodicamente através do voto da maioria dos eleitores. A democracia, sendo uma forma de processo de tomada de decisão, encontra seu melhor campo de uso nas Repúblicas. Isto não significa dizer que não possa haver uma certa dose de democracia nas monarquias, vide Inglaterra. Como também não é que processos democráticos sejam usados por teocracias, e que não existam regimes republicanos com forte pendência para a concentração de poder e acabam se tornam ditaduras. A China se denomina “república popular”, denotando aí a ideia de democracia, pois há um parlamento, mas onde líderes originalmente eleitos se perpetuam no poder como ditadores até que morram, quando um outro é “eleito democraticamente" para assumir o lugar vago.

O que observamos, portanto, é que existem outras considerações a serem feitas em relação à forma como o poder é exercido, seja ele hereditário, teocrático ou republicano. Nos três existe a figura de um líder máximo e aí precisamos perguntar: que princípios norteiam tal líder? Só deixo essa pergunta como provocação para o Leitor dar uma “passeada” mental pelos líderes mundo afora. Pode começar pelo Brasil e ver o modo peculiar de como o presidente atual obtém de nossa democracia a satisfação de seus desejos e intentos. E se nos dermos ao trabalho de estudar os sistemas de poder ao redor do mundo, creio que vamos encontrar tantos modelos diferentes quantas forem as nações.

Feito este preâmbulo, vou tratar a democracia como um modelo amenizador das relações entre Estado e Povo[2], ou entre poder e servidão. Para tanto, temos que fazer uma breve viagem ao fim do feudalismo[3], momento histórico que podemos considerar como o início de uma jornada civilizacional para longe das barbáries da idade Média. Por não ter conhecimentos para ir além desta humilde afirmação, o Leitor cético a ela deve dar uma olhada nestes últimos 500 anos e observar, principalmente, que os impérios foram gradativamente sendo fragmentados em nações, o que arrefeceu os ímpetos de conquista de territórios e contribuiu para o surgimento ou fortalecimento de muitos conceitos: autonomia dos Estados, nacionalismo, patriotismo, proliferação de modelos de poder, fim da escravidão, valorização de virtudes etc. Não é surpresa, portanto, que é exatamente no século XVI que os historiadores situam o início do período denominado de “humanismo”, quando os humanos passam a focar no conhecimento de si mesmos e se distanciam da predominância do jugo da religião católica, essencialmente.

Na segunda metade do século XVIII o poder absolutista, que desde os faraós egípcios se sustentava na ideia de escolhidos por entidades divinas, começa a ser questionado e destronado[4]. O marco principal é a independência das colônias norte-americanas do jugo britânico, proclamada no famoso 4 de julho de 1776, mas só reconhecida pelos ingleses em 1783. E em 1786 é promulgada a Constituição Americana que é o marco da transferência da origem do poder transcendental para o poder terreno ao iniciar com a expressão “We, the people...”. E já em 1789, os franceses, inspirados pelo que os americanos haviam feito, começam a questionar, tanto o poder da Igreja quanto o do regime liderado por Luis XVI, até que finalmente em 1791 a monarquia[5], deixando na sequência um rastro de sangue e morte, atingiu não só monarquistas, mas também aqueles que participaram da ruptura, mas não se opuseram às ideias dos que efetivamente haviam tomado o poder[6].

No Brasil a história foi diferente. Dois anos após a Independência, D. Pedro I outorga nossa primeira Constituição adotando 4 poderes (ele acrescentou o Poder Moderador), criando o Império do Brasil e preservando a monarquia por mais 67 anos, longevidade que retratava a aprovação dos brasileiros à Casa dos Bragança. A ruptura aqui não se deu a partir de anseios do povo, mas sim de gente que queria o poder pelo poder. Tais realidades, a do povo e a das elites, eram tão evidentes que os militares deram o golpe, sem qualquer justificativa revolucionária, em uma madrugada de 1889 por temor de uma possível revolta da população.

O que mudou na civilização capaz de provocar o turbilhão de rupturas[7] nos modelos de poder alicerçados em centralização em grupos restritos? A resposta está naqueles dois elementos que já citei: aumento populacional e redução drástica no tempo de circulação da informação. O absolutismo, não importa a forma, se serviu da impossibilidade dos descontentes se unirem e, minimamente organizados, se constituir em uma massa capaz de provocar uma ruptura. Mas a balança civilizacional pendia para o outro lado. As vestes do Rei perderam sua opacidade protetora e se tornaram transparentes, expondo sua nudez. Os conceitos de democracia, adormecidos no pensamento dos gregos[8], são reanimados por pensadores da época. Entre eles, Montesquieu que propõe a divisão em 3 poderes, princípio que é adotado por todas as novas Repúblicas Democráticas surgidas no rastro da Revolução Francesa.

Não é que o absolutismo fosse tão ruim. Nem mesmo se sabia se a república traria melhoras. A questão é que a partir dali o poder podia ser questionado e outros com outras ideias e desejosos também de poder, podiam juntar forças e romper com o status quo. Ah! Sim! Tem o povo[9], estava esquecendo.

Até a próxima semana.




[1] Só para justificar minha afirmação copio e colo três exemplos. 1) República é um regime de governo onde o Chefe de Estado e o Chefe de Governo são escolhidos através de eleições diretas ou indiretas. 2) Regimes políticos contemporâneos: Democracia, Autoritarismo e Totalitarismo.3 ) Existem três sistemas de governo: presidencialista, semipresidencialista e parlamentarista.

[2] Uso “povo” no sentido de conjunto de cidadãos sustentadores da máquina estatal, do Leviatã.

[3] As mudanças na Europa entre os séculos XI a XV desestabilizaram a estrutura social da Idade Média. O renascimento das cidades, do comércio e cultural promoveu a crise que levou ao fim do feudalismo no Ocidente.

[4] Em “1984”, Geroge Orwell sentencia que: “Só há quatro modos de um grupo governante abandonar o poder. Ou é vencido de fora, ou governa tão ineficientemente que as massas são levadas à revolta, ou permite o aparecimento de um grupo médio forte e descontente, ou perde a confiança em si e a disposição de governar”.

[5] Revolução Francesa causou a queda de uma monarquia, o enfraquecimento da Igreja e o fim da aristocracia. Entretanto, essa foi apenas uma das revoluções que ocorreram no mundo entre os séculos XVIII e XIX, mas é considerada um marco da história mundial.

[6] Obviamente, querendo saber mais sobre este fato histórico marcante na civilização ocidental, a internet tem farto material.

[7] Diz Nietzsche: “Posições extremas não são resolvidas por moderadas, mas sim, por sua vez, por extremas, mas inversas”.

[8] Yuval Noah Harari, observou que: “Apesar de toda a sua glória e influência, a democracia ateniense foi um experimento ambíguo que mal sobreviveu duzentos anos num pequeno canto dos Bálcãs.”

[9] Sobre “povo” Nietzsche diz: “Como em todo rebanho há manipulação, o “poder do povo”, observa Nietzsche, não existe. O que há são relações de forças em que ou se domina ou se é dominado”.



quinta-feira, outubro 26, 2023

EXTIRPANDO A DEMOCRACIA – 4: Do “Laissez-faire” à Tirania

AS AUTOCRACIAS (complemento)

 “O mundo grego era basicamente aristocrático, um universo hierarquizado no qual os melhores por natureza deviam, em princípio, estar “acima”, enquanto se reservavam aos menos bons os níveis inferiores. Não se esqueça de que a polis grega se baseava na escravidão.”

Luc Ferry (1951-...)  filósofo francês, professor de filosofia

  

Na postagem anterior fiz apenas uma leve apresentação da vertente política do modelo autocrático. Ficou faltando o mais importante: a abrangência e a longevidade do sistema.

A autocracia, expressão da concentração de poder político, foi, e ainda está, presente em todas os continentes, não é uma característica ocidental ou oriental. As diferenças são oriundas do desenvolvimento cultural autóctone de cada região dada a dificuldade de comunicação entre elas ao longo dos milênios. Na Ásia, os registros históricos nos mostram que o modelo foi o de dinastias familiares de longuíssima duração. Dê uma olhada nesta lista que encontrei relativa às dinastias chinesas:

1 - dinastia Han (206 a.C.–220 d.C.) – 426 anos

2 - dinastia Jin (266–420) – 154 anos

3 - dinastias do Norte e do Sul (420–589) – 169 anos

4 - dinastia Sui (581–618) – 37 anos

5 - dinastia Tang (618–907) – 289 anos

6 - dinastia Yuan (1271–1368) - 97anos

7 - dinastia Ming (1368–1644) – 276 anos


A metade “ocidental” do planeta não conheceu tal modelo. No lado de cá, para começo de conversa, as Américas não fizeram parte do mundo por 95% de nossa história. Se nos concentrarmos na Europa e África, o que vamos encontrar são os Impérios[1], um modelo de autocracia violenta sustentada tanto pela execução sumária dos cidadãos pretensamente infratores, quanto pelas guerras de conquista, uma constante milenar nestas duas regiões. Nesta região o que mais vamos encontrar são Imperadores por curto espaço de tempo, assassinados que foram por adversários ambiciosos ou mortos em guerra[2]. O oeste europeu e o norte africano formaram o palco de um teatro onde se desenrolou uma peça trágica escrita por psicopatas sanguinários sustentados por estruturas religiosas[3] que justificavam as atrocidades em nome de algum ente metafísico, sobrenatural.

A consequência das percepções que colecionei ao longo da vida sobre o desenvolvimento cognitivo e tecnológico da humanidade, é a de ser oriunda do “casamento” entre o aumento populacional e a redução do tempo de comunicação entre emissor e receptor das mensagens sobre o que quer que fosse. Por muitas razões, que não cabe abordar aqui, o aumento populacional, constante e inexorável, cria problemas e necessidades novas, exigindo novas explicações e novas soluções para lidar com as interrelações humanas de toda natureza cada dia mais complexas.

O que parece se evidenciar no exposto até aqui é a estabilidade política observada no Oriente frente a instabilidade do poder no Ocidente. Até nos dias atuais isto ainda se observa bastando olhar para o poder político na China, na Rússia, na Coreia do Norte e outros países, e comparar com os tantos conflitos políticos que ocorrem mundo ocidental afora, norte ou sul.

Nos milênios passados desde quando os humanos deixaram a vida nômade, o poder político gradativamente instalado se valeu e se protegeu pela distância entre governantes e governados. Nos séculos de dominação do Império Romano, a notícia da proximidade de tropas invasoras, apenas como um exemplo, só chegava quando já era tarde para armar uma resistência. Durante tal tempo, a reação, a rebeldia organizada da sociedade a qualquer exorbitância do poder instalado, ou era impossível ou, quando viável, chegava quando já nada podia ser feito[4].

No final do século XVIII, não só se acentua o desenvolvimento do conhecimento científico, mas também deixa de ser algo exclusivo do campo das teorias e se volta para as aplicações práticas, culminando com o que conhecemos como “Revolução Industrial”, quando as distâncias se encurtam de maneira absurda (estradas de ferro, motor a explosão, automóveis, navios, aviões etc.). Isto não só materialmente aconteceu, mas, principalmente, no âmbito da rapidez de comunicação das notícias, ideias e opiniões (telégrafo, telefone, rádio, televisão, internet e celular).

Deixei propositalmente em separado a imprensa, os meios impressos (livros e jornais) pela razão destes terem sido absorvidos pelo Estado para desempenhar um papel fundamental nos novos tempos: manter o conteúdo das mensagens conforme os ditames e interesses dos integrantes do poder político. O instrumento para tal surgiu com Guttemberg por volta de 1450, mas só em 1608 surge o primeiro jornal impresso. E no Brasil, só em 1808, com a chegada de D. João VI, é que foi permitida a criação da primeira gráfica e o primeiro jornal, a Gazeta do Rio de Janeiro, e, prova do que afirmei, “órgão oficial do governo português”.

Hoje vejo a posição de meu inimigo no celular e, com este mesmo equipamento, posso, imediatamente, tomar atitudes que me protejam ou, instantaneamente, me manifestar a favor ou contra tudo que penso ser relevante dar minha opinião. Hoje, em segundos, posso comunicar a um imenso contingente de outros cidadãos, toda e qualquer ação do poder que eu considere ameaçadora a meus direitos e à minha integridade intelectual, mental e física.

Tal realidade é uma ruptura no processo civilizatório. Uma ruptura pela ruptura, este o problema central a que a humanidade está sendo submetida e desafiada a encontrar uma solução. Uma ruptura não buscada, não construída, não organizada, não liderada, mas uma ruptura consequente da aplicação de uma tecnologia a funções para as quais não foi concebida: a de arma na ação política. Uma ruptura que pegou os phoderosos absolutamente despreparados e, portanto, incapazes para uma reação contundente. No caso do Brasil é só quando a vitória de Bolsonaro expõe um imenso contingente de brasileiros armados até a ponta dos dedos é que “caia a ficha”. Para eles “Inês” não está morta. Alexandres, Barrosos, Dinos e outros menos renomados, testam inúmeras porções mágicas no desejo de que tragam de volta aquele status quo que tanto bem lhes fez por décadas.

Não sei no que vai dar. Uma certeza tenho: poder e servidão continuará a ser a relação fundamental a conduzir os destinos da humanidade. Só resta saber sob que modelo de relacionamento e com quais consequências. Num próximo, ou próximos textos, trarei outras provocações para refletirmos e imaginarmos como será o Novo Mundo para o qual estamos caminhando.

Até lá.

 


[2]  Em quatro séculos de história, o Império Romano do Ocidente teve 69 governantes. Destes, 43 (ou 62%) morreram de forma violenta — por assassinato, suicídio ou em batalha.

[3] “No século XVI, as leis, o direito, enfim, o próprio Estado, tinham seu fundamento na religião.” Michel de Montaigne

[4] Em 2012 Olavo de Carvalho chamou a atenção para o fato de que “nenhum movimento poderia se apossar do Estado se primeiro não se tornasse mais poderoso que ele”.

sábado, janeiro 13, 2018

A DISRUPTIVA DIGITRÔNICA

Deste início e até o fim, uso o termo disruptivo para sintetizar um processo novo que não resulta de um aprimoramento dos até então existentes, mas que é tão radicalmente novo que só novos e ousados agentes são capazes de implementá-los resultando em novos modelos  de processos drasticamente diversos do então em vigor.
E com digitrônico, sintetizo a união da tecnologia digital-binária que tem origem na primeira metade do século XX, somada às tecnologias de hardware de comunicação, via fibras óticas e satélites dos anos 60 e 70, que viabilizaram a comunicação mundial instantânea e, por consequência, o desenvolvimento de equipamentos eletrônicos e aplicativos sofisticados mas simplificados para uso do cidadão comum. Tudo isto tendo como camada invisível ao usuário, potentes linguagens de programação, até sofisticadíssimos bancos de dados distribuídos na nuvem e que detém recursos de armazenamento e recuperação de dados que nos surpreendem a cada clique.

Tenho ouvido analistas respeitados comparando a revolução tecnológica que vivemos, a digitrônica, à revolução industrial iniciada na segunda metade do século XVIII. Alegam que as principais questões são as mesmas: impacto no modo de produção, nos padrões de consumo e numa tensão sobre uma possível redução no nível de emprego que nunca ocorreu. A diferença que aponto, reside no fato de a revolução industrial ter sido consequência da evolução de escala buscada por aqueles que produziam produtos manufaturados. A energia produzida pelo vapor impulsionando o movimento, não trouxe um novo mercado destruindo um outro. Instalações produtoras não deixaram de existir. Elas adaptaram seus processos produtivos adotando a nova forma de gerar energia mecânica, isto quando muitas delas foram descobridoras de novas tecnologias. A consequência foi produzir mais no mesmo espaço de tempo e mais barato. Se alguém foi afetado, foi aquele industrial que não adotou, ou adotou tardiamente, o novo, pois o objetivo central era e ainda é "como eu produzo o mesmo mais e melhor que meu concorrente". 

A revolução digitrônica é de outra natureza. Ela é disruptiva porque rompe com o existente apresentando algo que não é fruto da evolução competitiva como na revolução industrial. É disruptiva pois ao se instalar interrompe (ou reduz) o tamanho da participação de uma solução existente, porque introduz uma solução alternativa tecnologicamente nova. Ela é disruptiva porque não nasce de dentro de quem está ganhando (vide grandes marcas mundiais que viraram lixo, ou quase, num piscar de anos). Ela é criada, alimentada, incrementada, por gente de fora, os chamados "outsiders". 

Timothy John Berners-Lee, hoje detentor do título honorífico de Sir, aos 34 anos, trabalhando no CERN (maior laboratório de pesquisas nucleares) na Suiça, propôs um projeto de hipertexto (HTML) para "facilitar a partilha e atualização de informações entre os pesquisadores", só isso. Como quase tudo na vida, um projeto egoísta para resolver problemas do próprio umbigo. Poucos anos mais tarde, aplicando princípios de sua linguagem à tecnologia de comunicação via internet, permitiu que em 25 de dezembro de 1990, Tim e seus companheiros de projeto fizessem a primeira interação entre um "cliente" HTTP e um servidor. Ele não sabia a revolução disruptiva que estava iniciando. 

Martin Cooper, um engenheiro da Motorola, soube que os policiais de Chicago reclamavam pela perda de tempo em ter que se deslocar até a viatura para poder usar o rádio e se comunicar com outros policiais ou com a central de polícia. Inspirado no seriado Jornada nas Estrelas, Martin rapidamente entregou uma solução em duas unidades: uma que ficava no veículo e outra que ficava com o policial. Mas foi só em 3 de abril de 1973 que a Motorola apresentou o primeiro celular como alternativa de comunicação interpessoal, e só em 1983 entrou em funcionamento nos Estados Unidos a primeira rede de telefonia celular. Apenas uma revolução na comunicação, mas que permitiu a disrupção que viria 30 anos mais tarde.


Nem Tim, nem Martin, podiam imaginar que no futuro existiria uma AMAZON e um GOOGLE, nem o que 5 estudantes de Harvard (um deles brasileiro) iriam criar em 2004, porque desejavam resolver um problema: algo que permitisse aos alunos (a eles principalmente) escolher entre duas garotas qual seria a que convidariam para um encontro. O resto é história, como costumamos dizer. Mark Zuckerberg assumiu o controle do FACEBOOK, despachou seus parceiros para longe, se tornou um dos caras mais ricos do mundo, e fez seu negócio egoísta gerar uma fortuna colocando pequenos anúncios ao lado de cada uma das bilhões de "curtidas" que damos todos os dias.

Até aqui só conceituei a disrupção digitrônica e apontei alguns fatos que a originaram. É óbvio que existiram outros, muitos outros, protagonizados pela determinação de Bill Gates em transformar o computador em objeto pessoal, por Steve Jobs com sua doentia mania de perfeição e design, por Marc Andreessen ao fazer o primeiro navegador, pelo mouse criado no laboratório PARC da Xerox, pelo SQL da IBM, pela estrutura de banco de dados relacional de Larry Ellison, pelos chips cada vez mais velozes da INTEL etc. Mas estes 3 que escolhi estão na base da digitrônica, pois suas ideias tornadas em produtos de massa são as que hoje fazem a disrupção.

Tim Berners-Lee rompeu com a forma de produzir e distribuir informação por texto e imagem, eliminando a necessidade de todos os processos para transportá-las de um ponto ao outro do globo terrestre. Mais que isso, tornou tal traslado, simplesmente imediato. Isto criou dois problemas: volume de informações a armazenar e necessidade de algoritmos de recuperação. Inicialmente a armazenagem era um problema do usuário, mas a pesquisa e recuperação era um problema que exigia soluções tecnológicas sofisticadas.

Então apareceu o Google com seu modelo de atrair uma montanha de capital para aplicar no desenvolvimento de um buscador "killer", matador, como dizem os americanos, que realmente primeiro matou o AltaVista (o primeiro buscador) e depois (2013), o Yahoo! Hoje, com seus algorítimos de pesquisa que eu e, tenho certeza, todo mundo pensa que só pode ser coisa do "Sobrenatural de Almeida", pois é onisciente, a tudo me respondendo em microssegundos. A disrupção do Google alcança praticamente todas as atividades humanas. Ao "saber de tudo", responder a tudo, elimina a intervenção ou participação de profissionais de várias áreas do conhecimento. Já vou ao escritório do advogado, sabendo que leis devem ser consideradas no meu litígio e quais são minhas chances, e, portanto, só quero seus serviços na montagem da estratégia. Vou ao médico levando meu diagnóstico sobre meu imaginado mal. Se leio ou ouço qualquer notícia ou simples informação sobre a qual tenho cá minhas dúvidas quanto à veracidade, apenas digito na barra de pesquisa algumas palavras e de imediato posso chegar à minha conclusão extraindo-a das tantas fontes que me são oferecidas, que aprofundam, resolvem ou certificam minhas dúvidas.

Enquanto o Google é onisciente, o FACEBOOK se tornou onipresente na humanidade, mesmo que ainda nem todos os humanos tenham sua página no aplicativo. Há muitos que crêem que não há mais vida sem FB. Exageros fora, as redes sociais são a nova ágora, a praça de Atenas onde os gregos debatiam seus assuntos mais relevantes, especialmente política. Publicar é preciso, diria Fernando Pessoa se vivo fosse. Insultar deixou de ser um comportamento grosseiro para se transformar apenas em... uma manifestação xenófoba, racista, homofóbica e além. Opinamos sobre tudo o que não temos a menor competência para opinar. Nossa credulidade nunca esteve tão à flor da pele.Pelo Whatsapp ou FB, redistribuímos prováveis mentiras como certeiras verdades. Protegidos pelo anonimato ou por perfis falsos, ofendemos uns aos outros e nos tornamos militantes radicais de causas patrocinadas por interesses escusos que não somos capazes de perceber a tempo. 

E o smartphone, o celular-computador, ou computador-celular, completa a trilogia de qualidades do ser supremo de nele tudo poder ser feito, o seu caráter onipotente. Com um celular podemos tudo.  A possibilidade de ser usado como telefone, é um detalhe menor. Com milhares de aplicativos que posso baixar gratuitamente ou por 1,99 (não importa a moeda), posso ter e ler um livro da biblioteca mundial; posso saber a que altitude estou; a previsão do tempo; cronometrar meu trajeto; aprender sobre as estrelas, planetas e constelações; chego aos lugares que nunca fui guiado pelo Waze; me oriento pela bússola; passo meu tempo com meus jogos preferidos; gravo minhas conversas, fotografo e filmo tudo o que me interessa; compro pelas "stores" disponíveis; reservo meu "ticket" para o teatro e minha hospedagem em meu próximo destino (claro, compro a passagem); revejo programas da TV; voto nas pesquisas mais estapafúrdias; "me sinto" o repórter enviando um vídeo para a rádio ou estação de TV denunciando um assalto ou simplesmente informando sobre o trânsito. Ah! Faço, ou tento, restabelecer minha conexão de banda larga clicando no aplicativo da operadora!!! Não posso nem mais "pular a cerca", minha mulher sabe sempre as coordenadas de onde estou!!!

Digitrônica: onipresença, onipotência e onisciência. Está feita a disrupção. Agora precisamos estimar, imaginar, como a sociedade, como o mundo, como a vida, irão funcionar. Que novas regras, padrões, normas, passam a vigorar. Que implicações existirão sobre a ética, sobre a moralidade, sobre a importância da virtude nas ações do homem como desejava Aristóteles, sobre o papel da vontade de potência como agente de mudanças na proposta de Nietzsche, e como se conduzirá o debate das ideias contrárias? Como desejada por Platão em sua dialética (um debate comprometido com a busca da verdade) ou um embate sangrento entre verdades opostas até que uma subjugue e escravize a outra?

Por hoje, é só. Quando voltar, vou me arriscar a explorar o que a disrupção digitrônica já mudou ou pode vir a mudar no cotidiano da vida, nas interrelações, na política, no país e no mundo.

segunda-feira, novembro 28, 2016

COMENTÁRIOS DA SEMANA - DE 27/11 A 3/12/2016

29 - "O DIA D DOS LADRÕES"

Indico a leitura da coluna de Jabor, de hoje, em O Globo.


28 - FIDEL, O PAI DELES DOS ÚLTIMOS ANOS

A "revolução cubana" de 1959, teve como mote tomar o poder em nome do restabelecimento da "democracia" (o entre aspas é explicado mais adiante).

Confesso que conheço pouco da história política mundial, mas tenho a sensação (ou conclusão do que observei ao longo da vida) que toda revolução de extrema esquerda se vale deste argumento, as variações são apenas de discurso, na prática o fundamento é o mesmo. Tomado o poder, todas elas se tornaram ditaduras de fato e/ou de direito. Tal como as revoluções de extrema direita. As diferenças estão na base. A direita se revolta, não em defesa da democracia, mas para salvar o país do totalitarismo de um comunismo radical. Ambas se sustentarão no poder promovendo uma "limpa" geral e restrita exterminando todo e qualquer dissidente, discordante ou não simpatizante.





 

Fidel, como Stalin, como Mussoline, como Hitler, como os militares no Brasil, na Argentina, enfim, como tantos outros, só sustentam suas "grandes verdades utópicas" porque reconhecem, mas não admitem, que elas são utópicas e grandes mentiras. Aboletados no poder, só lhes resta a saída de eliminar os que têm "grandes outras verdades utópicas" que possam atrapalhar suas trajetórias psicopatas em direção à perpeturação do poder. A democracia vai pro saco, ou melhor, a democracia boa é quando quem manda sou eu, seja à direita ou à esquerda do espectro de alternativas, quando todos obedecem aos meus ditâmes, sem oposição.

Mas a opressão não se perpetua sem que se estabeleça uma justificativa institucional. Assim, tal como o homem criou Deus, no plano espiritual, para estabelecer uma negociação com a força opressora - a natureza indomável, inexplicável e temida -, o cidadão cria o "Pai", o "Comandante", o protetor a quem reverenciam enquanto alguém está olhando, mas que abominam no escuro do quarto com a cabeça no travesseiro.

Quem será capaz de trazer outras explicações razoáveis para os discursos de horas de Fidel e seu "paredón" - jeito prático de se livrar de incômodos -, das manifestações de raiva de Hitler nos discursos e nas práticas contra os judeus, ou das ameças nucleares de King Jong-Un?



"A Ilha", um Estado de pequenas dimensões que, como ilha, protegido da interferência de vizinhos, foi facilmente controlado durante alguns anos. Na virada das décadas de 80 para 90, quando perdeu o escamoteador da "verdade verdadeira" por trás do discurso, a Sierra Maestra começou a desmoronar. Quem acredita na excelência do ensino cubano onde a promessa para estudantes universitários é ser motorista de táxi ou balconista de bar? Quem, no domínio de sua sanidade, acredita na excelência da medicina num país que controla o alimento da população através da distribuição de vales semanais ou mensais para troca no empório do Estado?

Todos esses líderes são psicopatas alimentando seus egos doentios. O chamado "povo" é apenas a grande massa de manobra. O que teremos no futuro? Sendo a política fundamental para a existência minimamente estável da vida em sociedade, será que conseguiremos construir mecanismos que nos livrem dessas mentes geneticamente concebidas para causar o mal? Será que os razoavelmente sãos poderão um dia servir aos seus semelhantes apenas pelo servir?

E restringindo ao tema do dia: qual a sua aposta para o futuro de Cuba no médio e longo prazos?



27 - SE NÃO QUER PARTICIPAR, NÃO ENTRE.

Marcelo Calero é um ponto fora da curva. Ele saiu do seu quadrado. Pisou na bola e chutou o balde.

Sempre tive a convicção de que as regras do meio se impõem sobre o indivíduo. Sou sempre tímido quando entro em um ambiente novo, não me exponho, me mantenho atento, observador a tudo o que vejo e acontece à minha volta. Quando percebo que já sei o suficiente, convicto de já saber os princípios e normas que ali prevalecem, então decido se permaneço - significa que concordo - ou pego meu boné e me retiro, pois sei que não terei forças, ou interesse, para mudar o meio.

Enfrentar o meio é possível, mas não é aconselhável pela alta taxa observada de insucessos. Sozinho, o reagente será nocauteado com golpes duros na boca do estômago e ganchos fulminantes na ponta do queixo que serão dolorosos por longos anos, quiçá pelo resto da vida. O espírito de corpo age raivosamente em defesa do grupo, não mede ações, tudo vale desde que corte a ameça pela raiz, independente do mal que cause. Calero está sentindo o peso da reação do poder afrontado, questionado. Foi corajoso, aparentemente cuidadoso. Se salvará ileso? Duvido muito. Com sequelas? Muito provavelmente. 

Adicionar legenda
Sérgio Moro não é um solitário Calero. Moro é síntese, é a face midiática de uma super-força tarefa que começou composta por dezenas de profissionais de uma geração de jovens que propuseram à nação um novo caminho e, em consequência, ganhou a aprovação e o apoio de milhões e milhões de cidadãos brasileiros. Mesmo assim, todos estamos assistindo diariamente às tentativas do poder (todos os 3 poderes) em arranjar uma saída para o desmonte da oligarquia atualmente no comando do país.

Dito isto, e aproveitando o dito, defendo a tese de que não há saída para o Brasil exceto esta:

1 - renúncia de todos os políticos hoje no Congresso;
  
2 - convocação, pelo executivo, de eleições para uma nova Constituinte exclusiva que tenha como alicerce, em todo o seu teor, o novo mundo emergido pós globalização e novas tecnologias de comunicação/manifestação, e que tenha prazo de 120 dias para encerrar o trabalho;

3 - convocação de eleições gerais para o legislativo e o executivo conforme as regras da nova Constituição. 

Isto não é muito, é pouco para o que temos pela frente. Mas é o essencial para um começo minimamente promissor. É mais ou menos por isto que hoje existe uma convocação geral para irmos às ruas no dia 4 de dezembro próximo.