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quinta-feira, outubro 26, 2023

EXTIRPANDO A DEMOCRACIA – 4: Do “Laissez-faire” à Tirania

AS AUTOCRACIAS (complemento)

 “O mundo grego era basicamente aristocrático, um universo hierarquizado no qual os melhores por natureza deviam, em princípio, estar “acima”, enquanto se reservavam aos menos bons os níveis inferiores. Não se esqueça de que a polis grega se baseava na escravidão.”

Luc Ferry (1951-...)  filósofo francês, professor de filosofia

  

Na postagem anterior fiz apenas uma leve apresentação da vertente política do modelo autocrático. Ficou faltando o mais importante: a abrangência e a longevidade do sistema.

A autocracia, expressão da concentração de poder político, foi, e ainda está, presente em todas os continentes, não é uma característica ocidental ou oriental. As diferenças são oriundas do desenvolvimento cultural autóctone de cada região dada a dificuldade de comunicação entre elas ao longo dos milênios. Na Ásia, os registros históricos nos mostram que o modelo foi o de dinastias familiares de longuíssima duração. Dê uma olhada nesta lista que encontrei relativa às dinastias chinesas:

1 - dinastia Han (206 a.C.–220 d.C.) – 426 anos

2 - dinastia Jin (266–420) – 154 anos

3 - dinastias do Norte e do Sul (420–589) – 169 anos

4 - dinastia Sui (581–618) – 37 anos

5 - dinastia Tang (618–907) – 289 anos

6 - dinastia Yuan (1271–1368) - 97anos

7 - dinastia Ming (1368–1644) – 276 anos


A metade “ocidental” do planeta não conheceu tal modelo. No lado de cá, para começo de conversa, as Américas não fizeram parte do mundo por 95% de nossa história. Se nos concentrarmos na Europa e África, o que vamos encontrar são os Impérios[1], um modelo de autocracia violenta sustentada tanto pela execução sumária dos cidadãos pretensamente infratores, quanto pelas guerras de conquista, uma constante milenar nestas duas regiões. Nesta região o que mais vamos encontrar são Imperadores por curto espaço de tempo, assassinados que foram por adversários ambiciosos ou mortos em guerra[2]. O oeste europeu e o norte africano formaram o palco de um teatro onde se desenrolou uma peça trágica escrita por psicopatas sanguinários sustentados por estruturas religiosas[3] que justificavam as atrocidades em nome de algum ente metafísico, sobrenatural.

A consequência das percepções que colecionei ao longo da vida sobre o desenvolvimento cognitivo e tecnológico da humanidade, é a de ser oriunda do “casamento” entre o aumento populacional e a redução do tempo de comunicação entre emissor e receptor das mensagens sobre o que quer que fosse. Por muitas razões, que não cabe abordar aqui, o aumento populacional, constante e inexorável, cria problemas e necessidades novas, exigindo novas explicações e novas soluções para lidar com as interrelações humanas de toda natureza cada dia mais complexas.

O que parece se evidenciar no exposto até aqui é a estabilidade política observada no Oriente frente a instabilidade do poder no Ocidente. Até nos dias atuais isto ainda se observa bastando olhar para o poder político na China, na Rússia, na Coreia do Norte e outros países, e comparar com os tantos conflitos políticos que ocorrem mundo ocidental afora, norte ou sul.

Nos milênios passados desde quando os humanos deixaram a vida nômade, o poder político gradativamente instalado se valeu e se protegeu pela distância entre governantes e governados. Nos séculos de dominação do Império Romano, a notícia da proximidade de tropas invasoras, apenas como um exemplo, só chegava quando já era tarde para armar uma resistência. Durante tal tempo, a reação, a rebeldia organizada da sociedade a qualquer exorbitância do poder instalado, ou era impossível ou, quando viável, chegava quando já nada podia ser feito[4].

No final do século XVIII, não só se acentua o desenvolvimento do conhecimento científico, mas também deixa de ser algo exclusivo do campo das teorias e se volta para as aplicações práticas, culminando com o que conhecemos como “Revolução Industrial”, quando as distâncias se encurtam de maneira absurda (estradas de ferro, motor a explosão, automóveis, navios, aviões etc.). Isto não só materialmente aconteceu, mas, principalmente, no âmbito da rapidez de comunicação das notícias, ideias e opiniões (telégrafo, telefone, rádio, televisão, internet e celular).

Deixei propositalmente em separado a imprensa, os meios impressos (livros e jornais) pela razão destes terem sido absorvidos pelo Estado para desempenhar um papel fundamental nos novos tempos: manter o conteúdo das mensagens conforme os ditames e interesses dos integrantes do poder político. O instrumento para tal surgiu com Guttemberg por volta de 1450, mas só em 1608 surge o primeiro jornal impresso. E no Brasil, só em 1808, com a chegada de D. João VI, é que foi permitida a criação da primeira gráfica e o primeiro jornal, a Gazeta do Rio de Janeiro, e, prova do que afirmei, “órgão oficial do governo português”.

Hoje vejo a posição de meu inimigo no celular e, com este mesmo equipamento, posso, imediatamente, tomar atitudes que me protejam ou, instantaneamente, me manifestar a favor ou contra tudo que penso ser relevante dar minha opinião. Hoje, em segundos, posso comunicar a um imenso contingente de outros cidadãos, toda e qualquer ação do poder que eu considere ameaçadora a meus direitos e à minha integridade intelectual, mental e física.

Tal realidade é uma ruptura no processo civilizatório. Uma ruptura pela ruptura, este o problema central a que a humanidade está sendo submetida e desafiada a encontrar uma solução. Uma ruptura não buscada, não construída, não organizada, não liderada, mas uma ruptura consequente da aplicação de uma tecnologia a funções para as quais não foi concebida: a de arma na ação política. Uma ruptura que pegou os phoderosos absolutamente despreparados e, portanto, incapazes para uma reação contundente. No caso do Brasil é só quando a vitória de Bolsonaro expõe um imenso contingente de brasileiros armados até a ponta dos dedos é que “caia a ficha”. Para eles “Inês” não está morta. Alexandres, Barrosos, Dinos e outros menos renomados, testam inúmeras porções mágicas no desejo de que tragam de volta aquele status quo que tanto bem lhes fez por décadas.

Não sei no que vai dar. Uma certeza tenho: poder e servidão continuará a ser a relação fundamental a conduzir os destinos da humanidade. Só resta saber sob que modelo de relacionamento e com quais consequências. Num próximo, ou próximos textos, trarei outras provocações para refletirmos e imaginarmos como será o Novo Mundo para o qual estamos caminhando.

Até lá.

 


[2]  Em quatro séculos de história, o Império Romano do Ocidente teve 69 governantes. Destes, 43 (ou 62%) morreram de forma violenta — por assassinato, suicídio ou em batalha.

[3] “No século XVI, as leis, o direito, enfim, o próprio Estado, tinham seu fundamento na religião.” Michel de Montaigne

[4] Em 2012 Olavo de Carvalho chamou a atenção para o fato de que “nenhum movimento poderia se apossar do Estado se primeiro não se tornasse mais poderoso que ele”.

terça-feira, fevereiro 22, 2022

HUMANOS DESUMANOS


Hoje não tem texto meu, pois organizando arquivos no computador, encontrei "Extratos de Revista Piauí 2018" contendo notas extraídas de artigos publicados naquele ano e um de jan/2019 (época em que ainda era uma publicação que valia a pena ler). Todos os artigos contêm reflexões que podem ajudar a entender melhor com o que estamos convivendo e fazer um exercício sobre quais poderão vir a ser as consequências para nossa vida em futuro próximo.

Chamo atenção para as notas do artigo "O pior está por vir", de Anne Applebaum, uma jornalista e historiadora americana. Ela conta algumas coisas sobre política no período em que viveu na Polônia.

O último artigo, de jan/2019, "Genocídio no Brasil", é do jornalista inglês Norman Lewis.  É uma reportagem publicada no Sunday Times Magazine em 1969, e depois publicado no livro A View of the World, pela editora Eland. Não o deixei por último à toa. Ele é a comprovação categórica da possível natureza desumana que podemos incorporar. Ao reler minhas notas um frio percorrendo a espinha foi inevitável.  Ao tentarmos descobrir as causas de tanta desumanidade em alguns humanos (desumanidade esta presente em toda a história de nossa civilização), somos levados a refletir sobre quais podem ser as razões de muitos de nós ser levado a agir com tamanha agressividade nas redes sociais. Eu NÃO recomendo a leitura por gente mais sensível.

Mas fora este último, creio que o Leitor vai poder viajar em reflexões relevantes.

 

Bom proveito!

 

 DEZEMBRO/18

 Artigo: El Salvador – a respeito da força e da fragilidade

Por: João Moreira Salles

Paul Ricoeur, pensador francês, em “O único e o Singular”: “Onde há poder, há fragilidade. E onde há fragilidade, há responsabilidade. Quanto a mim, diria mesmo que o objeto da responsabilidade é o frágil, o perecível que nos solicita, porque o frágil está, de algum modo, confiado à nossa guarda, entregue ao nosso cuidado.”

A desatenção é a primeira etapa da violência.

Alan Jacobs: “Nós que vemos o outro nas garras da aflição, nós somos obrigados, primeiro e acima de tudo, a prestar atenção”.

Ainda Jacobs: “Na ausência de empatia vem o descuido (na melhor hipótese) ou a selvageria (na pior).”

E: “A tentação do excesso é que é quase irresistível.”

Submetidos às tensões que o retiram da morada em que se sentiria amparado, não resta ao indivíduo desenraizado senão pensar segundo os termos de que dispõe, ou seja, os da violência e da força.

De um velho reitor da Universidade de Chicago: se êxito for a medida da justiça, o justo estará sempre do lado de quem tiver mais batalhões.

 

NOVEMBRO/18

Artigo: O Pior Está Por Vir


Por: Anne Applebaum (Americana, jornalista e  historiadora, casada com diplomata polonês)

Naquele momento (celebração de ano novo dez/1999), com a Polônia na iminência de se integrar ao Ocidente, tinha-se a impressão de que torcíamos todos pelo mesmo time. Concordávamos sobre a democracia, o caminho para a prosperidade, o rumo que as coisas estavam tomando.

Aquele momento passou. Decorridas quase duas décadas, cheguei a mudar de calçada para evitar algumas das pessoas que celebravam o ano 2000. por sua vez, elas não só se recusavam a entrar na minha casa como tinham vergonha de admitir que um dia a frequentaram. Na verdade, cerca de metade dos convidados nunca mais falaria com a outra metade.

Dadas as devidas circunstâncias, qualquer sociedade pode se voltar contra a democracia. Alias, a julgar pela história, todas as sociedades acabarão por fazê-lo.

Duas décadas atrás, diferentes interpretações de “Polônia” também já deviam estar presentes, à espera do momento de vir à tona, conforme as circunstâncias e em razão de ambições pessoais.

A quem cabe definir uma nação? E a quem, por conseguinte, cabe conduzir uma nação?

Monarquia, tirania, oligarquia, democracia: tudo isso era familiar a Aristóteles, há mais de 2 mil anos. Mas o regime antiliberal do partido único, ora encontrado em todo canto do mundo – considere-se a China, a Venezuela, o Zimbábue -. foi pela primeira vez desenvolvido por Lênin, na Rússia, a partir de 1917.

[Lênin será lembrado] não por suas convicções marxistas, mas por ter inventado esta persistente forma de organização política. Ela é o modelo pelo qual se pautam muitos dos autocratas hoje em ascensão no mundo.

Diferente do marxismo, o regime leninista de partido único não é uma filosofia, é um mecanismo para deter o poder. Ele funciona porque define claramente quem vem a ser a elite – a elite política, a elite cultura, a elite financeira.

O regime unipartidário bolchevique não era apenas antidemocrático: era também não competitivo e não meritocrático. Vagas nas  universidades, empregos no funcionalismo público e postos no governo e na indústria não cabiam aos mais diligentes ou aos mais capazes: cabiam aos mais leiais.

Como escreveu Hanna Arendt nos idos da década de 40, o pior tipo de regime unipartidário “invariavelmente substitui todo talento, quaisquer que sejam suas simpatias, pelos loucos e insensatos cuja falta de inteligência e criatividade é ainda a melhor garantia de lealdade”.

Ressentimento, inveja e, sobretudo, a crença na injustiça do “sistema” são sentimentos importantes entre os intelectuais da direita polaca.

A experiência fez com que Jaroslaw se desse conta de que não gostava de política, em especial da política do ressentimento: “Eu entendi o que era de fato fazer política: promover intrigas terríveis, vasculhar sujeira, fazer campanhas difamatórias.”

O apelo emocional de uma teoria conspiratória está em sua simplicidade. Ao explicar fenômenos complexos, esclarecer acasos e acidentes, ela propicia a sensação gratificante de se ter acesso privilegiado ou especial à verdade.

O apelo do autoritarismo é eterno.

O escritor venezuelano Moisés Naím visitou Varsóvia poucos meses depois que o Lei e Justiça [partido de direita] chegou ao poder. Pediu-me que descrevesse os novos dirigentes polacos: Pessoalmente, como eram? Enumerei alguns adjetivos: “raivosos”, “vingativos”, “rancorosos”. “Parecem”, ele disse, “ser iguaizinhos aos chavistas.”

Mais cedo ou mais tarde os perdedores contestarão o mérito da competição em si.

O regime autoritário ou mesmo o semi-autoritário – o regime de partido único, antiliberal - propiciam essa esperança: de que a nação será conduzida pelas melhores pessoas, as que merecem mandar, os quadros do partido, os que acreditam na Mentira de Médio Porte. Para tanto pode ser preciso subjugar a democracia, corromper a atividade empresarial ou arrasar o sistema judiciário. Mas nada disso é impossível para quem julga estar entre os que merecem mandar.

 

OUTUBRO/18

Artigo: Minha Fraqueza – Anotações desordenadas sobre a condição feminina

Por: Margarita Garcia Robayo

A subjetividade existe para além da consciência que possamos ter dela.

 

Artigo: Uma viagem de psilocibina – Eu tinha decidido me entregar a esse grande cogumelo

Por: Michael Pollan

Eu tinha no meu notebook um vídeo curto de uma mascara girando, usado num teste psicológico chamado ilusão da mascara côncava. Enquanto a mascara gira no espaço, o lado convexo se move para revelar o verso côncavo, e algo incrível acontece: a mascara oca parece saltar para se tornar convexa de novo. Esse é um truque produzido pela nossa mente, que presume que todo rosto é convexo, e então automaticamente corrige o que parece um erro – a menos que, como um neurocientista me disse, você esteja sob a influência de uma substancia psicodélica.


SETEMBRO/18
Artigo: Arquitetura do nevoeiro – A sobreposição explosiva de opacidade e nitidez, incerteza e convicção, no tempo da “pós-verdade”

Por: Guilherme Wisnik

Além de ser um riquíssimo espaço de pesquisa e de conhecimento em potencial, o ciberespaço é também – como meio de comunicação e integração – um “lugar” no qual as pessoas expõem muito menos dúvidas do que certezas.

Progressivamente mapeado e decodificado, o mundo se oferece a nós em imagens cada vez mais nítidas, nas quais as dúvidas e ambiguidades, ou zonas de sobras e incertezas, vão sendo apagadas.

De um lado, a opacidade  no que diz respeito à compreensão geral das coisas e à nossa capacidade de nos situarmos individual e coletivamente em um sistema-mundo globalizado que se tornou impalpável e especializado de mais. De outro, a nitidez excessiva no trato mais objetivo e cotidiano com as informações, promovida pelo aumento de acessibilidade, da proximidade e da ubiquidade. (...) É dessa imbricação estranha, explosiva e aparentemente contraditória entre nublamento e nitidez que surge o fenômeno da “pós-verdade”, com as fake news e a apropriação de formas discursivas da esquerda por grupos de direita.

Busca-se uma espécie de supernitidez do involuntário, da revelação inconsciente. E não seria essa a ilusão última trazida pelo árbitro assistente de vídeo (VAR) na Copa do mundo de 2018? A crença cientificista, de fundo messiânico, em uma verdade ultima a ser revelada por meio da aparelhagem-oráculo, redimindo o jogo de todas as ambiguidades, assim como das imperfeições humanas do arbitro?

Ao registrar o mundo com potentes lupas e microfones, a aparelhagem contemporânea consegue trazer à tona camadas antes ocultas da realidade, expondo-as como verdades finalmente reveladas.

Georges Bataille: “É sob a forma de catedrais e de palácios que a Igreja e o Estado se dirigem e impõem silencio às multidões.”

As informações têm que ser mantidas em constante movimento, pois os atributos que constituem a sua razão de ser e lhe conferem valor são a circulação e o intercambio. (...) é a informação que gera preço. O que, por sua vez, cria novas decisões de compra e, portanto, mais informação circulando de forma cada vez mais ágil.

Coletivo de design holandês Metahaven: “O enorme sucesso da nuvem é fornecer todas as coisas ao mesmo tempo.”

O que nos faz pensar que as raízes anarcolibertárias da internet estão sendo em grande medida cooptadas e invertidas por essa centralizada arquitetura de poder, baseada em sistemas fechados e caixas-pretas, que reprime, como argumenta Jonathan Zittrain, a capacidade generativa e inovadora da web.

Quantidades incalculáveis de mensagens e arquivos anexos são armazenados na nuvem a fundo perdido, por tempo indeterminado, ocupando “espaços” cada vez maiores e mais pesados. Toneladas de fotos de férias passadas, que nunca mais serão vistas por quem as fez nem por ninguém ficam guardadas, flutuando num futuro do pretérito imponderável, que constitui um lixo digital problemático em nossa sociedade arquivística.

O arquiteto Ram Koolhaas criou o conceito de junkspace como definição cáustica do mundo urbano atual. O junkspace, “é o resíduo que a humanidade deixa sobre o planeta”. Pois “o produto construído [...] da modernização não é a arquitetura moderna, mas antes o junkspace”. Isto é, aquilo que “sobra depois que a modernização terminou seu curso ou, mais precisamente, o que coagula enquanto a modernização está em progresso, seu efeito colateral”.

O junkspace é a forma física assumida por um mundo que desfez as fronteiras entre trabalho e lazer, ou entre o escritório e a vida doméstica, congelando-se numa espécie de sexta-feira informal interminável. (...) É em nome do acesso permanente à informação que aceitamos ser despojados de toa a nossa privacidade, tornando-nos cúmplices no rastreio das impressões digitais deixadas por nossas transações.

[Estamos em um] universo de fingimento e ficção baseado na naturalização de realidades ilusórias, a chamada “hipernormalização”. Exemplos atuais disso são as fake news e os ambientes de bolhas das redes sociais, nos quais se reúnem pessoas de opiniões coincidentes, que têm a falsa impressão de que seus ideais refletem a realidade da maioria da sociedade.

 

AGOSTO/18

Artigo: O Anjo Redentor (Doutor em Ciências Sociais pela PUC/RJ)

Por: Antonio Engelke

Padilha: “As ciências sociais não dispõem de modelos teóricos que incorporem, ao mesmo tempo, variáveis políticas, econômicas, tecnológicas, geográficas, climáticas e culturais. E é obvio que qualquer dessas variáveis pode alterar drasticamente a evolução de uma sociedade. Processos sociais são, pura e simplesmente, complexos demais para serem modelados.” (...) “A verdade é que todos os grandes dogmas da esquerda e da direita são mitos.”

Dizer que a espoliação sistemática da Petrobras tem a mesma origem e características que a “cervejinha do guarda”, reduzindo ambos os fenômenos a uma essência comum que os constituiria, não nos ajuda a compreender nem a dinâmica do saque à estatal, nem a do drible à multa de transito.

Foi o regime militar que deu força econômica e política às construtoras, pois os contratos recebidos permitiram às empreiteiras tornarem-se multinacionais e ampliarem suas atividades para outros ramos.

Mas, se o mecanismo determina em última instância o modo de funcionamento da política, ficamos sem ter como explicar os muitos avanços de nossa democracia. Segundo a lógica de Padilha, iniciativas como a Lei de Responsabilidade Fiscal, a expansão da Controladoria-Geral da União ou a autonomia funcional do Ministério Público só poderiam ser deslizes ou cochiladas eventuais do mecanismo.

[Ele defende um] processo constante de aperfeiçoamento de arranjos regulatórios.

O filme veio saciar os anseios vingativos de uma população historicamente avessa aos direitos humanos, estressada pela violência cotidiana e, por isso, predisposta a aplaudir uma autoridade vista como impiedosa e incorruptível.

[Ele atribui a Tropa de Elite a intenção de condenar] a própria atividade política, vista como o inimigo cuja eliminação possibilitaria o estabelecimento de uma ordem social pacificada.

A obra de Padilha pode ser lida como uma das muitas respostas que vêm ganhando força em face da sensação de falência da representação democrática – populismo xenófobo de direita, populismo estatizante de esquerda, fascismos, anarcocapitalismo etc.

Narrativa simbólica que é, o mito político coloca em suspenso o problema da verdade.  (...) O mito político confere um sentido às circunstâncias que envolvem os indivíduos.

O mito convence justamente porque não aparece como discurso racional de persuasão.

Freud observa que o vínculo entre o indivíduo e o líder é de “enamoramento”. (...) O sujeito admira não tanto o líder em si, mas a projeção de sua imagem, idealizada, livre de qualquer desvio ou impureza.

O recalque em jogo é o do fantasma da servidão voluntária: narrativa mítica que permite ao indivíduo abandonar a própria autonomia em favor do Redentor, mas sem experimentar isso como submissão opressiva ou alienante.

A servidão voluntária atinge o sentimento de democracia, a democracia como uma forma de vida, na medida em que nega seus pressupostos de autonomia e participação popular.

Moro (ao lado de Lula) é atualmente a encarnação mais poderosa do mito do Redentor, razão pela qual as contradições de seus atos não despertam muito questionamento na esfera pública.

Não há registro de cruzada punitivista que, em nome da luta contra a corrupção, tenha sido bem-sucedida e feito terra arrasada do jogo político.

Todo discurso sobre redenção é também um discurso sobre a fragilidade da condição humana.

 

JUNHO/18

Artigo: Junho, Ano V

Por: Marcos Nobre

O que ocorre atualmente no mundo é um ajuste político global. Movimentos regressivos como os que vemos atualmente são tentativas de controlar mudanças de fundo, que são as que mais resistem ao controle.

Uma das maneiras de os sistemas políticos manterem o controle da transição é dando inicio a guerras, ditaduras e experiências neofascistas.

Uma das formas da convivência conflituosa é a que poderia ser caracterizada na fórmula adversários-parceiros.

Em sua luta pela sobrevivência, os sistemas políticos construíram uma estratégia sólida de chantagem: fundiram-se aos Estados nacionais. (...) Pretendem apagar qualquer diferença entre Estado, governo e Parlamento. (...) Só que, com a rejeição generalizada aos sistemas políticos tal como eles funcionam, essa simbiose resultou até agora em um abraço de afogados, em uma crise de legitimidade da ação do Estado.

Quem se beneficia direta e indiretamente de políticas públicas decisivas para manter sua posição social não vê nenhuma contradição em malhar o mesmo Estado de cuja ação se beneficia.

A ideia de uma renda básica universal, até pouco tempo debatida somente em círculos acadêmicos restritos, seja agora parte da agenda internacional.

Não haverá rede de proteção para todo mundo, não haverá cidadania para todo mundo.

A democracia não se democratizou, mas durou tempo suficiente para fazer surgir na sociedade divisões antes reprimidas ou mantidas invisíveis.

Nação, população e território deixaram de coincidir no imaginário político. Cada grupo tem a sua nação, incompatível com a nação do grupo vizinho.

[Esta] Será, portanto, uma eleição em que vão se conjugar a rejeição generalizada e difusa ao sistema político com a blindagem desse mesmo sistema político contra essa rejeição. Do lado do sistema político, será uma eleição que concede grande vantagem às maquinas partidárias. Do lado do eleitorado, tende a ser uma eleição com altos índices de abstenção e de voto brancos e nulos. Da parte do sistema político, tende a ser uma eleição com baixas taxas de renovação efetiva de representantes.

A cúpula do sistema político parece convencida de que alguma mudança de relevo é necessária, e apenas pretende que, dentro do possível, sejam os mesmos personagens da atual política que façam a mudança.

 

Artigo: A Nova Memória Coletiva

Por: José Roberto de Toledo

A praticidade matou a privacidade, e vai continuar matando.

Quanto mais tecnologicamente prática a vida se torna, menos privada ela é. Pergunte ao seu celular.

 

Artigo: O Grau Zero da Linguagem

Por Salman Rushdie

A passagem do tempo muitas vezes altera o significado de um fato. À época do Império Britânico, a revolta militar de 1857 na Índia ficou conhecida como “motim indiano” (...). Hoje, os historiadores indianos se referem ao acontecimento como uma “revolta” (...). A história não é escrita na pedra. O passado é constantemente revisado, em consonância com os pontos de vista do presente.

Em toda a obra de Jane Austen, as Guerras Napoleônicas mal são mencionadas; na obra imensa de Charles Dickens, a existência do Império Britânico só é reconhecida de passagem.

Como resistir à erosão da aceitação pública até mesmo de “fatos básicos”, fatos científicos e comprovados sobre (por exemplo) as mudanças climáticas e a vacinação infantil?

 

POESIA

Autor: Abbas Kiarostami (1940-2016)

 

Na tua ausência

converso

contigo,

na tua presença

converso comigo.

 

Hesitante

estou numa encruzilhada,

o único caminho que conheço

é o caminho da volta.

 

Aos olhos dos pássaros

o ocidente

é onde o sol se põe

o oriente

onde o sol nasce,

apenas isso.

 

 

MAIO/18

Artigo: O Herdeiro (sobre Guilherme Boulos)

Por: Fabio Victor

[Para o MTST] Só tem direito a pleitear moradia quem participa dos atos até o fim. A prática consta no regimento interno do MTST, segundo o qual “o critério principal para a conquista de moradia é a participação nas lutas e assembleias”.

 

Artigo: A guerra do PCC

Autor: Allan de Abreu

A facção proibiu o consumo de crack nos presídios, e passou a auxiliar os detentos “batizados”, chamados de “irmãos”, com advogados e cestas básicas para os familiares. A renda vinha do crime: o controle da compra e venda de drogas dentro dos presídios e o patrocínio de assaltos e seqüestros fora deles, sem contar rifas e uma taxa mensal, que atualmente é de 950 reais apelidada de “cebola”, que todos os filiados são obrigados a pagar.

[O valor do auxílio reclusão que nós contribuintes pagamos é hoje (ago/18) de R$ 1.3189,18 – é mais de 30% que o salário mínimo, atualmente de R$ 954,00!!!!]

O PCC (...) está infiltrado nas instituições do Estado (há dois anos, por exemplo, um membro do PCC foi acolhido no Condepe, o conselho de defesa dos direitos humanos de São Paulo).

 

Artigo: Histórias da Rússia – Uma viagem pelo país da revolução bolchevique cem anos depois

Por: Karl Ove Kanusgard

Karl pergunta: Já se passaram 100 anos desde a revolução. O que isso significa para vocês?

- Não damos bola para isso. Foram 100 anos sem Deus. Puseram abaixo todas as igrejas. Agora elas estão sendo reconstruídas e a gente pode ir à igreja sem medo.

O que fez você se voltar para a fé?

- Perguntei a mim mesma o que poderia fazer por ele depois da morte de meu pai. E, nos ensinamentos do islã, lê-se claramente: você deve dar esmolas aos pobres, fazer a peregrinação a Meca e sacrificar um bode.

Em Varsóvia, os edifícios destruídos na Segunda Guerra Mundial foram substituídos por réplicas imaculadas. (...) O velho não era velho, o novo não era novo. Onde estávamos então?

Uma história reina soberana, e todo e qualquer desvio em relação a ela é proibido. Foi assim à época dos czares, que censuravam livros e jornais; foi assim também sob Lênin; e assim é hoje ainda – na Rússia, jornalistas são presos regularmente e, por vezes, assassinados, sem mais.

As pessoas têm um mecanismo que as impede de falar sobre experiências ruins e as faz relutantes quando se trata de remexer no passado. (...) Nossa identidade é moldada por histórias, histórias sobre nossa própria história, sobre a história de nossa família, sobre a  história de nosso povo ou de nosso país.

Serguei Lebedev (Jornalista e romancista): A cada ano tentam reduzir a importância de 1917. fazem isso porque, em sua versão ideal dos acontecimentos, não houve revolução! Estão tentando estabelecer  um vínculo ininterrupto entre os czares e a Rússia de Stálin. De acordo com a  narrativa atual, espiões estrangeiros e traidores nos provocaram a matar uns aos outros 100 anos atrás. Isso não pode acontecer de novo. Portanto, temos que  nos unir; portanto, precisamos seguir a bandeira de Putin; portanto, temos que sacrificar os direitos civis, porque não pode acontecer de novo. Em linhas gerais, é isso.

Lebedev: Mas se você quiser entender o que aconteceu neste país nas décadas de 20 3 30, não pode ignorar a violência e os horrores dos cinco anos entre 1917 e 1921. não vai conseguir entender por que as pessoas estavam tão dispostas a matar umas às outras. Tem havido  uma espécie de guerra pela memória aqui na Rússia, uma guerra em que se disputa o que deve ser lembrado ou esquecidos.

Poucas coisas são mais belas que a esperança vã.

 

JAN/19

Artigo: Genocídio no Brasil – Em reportagem de 1969, o extermínio sem fim dos índios no Brasil.

Autor: Norman Lewis, jornalista inglês.

Jesuíta missionário José de Anchieta: “Não há melhor pregação do que a espada e a vara de ferro.”

Com a invenção do automóvel e do pneu de borracha (...) Manaus estava de volta aos negócios instantaneamente convertida em uma Gomorra tropical. (...) Nesse período grassavam orgias babilônicas em que as cortesãs tomavam banhos semipúblicos de champanhe, bebida que também era servida, em baldes, aos cavalos que venciam as corridas de turfe. Homens afeitos à moda enviavam suas roupas sujas – as de cama e as de baixo – para serem lavadas na Europa. (...) a relação sexual com uma virgem era tida como uma cura certeira para doenças venéreas.

Um elemento de competição estava presente quando se tratava de matar índios. De uma feita, 150 trabalhadores irremediavelmente ineficientes foram capturados, reunidos e cortados em pedaços, empregando-se uma pavorosa habilidade local que incluía o “corte do bananeiro”, em que a lâmina do facão era brandida para trás e para a frente decepando duas cabeças de uma só vez, e o “corte maior” em que um corpo era fatiado em duas ou mais partes antes que pudesse tocar no chão.

Algumas das histórias contadas sobre as casas-grandes do Brasil do século passado em seus dias de respeitável escravidão e licenciosidade romana desafiam a imaginação: um escravo acusado de algum crime de ínfima gravidade é castrado e queimado vivo; por ordem de uma senhora enciumada, os dentes de uma bela jovem são arrancados e seus seios amputados, apenas por garantia; outra moça, que descobrem grávida, é jogada viva dentro do forno.

Por que toda essa crueldade sem sentido? O que é que faz com que homens e mulheres, provavelmente de extrema respeitabilidade em sua vida cotidiana, torturem pelo mero prazer da tortura? Montaigne acreditava que a crueldade é a vingança do homem fraco por sua fraqueza; uma espécie de parodia doentia da bravura. “A matança após uma vitória é geralmente perpetrada pela ralé e pela criadagem que carrega a bagagem.”

Francisco Amorim Brito, encarregado geral da empresa seringalista Arruda, Junqueira & Cia., de Juína-Mirim, perto de Aripuanã, no rio Juruema, gostava de fazer troça dos índios, e quando um deles era capturado, levava-o para o que era conhecido como “a visita ao dentista”: o índio recebia ordens para “abrir a boca”, e ato contínuo, Brito sacava uma pistola e atirava dento.

Num outro episódio, Brito arrastou a mulher e pendurou com uma corda em uma árvore, de cabeça para baixo, as pernas bem abertas e com um só golpe do facão abriu o corpo dela ao meio.


quarta-feira, março 25, 2020

O ÓBVIO ULULANTE E O CAPITÃO MALUQUINHO


O processo cognitivo humano é lento. O caminhar do entendimento dos fatos até sua real compreensão é em etapas. Segue não linear e saltitante até que... eureka!, então era isso!? Só isso!?

Aposto que você que me lê tem percebido que desde a primeira vez que ouviu sobre esse tal Covid-19, tem passado de uma certeza a outra a cada novo dia, a cada novo zap que lhe chega, a cada entrevista do ministro da saúde ou de um governador mais midiático, a cada má intenção interpretativa de algum órgão da imprensa televisiva, principalmente, ou jornalista em particular.

Depois de, podemos considerar, duas semanas de enxurrada de informações isentas, outras especializadas, outras falsas, outras mal intencionadas, estamos chegando à compreensão de que não temos pandemia virótica, pelo menos não diferente de tantas outras que nos rondam. A realidade que emerge é a total pandemia da falta de infraestrutura na rede de saúde capaz de dar conta ao atendimento adequado e eficaz àqueles de nós, infectados, que estiver mais propenso a desenvolver uma enfermidade mais grave do que uma simples "gripezinha", essa que não vai afetar a absurda maioria de nós.

A continuarmos nesta insana trilha de indiscriminadamente todos nos mantermos em quarentena domiciliar por um tempo que ninguém sabe qual, teremos como resultado um volume de mortes muito maior causado pela fome, violência, depressão e outros males consequentes. Isto parece que agora pulula como um outro óbvio.

Não estamos, como país, sozinhos na escalada da expansão do vírus. O que o noticiário nos evidencia é que há uma diferença básica entre aqueles onde existiam leitos e equipamentos suficientes (Alemanha e outros), e aqueles que apresentam sérias deficiências na infraestrutura de atendimento hospitalar (Itália, Estados Unidos, Brasil...).  Os primeiros não precisaram radicalizar nas medidas de restrição à livre circulação, enquanto os demais estão caminhando para o caos econômico e social.

Eis o óbvio ululante: a única ação que nos livrará no menor tempo e no menor custo dos danos desta virose é a imediata e intensa criação de leitos e equipamentos em uma quantidade acima da mais pessimista previsão de volume de casos críticos, num verdadeiro "esforço de guerra". Quem não entendeu ainda essa parte da solução problema?

Nosso "capitão maluquinho" já entendeu isso, me parece. O problema dele é sua monumental incapacidade de se comunicar, seja como um líder, seja como um estadista, seja como Presidente da República em sua mais simples atribuição: falar à nação. A pergunta que me faço é que, já sendo vários os fatos que evidenciam tal incapacidade, por que diabos ele ainda abre a boca já que este é o óbvio mais ululante entre todos?

Quando, portanto, senhor Mandetta, sendo eu um idoso com 1 ou 2 cormobidades, vou poder sair de casa com a tranquilidade de que, caso venha a ser infectado, serei pronta e eficazmente atendido? 

P.S.: Mensagem que enviei pelo Whasapp dia 26/3/20:

Povo governante de todas as esferas! Parem de bater cabeça pois o óbvio é ululante, gritaria a plenos pulmões Nelson Rodrigues se vivo fosse. A única estratétigia que resolve é usar todas as táticas imagináveis para disponibilizar leitos, equipamentos e profissionais de saúde em quantidade maior que a mais pessimista previsão, pois, é certo, a contaminação só acabará quando TODOS estivermos infectados. Chama-se isso de "esforço de guerra" concentrado. O resto é discussão hipócrita, política e inócua.


sábado, março 30, 2019

A CONSCIÊNCIA DOS EXCLUÍDOS - Parte IV

Postagens anteriores: A Consciência Dos Excluídos - Parte I - A Consciência Dos Excluídos - Parte II - A Consciência Dos Excluídos - Parte III

Sentir-se excluído do que quer que seja, não enseja como consequência inevitável, tornar-se um assassino solitário ou em série, um suicida, um traficante, um estuprador ou um bandido de qualquer naipe. É preciso ter uma base, um alicerce, que sirva de sustentação para as ações de revolta. 

A psicopatia(*), para uns, é um distúrbio psíquico (condição adquirida por eventos ao longo da vida), enquanto, para outros, é neurológico (genético). Para o que nos interessa, a origem não tem relevância, apenas sua existência, pois significa que o portador desta condição tem como característica fundamental a total insensibilidade aos sentimentos alheios. É este estado emocional que o faz cometer um leque de maldades sem que sinta o mínimo remorso ou culpa de seus atos cruéis (mais adiante discordo parcialmente desta última conclusão) (**).  

Psicopatas sempre existiram, é uma das alternativas de constituição de um ser humano. Seus atos estão apenas mais expostos nos dias atuais, tanto pelo imediatismo da informação, quanto pela tecnologia, basta nos lembrarmos da câmera transmitindo ao vivo o australiano assassinando pessoas na Nova Zelândia. 

A psicopatia, portanto, vem à frente da frustração. Indivíduos no poder não precisam se sentir frustrados para roubar uma empresa estatal - em benefício próprio e de políticos comparsas ou mandantes -, sem pudor, remorso ou culpa, mas só enquanto não são pegos (depois choram e fazem delação premiada). E no caso de executivos em ascensão meteórica, o estímulo da frustração é facilmente substituído pela ganância, o que lhes facilita enormemente destruir competidores, sem dó nem piedade, no trajeto ao topo (***). Assim como o psicopata não precisa da frustração para se manifestar, o frustrado não carece da psicopatia para mostrar sua insatisfação, basta nos reportarmos às manifestações dos coletes amarelos na França, ou à passeata do 13 de junho de 2013, no Brasil.

Há de existir um "elemento-gatilho", algo que dispara a ação psicopata. Acredito que 99% das manifestações psicopatas são contra alvos não rotulados, ou difusos, não personificados. Tais atos são considerados de interpretação moral subjetiva, dependendo de que lado se está. Para o autor da ação, a justificativa é inocente, do tipo "só estou cuidando dos meus interesses", "se não for eu, será outro", e por aí vai. Apenas não olham para trás, e assim não enxergam as vidas despedaçadas que deixam pelo caminho, o contingente de "almas" destruídas (Sérgio Naya em relação às vitimas do Palace II é exemplar).

Sobra-nos o 1% quando o alvo é a aniquilação de vidas humanas. Nestes casos, o gatilho que dispara a ação e aciona a arma, tem origens mais profundas. No meu entender, está no fundo do sentimento de frustração em se ver vítima de um outro, de um grupo social, econômico, étnico, ou de um governo, ou de uma injusta decisão divina. Seja nos tantos estupradores e feminicistas do cotidiano brasileiro; em Adélio, no caso Bolsonaro; nos dois jovens de Suzano; nos tantos outros aderentes ao Estado Islâmico; ao não tão jovem serial-killer de Cristchurch; em todos estes casos, houve um fato "click", o acionador do interruptor que ligou sinapses com destino certo: acabar com a vida de outro(s). 

O leque de "clicks" a que me refiro, é de raio infinito. Pode ser uma mulher em uma rua deserta, pode ser uma dada interpretação do texto sagrado, pode ser, nos dias atuais, o hábito de matar personagens em jogos eletrônicos. 

E aqui estou chegando ao fim destas quatro postagens. Tanto no caso de Cristchurch, quanto no de Suzano, minha convicção é a de que os assassinos agiram sob um surto psicótico que os levou para dentro de um jogo de guerra em uma tela de computador (resultado de psicopatia+frustração+estímulo). Em ambos os casos eles se viram atirando em personagens de desenho animado. Mas em Suzano, aconteceu algo mais. Ao perceber a chegada da polícia, o jovem de 17 anos acorda do transe, percebe o terror de seu ato, mata seu amigo e parceiro, e se suicida (por este fato minha discordância quanto a nunca "sentir o mínimo remorso" citado no 2º parágrafo).

Há quem esteja atribuindo "ao lado negro da internet" a razão de tal massacre. É, como se diz, atribuir ao sofá a traição do cônjuge, ao invés de aceitar o direito inalienável, inevitável, do outro decidir o que fazer com o... sofá. Quantos milhões e milhões de crianças têm estado nestes últimos anos à frente de telas de computador por horas a fio assumindo o controle de personagens rambóticos à caça de inimigos saídos da imaginação de mentes, no mínimo, extremamente criativas? Quantos deles estão se transformando em potenciais reais matadores? Que tal olhá-las como crianças felizes com o prazer de estar brincando com o aquilo que o mundo contemporâneo lhes está a disponibilizar?

Quando criança, adorava jogar búlica(****) na beira do rio (minha mãe me pegava pela orelha para ir almoçar). Para ganhar era preciso não deixar que os outros meninos chegassem primeiro na última búlica. A estratégia era "tecar" com força a bolinha de gude de um adversário, mandando-a para o mais distante possível. Nem por isto, quando adolescente ou adulto, me tornei um atirador de bolas de vidro na cabeça dos outros!!!

Até o próximo tema, espero que no próximo sábado!  



(*) Para saber sobre psicopatas .

(**) Em média, entre 1% e 3% da população mundial pode ser classificada como psicopata. Neste artigo da BBC, você tem mais informações. 

(***) É interessante o que está acontecendo atualmente com Jorge Paulo Lemman - o mago da meritocracia e do ¨fodam-se os demais" -, seus sócios e suas mega-empresas (ver revista Época de março/19).

(****) Conheça as regras do jogo de búlica..


As imagens aqui inclusas foram obtidas na internet e sem identificação de autor. Caso você seja autor de alguma, por favor me informe para que possa incluir o crédito.

domingo, outubro 28, 2018

CARTA ABERTA AO PRESIDENTE ELEITO

Caro Presidente,

A apuração está encerrada e o senhor recebeu o voto de mais de 57 milhões de eleitores brasileiros. Em 1º de janeiro próximo o senhor será empossado, recebendo, como símbolo, a faixa presidencial verde-amarela. É básico, fundamental, ter absoluta clareza quanto ao fato de que, a partir de agora, o senhor está comprometido com mais de 210 milhões de cidadãos. Mas nestes pouco mais de 60 dias que nos separam da posse, todos estes brasileiros esperam que o senhor se dedique a montar uma estrutura de governo que coloque o Brasil nos trilhos do desenvolvimento e, simultaneamente, promova a redução do déficit público, da carga tributária, da desigualdade, da criminalidade, do desemprego e da corrupção. Serão tarefas complexas que exigirão propostas de solução eficazes, capacidade de negociação e paciente determinação para atingir as metas possíveis.  

Se lhe endereço esta carta aberta, é por um sentimento de receio quanto aos rumos que pretende dar em questões vitais para a democracia que desejamos - a considerar suas mais recentes falas. É, portanto, com este espírito, misto de esperança e temor, que lhe apresento, para reflexão, minhas percepções sobre o que a grande maioria dos cidadãos brasileiros desejam.

O senhor foi eleito, em primeira instância, pela percepção de ser o único candidato que nos daria a oportunidade de livrar o país das nefastas ideias do esquerdismo retrógrado que destruiu o país em 14 anos de incompetência e roubalheira, e ameaçando se perpetuar no poder. Nosso voto, em sua candidatura, foi, antes de tudo, voto anti-esquerdização. Sei que isto é reconhecido pelo senhor e sua equipe, mas ser humilde perante este fato, será seu primeiro grande teste como presidente eleito.

Seu discurso de combate à criminalidade foi seu segundo atrativo como candidato. Os 60 mil assassinatos anuais nos dão uma visão superficial da enormidade do problema, e uma sensação de impotência que nos faz olhar para soluções radicais pelo medo constante de sermos a próxima vítima. Mas estão cegos aqueles que enxergam em nosso voto vontade de matar.  Nosso voto é pela vida. Nosso desejo utópico é para que não hajam mais mortos. Queremos  menos e não mais violência! As causas da criminalidade são muitas, algumas de difícil ou dispendiosa eliminação, outras dependem exclusivamente da ação de governos de países vizinhos, mas a que considero a principal e de mais fácil solução, é a de uma drástica redução da massa de excluídos do sistema econômico. Nossas comunidades mais carentes estão repletas de excluídos, sem trabalho, sem perspectiva de futuro. Se até o direito de sonhar lhes foi tirado, o que resta? Estamos frente a algo muito simples: no extremo, se não existirem excluídos, onde os psicopatas criminosos irão recrutar seus soldados? Na semana antecedente a este segundo turno, a mídia divulgou com destaque o fato de que existem 12 mil obras públicas paralisadas em todo o Brasil! Fazendo um cálculo simples, se todas forem rapidamente retomadas e se a média por obra for de 500 trabalhadores, serão gerados, em curto espaço  de tempo, 6 milhões de empregos! Esta é a prioridade que os brasileiros querem que seja eleita. Redução do desemprego e consequente e imediata redução da violência em uma só ação do governo.

Nas escolhas de nomes para o primeiro e segundo escalão, temos nossas apreensões. Além das razões ligadas ao fracasso da gestão e à corrupção do período petista, o voto anti-esquerda foi um sonoro "não" ao totalitarismo pretendido e anunciado no plano de governo da coalização dos partidos de esquerda e presente nas ameaças públicas feitas por seus próceres, entre elas: indulto a condenados (presos ou não), aniquilação da Lava-Jato, tomada de poder à força, convocação de nova constituinte, controle da mídia e outros autoritarismos de toda espécie. É crucial que das linhas e entrelinhas do resultado destas eleições, seja percebido que os brasileiros não querem ditadura de qualquer espécie e viés. Queremos democracia mais e mais aprimorada. Mas é aí que o senhor nos tem enviado mensagens incompatíveis com nossa vontade manifesta. Não queremos o retorno de um militarismo no comando do país. Militares, por essência e obrigação, são subordinados à uma hierarquia rígida que não admite processos democráticos que levam em conta o jogo de forças contrárias. É fundamental que assim seja para o cumprimento do papel das Forças Armadas como prevê a Constituição. Admitir um militar da reserva como seu vice, é plenamente justo e aceito por todos como ficou provado. Admitir um General da ativa como Ministro da Defesa, é sensato e correto. Mas é aí que a participação de militares no poder deve terminar, pois, do contrário, o senhor e todos nós estaremos sob o jugo das baionetas.


Nosso voto incluiu apoio a medidas que nos liberem das cargas que o Estado brasileiro veio, ao longo das últimas décadas, aumentando sobre nossos ombros. Queremos relações ágeis e fáceis com as instituições do Estado; queremos uma federação real, de fato, que dê aos estados e municípios mais recursos e mais autonomia; queremos incentivo ao empreendedorismo; queremos menos cartórios, menos carimbos, menos certidões e, principalmente, menos Estado que tudo quer controlar, nada controlando, apenas facilitando a corrupção institucionalizada.

Se invocar Deus em seu slogan de campanha serviu como mensagem para atrair mais votos neste país em que a crença cristã é maioria, mas não única, daqui em diante queremos respeito  ao princípio de uma nação laica, onde a religião, ou sua ausência, é questão de foro íntimo e assunto de alçada exclusiva da família, não sendo, portanto, seara de intromissão do Estado. Do mesmo modo e na mesma intensidade, queremos a escola pública longe de qualquer ideologia, seja política, de cor ou de gênero. A escola, em especial a do ensino fundamental, é o espaço, por definição, reservado para, em apoio à família,  ajudar a criança  a se tonar um adulto capaz de fazer suas próprias escolhas, se responsabilizar por elas, e conduzir-se ao longo da vida. Uma ideologia, qualquer que seja, quando tomada como verdade universal e imposta pelo Estado, é mãe da intolerância e madrasta da escravização das mentes dos cidadãos. Ideologias devem ser tratadas unicamente nos seus espaços próprios e exclusivos, cuja entrada é livre aos que, na maioridade, lhes sejam simpáticos, adeptos ou apenas curiosos.


Queremos o  fim do "nós e eles". Somos todos cidadãos brasileiros. Vivemos sob as mesmas leis, sob mesmos sistemas político, econômico e jurídico. Queremos cotas somente como investimento naqueles indivíduos que as fizerem por merecer. Queremos que os de mentes mais capazes, expatriados  involuntários, voltem a trabalhar aqui contribuindo  para nosso desenvolvimento. E se não queremos um governo militar, também não queremos, por imposição, uma escola pública obrigada a impor a alunos e professores padrões de comportamento militar ou, mesmo que  levemente, subordinada à hierarquia da caserna. Do mesmo modo que qualquer instituição (inclusive o Exército) tem o direito de apresentar seu modelo de ensino, cada família tem que ter, como inalienável, seu direito de escolher aquela que entender ser o melhor para a educação de seus filhos. A prioridade, portanto, não está em impor um modelo de ensino, mas de garantir escola para todos, com professores qualificados, ensino em horário integral, instalações de qualidade e acesso às novas tecnologias que conectem os estudantes ao mundo dinâmico em que vivemos. Se o direito às escolhas for suprimido em qualquer medida ou questão por um governo, proclamar defender a liberdade  se torna pura hipocrisia de um fascismo tentando se disfarçar de democracia.


Por fim, presidente, queremos reforçar nosso desejo de inclusão de todos num novo Brasil, um país voltado para o progresso de todos. Queremos colocar o país numa nova estrada. Uma estrada asfaltada por princípios liberais e democráticos. E queremos que daqui a 4 anos possamos nos orgulhar da escolha que acabamos de fazer e possamos eleger alguém que dê continuidade à construção desse futuro tão previsto, tão imaginado, mas que nunca chega. Zelar por isto, mais que um compromisso, será seu maior legado na presidência da República. 


Como mensagem final, repito palavras proferidas pela Ministra Carmem Lúcia em recente decisão.

Fonte EBC:  “(...) toda forma de autoritarismo é iníqua. Pior quando parte do Estado. Por isso, os atos que não se compatibilizem com os princípios democráticos e não garantam, antes restrinjam o direito de livremente expressar pensamentos e divulgar ideias são insubsistentes juridicamente por conterem vício de inconstitucionalidade.”

Fonte G1: "O processo eleitoral, no Estado democrático, fundamenta-se nos princípios da liberdade de manifestação do pensamento, da liberdade de informação e de ensino e aprendizagem, da liberdade de escolhas políticas, em perfeita compatibilidade com elas se tendo o princípio, também constitucionalmente adotado, da autonomia universitária."

Fonte O Antagonista: “Sem liberdade de manifestação, a escolha é inexistente. O que é para ser opção, transforma-se em simulacro de alternativa. O processo eleitoral transforma-se em enquadramento eleitoral, próprio das ditaduras”, escreveu a ministra."



Paulo Vogel