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sexta-feira, maio 03, 2019

A CONSCIÊNCIA DOS EXCLUÍDOS - CQD

Jeremy Harding
Depois de ter publicado quatro postagens sobre a consciência dos excluídos, onde apresento minhas conclusões sobre a atualidade das revoltas no mundo ocidental, recebo a revista Piauí de abril/19, e encontro o artigo "Os manifestantes estão em pânico - O que querem os coletes amarelos?", de Jeremy Harding, jornalista inglês, que analisa o movimento francês "coletes amarelos" iniciado em novembro de 2018 (*).

Sou apenas um sujeito com uma antena ligada nos acontecimentos à minha volta, seja no espaço real, midiático ou virtual, procurando encontrar as motivações por trás do que acontece. Minhas quatro postagens procuraram apresentar a tese de que na base das revoltas atuais em andamento estão: 1) a frustração dos cidadãos  com o rumo de suas vidas; e 2) a nova era digitrônica, que os faz ter a consciência, zap-a-zap, de que tal realidade é uma condição inevitável do mundo atual. "Abaixo os privilégios", bradaram os manifestantes como slogan antirriqueza. Nada mais que a consciência dos privilégios "dos outros" como argumento.

Que satisfação, portanto, foi encontrar na excelente matéria de Jeremy Harding, os relatos de fatos coincidentes com minha linha de raciocínio. Ressalto nesta postagem o que considerei mais relevante neste caso.

Temos a tendência de achar que o que está acontecendo nas cidades brasileiras, só está acontecendo... no Brasil. Mas veja o que Jeremy conta: "Bordeaux é um modelo típico das impecáveis 'metrópoles' francesas, absolutamente limpas e organizadas, cercadas por uma periferia empobrecida". Fala de Bordeaux, mas podia ser São Paulo, Rio de Janeiro, Recife... Mais adiante ele vai acrescentar que "a cidade de Bordeaux é o bastião que eles estão cercando, sitiando simbolicamente, na esperança de serem reconhecidos". Como é mesmo que você anda se sentindo em sua cidade?

Como observamos entre nós, tais movimentos de revolta não têm liderança, são organizadamente desorganizados, e entre os seus participantes existem muito mais divergências do que convergências, apenas há um implícito e frágil elo que os une por um tempo cujo fim é incerto. Deixo a seguir alguns trechos que se referem a este aspecto do movimento. 

"Os coletes amarelos são cidadãos plenamente inseridos no século XXI, negligenciados e deixados de lado pela globalização. (...) Eles se mobilizam e tomam decisões de última hora, sobretudo pelo Facebook."

"As manifestações são produzidas e concebidas à medida que se desenrolam."

"Em poucos dias, um movimento sem liderança, mas com um punhado de figuras com projeção nas mídias sociais, tornou-se uma revolta sem líder contra o presidente, o governo, os altos impostos e os baixos salários."

"A ausência de liderança e a horizontalidade eram inegociáveis: um colete amarelo carismático como Éric Drouet poderia vir a público e arrebanhar as tropas, mas nem ele nem ninguém podia falar diretamente com o governo em nome de qualquer outro manifestante."

Jeremy também busca entender os integrantes e pergunta: "Quem eram os coletes amarelos?".

"A resposta é que eram residentes de pequenas e médias cidades degradadas na zona rural, onde o trabalho, as habilidades, as tradições, o comércio pujante e o financiamento público haviam evaporado.(...) Poucos deles estão desempregados. Foram na verdade pessoas em empregos mal remunerados, com contratos precários, pensionistas exasperados e pequenos empreendedores (...)."

Christophe Guilluy
Ele adiciona o que Christophe Guilluy, geográfo, salienta como extrato de suas pesquisas: "o crescente fosso entre as grandes metrópoles e a 'periferia', 'a terra esquecida das pequenas e médias cidades e áreas rurais, lar da maioria da classe trabalhadora'. E mais. "Guilluy tinha visto a raiva se acumulando e previu o choque que traria para o sistema político, mesmo que a rigor ela estivesse muito longe de ser capaz de 'derrubá-lo'."

A matéria também aborda a reação do governo francês. Um grande debate nacional, conhecido como "Cahiers de doléances" [cadernos de queixas] foi proposto por Macron. "O governo abriu uma plataforma online por meio da qual era possível propor reuniões públicas."

Macron
"As reuniões parecem ter sido um estrondoso sucesso. (...) No início de março, 10 mil haviam ocorrido ou estavam agendados. Alguns [encontros] são menores do que se imagina, outros são grandes atos políticos, com a presença de celebridades locais e de parlamentares do partido de Macron."

Jeremy participou de uma dessas reuniões. Ele conta que "cada um de nós recebeu dois cartões coloridos, um vermelho e um verde". "Assim que os cidadãos começavam a falar, devíamos levantar o cartão verde se fôssemos a favor do que estava sendo dito, e o vermelho caso contrário (...)."

[Um cidadão] se referiu ao presidente simplesmente como 'Macron' sem tratá-lo com a devida cortesia e polidez (...) e era favorável à energia nuclear. (...) Cartões vermelhos se agitaram, com desalento. 

Como "governo" é algo imaterial, intocável, não-palpável, para descontar a raiva pelo "fosso" entre os andares do prédio socio-econômico, parte-se para o ataque aos diferentes, e é aqui que surgem as agressões contra os outros, outros que estão entre os próprios.

"O antissemitismo se tornou o principal tipo de manifestação racista, mas não é o único: uma mulher muçulmana foi obrigada a tirar seu hijab num bloqueio de estrada, uma deputada negra foi descrita nas mídias sociais como 'uma crioula gorda macronista, recém-chegada da África'; sentimentos arabofóbicos´ou anti-islâmicos afloram nas mídias sociais."

"(...) o movimento continua sendo uma reunião espontânea de cidadãos enraivecidos que vivem na pobreza e em precárias condições de trabalho."

"(...) muitos coletes amarelos condenaram, eles próprios, de maneira feroz, as manifestações racistas em suas fileiras."

Etienne Balibar
O autor do artigo, cita Etienne Balibar, filósofo francês: "aqueles no topo já não podem mais governar como antes, e aqueles na ponta de baixo não querem mais ser governados como antes".

Próximo ao fim de seu relato, Jeremy lembra que na Europa não há código de conduta que proteja as minorias "contra os intermináveis insultos a que são submetidos por notícias de salários lunáticos e bonificações de banqueiros". "Eles se sentem párias marginalizados e, embora sejam uma imensa multidão, se veem como um novo tipo de minoria, desprovida de instrumentos para se defender da discriminação econômica."

E finaliza: "(...) a raiva e a frustração que hoje se constatam na França muitas vezes dão a impressão de serem uma espécie de pânico do futuro sublimado - sejam lá quais forem os incômodos do presente".

Nos meus tempos de ginásio, nas aulas de matemática, o professor encerrava a demonstração de suas fórmulas escrevendo na "lousa": 
Como Queríamos Demonstrar

Bom final de semana que hoje é sexta!

(*) Para melhor entendimento, leia a íntegra do artigo.

quarta-feira, setembro 20, 2017

QUANTOS FICARÃO DE FORA?

Um evento em San Francisco, USA, o "Singularity University Global Summit 2017", aconteceu de 13 a 15 de agosto/17.  O evento tratou sobre o futuro dos negócios, da tecnologia e da humanidade. Um resumo me chegou por emeio. Ei-lo.

Resumo do primeiro dia em 10 itens: 


1. Foram pouco mais de 
1.300 participantes de 64 países. 70% não americanos. 

2. Em 2030, mil dólares vão comprar poder computacional equivalente ao cérebro humano. Em 2050, mil dólares vão comprar poder computacional equivalente a todos os cérebros humanos juntos.

3. Em 2017 serão 3 Bi de pessoas conectadas à internet. Entre 2022 e 2025 será o mundo inteiro. 


4. As próximas duas décadas serão diferentes de qualquer coisa que vivemos nos últimos cem anos.

5. Podemos prever empregos que serão absorvidos pela tecnologia. Mas não podemos prever quais empregos vão surgir a partir da tecnologia. A dificuldade é a velocidade com que isso está acontecendo.

6. 130 milhões de pessoas no mundo estão satisfeitas com o seu trabalho. Parece muito, mas em termos mundiais é nada.

7. Veículos elétricos têm 90% menos partes móveis do que veículos tradicionais.

8. Na China todos os taxis serão elétricos até 2020.

9. O custo de um carro elétrico vai reduzir drasticamente nos próximos 5 anos. Razões: demanda e abundância.
10. Esqueçam os wearables. Estamos entrando na era dos insideables.


Resumo do segundo dia em 10 itens: 
1. A vida humana é um problema de engenharia de software


2. As ferramentas do nosso tempo: big data e machine learning.


3. 3 bilhões de pessoas vivem com menos de 2,5 dólares por dia. E 80% da humanidade vive com menos de 10 dólares

4. 90% das enfermeiras que usam Watson da IBM seguem as recomendações do Watson.


5. Automação e inteligência artificial criarão empregos. Posso tornar qualquer coisa inteligente usando inteligência artificial e ganhar dinheiro com isso. Estados Unidos é o país mais automatizado do mundo e não perdeu emprego com isso.

6. No futuro teremos muito mais máquinas do que humanos.

7. Ensinamos da mesma forma há cem anos. Sistema educacional é resistente a uma mudança disruptiva. Que tal just in time education?

8. Nossas premissas sobre o mundo podem limitar nosso pensamento. E isso faz toda a diferença.

9. Organizações não mudam até que todas as pessoas mudem.

10. Líderes exponenciais não tentam mudar o mundo. Eles tentam mudar a si mesmo.


Resumo do terceiro e último dia em 20 itens. 


1. Em 2020, 85% das interações com clientes será através de máquinas. E essa será uma das formas de se diferenciar dos concorrentes.

2. 75% dos millennials consideram a comunicação através de mensagens de texto uma opção de relacionamento com o cliente e tem duas vezes mais chance de se manter fiéis à empresas que oferecerem essa forma de comunicação com eles.

3. 30% dos millennials não possuem o ícone do telefone na tela principal dos seus smartphones.


4. Empresas hoje já produzem carne de frango e gado sem matar nenhum animal. A partir da célula animal.

5. 20% de todas as buscas em dispositivos móveis já são feitas por voz.

6. Veículos e objetos autônomos vão mudar as cidades profundamente.

7. Criatividade, empatia e coragem são as habilidades do futuro.

8. As instituições de ensino que existem hoje, em sua maioria, foram criadas com pressupostos de 60 anos atrás. O ensino médio é a chave para mudar todo o sistema educacional.

9. O principal problema da educação é cultural. Há cem anos é igual. Muitos falam de customizar ensino para crianças, mas a chave é customizar ensino também para os professores. Um a um. Até a mudança ocorrer.

10. O futuro da educação é learning by doing.

11. Vamos mudar a lógica de "vender carros" para "vender serviços de mobilidade".

12. O mundo hoje está fazendo a transição da era industrial para a digital da mesma forma que anos atrás fazia da era agrícola para a industrial. Mas MUITO mais rápido.

13. Existem 2.6 bilhões de smartphones no mundo. E 9 vezes mais dados somente nos últimos DOIS anos.

14. As pessoas vão aprender dentro de uma lógica de "nano-learning", e não de um longo investimento em educação para usar somente um percentual mínimo daquilo que se aprende. Todos terão um portfólio de trabalho, que será nano-desenvolvido. 

Estes serão considerados empregados "commodities". Os que realmente terão valor, serão aqueles de ampla formação. This is my humble opinion!

15. Os maiores problemas do mundo são também as maiores oportunidades de negócio.

16. Robôs serão considerados uma opção de força de trabalho assim como hoje consideramos funcionários, terceirizados, freelances e a crowd. Simples assim.

17. Ser exponencial é atualizar e se atualizar de tudo constantemente.

18. O Vale do Silício tem uma palavra para descrever fracasso. Se chama experiência.

19. Hoje existe abundância de capital, conhecimento, habilidades e tecnologia. Não há desculpa para não fazer as coisas. Não há limites. A única limitação é a nossa convicção e comprometimento de simplesmente ir e fazer.

20. Em poucos anos todos trabalharão para aprender, ao invés de aprender para trabalhar.

[Quem viver, verá!]