quarta-feira, fevereiro 21, 2018

OTÁRIO DA SILVA E A INTERVENÇÃO NO RIO

Eremildo, personagem criado pelo jornalista Elio Gaspari, é um idiota. Ele não entende as coisas da política. Mas está no dicionário que idiota é aquele que "carece de inteligência". Eu não acho que careço de inteligência. Nem acho que meus amigos ou o "povo" brasileiro careçam de inteligência. Lula não estudou, não gosta de ler, mas é voz corrente que "Lula não é idiota, é muto inteligente!" Então tá.

Posto que não somos idiotas, se impõe nos vermos em outra categoria a considerar o que o grande conglomerado Oligarquia & Mídias Tradicionais nos apresentam diariamente. É aí que eu me sinto um Otário da Silva. Ou, mais apropriadamente, um Otário Von Vogel. Nunca me dizem a verdade. Tudo o que ouço é carregado de hipocrisia. É um volume incalculável de "me engana que eu gosto". Mas eu não gosto!

Vejamos esta intervenção militar na área de segurança do Estado do Rio de Janeiro. Nos poucos noticiários a que dei atenção, só ouvi de tudo sobre combater consequências. Sobre eliminar causas, nada. Todos, igualmente, ignoram o passado. Ninguém estudou história, nem ao menos consultaram as decisões de passados mais recentes como vou procurar mostrar mais à frente.

Começo pela fala do General Augusto Heleno, general da reserva, primeiro comandante da força militar da ONU no Haiti, na entrevista à Rádio BandNews (também participou do programa Painel, da GloboNews, em 17/2/18). Acredita ele que haverá uma "intensificação do trabalho de inteligência nas operações pontuais em cima de alvos compensadores (...). Eu acredito (...) que a regra de engajamento seja modificada. Nós tínhamos no Haiti regras (...) que permitiam (...) [que o sujeito] que fosse o (...) fosse o ator de um ato ou intenção hostil, (...) o Comandante (...) e até o nível de sargento, tinham poder para  (...) agir chegando inclusive à letalidade, podia matar o indivíduo". 

E mais à frente.

"Estou raciocinando com (...) Ações onde haja muito pouca troca de disparos. Onde os disparos aconteçam de um lado só e a morte aconteça do outro lado. Eu vou ter mortos sim, mas vou ter morto do lado certo."

O General, respaldado por uma vivência focada na guerra, ou seja, em estratégia para que soldados "do lado certo" matem soldados "do lado errado" (e vice-versa) crê resolver a questão.

No campo de batalha, estaria certíssimo. Mas, o General, como tal, só consegue interpretar como uma guerra aquilo que é consequente de um caos social. Não é uma guerra. Se queremos usar metáforas, a que mais se presta ao Brasil é um faroeste tupiniquim de mocinhos (o lado certo) contra bandidos (o lado errado) - aí sim é possível pensar em disparos certeiros onde a morte aconteça apenas do outro lado. Sendo o mocinho ou o bandido aquele que sai morto, no dia seguinte tem um novo no seu lugar. Guerras terminam com um general, seja ele do lado certo ou do errado, levantando a bandeira branca em sinal de redenção.

O que o General, a mídia e a oligarquia dirigente corrompida, e políticos atrás de voto,  ignoram, é que dar segurança para uma cidade, estado ou país, não tem um fim com a morte dos soldados "do outro lado" seguida de um acordo celebrando o fim da guerra onde constam cláusulas de alguma compensação que será paga pelos cidadãos sobreviventes, outras que protegem o destino dos Generais derrotados e outras a glória dos vencedores. Mas o fato principal é: ao eliminar os cabeças, os soldados sobreviventes voltam em paz para suas famílias.

Como tem como objetivo apenas matar os soldados "do lado errado", é preciso que tenha um prazo para que a tarefa seja executada e possam ser extraídos índices de sucesso. Ou insucesso. Saberemos em 1 de janeiro de 2019. Neste dia seguinte, as tropas voltarão para seus quartéis de origem, deixando como resultado um número estatístico de pobres, pretos-mulatos-brancos, mortos nas vielas das "comunidades". Jovens sem pátria, sem direitos, e profundamente frustrados com a consciência de que o único futuro que lhes é permitido é o presente tomado na marra, na porrada, no arrastão, e do orgulho de por uns poucos dias ou meses foram poderosos portando uma arma de alto poder letal. Ao final da intervenção, o crime organizado mais organizado estará, com certeza. Os "generais" dos comandos das facções, estarão repondo soldados e articulando novas ações. Ao final e como sempre no passado e no futuro, sobrarão mães destroçadas com a perda de forma brutal, violenta, de seus filhos.

Esta intervenção não acabará com o fim do conflito. O General Heleno fala em usar "trabalho de inteligência" para atingir "alvos compensadores". Eu e o General devemos  ter visões diferentes sobre o que sejam tais alvos. De minha parte, penso que seriam os chefões de facções criminosas, as portas de entrada do tráfico de armas e drogas, a expulsão de agentes corrompidos no seio das instituições ligadas à segurança e a identificação de advogados e políticos que acobertam, garantem. por ação própria, ou por ação legislativa, ou por ação executiva, ou por ação judicial, a manutenção de tudo como está. Da parte do General... não tenho ideia do que ele quis dizer.

A diferença entre o ontem, sem intervenção e sem Generais, e o hoje, será só uma questão de quantidade de mortos a se acreditar na eficiência que todos na hierarquia desta "solução", esperam.

O dia seguinte será então igual ao ontem. Escalada de violência sem a presença do Exército. Marcolas e irmãos em armas e celas, comandando como sempre todo um submundo de fuzis e drogas. Políticos limitados pelos recursos orçamentários, ou reféns do medo, ou da ameaça à própria vida, ou do dinheiro das organizações criminosas, ou de um mix de tudo isto. Polícias despreparadas, desequipadas, mal-remuneradas e frustradas pelo sentimento de estarem sempre "enxugando gelo", atrás do prejuízo, revoltadas com os alvarás de soltura expedidos por juízes defensores dos direitos dos "mais humanos" que nós simples otários humanos. E vamos continuar com uma Constituição que construiu um arcabouço de proteção aos pobres cidadãos encarcerados, dando-lhes salário reclusão para a família do assassino, e uma "banana" para a família destroçada pela perda de um filho, de um irmão, de um pai. Será que o Estado arcou com as despesas do funeral?


Ora, direis, o que então estás a dizer, ô pá!

Aguardem o próximo capítulo, digo, post.

Ass: Otário Von Vogel



sábado, janeiro 13, 2018

A DISRUPTIVA DIGITRÔNICA

Deste início e até o fim, uso o termo disruptivo para sintetizar um processo novo que não resulta de um aprimoramento dos até então existentes, mas que é tão radicalmente novo que só novos e ousados agentes são capazes de implementá-los resultando em novos modelos  de processos drasticamente diversos do então em vigor.
E com digitrônico, sintetizo a união da tecnologia digital-binária que tem origem na primeira metade do século XX, somada às tecnologias de hardware de comunicação, via fibras óticas e satélites dos anos 60 e 70, que viabilizaram a comunicação mundial instantânea e, por consequência, o desenvolvimento de equipamentos eletrônicos e aplicativos sofisticados mas simplificados para uso do cidadão comum. Tudo isto tendo como camada invisível ao usuário, potentes linguagens de programação, até sofisticadíssimos bancos de dados distribuídos na nuvem e que detém recursos de armazenamento e recuperação de dados que nos surpreendem a cada clique.

Tenho ouvido analistas respeitados comparando a revolução tecnológica que vivemos, a digitrônica, à revolução industrial iniciada na segunda metade do século XVIII. Alegam que as principais questões são as mesmas: impacto no modo de produção, nos padrões de consumo e numa tensão sobre uma possível redução no nível de emprego que nunca ocorreu. A diferença que aponto, reside no fato de a revolução industrial ter sido consequência da evolução de escala buscada por aqueles que produziam produtos manufaturados. A energia produzida pelo vapor impulsionando o movimento, não trouxe um novo mercado destruindo um outro. Instalações produtoras não deixaram de existir. Elas adaptaram seus processos produtivos adotando a nova forma de gerar energia mecânica, isto quando muitas delas foram descobridoras de novas tecnologias. A consequência foi produzir mais no mesmo espaço de tempo e mais barato. Se alguém foi afetado, foi aquele industrial que não adotou, ou adotou tardiamente, o novo, pois o objetivo central era e ainda é "como eu produzo o mesmo mais e melhor que meu concorrente". 

A revolução digitrônica é de outra natureza. Ela é disruptiva porque rompe com o existente apresentando algo que não é fruto da evolução competitiva como na revolução industrial. É disruptiva pois ao se instalar interrompe (ou reduz) o tamanho da participação de uma solução existente, porque introduz uma solução alternativa tecnologicamente nova. Ela é disruptiva porque não nasce de dentro de quem está ganhando (vide grandes marcas mundiais que viraram lixo, ou quase, num piscar de anos). Ela é criada, alimentada, incrementada, por gente de fora, os chamados "outsiders". 

Timothy John Berners-Lee, hoje detentor do título honorífico de Sir, aos 34 anos, trabalhando no CERN (maior laboratório de pesquisas nucleares) na Suiça, propôs um projeto de hipertexto (HTML) para "facilitar a partilha e atualização de informações entre os pesquisadores", só isso. Como quase tudo na vida, um projeto egoísta para resolver problemas do próprio umbigo. Poucos anos mais tarde, aplicando princípios de sua linguagem à tecnologia de comunicação via internet, permitiu que em 25 de dezembro de 1990, Tim e seus companheiros de projeto fizessem a primeira interação entre um "cliente" HTTP e um servidor. Ele não sabia a revolução disruptiva que estava iniciando. 

Martin Cooper, um engenheiro da Motorola, soube que os policiais de Chicago reclamavam pela perda de tempo em ter que se deslocar até a viatura para poder usar o rádio e se comunicar com outros policiais ou com a central de polícia. Inspirado no seriado Jornada nas Estrelas, Martin rapidamente entregou uma solução em duas unidades: uma que ficava no veículo e outra que ficava com o policial. Mas foi só em 3 de abril de 1973 que a Motorola apresentou o primeiro celular como alternativa de comunicação interpessoal, e só em 1983 entrou em funcionamento nos Estados Unidos a primeira rede de telefonia celular. Apenas uma revolução na comunicação, mas que permitiu a disrupção que viria 30 anos mais tarde.


Nem Tim, nem Martin, podiam imaginar que no futuro existiria uma AMAZON e um GOOGLE, nem o que 5 estudantes de Harvard (um deles brasileiro) iriam criar em 2004, porque desejavam resolver um problema: algo que permitisse aos alunos (a eles principalmente) escolher entre duas garotas qual seria a que convidariam para um encontro. O resto é história, como costumamos dizer. Mark Zuckerberg assumiu o controle do FACEBOOK, despachou seus parceiros para longe, se tornou um dos caras mais ricos do mundo, e fez seu negócio egoísta gerar uma fortuna colocando pequenos anúncios ao lado de cada uma das bilhões de "curtidas" que damos todos os dias.

Até aqui só conceituei a disrupção digitrônica e apontei alguns fatos que a originaram. É óbvio que existiram outros, muitos outros, protagonizados pela determinação de Bill Gates em transformar o computador em objeto pessoal, por Steve Jobs com sua doentia mania de perfeição e design, por Marc Andreessen ao fazer o primeiro navegador, pelo mouse criado no laboratório PARC da Xerox, pelo SQL da IBM, pela estrutura de banco de dados relacional de Larry Ellison, pelos chips cada vez mais velozes da INTEL etc. Mas estes 3 que escolhi estão na base da digitrônica, pois suas ideias tornadas em produtos de massa são as que hoje fazem a disrupção.

Tim Berners-Lee rompeu com a forma de produzir e distribuir informação por texto e imagem, eliminando a necessidade de todos os processos para transportá-las de um ponto ao outro do globo terrestre. Mais que isso, tornou tal traslado, simplesmente imediato. Isto criou dois problemas: volume de informações a armazenar e necessidade de algoritmos de recuperação. Inicialmente a armazenagem era um problema do usuário, mas a pesquisa e recuperação era um problema que exigia soluções tecnológicas sofisticadas.

Então apareceu o Google com seu modelo de atrair uma montanha de capital para aplicar no desenvolvimento de um buscador "killer", matador, como dizem os americanos, que realmente primeiro matou o AltaVista (o primeiro buscador) e depois (2013), o Yahoo! Hoje, com seus algorítimos de pesquisa que eu e, tenho certeza, todo mundo pensa que só pode ser coisa do "Sobrenatural de Almeida", pois é onisciente, a tudo me respondendo em microssegundos. A disrupção do Google alcança praticamente todas as atividades humanas. Ao "saber de tudo", responder a tudo, elimina a intervenção ou participação de profissionais de várias áreas do conhecimento. Já vou ao escritório do advogado, sabendo que leis devem ser consideradas no meu litígio e quais são minhas chances, e, portanto, só quero seus serviços na montagem da estratégia. Vou ao médico levando meu diagnóstico sobre meu imaginado mal. Se leio ou ouço qualquer notícia ou simples informação sobre a qual tenho cá minhas dúvidas quanto à veracidade, apenas digito na barra de pesquisa algumas palavras e de imediato posso chegar à minha conclusão extraindo-a das tantas fontes que me são oferecidas, que aprofundam, resolvem ou certificam minhas dúvidas.

Enquanto o Google é onisciente, o FACEBOOK se tornou onipresente na humanidade, mesmo que ainda nem todos os humanos tenham sua página no aplicativo. Há muitos que crêem que não há mais vida sem FB. Exageros fora, as redes sociais são a nova ágora, a praça de Atenas onde os gregos debatiam seus assuntos mais relevantes, especialmente política. Publicar é preciso, diria Fernando Pessoa se vivo fosse. Insultar deixou de ser um comportamento grosseiro para se transformar apenas em... uma manifestação xenófoba, racista, homofóbica e além. Opinamos sobre tudo o que não temos a menor competência para opinar. Nossa credulidade nunca esteve tão à flor da pele.Pelo Whatsapp ou FB, redistribuímos prováveis mentiras como certeiras verdades. Protegidos pelo anonimato ou por perfis falsos, ofendemos uns aos outros e nos tornamos militantes radicais de causas patrocinadas por interesses escusos que não somos capazes de perceber a tempo. 

E o smartphone, o celular-computador, ou computador-celular, completa a trilogia de qualidades do ser supremo de nele tudo poder ser feito, o seu caráter onipotente. Com um celular podemos tudo.  A possibilidade de ser usado como telefone, é um detalhe menor. Com milhares de aplicativos que posso baixar gratuitamente ou por 1,99 (não importa a moeda), posso ter e ler um livro da biblioteca mundial; posso saber a que altitude estou; a previsão do tempo; cronometrar meu trajeto; aprender sobre as estrelas, planetas e constelações; chego aos lugares que nunca fui guiado pelo Waze; me oriento pela bússola; passo meu tempo com meus jogos preferidos; gravo minhas conversas, fotografo e filmo tudo o que me interessa; compro pelas "stores" disponíveis; reservo meu "ticket" para o teatro e minha hospedagem em meu próximo destino (claro, compro a passagem); revejo programas da TV; voto nas pesquisas mais estapafúrdias; "me sinto" o repórter enviando um vídeo para a rádio ou estação de TV denunciando um assalto ou simplesmente informando sobre o trânsito. Ah! Faço, ou tento, restabelecer minha conexão de banda larga clicando no aplicativo da operadora!!! Não posso nem mais "pular a cerca", minha mulher sabe sempre as coordenadas de onde estou!!!

Digitrônica: onipresença, onipotência e onisciência. Está feita a disrupção. Agora precisamos estimar, imaginar, como a sociedade, como o mundo, como a vida, irão funcionar. Que novas regras, padrões, normas, passam a vigorar. Que implicações existirão sobre a ética, sobre a moralidade, sobre a importância da virtude nas ações do homem como desejava Aristóteles, sobre o papel da vontade de potência como agente de mudanças na proposta de Nietzsche, e como se conduzirá o debate das ideias contrárias? Como desejada por Platão em sua dialética (um debate comprometido com a busca da verdade) ou um embate sangrento entre verdades opostas até que uma subjugue e escravize a outra?

Por hoje, é só. Quando voltar, vou me arriscar a explorar o que a disrupção digitrônica já mudou ou pode vir a mudar no cotidiano da vida, nas interrelações, na política, no país e no mundo.

segunda-feira, dezembro 18, 2017

REFORMA DA PREVIDÊNCIA - DEBATE ERRADO

O debate em torno da reforma da previdência está muitíssimo equivocado. Não descarto o óbvio, o fato de que temos que instituir uma idade mínima para a aposentadoria compatível com o aumento da expectativa de vida. Esta mudança é inadiável pois atrasada em mais de duas décadas. Não há mais como sustentar indivíduos aposentando aos 55 anos com uma perspectiva de vida de mais 30 anos! 

O absurdo é a diferença entre o perfil de remuneração de trabalhadores do setor público e do setor privado. Ressalto que não tenho nada contra servidores públicos. São trabalhadores como todos nós. Eu só não concordo com a visão de seres especiais que assumem por estarem nesta condição profissional. Podem reparar que eles valorizam o fato de que são "servidores do público", "servidores do cidadão", se vêem como cumprindo uma "missão divina", o que os coloca num patamar acima de nós mortais (lembrete: é considerado crime qualquer desacato ou ofensa a um servidor público!). Esquecem que "servir" é inerente a uma infinidade de atividades do setor privado: motoristas do serviço de transporte público, taxistas, enfermeiras, médicos, advogados, garçons, frentistas, vendedores de todos os tipos de comércio, etc. Mas "eles" são "superiores" e, portanto, merecem receber muito mais do que aqueles que fazem parte da massa dos ignóbeis! Esta visão autocentrada não é culpa do contingente dos servidores. Ela vem como consequência da visão dos políticos de que se os servidores não forem adequadamente valorizados não terão estímulo para "servirem" com competência. Ora, mas servir só pode ter um grau de qualidade: servir bem. Servir mal, não é servir, é apenas um contrassenso. 

Vamos a alguns dados. Em termos médios gerais, o servidor público ganha, em média, cerca de 70% mais que o funcionário do setor privado! Alguém tem uma justificativa razoável para isso? Ok, considere que seja só 50%. Ou 25%. A minha questão é: em qualquer equação econômica, de qualquer viés de doutrina, aqui ou na Conchinchina, o risco tem um prêmio pelo sucesso, enquanto a ausência de risco (p.ex. a poupança), tem um deságio no ganho pela garantia/segurança de recebimento. Não fosse assim, não haveria quem se dispusesse a correr riscos pois não haveria prêmio. Muito bem. O sistema brasileiro (não conheço o de outros países) oferece aos seus servidores públicos privilégios que nenhum trabalhador do setor privado tem direito. Exemplos? Estabilidade (impossibilidade de ser demitido); bônus de desempenho para servidor aposentado!; Auxílio pré-escola e alimentação até para servidores que ganham R$ 30 mil; licença prêmio: a cada 5 anos o servidor tem direito a 3 meses de férias remuneradas; licença não remunerada, também por 3 meses, para tratar de assuntos particulares: não recebe, mas tem seu lugar garantido ao voltar; e mais, muito mais. Ora, tal nível de estabilidade deveria, logicamente, levar a salários mais baixos no serviço público quando comparado ao mesmo nível funcional no setor privado. Isto seria o lógico!

O resultado desse sistema é que enquanto o benefício médio do INSS é de R$ 1.862,00 (máximo em torno de R$ 5 mil), o aposentado do congresso, como exemplo, ganha, em média R$ 28.527,00. O sistema está mudando, mas ainda pode-se considerar que a maioria dos servidores se aposenta passando a receber... o salário de quando na ativa!

É estupidamente flagrante que nenhuma solução para o país poderá ignorar esse quadro, pois as consequências sobre a previdência são diretas e monumentais em termos de recursos.

Mas... os servidores públicos brasileiros acham que ganham muito pouco e vêm sendo muito prejudicados. Por conta disso pressionaram Temer a lhes conceder reajustes que nos imporão (nós, que pagamos a conta) R$ 64 bilhões entre 2016 e 2019. E além, com certeza.

Mas querem os nossos políticos - borrados de medo do que pode advir do monstrengo da máquina pública, se contrariada, criada por seus antecessores -  que os idiotas brasileiros que burramente não se aboletaram no serviço público aceitem as propostas apresentadas nesta estrunchada reforma da previdência.

Não vejo luz no fim deste túnel!




segunda-feira, novembro 13, 2017

DESASTRE ANUNCIADO

Em uma página deste blog dedicada exclusivamente à CONCER, escrevi em 2013 o seguinte:

É absolutamente impossível que com 900 milhões de reais se consiga fazer a obra como anunciada neste vídeo. Para concordar comigo, compare esta obra com qualquer estádio da copa: o Mané Garrincha foi orçado em 1 bilhão e não tem um túnel de 4,6 km de extensão a ser escavado na rocha!!!!!

Na terça-feira, 7/11/17, por volta de 11 horas da manhã, se efetivou o desastre anunciado (imagem ao final desta postagem): o afundamento do terreno à margem da estrada onde residiam 55 famílias (hoje 153 desabrigados e 73 alunos sem aula).

Esta obra é uma salada indigesta de incompetência, corrupção, negligência, arrogância, leniência, desprezo, desfaçatez, roubalheira, imobilidade da justiça, dos Ministérios Públicos, da Prefeitura de Petrópolis, (ignoremos o governo-morto do Estado) e, principalmente, sobrepujança de poder da CONCER sobre o poder do Estado (ninguém consegue obrigá-la nem mesmo a cumprir o contrato que assinou).

Ou há outra explicação para que até hoje não tenha sido decretado o bloqueio diário das receitas de pedágio da concessionária. Para tal, nem mesmo é preciso alegar a interrupção das obras, basta, simplesmente, alegar o total descumprimento do contrato de concessão do direito de exploração, haja vista, que todo o trecho de subida e descida entre a baixada e a rodoviária da cidade, se encontra em péssimo estado, pois não há manutenção há muito.

Não sou eu quem o diz. Em 14/9/17, "o Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação judicial pedindo o fim do contrato de concessão da Concer, (...) e a suspensão imediata da tarifa de pedágio", com base na "paralisação das obras da nova pista de subida da Serra (...)".

E esta é "a quarta ação movida pelo MPF contra a concessionária".

E a ANTT o que tem a dizer? Aí vai:

"De acordo com a Procuradora da República , Joana Barreto, a ANTT comunicou, de forma não oficial, que haverá um reajuste imediato de 4% na tarifa de pedágio e que a publicação em Diário Oficial pode ocorrer a qualquer momento." 

Ei! Captou! A CONCER está prestes a receber um prêmio de 4% a mais em suas receitas por nos prover com a pior estrada do Brasil administrada pelo regime de concessão.

Mas isso não é de hoje. 

"A concessão, iniciada em 1995, se encerra em 2021. De acordo com o MPF, em mais de 21 anos de concessão, a Concer praticamente não cumpriu com as obrigações previstas no Plano de Exploração da Rodovia."

Mas a CONCER quer mais 10 anos de concessão e nem mesmo é uma pretensão que partiu dela e sim do governo Federal (nos finados de Dilma ou nos intermédios de Temer?) que deseja "manter essas empresas à frente das concessões, por meio de termos aditivos nos quais as empresas assumam compromissos de entregar novas obras".

ATENÇÃO: a frase acima não foi extraída de uma obra de ficção ou de non-sense!!!

Caso a CONCER obtenha uma extensão de prazo de 10 anos (sim, isto ainda é possível, os dirigentes da empresa não perderam a esperança) ela deverá arcar, "com base em relatório da Firjan", com um prejuízo já calculado "de pelo menos R$ 1,5 bilhão devido ao impacto logístico e dos possíveis acidentes, caso as melhorias na rodovia" vierem a ser "concluídas apenas em 2031".

Tem mais. Como sempre, como prática de obras públicas, como técnica para obtenção de superfaturamento e distribuição de propinas, o errado vem desde o nascedouro.

"Para a Justiça, o início das obras foi autorizado com base em um projeto básico de engenharia, o que é proibido por lei. A construção começou sem dotação orçamentária e foi alvo de aditivos que resultaram em prejuízos aos cofres públicos."

Ouvi dizer, não consegui achar nenhuma informação confiável - mas considero absolutamente plausível, lógico, obrigatório -, que a CONCER, não tendo recebido a cota parte que cabia ao governo Federal, tenha suspendido as obras respaldada numa interposição judicial acusando o governo Federal de não cumprimento de sua parte no acordo. Razoável.

Ouvi dizer, também, que a CONCER agora está absolutamente a cavaleiro, e acusando o governo pelo desastre. É coerente.

Mas a CONCER defende valores humanitários, de respeito aos direitos do cidadão, e não foge às suas responsabilidades, nem àquelas que atribui a outrem.

"A Concer, em nota enviada na noite desta sexta, informou que 52 famílias da Comunidade do Contorno afetadas pelo incidente já receberam o auxílio aluguel no valor de R$ 1 mil, além de cestas básicas e kits de higiene pessoal." Batam palmas e um VIVA! a tanta generosidade!!! 

Último ingrediente desta indigesta salada, capto a mensagem da CONCER através de seus advogados que, ainda não admitindo que a causa é desmoronamento causado pela não concretagem do túnel, está apurando as causas, mas que, de qualquer forma, não se responsabiliza pelo incidente.

Dito isto, vamos às projeções.

Um grande jogo de empurra já está se estabelecendo. Além do embate CONCER x GOVERNO FEDERAL e do embate MPF x (CONCER e GOVERNO FEDERAL), vamos assistir a um outro: o embate entre os que sempre foram contra o túnel e as entidades ecológicas e de preservação da nossa fauna e flora, que foram vitoriosos sendo a favor do túnel e contra a duplicação simples da estrada a, digamos, céu aberto (apropriado dizer que a caça virou caçador).

No nível prático, rasteiro, por quem e quando será providenciada uma solução através de um desvio de poucas centenas de metros para restabelecer o tráfego na pista de descida, eliminando o trajeto por dentro dos bairros Duarte da Silveira e Bingen, que, além de aumentar o tempo de trajeto entre 20 minutos e 1 hora, vai causar estragos nas vias da cidade? A CONCER não será porque se diz inocente. O governo Federal não será porque está com os gastos congelados. A Prefeitura de Petrópolis, à míngua, como todas as prefeituras, também não será.

Uma coisa já é certeza: a cidade de Petrópolis já está sendo prejudicada e, principalmente, a região de Itaipava e adjacências onde já é a grande perdedora e pagadora terceirizada desta lambança arquitetada, orquestrada, executada por psicopatas.

Quem assumirá a estrada, e em que condições, daqui a 3 anos? 

Qual sua aposta num prazo para termos esta estrada concluída?

Não dou meu palpite porque não estarei mais por aqui quando isto acontecer. Infelizmente.

FONTES:




quinta-feira, novembro 02, 2017

NASCE UMA NOVA HUMANIDADE

Homo deus, uma breve história do amanhã, de Yuval Noah Harari, israelense, ph.D em história por Oxford, professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, ateu, é uma obra que, apesar de suas 400 páginas, se lê quase que compulsivamente.

O texto, instigante, premonitório, apocalíptico, controverso, tem a fluidez de quem escreve para ser lido por todos e semeado de exemplos, casos e dados.

Nos dias de  hoje, creio que todos nós, os mais velhos, compartilhamos um sentimento de perplexidade quando nos deparamos com as prioridades e valores dos jovens à nossa volta e nos indagamos "para onde esse modelo levará esta geração e as próximas"?

Moralidade, Deus, privacidade, identidade, sociedade, religião, homossexualismo, educação, capitalismo, comunismo, eleições, democracia, internet, redes sociais, isto e mais, são temas tratados por Yuval sem predizer o futuro, apenas sugerindo, questionando, deduzindo possíveis destinos a partir da avaliação de onde estamos.

Neste link "Homo deus", você pode baixar o extrato que fiz da minha leitura. Como tal, é uma coletânea de trechos pinçados por um critério absolutamente pessoal, sem compromisso com coerência ou ligação entre os parágrafos. Para uma construção mais consistente do pensamento sobre as propostas apresentadas, a leitura da íntegra creio ser essencial.

Coragem! Vai mexer com seus neurônios!


Este vídeo da palestra de Yuval no TED, é uma síntese-síntese do livro e lhe dá uma ideia geral dos principais aspectos que ele aborda na obra.

E aqui o experimento de Frans de Waal com duas macacas-capuchinhos, citado por Yuval.